29/01/2010

Anhangüera dá Samba XXXI

No mês passado, fechando o ano de 2009, recebemos o cantor e compositor Eduardo Gallotti. Ele ficaria hospedado na casa de Paulinho Timor. E foi pra lá que eu fui umas seis da tarde, no intuito de tomar a primeira gelada do dia e comer um frango com batata de primeira preparado pelo anfitrião. Lá estavam também Tenente, Cebolinha e Fabrício. Fiquei coisa de meia hora, quarenta minutos apenas: saí pra buscar meu irmão Felipe Cereal, tijucano nato, na rodoviária.

De lá, encontramos o Szegeri no bar da Dona Ana – um dos melhores bares do Brasil – e, mais tarde, caímos pro Anhangüera, ali pertinho. A roda foi das boas; muita gente saiu achando que nunca havia presenciado uma roda de samba tão boa: Gallotti parecia possuído. Foi brasa em cima de brasa! Cada samba que o homem buscava no fundo de baú era delírio dos saudosistas de plantão.



Gallotti bateu um recorde – lá no Anhangüera -, bem ao seu estilo: cantou por aproximadamente quatro horas ininterruptas. Sem parar, foi desfiando um repertório finíssimo, pra não quebrar a corrente. Assistam-no cantando um clássico de Silas de Oliveira e Mano Décio:



Essa noite abriremos a temporada Anhangüera dá samba! de 2010. Para começar com a corda toda, o convidado do mês é um dos maiores nomes do samba brasileiro: Delcio Carvalho!Mas quem pensa que se trata "somente" do parceiro mais constante de D. Ivone Lara, a primeiríssima-dama do samba brasileiro, ou "apenas" de um compositor gravado pelos maiores nomes da música brasileira, como Maria Bethania, Gal Gosta, Nana Caymmi, Clara Nunes, Beth Carvalho, Alcione, Elza Soares, Elizeth Cardoso, Nara Leão, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, certamente vai se surpreender: Delcio é um senhor cantor, dono de belíssimo timbre, curtido nas atuações como crooner de orquestra, temperado nas rodas de samba dos quatro cantos da Cidade Maravilhosa.Não há chuva que segure esse samba!

Deixo no áudio Sonho Meu, com participação de Zeca Pagodinho.

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Até mais tarde!

28/01/2010

Soltem o Barrabás!

Outro dia, no campo do Anhangüera, um coroa me pediu: “- Escreva alguma coisa sobre o Carlos Gomes!”. Retruquei que, vira e mexe, eu cito o tricolor. E ele: “- É, mas você só fala dos anos 30, 40. Escreva passagens dos anos 60, do período que eu presenciei!”. E eis que puxo, repuxo e, - é o estigma! - o assunto que me motiva a escrever sobre tal time é só um: sua torcida.

O time do Carlos Gomes da Barra Funda, extinto há quase trinta anos, foi a agremiação de maior torcida na região. Ainda hoje nenhum outro clube o ultrapassou neste quesito. Mas não era apenas uma torcida grande, a do Carlos Gomes: era fanática, desvairava e muito agressiva, ficando famosíssima na época dos irmãos Cabeleira (década de 40), uma turma da pesada que tocava o terror em todo mundo.

Mesmo depois dessa época dos Cabeleira, a torcida continuou a ser o grande trunfo do Carlos Gomes – muito embora sempre tenha apresentado grandes esquadrões. A enorme assistência acompanhava o time com a prontidão de uma beata dominical. Mas também com a cólera de uma besta: bastava um erro do juiz, um pontapé, ou mesmo um adversário tecnicamente melhor para a torcida inflamar e botar tudo abaixo. São inúmeras as histórias do Carlos Gomes em que a torcida é o protagonista e o time fica pra segundo plano.

Justiça seja feita: eram poucos os times que batiam de frente com eles. O problema é que, em qualquer situação desfavorável, a coletividade extra-campo entrava e levava a melhor no sopapo.

