11 de nov de 2008

Fiado só amanhã!

O Bar do Sivaldo – a quem chamamos Sinval -, além dos amigos de futebol e do pessoal do samba, ainda é o bar das grandes personalidades que cito frequentemente por aqui. É, enfim, o melhor bar da Barra Funda. E tal título eu credito, única e exclusivamente, ao dono.

Sinval tem as manhas necessárias para a função, nasceu pra ser dono de boteco e nada mais. Sempre oferece uma cortesia para o cliente que bebeu bem, para o cliente assíduo e até para um estreante. Um salaminho, um amendoim, um tremoço, uma batata calabresa, uma erva doce; quando você menos espera, chega um pratinho da casa, na faixa. Tudo com sal, e tome cerveja!

Não vende fiado salvando-se algumas raríssimas exceções, às quais me incluo, obviamente, embora rejeite, muito agradecido, o privilégio. Há quem diga que não existe juro, em nenhum banco, em nenhuma instituição financeira, maior que o aplicado pelo Sinval. Mas quem deixa a conta por conta da caneta, não tem direito a chororô. O caso do Panda, por exemplo. Durante anos – antes de se mudar para o interior -, Panda foi o maior cliente do Sinval. Bebia horrores, e diariamente. Uma fonte nada confiável contou-me que Sinval entregava ao Panda, todo santo mês, o boleto do aluguel do estabelecimento, da luz, da água.

E foi, inacreditavelmente, o cliente mais maltratado que eu já pude ver. Era escorraçado pelo Sinval, dono de um humor de montanha russa. Eu presenciei, no ano retrasado, várias vezes a cena cômica quando os dois ficaram sem se falar por incríveis sete meses. Panda, que não deixou de bater o ponto um dia, chegava calado, sentava-se e lá vinha o Sinval trazendo, de cara amarrada, sua vodca com fanta. Acabava a dose, Sinval trazia outra. Na data do acerto mensal, Sinval deixava a conta na mesa, Panda deixava o cheque e ia embora. Sete meses sem uma palavra.

Mas Sinval, mesmo cobrando juros exorbitantes sabe, acima de tudo, para quem liberar um prazo aqui e outro ali; saca de longe o sujeito que vai pagar e o que não vai; experiência de sobra no ramo e a malícia necessária. Sinval sabe falar não, coisa que o Cabeção, por sua vez, não fez.

Cabeção, nascido e criado no Bom Retiro, é associado Anhangüera há mais de trinta anos e diretor há doze, foi nosso presidente em dois mandatos consecutivos: 2003-2004 e 2005-2006. Exerceu em um período concomitante à presidência outra nobre função, até de maior importância: a de tocar o bar. O desemprego que o aplacara um ano antes, e a saída de Braga, que arrendava o bar do clube, deram espaço para que Roberto Martins, o Cabeção, ficasse com o bar. E foi, de longe, o bar mais melancólico em que já bebi. A derrocada do boteco começou no dia em que Cabeça o assumiu. Por um único e mortal motivo; o traiçoeiro fiado. Não há nada mais perigoso que o fiado. Não há amizade que resista ao fiado, nem mesmo aquelas de infância. Não há moral, nem ética, que sejam maiores que um fiado acumulado, gordo e desavergonhado.

Nunca me esqueci do primeiro dia do Cabeção à frente do nosso simpático bar do clube. Deu um tapa geral nas instalações. Trocou as geladeiras, o balcão, a estufa, o fogão, brilhou a cozinha e deitou bebida, não faltou nada. E os petiscos? Um bolinho de bacalhau - feito pelo próprio - que era um pecado. Pastéis, salgados variados, porções, lanches, tudo. E o mais prestativo funcionário que um bar pode ter: o Bugalu. Tudo redondo!

No começo, Cabeção, goleiro titular dos veteranos, parou até de jogar. O bar era prioridade, era seu ganha pão. Houve, então, uma espécie de mutirão pró-Cabeção, e a campanha “vamos gastar” foi aderida instantaneamente. As mesas todas ficaram forradas, comeu-se e bebeu-se desbragadamente. No primeiro domingo foram trinta caixas de Brahma, incontáveis porções e lanches; o Bugalu teve que sair para comprar pão três vezes. Mas a fartura consumida seria paga, por muitos, na próxima semana, dia 05, que é quando cai o salário. Com uma incrível desfaçatez, a maioria nem perguntou se podia pendurar. Era um que saía gritando de longe: “Cabeção, domingo que vem eu acerto!”, era nêgo com cara de coitado: “Hoje tô sem nenhum, deixa marcado que depois te acerto”, e Cabeção recebeu no primeiro domingo, sem negar fiado a muitos camaradas, 10% do faturado.

Fato é que não se pode misturar as bolas, e o Cabeção ficou sem capital pras reposições. Precisava, logicamente, receber a bolada do domingo passado. Então alguns jogadores “se contundiram” do nada, no meio da semana e não apareceram. Passado um mês, já não tinha mais o bolinho de bacalhau que fizera tanto sucesso. No segundo, não tinha mais porção nenhuma; pra morder, só misto frio. Após mais um mês, só salgadinhos isopor de saquinho. O estoque das bebidas foi minguando; o conhaque, o vinho, a vodca, o uísque viraram saudade; só sobrou a pinga coquinho que o Agostino dava de galão pro Cabeção e a cerveja. Um bar tem que ter, no mínimo, cerveja. E o bar do Cabeção agonizou durante dois anos à base de coquinho e cerveja, sempre pagando o Bugalu e quase nunca sobrando nada para ele. Os que pagavam, e não marcavam, ou seja, o parco dinheiro que o Cabeção recebia, dava, com muito custo, para pagar a Brahma e só. Quando chegou nesse ponto, o fala-fala já era enorme. “Como pode um bar não ter nada?”, “Temos que tirar o Cabeção daí”, mas pagar a dívida acumulada, pouca gente.

Quando um sujeito, que devia os tubos, resolveu levar um litro de uísque de casa, Cabeção ficou emputecido. Os uns-e-outros continuaram a pedir cerveja e Cabeção, o resignado que nunca havia falado nada, que jamais tinha cobrado alguém, cansado de vender e não receber mudou sua postura. Começou a esfregar nas fuças devedoras a pilha das marcações que resultaram na precária situação do bar e na morte de suas expectativas. Mostrava, pra quem quisesse ver, os nomes dos inadimplentes; e cobrava: “pague o que você deve”. Ora, não era possível, os caloteiros teriam que cair em si e pagar a quem gentilmente lhes vendia fiado.

Pois Cabeção perdeu o dinheiro – que não tinha -, o bar, alguns amigos, e o clube sofreu uma debandada de associados jamais vista.

2 Comentários:

Blogger ClaudioYidaJr disse...

Tem gente que acha que fiado é que nem dever pra mãe. Agora, já pensou se malandro resolve pagar com beijo na bochecha?

Abraço, mano véio!

11 de novembro de 2008 13:45  
Anonymous Marcel De Loretto disse...

Arthur, Boa Tarde!!!

Excelente, não devo nada no Bar.rsrsrs Acertei tudo.rsrsrs

Queria fazer um pedido, podeira escrever sobre o meu maior idolo do futebol no AAA, o Sr Neco??

Acredito que um titulo sugestivo seria :

"O 10 de todos os 10"

Valeu Cabra!!!

Marcel De Loretto

20 de novembro de 2008 18:36  

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

Links para esta postagem:

Criar um link

<< Página inicial

online