4 de jul de 2008

Mais que só massagem...

Caímos, no penúltimo Domingo, na primeira fase dos Jogos da Cidade; torneio capaz de humilhar, em número de times, a bizarra Copa SP de futebol júnior e a enxertada Copa do Brasil, com mais de 400 equipes. Conquistamos o pior desempenho de todas as edições da copa. Não obstante, o Anhanguera, após ser eliminado, não despeitou; não houve confusão nem tapa na orelha do juiz. Mas não é do time, nem da pífia campanha, que quero falar. Apenas citei o torneio porque no último jogo um fato me fez lembrar um ícone do clube e do bairro na década de 40: o Dr. Zé.

Eu estava, injustamente, escalado no banco de reservas. Fui, até a metade do segundo tempo, quando precisávamos fazer um mísero gol, preterido. Acabrunhado, assistia ao jogo com ar de desdém, puto dentro do calção, e perguntava pra mim, pra Deus, e pro Neguinho, um torcedor bebum que, do outro lado do alambrado, pedia a minha entrada alegando “Põe o Arthur que ele é homem-gol”, como eu chegara nessa situação, esquentando o banco enquanto um monte de pernas de pau representavam o Anhanguera. Não obtive resposta de Deus, mas o Neguinho balbuciou: “Arthur, você é irreverente, polêmico. Tá certo que você anda em campo, mas você faz a bola rolar. O Marcelinho não tolera jogador assim; ele gosta de correria”. Resignei-me por instantes, mas depois me revoltei com o Daniel, o Gordo, simplesmente porque ele, o Gordo, é o técnico. O problema é que, no campeonato, quem escalava, sacava, dava bronca, preleção e xingo, era o Marcelinho, o auxiliar-técnico. A diretoria, alegando ser o Marcelinho mais experiente, botou o baixinho (parece o Romário) pra “ajudar” o Gordo. Mas houve, entre os dois, um acordo tácito para a troca de cargos. Aos poucos o poder e o comando do Gordo foram esmagados pelo Marcelinho, um marrento. O auge da inversão se deu quando, antes de começar o jogo, o mesário chegou-se no nosso banco de reservas e impôs uma regra do campeonato: “Só podem ficar dentro do campo, além dos jogadores reservas, duas pessoas”. Estavam Gordo, o técnico, Marcelinho, o “auxiliar”, e o Seu Osvaldo, o massagista. Começou a sessão de gentilezas entre o Marcelinho e o Gordo, culminando com o técnico ficando do lado de fora. Não foi cogitada a saída de Seu Osvaldo, velho esguio de 82 anos, que ficou em campo com o Marcelinho.

No exato instante em que vi nosso obeso técnico fora de campo, e já bebendo uma vodca com fanta, olhei pro lado e vi o velho (parece o Delegado da Mangueira) impávido, imponente em sua calada, mas sábia, conduta. Percebi, então, que o massagista é uma entidade no futebol e com ele ninguém deve mexer; não apareceu alguém que se atrevesse a contestar a presença do Seu Osvaldo ou insinuar sua importância. Há, no velho, alguma coisa de curandeiro e até de milagreiro, práticas divinas exercidas à exaustão pelo Dr. Zé (que naquele instante me veio à cabeça), o maior massagista que a várzea já viu.

Doutor Zé seria mais um José não fosse seu inexplicável relacionamento com a água; dizia ser a água o único remédio capaz de curar qualquer tipo de mazela, de olho de peixe à espinhela caída. Começou jovem como massagista do Anhanguera. Numa das primeiras partidas em que estava no banco, um jogador chamado Pardal sofreu uma fortíssima torção de joelho, que demoraria tempos para ficar bom, mas voltou a jogar em uma semana após o Zé ter-lhe feito uma massagem esfregando apenas água no combalido joelho. Zé, um analfabeto, passou então a ser chamado de “Doutor Zé”. Sua massagem milagreira curou, por completo e instantaneamente, várias torções, algumas luxações, um ou outro problema muscular e - há que jure - uma fratura exposta; tudo à base, pura e simplesmente, de H2O.

Após se espalhar pelo bairro a notícia do primeiro milagre, o “Caso Pardal”, o Zé, já devidamente apelidado de Dr. Zé, aderiu à alcunha e assumiu por completo a profissão que, se não angariou em bancos universitários, afirmava, por obra do Homem, ter se formado antes mesmo de nascer. Passou então a freqüentar os jogos do Anhanguera todo de branco, dos pés à cabeça. À tiracolo levava sua maleta de primeiros socorros que continha vários frascos de água e um vidrinho com água benta para os casos mais graves. Coincidência ou não, foi a época que o sport do Anhanguera ficou mais tempo invicto (quatro anos); os jogadores não tinham receio de botar o pé, a perna e até mesmo a cabeça em qualquer dividida. Acreditava-se que Zé incorporava o espírito de um médico morto na Primeira Guerra Mundial, que morreu afogado - daí a óbvia intimidade com a líquida. Passou a ser muito requisitado pela população e bateu a famosa D. Marcina em número de benzeduras. A pedidos, abençoava a água alheia e, por causa disso, foi o maior inimigo do Padre Luis, que ficou por cinco décadas a fio à frente da Igreja de Santo Antonio. Passou a diagnosticar doenças, adivinhar a previsão do tempo e os números da loteria, tudo isso sem sucesso algum. Jamais deixou de ser massagista do Anhanguera e morreu tempos depois vítima de um câncer que nem sua água curou. Sem glórias e esquecido.