Teve um jogo, no ano de 1973, em que o Carlos Gomes enfrentou um time de Cotia, o Santo Antonio – um time onde os jogadores todos eram freqüentadores entusiasmados de uma paróquia de mesmo nome, recém inaugurada na cidade. Um dos católicos de Cotia decidiu organizar uma pelada do pessoal dessa igreja contra alguma outra; seria uma espécie de confraternização católico-futebolista. Lembrou-se da Paróquia homônima de Santo Antonio, na Rua Anhangüera, Barra Funda, que conhecera havia muitos anos. Entrou em contato com o Padre Luis, titular por décadas na igreja da Barra Funda e este firmou a partida com os diretores do Carlos Gomes, que iam sempre à missa: “- Representem nosso bairro e nossa paróquia. O povo de lá é muito religioso; soube que nessa igreja de Cotia são fanáticos!”.

No dia do jogo, dois caminhões lotados saíram da Barra Funda logo cedo. Porretes de todas as formas e tamanhos, pedras, tijolos e canivetes eram artefatos indispensáveis – mais que bandeiras e fogos. Os diretores, mais velhos, não conseguiam demover os briguentos da idéia de “ir pro pau”. Apesar dos apelos e do aparente sossego da cambada, os velhos ficaram com a pulga atrás da orelha. “- Essas ripas e tijolos são para nossa garantia!”, disse um dos torcedores.

O campo ficava bem ao lado da igreja e o jogo seria após a missa. O time do Carlos Gomes chegou uma hora antes do horário estabelecido. Um cidadão com pose de gente importante os recebeu com extrema gentileza e fez o convite: “- A missa está começando, depois tem o jogo e o churrasco. Venham assistir conosco, fazemos questão!”. Os vagais se negaram a entrar na igreja e foram advertidos pelos mais velhos: “- Vai entrar todo mundo. A gente faz meia horinha e pronto.”.

O problema do Carlos Gomes é que tinha uma molecada de dezoito, vinte anos, terrível, briguenta, completamente insana. Capitaneada por Valdir, o Diabo e Barrabás, era, de fato, uma torcida temível. Sintam o peso da dupla: Diabo e Barrabás!

Na igreja completamente abarrotada a torcida e o time da Barra Funda foi entrando. Estava tudo indo bem, até que começou uma gritaria lá fora: “- Se o Diabo não entrar, eu não entro!”. O padre, que ainda não tinha começado a rezar, foi lá pra fora, e a multidão o seguiu. “- Sem o Diabo eu não entro!”.

Valdir, o Diabo, deu um jeito e se empirulitou, sumiu. Barrabás, seu parceiro inseparável, não queria ficar por baixo e empacou na porta da igreja. O padre, perplexo, começou a gritar um discurso que ali era a casa de Deus: “- Refutamos qualquer manifestação diabólica!”. Os fiéis entraram num frenesi danado. Alguns, mais exaltados, xingavam o time da Barra Funda. Começou um empurra-empurra enorme. Sem conseguir conter o desatinado Ivan (era esse o nome do Barrabás), a turma do Carlos Gomes viu que ia feder, já que estavam em menor número e os religiosos de Cotia – incluindo mulheres, velhas, crianças e o padre – sofriam uma espécie de catarse coletiva de repudio ao “anti-cristo”.

Conseguiram pegar o endoidado que ainda gritava pelo Diabo. O pau começou a quebrar, mas ainda em focos isolados. A torcida do Carlos Gomes, percebendo que ia apanhar da cidade inteira, começou a por panos quentes. O padre pegou o Ivan pela nuca e mandou-o retirar o que havia dito. “- Olha o Diabo ali!”, apontou Ivan. Era Valdir voltando do mato, onde fora às pressas fazer necessidades. Ele, que era o mais louco do bando – inclusive Louco era outro apelido que ele ostentava -, foi chegando e o povo sacou que o verdadeiro anti-cristo era ele, o Diabo em pessoa.

Valdir viu aquele tumulto todo e foi chegando. Todos aguardavam: suas palavras poderiam por fim ao fundunço. Ele mesmo percebeu que seria melhor acalmar a situação. Com ar possesso, deu a ordem: “- Soltem o Barrabás!”.

