4 de nov de 2008

Festival macabro

O Atlético Clube Floresta é uma das agremiações mais tradicionais de Osasco. Localizado no centro da cidade, perto da estação de trem, é referência na região, com grandes bailes e festivais* de futebol a rodo. Além de sua festividade futebolística anual com troféus e chuteiras de ouro, o Floresta também aluga o espaço para festivais promovidos por outros times da região, times que não têm o seu próprio campo.

Em meados de 1964 foi armado um desses festivais, no campo do Floresta, promovido pela Funerária Nossa Senhora Aparecida - o time dos funcionários da empresa funerária. Um mês antes foram colados negros cartazes na cidade inteira, faixas foram penduradas em várias esquinas principais, e o boca a boca foi forte.

Quem preparou o festival – na verdade pagou um cara influente na várzea para fazê-lo - foi o dono da funerária, o Seu Solano. Era um entusiasta do futebol. Onde havia um jogo, uma pelada, lá estava o homem assistindo; dizem que parava na rua até para ver a pirralhada correndo atrás da bolinha de meia. Sua loucura pelo futebol era tanta que dizem que o velho torcia para todos os times. Num mesmo jogo, comemorava gols dos dois lados.

Mas Seu Solano era de uma tremenda excentricidade. Seu comportamento estrambótico causava receio em muita gente. Herdou um bom dinheiro, mas nunca se casou e se tinha família ninguém sabia; trajava, invariavelmente, um sobretudo preto e felpudo que o fazia suar em bicas e feder enxofre; era um homem de raras palavras e cara sisuda e tinha verdadeira obsessão pela morte, motivo que o fez abrir uma funerária.

Na sua empresa havia apenas um critério para a contratação de funcionários. Não era preciso ter experiência, vitalidade, vontade e até necessidade de trabalho. Seu Solano contratava moribundos. Quanto mais mal-acabado fosse o peão, melhor. Era um batalhão de desdentados, anêmicos, reumáticos e raquíticos depressivos. Parecia um filme de terror, a funerária. Um bando de mortos vivos, de zumbis, de almas penadas trabalhando pro Seu Solano. Era assim que – dizia ele – tinha de ser uma funerária de verdade.

Era muito, mas muito comum mesmo, as empresas terem time de futebol. Hoje ainda existe a prática, mas na década de 60 qualquer bodega de esquina, qualquer fabriqueta ordinária de fundo de quintal tinha seu escrete. Geralmente a coisa partia de um grupo de amigos que, precisando de patrocínio pro fardamento, pra bola e, principalmente pra cachaça de depois, solicitava àquele amigo pequeno empresário dar aquela força. Daí surgiram vários times com nomes de mercadinhos de bairro, oficinas e pequenos comércios. O caso da funerária Nossa Senhora Aparecida foi à contramão da regra. A idéia do time foi do próprio dono. O problema é que o esquisito Seu Solano não tinha amigos; sendo assim, não houve outra alternativa senão selecionar os pobres diabos de seus funcionários para o jogo que tanto queria promover.

O alegre clube do Floresta, no dia do festival, foi decorado de trevas. Causaram estranheza todos aqueles adornos na cor preta; faixas, fitas, o pau da bandeirinha, tudo escuro. A bandeira – um lençol todo preto - do time funerário hasteada lá no alto. Como todo festival, aconteceram os cinco jogos, um a um, dentro de uma quase normalidade, não fosse por ter havido, em todas as partidas, um minuto de silêncio. Sete vezes. Os cinco jogos foram interrompidos sete vezes para o “um minuto de silêncio”. Ordens do excêntrico Seu Solano.

O jogo final era justamente o do time fúnebre contra o E. C. Banco Mercantil, um dos piores quadros do futebol amador à época; time fraquíssimo, bisonho. Ao saírem do vestiário com aquele ar de desânimo, com aquelas olheiras fundas e aqueles olhares soturnos, os jogadores funestos do Seu Solano causaram dó na platéia. Em campo, mal se agüentavam. E não podia dar outra: os bancários pernas de pau acabaram sapecando 4 x 0 nos funerários, num dos piores jogos de todos os tempos.

Não obtive informações do que aconteceu depois disso com Seu Solano, sua empresa e seus funcionários. O que marcou este festival, no fim das contas – e por isso o fato é muito lembrado -, é que nenhum dos cinco times vitoriosos quis ficar com o troféu, e por vontade própria. Não por falta de consideração para com a organização do evento, pois não há time que desdenhe um troféu. Mas naquela tarde, no campo do Floresta, por unanimidade, os vencedores resolveram abdicar da taça pelo simples motivo de serem, os canecos, cinco tenebrosos caixões funerários. E o estranho Seu Solano entrou pra história do futebol ostentando a proeza de inventar o único troféu até hoje rechaçado.


* O festival é um evento que um clube organiza e convida outros times para participarem. Geralmente os festivais são realizados em um único dia, com cinco ou seis jogos, sendo o último jogo o do time que está realizando a festa.

6 Comentários:

Blogger Boselli disse...

Graaande cabra.

Excelente texto. Aliás, como todos.

Um grande abraço.

Fe

5 de novembro de 2008 16:06  
Anonymous Ava disse...

E ai Arthur blz
Muito boa essa história
O mãozinha fazia parte desse time?
hauhauauauahuahuauahuaau
Abraços

5 de novembro de 2008 16:49  
Blogger ClaudioYidaJr disse...

Cara, fico imaginando essa cena impagável dos minutos de silêncio ahahhahahahahahahahahahaha...

E como diz nosso cumpadre FH, o cara deve ser um "adorador do capeta".

Abraço, mano!

6 de novembro de 2008 12:36  
Anonymous Anônimo disse...

Artú, meu filho.
Como bom amante das letrinhas, o repórter aqui vem te dar parabéns.
Sua mãe e seu irmão, dito gêmeo, fizeram uma bruta propaganda dos seus dotes literários, além do, claro, dote relativo ao esporte bretão.
Bom, vim checar as tropelias relatadas por vc e casquei de rir.
Deu até vontade de soltar uns petardos no Anhanguera, rss, e ensinar o (joão) grandão do seu irmão Bruno a bater na bola e não em joelho!
Pode dar pr'um bom jornalista, viu?
"Primeiroooooo", diz o Tiguês aqui, ehehe.
abs.
Tiguês

7 de novembro de 2008 14:50  
Anonymous Piruca disse...

Excelente causo, neu irmão!!

10 de novembro de 2008 17:35  
Anonymous Carolina disse...

Aii adorei Arthur !!! Excelente, mas ...
Que medo. Hahaha ... Já sou cagona por natureza, ainda lí a história imaginando uma voz macabra, cre-do !
hehe, beijo.

11 de novembro de 2008 11:18  

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