O massagista, figura desprezada e ignorada, já não é mais o mesmo; não participa mais de um jogo. Nelson Rodrigues disse que o Mário Américo, por exemplo, era capaz de ganhar um jogo apenas rindo na beira do gramado; os adversários tremiam. Os relatos contam que os adversários do Anhanguera faziam de tudo, - nunca conseguiram - para comprar o passe do Dr. Zé. Quando fomos eliminados deste último campeonato, na saída do gramado, Seu Osvaldo, o último massagista vivo dessa estirpe, me puxou pelo braço e disse, em tom visionário: “Melhor assim”. Eu, que não sou besta pra duvidar da sabedoria do velho, nem perguntei o porquê, mas acabei ficando tranqüilo com nossa eliminação.



Dr. Zé: algum jogo na década de 40.

Seu Osvaldo de todos os Domingos

13 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Cabra,

De onde sai tanta imaginação ? hahahahaha. Dr Zé e a água, essa foi boa. Numa coisa concordo com você, apesar de morto você estaria melhor que o morto do Tony...pelo menos tocaria a bola pra eu fazer os gols...eu joguei após cirurgia e 04 meses parado...sua moral está na lona Cabra...

Abs,

Angelo

4 de julho de 2008 16:25  
Blogger Arthur Tirone disse...

Angelo: Me surpreende você não saber essa história. Você está se atendo muito à atualidade e aos registros em atas. Há muita coisa que não está nos escritos. Agora... Como é possível você não se lembrar do Dr. Zé????

Terei que apelar publicamente ao pai, coisa que nunca fiz. Diz aí, ô Mima!

4 de julho de 2008 16:34  
Anonymous glauton disse...

com o polêmico homem-gol no banco, tal destino estava traçado já! hahaha

e pelo jeito o livro que o Angelo está correndo atrás vai precisar de um capítulo para contar essas histórias e personagens que ficaram apenas no boca a boca!


abraços

4 de julho de 2008 17:50  
Blogger Felipinho disse...

Camarada Arthur, tenho certeza que os serviços do Dr. Zé dariam jeito no joelho podre do Digão Folha Seca. Aliás, você tem que comparecer à nossa pelada dominical, temos ilustríssimos atletas, todos amigos da Folha Seca e da rua do Ouvidor. Nos encheria de orgulho ter um atleta do Anhanguera em nosso escrete.

Abração.

7 de julho de 2008 09:54  
Blogger Arthur Tirone disse...

Camarada Felipinho, pois quando você e o Digão vierem pra São Paulo, os levarei ao Anhanguera; o Dr. Zé certamente curaria o tal joelho, mas aposto que o Seu Osvaldo, no mínimo, daria uma sobrevida ao menisco, aos ligamentos, ou qualquer que seja o motivo da podreira.

E anote aí: quando eu voltar ao Rio - não demorará - participarei, muito honrado, da pelada dominical da Folha Seca e, obviamente, da porranca de depois.

Grande abraço!

7 de julho de 2008 10:46  
Blogger ClaudioYidaJr disse...

Cuspi o café na tela de tanto gargalhar com "Arthur, você é irreverente, polêmico."

Fantástica história!

Abraços, mano véio!

7 de julho de 2008 13:58  
Anonymous Rodrigo Ferrari disse...

É, meu joelho está mal, mas podre? Cereal, vê se te enxerga. Você sabe que sem os meus lançamentos sua média de gols seria bem menor.
Reza para o meu joelho melhorar...
Arthur, estamos aguardando você para a pelada e para o já tradicional gelobol que rola depois. Estamos combinando o primeiro churrasco da pelada, provavelmente será no dia 3 de agosto. Venha nesse dia e traga o Szegeri e o resto da moçada.
Abraços,
Digão

7 de julho de 2008 15:34  
Blogger Arthur Tirone disse...

Cráudio, o Neguinho tece tremendos elogios ao meu futebol. Num desses, ele mandou "Arthur, você tá gordo que nem o Neto!". Ainda bem que ele não citou o Fenômeno, né?!
Abraço, velho!

Digão, nessa não posso faltar. Vou convocar a rapaziada aqui!
Abração.

7 de julho de 2008 16:02  
Anonymous Ava disse...

E ai Arthur blz
E concordo com o Neguinho que estava cobrando sua entrada na partida
Pois vc joga com o coração pelo time "coração e pulmão podres "mas joga
Sera que o Dr. Zé estaria rondando por ai em algum centro espírita para curar o meu joelho tb
Abraço Arthur

8 de julho de 2008 13:49  
Blogger Szegeri disse...

Ava (é o Avari?), se você encontrar o tal centro, o cavalo vai ficar rico rapidinho. O que tem de joelho podreco...

E, atletas da Ouvidor, podem contar comigo: cair dentro da pelada é uma das coisas que faço melhor na vida, segundo insuspeitíssimas opiniões colhidas ao longo da minha carreira.

10 de julho de 2008 20:19  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Ô Favela, seu porra, estou te esperando na minha modesta casa tijucana até agora. Nem pense em hotel. Avise quando virás e eu te entrego a chave.

11 de julho de 2008 01:40  
Blogger Arthur Tirone disse...

Avary: o Szegeri já te respondeu. O barbudo tem o joelho - creia! - mais podre que o seu. A rótula do malandro é estilhaçada.

Szegeri: Meu velho, temos que estar presentes nesse próximo Gelobol, heim!

Simão: Combinado. Ligar-te-ei e pegarei a chave. Se tudo der certo, heim...

11 de julho de 2008 10:01  
Anonymous Arnaldo disse...

mpagável. Parabéns Arthur pelo texto precioso, valorizando essa profissão em extinção que é a do massagista esportivo. Muito obrigado! Arnaldo V. Carvalho

25 de junho de 2013 10:24  

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