Foi uma frase infeliz para o momento. A torcida do Carlos Gomes apanhou bem e, pela primeira vez, teve que fugir. Há quem diga que o Carlos Gomes não se extinguiu: foi excomungado.

18/01/2010

Porranca excepcional

Tenho tentado desde o começo do ano, sem sucesso, falar com Daniel Frangiotti, o Gordo. Sendo ele um sujeito fundamental pra mim, confesso que fico meio perdido quando passo tanto tempo assim sem falar – ou melhor: beber – com ele. E falando nisso, eis aí uma das inúmeras qualidades que o Gordo detém: é um bom cachaça, daqueles que não tombam nem a cacete.

Exibindo um alto nível de desempenho etílico há anos, Gordo atingiu um grau de respeito insuspeito. Ainda ontem, no Anhangüera, comentávamos sobre a última sexta feira do ano no bar do Sinval, noite em que o homem mandou pro bucho uma garrafa de vodca, fora a cerveja. Depois, sedento, bebeu – junto do Xam e Ronaldinho - mais um engradado numa barraca de rua no ensaio dos Gaviões da Fiel – na esquina de sua casa.

Quem o conhece assim, de prima, chega a se assustar. Até eu, que já estou acostumado, às vezes não acredito como pode um fígado trabalhar de maneira tão acurada. Não hesito em dizer que o Gordo é um dos três mais eficientes que conheço no ramo. Mas até um bebedor calejado tem seus momentos de deslize. Lembro-me, em especial, de uma passagem hilária.

Durante muitos anos, Gordo foi o primeiro a chegar, todos os domingos, ao Anhangüera. No embalo da madrugada, fedendo a suor de cana e fumaça de cigarro, já ia pedindo uma Brahma às sete da manhã. Junto com ele chegavam os velhinhos e os pernas-de-pau que jogavam no Sucatão. Os velhos no cafezinho e o Gordo na enésima cerveja. Aliás, há que se fazer uma observação. Havia, até pouco tempo, uma profusão de anciãos na agremiação – infelizmente restam poucos; a quadra de bocha, símbolo maior das artrites e artroses, vive às moscas.

Teve um dia o Gordo chegou pior que de costume. Parece que tinha bebido até gasolina de foguete! Efusivo, abraçava os velhotes como se fossem seus amigos de infância: Cantava enrolando a língua, no melhor estilo “danusa”, a Mulata Bossa Nova: “- Diego toca a bola, Robinho deita e rola, e só dá Santos, lê lê lê lê lê lê lê lê, bota pra fuder!”.

Outra breve observação: Gordo é o único torcedor do Santos, no Bom Retiro, com menos de 50 anos. Os outros são o Tadeu e o Gaggini, este último freqüentador do Anhangüera e entusiasta do Gordo. A torcida praiana é tão insignificante que o nosso personagem é chamado na Torcida Jovem do Santos - torcida da qual ele chegou a ser diretor – como “Bom Retiro”. Carregar o peso de representar um bairro inteiro, pra mim, era um privilégio dos torcedores do Juventos – exceto o bairro da Mooca.

A empolgação demasiada do nosso Gordo tinha explicação: seu time jogaria a tarde no Pacaembu contra o Flamengo, pelo campeonato brasileiro, e seu ingresso já estava no bolso. O plano era continuar bebendo no Anhangüera e de lá seguir para o estádio municipal.

Em determinado momento, porém, a canjebrina bateu-lhe à cabeça violentamente. Gordo assistia ao jogo dos veteranos sentado numa cadeira encostada ao alambrado, perto do bar. Dormiu, roncou e babou de uma maneira nojenta. Exalava uma cruaca braba! Ali, todo desarrumado na cadeira, permaneceu por um bom tempo.

Os veteranos saíram e entrou em campo o 2º quadro rubro negro. Eu, inclusive, estava em campo – época e que ainda jogava. O jogo era contra um time da Zona Leste – não me recordo o nome do time – que tinha o uniforme todo branco. Começou o jogo e os moleques do time branco nos deram uma canseira danada. Ao lado do campo uma torcida composta por vinte ou trinta caboclos fazia barulho a favor deles. Imagino que a esta altura o bom Gordo estava naquele estágio do sono em que a realidade se confunde com o sonho.

