11 de jan de 2009

Uma luta de boxe

O futebol move mundos porque, além da plástica e da técnica, depende da raça, do suor, da luta. Necessita, sobretudo, de heroísmo. Não à toa entraram para a história jogos em que neguinho quase morreu em campo, ou botou a cara na frente do pé do outro pra salvar um gol. Visto assim, como uma batalha, acaba despertando em nós o que temos de mais primitivo, de modo que qualquer refugo, qualquer “pipocada” ou qualquer pé-mole é rechaçado impunemente. O jogador tem por obrigação se matar em campo, o que faz do esporte um esporte viril, rude e, muitas vezes, sangrento.

Há jogos de futebol que são verdadeiras pancadarias travestidas de um esporte que se toca a bola pra cá e pra lá, assim como a capoeira se fingia de dança. Pelé, o maior de todos, o Deus do futebol, quebrou a perna de três ou quatro e dava cotovelada aos montes. No futebol não basta o tico-tico, o joguinho de lado. O jogador tem que botar a cara pra chutarem, tem que se esfacelar, morrer em campo, se preciso for.

Um esporte mais antigo ainda, e muito popular, e tão violento quanto, é o boxe. No boxe, porém, o drible da vaca é um cruzado; o chapéu é um upper no queixo, a caneta é um direto, a chaleira é um gancho e um mero tiro de meta é um jab. O gol, a vitória, é um nocaute.

Num dos grandes festejos da Associação Atlética Anhangüera, no começo da década de 50, houve uma luta de boxe na sede da Rua do Bosque – a única da história -, com ringue profissional, juiz federado e uma luta que fizera, na época, toda a população da região comparecer. O dinheiro arrecadado com as apostas foi o suficiente para a reforma da sede do clube e para a compra de quatro novos fardamentos. Antes da luta haveria a exibição de um menino ali do Peruche chamado Éder Jofre, que diziam ser bom – tal exibição acabou não acontecendo. Depois seria a luta que, desde já, era considerada na área a maior de todos os tempos: Ítalo Batagliolli, o legendário Pé-de-Pato, versus Tirone.

Vários foram os motivos que fizeram da luta um espetáculo aguardado com ansiedade. O primeiro é que o boxe estava em alta; Rocky Marciano, um filho de italianos – assim como a maioria dos moradores da Barra Funda e Bom Retiro -, então campeão do mundo, vivia estampado em notícias de jornais, dava um grande ibope.

Outro fator: o currículo dos lutadores. Pé-de-Pato era um boxeur amador, com um currículo respeitável: trinta lutas, trinta vitórias. Todo mundo conhecia sua técnica fina, seu jogo de pernas estonteante, sua destreza nos jabs e, principalmente, seu braço esquerdo. O direto de canhota era um canhão, um aniquilador de narizes. Tirone, no entanto, já era o afamado Tirone, o maior valente da região, o homem que ceifou sozinho a turma dos Cabeleira, o homem que era briga pra dez.

Terceiro fator: a disposição com que jogavam bola. Eram, os dois, desses jogadores de bater a cabeça na trave, de molhar a camisa, de dar a vida pelo rubro negro. E essa disposição no futebol, sendo transferida para o ringue, é o que faria a luta ser épica.

E o quarto fator, que botou pimenta e justificou o confronto: os dois eram amigos, amigos de infância, mas estavam brigados! Tirone acusara Pé-de-Pato de caloteiro; e Pé-de-Pato estava ofendido em sua honra. E tal desentendimento seria resolvido no ringue. Tudo isso, logicamente, incluindo o dinheiro devido, era simulação deles e da diretoria do clube, para angariar público e receita. A luta seria, na verdade, a maior briga de comadres de todos os tempos, o que certamente causaria chiadeira na assistência.

Chega o dia e a sede ficou tomada. O que ia dar? As apostas rolaram soltas, tudo podia acontecer. Cada um no seu corner, e começa a apresentação menos emocionante e caprichada que já se viu, pelo eterno diretor de patrimônio Durão: “No corner direito, Tirone; no corner esquerdo, Pé-de-Pato”. E começou.

O que se viu, já no primeiro assalto, foi um assalto. Pé-de-Pato dançando seu jogo de pernas, de lá pra cá, enquanto Tirone o cercava. Um jab de vez em quando, um soquinho aqui, outro ali, até o terceiro round. A enganação foi sendo percebida pela platéia e começou a vaia. Junto das vaias, gritos de “safados”, “maricas” e outros adjetivos inglórios mexeram com a veia agressiva do meu velho avô, um homem com um controle emocional de criança. Pé-de-Pato era um iceberg; continuava pulando e trocando de pé como um dançarino de tango, até o grito que mudou o rumo da luta, programada para seis rounds: “Ê Tirone, tá com medo, bundão?”.

Tirone então fez o que não estava no script e acertou um direto que levantou a platéia. Dizia, depois de muitos anos, que foi um soco para não deixar que o público fosse embora ou pedisse de volta o dinheiro. Acontece que o Pé-de-Pato, um cordial e diplomático, um homem dos acordos, das cartilhas e regulamentos, se viu traído, sendo vítima, sem aviso prévio, de seu golpe mais temido – seu nariz sangrava. Acabou o quarto assalto e o público começou a vibrar e torcer, incentivar, clamar sangue e imitar os ganchos do Rocky.

Pé-de-Pato voltou, mas voltou como o boxeur que era, como o invicto. Jabeou uma, duas, três. Tirone deixou que os revides lhe batessem à cara. Apesar da grande quantidade de socos que tomava, sabia que seu direto valera por vinte jabs daqueles que estava tomando. Mas o Pé não parava; transformou, sem piedade, a cara do Tirone num bumbo que batia num compasso definido, jogando com as pernas, fazendo o público delirar.

A torcida queria era ver o circo pegar fogo. Se no começo a torcida era pro Tirone, depois de ser vítima dos mil jabs do Pé-de-Pato o abandonou, e comemorava cada vez que a luva do Pé tocava sua cara, já meio detonada. Tomado pela raiva, partiu, como um leão, pra briga de fato, sem técnica, sem jogo de pernas, só porrada. A partir daí, a sede do Anhangüera quase veio abaixo. A assistência babava e gritava. Era uma briga de verdade. Estavam mesmo tirando a desforra, fazendo valer a honra e o nome.

Mas um brigão não tem técnica e todas as patadas que Tirone soltava pegavam nas luvas do Pé-de-Pato, que se defendia e continuava desferindo os jabs, e estes pequenos golpes, insistentes, iam desfigurando a face de Tirone, castigando-o. Vendo que não ia conseguir acertá-lo, Tirone não titubeou. Saiu do ringue, empurrou um jurado, pegou a cadeira e subiu pra quebrá-la na cabeça de seu oponente. O Pé-de-Pato, que não era bobo, correu. Seis homens seguraram o Tirone e acabou o show. O povo foi pra casa deleitado, saciado, tendo presenciado uma grande luta.

Na mesma noite, os dois se conciliaram e beberam juntos no Fecha Nunca. A notícia que correu é que Pé-de-Pato pagou a Tirone ali, no balcão mesmo, o que estava devendo.

2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Boa história essa do vô Cabra....isso mostra que não adianta só dar pancada..a técnica é importante..por isso quem quiser os dois vá ao Anhanguera...domingo estamos de volta. Graças a Deus !!! Abs, Angelo

13 de janeiro de 2009 18:52  
Blogger Szegeri disse...

Sensacional!

3 de fevereiro de 2009 18:45  

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