O ponta direita deles, um negrinho habilidoso, driblou um, cortou outro e bateu na saída do nosso goleiro: golaço. A torcida, que estava pertinho do Gordo, gritou “gol”; o Gordo acordou ainda naquele estado inconsciente e se viu no Pacaembu: Santos um, Flamengo zero, gol de Robinho: gritou gol de uma maneira enlouquecida e deu um salto da cadeira que o fez se esborrachar no chão.

A gargalhada geral foi assustadora. Nêgo rolava no chão, outro perdeu o ar, outro dava murros na parede, ninguém se agüentava. A torcida adversária aderiu; perdeu a compostura de tanto rir. Com todo o barulho o jogo parou; todos os jogadores se amontoaram no alambrado pra tirar uma lasquinha também. Foi quando eu vi meu amigo de barriga pra cima – parecia uma tartaruga. Seu estado larval não lhe permitiria levantar, a cachaça era absoluta.

Num rompante de dignidade, Gordo se levantou com certa dificuldade e procurou uma única pessoa que poderia redimir um pouco da vergonha: Gaggini, o único santista da paróquia. Abraçou-o, enlaçou-o. Gaggini, naquele instante infernal, era seu cúmplice.

05/01/2010

Carta aberta ao Naná

Não imagino como possa ter sido seu Natal. Nem seu ano novo. Tenho sido um relapso, é verdade. Eu me desculpo e o autorizo a não me desculpar – perdoe também minha empáfia, às vezes não a controlo. Não te desculpo simplesmente porque não tenho o que desculpar. Não serei piegas pra dizer que eu poderia estar no seu lugar; nossas histórias são tão diferentes - apesar de termos vivido, a vida inteira, tão próximos, tão juntos.

Quero que saibas que nossa diferença de idade de apenas dois anos – e não a percebemos há tantos anos – foi, num tempo remoto, um abismo. Ela, aliada ao seu temperamento “sem medo”, te conferiu um posto que faço questão de lhe segredar: você foi o primeiro sujeito de quem tive medo.

Lembro-me de um dia em que o Angelo e eu jogávamos bola no Anhangüera entre outros moleques desconhecidos. Éramos uns fedelhos de sete anos. Os outros moleques eram da Favela do Gato; entre eles o Buiú que depois virou atração tocando pandeiro na Gaviões da Fiel, lembra dele? Acho que morreu matado há pouco tempo. O Buiú – um molequinho de merda, da nossa idade – era nosso camarada, e até outro dia me abraçava nas raras vezes em que nos encontrávamos. Naquele dia dois garotos que tinham seus onze, doze, deram uns tabefes na nossa cara, minha, do Angelo e do Buiú. A gente sentado na muretinha do campo apanhando, sem ter coragem de correr pro meu pai, que jogava baralho no bar do campo.

Eu só pensava que se você estivesse ali, talvez eu tivesse coragem de enfrentá-los. Eles acabaram indo embora e a gente nunca contou o episódio pro meu pai, com vergonha. Depois de pouco tempo você chegou e eu te contei; você disse tremendamente puto: - “Essas coisas só acontecem quando eu não estou!”. Infelizmente pra mim, eu pensei.

Sua personalidade sempre foi a de um desassossegado, irriquieto, assim como a minha; mas muito diferente da minha. Talvez por isso tenhamos mantido, durante muitos anos, uma distância de palavras, de idéias. No momento em que me tornei adulto, com meus ideais tolos – menos que os seus, eu sempre lhe disse -, e quando os mais velhos me davam moral, me achavam bacana, você foi ficando muito mais jovem do que eu. Suas conversas pra mim não faziam muito efeito – daí veio sua aproximação do Bruno, e assim nos mantínhamos próximos também.

Sou um cara que prezo pela amizade, pelo carinho, pelo respeito. Você só não me respeitou dentro de campo, e eu também; dentro de campo eu era um merda, mas mudei: parei de jogar. Você, que sempre teve muito mais intimidade com a bola do que eu, é um sujeito insuportável dentro de campo, saiba disso. Mas resolveu inúmeros jogos pro rubro negro da Barra Funda, clube que você jamais abandonou, mesmo com seus amigos todos do Bom Retiro jogando no Nacional.

Taí outra diferença entre nós dois: você é Bom Retiro de história, de sangue , de pai e avô. Eu sou Barra Funda. Mas, como sujeito homem mantém o lhe vem, você é Anhangüera, assim como é teu pai. E nós jogamos tantos anos juntos no mesmo campo em que nossos pais o fizeram – eles com muito mais classe, é bom frisar. No fim das contas, a gente sabe que preza pelas mesmas coisas. E isso nos une, mesmo nos tempos em que nos ignoramos, mesmo nós dois sustentando um orgulho que me enoja – e a ti também, tenho certeza.

Soube que você comanda o departamento de esportes, que conquistou grande respeito por aí. Isso pra mim não é surpresa; você sempre foi um cara de palavra, de olho no olho. Mas sei que teu Natal foi uma merda, e teu Reveillon também - assim como todos os outros dias, das cinco da madruga quando toma teu banho gelado até a hora que vai dormir, quando consegue.

Outro dia estive na casa do teu pai com o Bruno e o Pepe, dois grandes homens, grandes amigos teus. Tua mãe, não conseguindo segurar as lágrimas, contou-nos o que anda passando nesse inferno. Nossa humilde ajuda, um pouco tardia, não foi pra você, mas sim para os dois. Não é fácil passar o que eles estão passando. Chorei quando teu pai me contou os detalhes da visita que lhe fez.

A minha idéia era lhe enviar dois fardamentos completos do Anhangüera, mas não pode, né? Não pode nada aí... Tua mãe disse que você andou achando que não tem amigos. Grande besteira! Você tem muitos, os maiores deles dentro da tua casa. Este mundo aqui de fora faz questão de deixar a gente relapso.

Tenho certeza que seu próximo Natal será o melhor de todos. Vai coincidir com sua nova chegada. E o Mateus, teu filho, moleque de responsa, palmeirense roxo como o pai, vai agradecer pelo presente; ele é louco por você.

Te envio esta carta – que estou publicando também no blogue – para lhe dizer que sempre penso em você e que rezo à minha maneira por você. É também uma maneira de afastar de mim aqueles que lhe falam mal. De minha parte, não participarei da rodinha hipócrita que se fará em sua volta quando apareceres. Quero tomar uma cerveja contigo, nós dois, pra eu dizer o quanto gosto de você, meu amigo.

18/12/2009

Anhangüera dá Samba XXX

No último dia 27 recebemos a Velha Guarda do Peruche, e foi uma grande noite. Pra mim, então, nem se diga. Eu e Milena receberíamos em nossa casa Luiz Antonio Simas e sua mulher, Cândida. E foi um final de semana glorioso!

Na sexta a tarde chegou ainda outro irmão, diretamente de Campinas: Bruno Ribeiro. Fomos nós dois para o Sinval e depois pra minha casa. Quando o Simas chegou na rodoviária, fomos buscá-lo. Voltamos para casa – onde a Milena já nos esperava – e, em poucos minutos, chega meu compadre Fernando Szegeri pra completar o esquadrão. Entre camarões fritos e cerveja gelada na pequena cozinha, tive uma ponta de vontade de ficar ali mesmo, batendo papo; mas logo recebo uma ligação de meu pai, que já estava no Anhangüera, me comendo o toco: “- Porra, você fica com a chave do freezer e ninguém bebe?”. Saímos correndo.

O samba estava quente, assim como as várias doses de Domecq que eu traguei. Quando chegou a Velha Guarda, foi uma comoção porque tinha muita gente da Casa Verde, do Cruz da Esperança e do Parque Peruche no terreiro. Entre eles meu querido amigo Zé Augusto, a quem fiz questão de prestar singela homenagem – a seu pai José das Dores, falecido há exatos 30 anos, também.

Seu Carlão chegou com aquela elegância imponente. Logo atrás vinham Bernadete, Zé Maria, e os outros integrantes da respeitável Velha Guarda. Antes de começarem a cantar, Seu Carlão, com a envergadura de quem viu o samba nascer na cidade, contou um monte de história e ensinou algumas maneiras a quem não sabe chegar devagar. Depois a Bernadete arrebentou (ela é quem canta no vídeo abaixo) e fizemos homenagem à grande Denise, que se foi no começo deste ano.

Os Inimigos do Batente e o projeto Anhangüera dá Samba! fazem sua última farra do ano de 2009 hoje - que é, efetivamente, a última do mês, já que dia 25 todo mundo vai estar empanturrado de peru. Sem fazer muitas digressões, constato que foi, lá no nosso terreiro, um grande ano. Vamos fechá-lo com chave de ouro convidando um dos maiores sambistas da atualidade, Eduardo Gallotti, figura conhecidíssima e requisitada nas melhores rodas do Rio de Janeiro.
Deixo um áudio do Gallotti cantando Pedro do Pedregulho, de Geraldo Pereira, e Unha de Gato, do Elton Medeiros.
Até mais tarde!

16/12/2009

Dou-lhe uma, dou-lhe duas

A prática do leilão vem de muito antes de Cristo. Na Babilônia, por exemplo, as mulheres em boa idade para o matrimônio - ou “na hora do abate”, como diz o Gordo – eram leiloadas em grandes feiras anuais. As mais formosas eram disputadíssimas, chegando a causar grandes quebra-paus entre os licitantes; já as mais fracas de feição geralmente eram oferecidas junto de uma ovelha, um cavalo, uma boa vaca leiteira, enfim: um dote que desse uma valorizada na bruaca.

Outro leilão de enormes proporções era o de espólios em Roma. Depois de pilhar outros povos, era comum vender os bens dos rendidos ou mortos. E assim foi: escravos, jóias, quadros, animais; o tempo passa e o leilão é prática cada vez mais corriqueira. Hoje em dia, na internet, se leiloa desde tampinha de refrigerante até a mãe.

O que define, no entanto, um bom rendimento para o competidor é o fator psicológico. No leilão de donzelas na Babilônia já era assim: nêgo que se descontrolava perdia a beldade e acabava saindo de mãos dadas com a jabiraca. Alguns manuscritos dão conta de que muitos destes homens preferiam ter relações sexuais com a cabritinha que vinha de brinde com a megera.

O fator psicológico – que inclui comportamento, indumentária, pose e blefe - é tudo! Dito tudo isso chego onde quero chegar: Rua Anhangüera, setembro de 1959.

A Associação Atlética Anhangüera vivia áureos tempos. No futebol o rubro negro vinha levantando caneco atrás de caneco; o pingue-pongue arrebanhava uma infinidade de associados; e os estrondosos bailes e eventos sociais tratavam de manter a agremiação num patamar inalcançável para os rivais varzeanos.

Falei dos estrondosos eventos sociais: eram muitos, e variadíssimos. Todo mês tinha um grande acontecimento. Foi com base nessa regra que Ministrinho, notável diretor social do clube à época decidiu organizar um leilão de proporções jamais vistas na região. Chamou muita gente importante – neste quesito constavam pequenos industriais e comerciantes, papagaios de pirata e aspones de vereadores e deputados. Ofereceu coquetel antes do evento para essa gente importante e convidou um candidato a vereador que tinha o “dom da oratória”, e que nos anos que seguiriam estaria sempre presente no clube quando chegava a época de eleição, para ser o pregoeiro.

Era um domingo, sol à pino. O leilão seria realizado na sede do clube. Ministrinho já havia planejado tudo: iam leiloar utilidades domésticas, bola de futebol, uma camiseta do primeiro escrete rubro negro (a que foi usada pelo beque Radiador), brinquedos para crianças e outras coisas de caráter simplório, culminando com o pregão de um relógio italiano finíssimo.

O leilão fora idealizado por Ministrinho para sanar algumas dívidas que o clube tinha com um associado poderoso: o velho Mateus Sabatine, dono de comércios na região – que desde a fundação fazia parte da diretoria do clube. Um leilão, pensou o diretor social, reuniria o bairro inteiro; homens, mulheres, crianças, velhos, brancos e pretos. A única questão era cuidar para que as pessoas se sentissem à vontade e tascassem lances nos objetos à venda.

O pregoeiro, um fanfarrão que se candidatava pela primeira vez a vereador, começou a discursar aquela papagaiada toda, com parábolas cristãs e tudo mais. A essa altura, a “gente importante” tentava comer e beber o máximo que podia, pois os “comuns” já estavam entrando, mesmo sem convite, nos refrigerantes e quitutes.

Um leilão, teoricamente, era uma boa idéia de render um qualquer pros cofres do clube, não sendo um porém: a assistência, quase em sua totalidade, era dura, pobre, fodida. Os emergentes da classe média da Barra Funda, nessa época, eram ainda fedelhos filhos de operários, carroceiros, sapateiros, marceneiros e donos de bodegas, de modo que os utensílios domésticos foram vendidos a preço de banana.

A sede estava lotada, mas pouca gente tinha ímpetos de entrar na disputa. Quando veio a leilão a histórica camisa do Radiador, por exemplo, Ministrinho já tinha pensado numa tática para botar fogo no negócio. Combinara seu plano com outro diretor, o Plácido. A camisa foi exibida e Ministrinho tascou um lance; Plácido replicou. Os dois, tentando instigar a assistência, ficavam um dando lance mais alto que o outro, num furor danado. O problema é que ninguém entrou na onda e, quando a velha camisa do Radiador estava valendo quase o passe do Luizinho Polegar, o quase-vereador bateu o martelo. Ministrinho fez pose de magnata, subiu ao palco e recebeu a camisa... É evidente que não pagou.

O leilão acabou sendo um desastre. Ministrinho tentou não botar o relógio no prego, mas não teve jeito; o povo gritou pela peça, na esperança de dar um lance maroto e ninguém cobrir. Um lance aqui, outro ali, e nada de decolar. O homem do martelo, com o saco cheio da monotonia, após o famoso “dou-lhe uma, dou-lhe duas”, pareceu sofrer uma possessão. Num rompante deu um lance. A assistência vibrou como nunca!

Endemoniado, começou a fazer um discurso político falando, entre educação e saúde, dos milagres de Cristo. Ministrinho, tentando lançar mão da tática falida no caso da camisa do becão, deu um lance em cima do pregoeiro – que a essa altura já tinha virado pregador. Apontando para a platéia atônita, o pregador deu mais dois lances em cima de seu próprio lance, bateu o martelo três vezes e foi ovacionado. Pagou uma fortuna pelo relógio, dinheiro que deu para sanar a dívida do clube. No auge da loucura, citando Cristo, Kardec e o desapego material, o fanfarrão doou, ali mesmo, o relógio ao clube.

Poucos meses depois o malandro já era vereador, sendo votado unanimemente na região. Depois, durante o regime militar, angariou mais simpatizantes daquela classe média emergente, apoiada nos valores da fé e da família. E assim foi durante infindáveis anos, sempre dircursando com o “dom da oratória”, pautado nas parábolas bíblicas.

Felizmente para o Brasil (este sim maiúsculo), o cabra já não mama há anos. Credito única e exclusivamente ao “fator psicológico” do colarinho branco naquele leilão toda a sua carreira política, cheia de trambiques.

Ouvi dizer que até hoje o homem vai à missa todos os domingos.

04/12/2009

Casa de turfista

A cada dia a gente vai perdendo um pouco do que viveu, do que nos formou, dos costumes, das coisas que - mesmo não vivendo in actu exercito - vimos com os próprios olhos.

Dia desses passei pela Rua da Graça – lá em cima, sentido Três Rios – e avistei apenas dois velhinhos sentados no banco que fica bem em frente a uma casa nada suspeita. No tempo em que eu estudava num colégio de freiras ali pertinho, a quantidade de velhos (desde os sessentões até os caquéticos) neste ponto era um disparate; e todos muito alinhados. Eu, que ia todas as manhãs de sábado com meu avô pra esquina da Anhangüera com a Rua do Bosque encontrar seus amigos – e lá, sentados num banquinho, ficavam conversando, relembrando, fumando cigarro de palha e, principalmente, reclamando de dores de todos os tipos – pensava que os velhos da Rua da Graça eram muito mais ativos, já que estavam ali diariamente. Ou então poderia ser o ponto de encontro de alguma associação de moradores, amigos do bairro, coisas que apetecem la vecchiaia.

Era um inocente de quatro costados, eu. Tempos depois percebi que, em determinados momentos, os idosos não conversavam. Estacados todos na porta da casa, olhavam hipnotizados para uma televisão e um aparelhinho que trazia números e letras estranhos. Alguns deles, repentinamente, pulavam, vibravam. Outros xingavam e davam com a bengala no chão. Tomado pela curiosidade, comecei a desviar meu caminho – quando eu vinha pra casa –, e parar de longe pra desvendar o mistério. Um dia avistei meu antigo barbeiro, o Seu Mario – um negro elegante e cachaceiro – naquele mar de cabeças brancas e entrei no meio do bolo: corrida de cavalos!

Seu Mario me disse que todos aqueles homens, sem exceção, eram vigorosos apostadores e que alguns daqueles saudosistas ainda iam ao Jockey devidamente trajados – terno, gravata e chapéu - de vez em quando. Aliás, o esporte (está aí um jogo – dos mais devastadores – que é chamado de esporte), in loco, sempre foi um desfile de pose e ostentação. Os magnatas (industriais, políticos e playboys), fumando charutos caríssimos e acompanhados por damas com vestidos, chapéus e jóias milionários, ficavam separados dos plebeus – todos muito bem vestidos, é bom frisar – num espaço reservado à nata, tal qual um camarote.

Houve um tempo em que o turfe era popular. Meu avô – que perdeu o pouco que tinha apostando nos cavalos – dizia que as transmissões do Vicente Chieregatti tinham notória audiência na década de 50.

Fiquei e acompanhei o Seu Mario na empreitada na casa de jogo de turfe. Isso tem mais de dez anos. Era o terceiro páreo, passando ao vivo. Os números no placarzinho eletrônico traziam o histórico dos cavalos, quantas vitórias naquele percurso e distância, as condições do piso, e tudo que é informação que se pode imaginar. Seu Mario, que não era trouxa, apontou: “Está vendo ali? Só tem dois que podem ganhar. Vou de cabeça nesse aqui. Se ele chegar entre os três, pego uma merreca!”.

Quase todos os velhotes ficaram entre aqueles dois. Mas tinha um senhor que tinha a mania de apostar no azarão; de vez em quando ganhava e fazia pose de sabichão: “No meu tempo ganhei muito dinheiro, eu tinha um amigo jóquei que me dava as barbadas. Freqüentei até o prado da Mooca, antes da Cidade Jardim!”. A verdade – dizia meu avô com a propriedade de quem se danou – é que todo mundo perde: jogo é jogo!

Os cavalos se alinharam e, já na saída, um dos favoritos – não o do Seu Mario - abriu. Na reta oposta já tinha largado uns seis corpos de vantagem. Os velhos estáticos, torciam. Quando o primeiro entrou na última curva os que nele apostaram vibraram como num gol. Seu Mario acabou empatando no dinheiro; o seu chegou em terceiro. E o azarão... o azarão chegou por último.

Dia desses – como eu dizia – passei lá em frente e só vi dois velhinhos. A casa fechou e, pelo que parece, daquela turma toda, só sobraram os dois mesmo.

Naquele dia, antes de partir, Seu Mario me apresentou ao dono da casa, um senhor de cara fechada que não torcia, apenas fazia comentários sobre os páreos. Questionei-o: “- Em qual cavalo apostou?”. O velho, esboçando um sorriso, me perguntou se eu conhecia a Elza Soares. Fiz com a cabeça que sim. E ele: “Tem uma música que ela gravou que diz que em casa de turfista o cavalo é de pau!”.
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