6 de abr de 2009

O grande clássico - Parte VI

Enquanto a confusão não era resolvida, Guimarães e Pirica, os dois mancando, em farrapos, se postaram embaixo do gol, cada um colado em uma trave; e o Laurino no meio do gol, pra pegar qualquer chumbo que viesse. O zagueiro que quebrou o pobre Alfredo Sá foi quem bateu a falta. Lupa - o único jogador adversário citado no livro - era o nome do carniceiro. Faltava um minuto pro apito final. O empate daquele jeito – Lobo foi quem converteu o pênalti -, para o Anhangüera, estava de bom tamanho. Lupa bateu a falta; enfiou o pé tão forte que Laurino não teve nem tempo de pular na bola. Foi no canto alto do seu lado esquerdo.

A bola de couro, num chute tão potente, quando chegou ao gol, devia estar pesando coisa na casa das toneladas. A redonda chegou no gol, mas não entrou. O goal-keeper Laurino estava batido, mas Pirica estava lá no pé da trave e meteu a cabeça na criança. O coitado, que já estava bem machucado apenas fazendo número em campo, caiu desmaiado dentro do gol com a pancada na moleira. Pra aumentar o prejuízo, a costura da bola abriu sua testa e o sangue jorrava nas redes. Nunca o rubro negro foi tão vermelho.

Pirica estava estatelado, mas a bola estava em jogo, subindo, indo, indo. Foi, da cabeça do Pirica, cair no meio do campo. A cena da bolada e da queda dramática do jogador foi tão forte, tão impressionante, que deixou todos os jogadores, o juiz e a assistência em estado de choque. Todos os olhos pararam na agonia do ensangüentado Pirica, menos o predestinado Saverio Russo, que saiu correndo desajeitado, olhando pra cima, acompanhando a trajetória do couro, parecendo um moleque atrás do balão.

Com certa dificuldade dominou a menina e correu, correu sem olhar pra trás. Saverio corria como um garoto afoito! Seu objetivo de ser reconhecido como jogador estava quase sendo alcançado. Ficou cara a cara com o goleiro, fechou os olhos e emendou da entrada da área. O chute saiu fraco, torto, mas enganou o guarda-metas. A bola, de mansinho, tinha endereço certeiro; o guardião, sem chances, não conseguiria mais pegar. No momento do chute toda a torcida virou os olhos de um lado do campo para outro. De Pirica, que se oferecera em sacrifício, para Saverio, seu redentor. E explodiu, incredulamente, antes de a bola entrar, em uníssono um “gol” histórico. Barthô e os reservas entraram em campo dando pulos de alegria enquanto Saverio aguardava ansioso a bola atravessar a linha que lhe daria o epíteto de herói.

Ninguém poderia impedir o gol. Mas estava em campo Miguel Clemente. E foi só a bola passar pela linha da pequena área, a dois metros e meio do gol, pra que ele assoprasse o apito final. Quando a bola chegou às redes, Clemente vinha correndo do meio do campo balançando os braços, fazendo sinal de “fim de jogo” e não validou o tento. O pau quebrou; o juiz pulou o muro e correu toda-vida. Em meio a toda aquela babilônia, o troféu sumiu. Testemunhas afirmaram que fora surrupiado por um fanático do Carlos Gomes.

O Partido Democrático da Barra Funda oficializou o empate e o Anhangüera cortou qualquer tipo de relação com o Carlos Gomes, já que o gatuno não devolveu a taça. Os dois times voltariam a se enfrentar apenas mais uma vez, dezenove anos depois. Sá, aos 23 anos, teve de encerrar a carreira por causa da fratura. Clemente, numa das arbitragens mais descaradas de todos os tempos – só não foi a maior porque não roubou para os dois lados – sumiu por um bom tempo, voltando ao Anhangüera um ano depois através de uma carta arrependida. Barthô voltou a campo no jogo seguinte e continuou sendo a menina dos olhos do time e das moças.

Saverio Russo foi único, dentre essa turma da época da fundação, que permaneceu por longínquos cinqüenta anos na agremiação, até sua morte. O jogo contra o Carlos Gomes acabou ficando mais marcado pela briga no final que pelo jogo jogado. Com o passar dos anos seu gol acabou sendo considerado uma lorota, uma lenda, já que o resultado oficial foi empate de um tento. Mas o livro de registros encontrado por seu neto Pepe esses dias confirma a veracidade do velho Saverio. Apesar de a agremiação ter disputado inúmeros campeonatos e levantado mais de cem taças, o fundador do Anhangüera fez, incontestavelmente, o gol mais importante e dramático dos oitenta anos de vida da agremiação. Um gol longínquo, obscuro, pilhado.

E o troféu subtraído, única prova viva e imortal do arrojo de Saverio Russo, descansa incólume há oito décadas em alguma estante. Sob a poeira do esquecimento exibe em sua plaqueta de prata - ainda que olhos não possam ver - seu nome devidamente grafado.

(Final)

7 Comentários:

Blogger Felipinho disse...

Que larápio este Miguel Clemente. História maravilhosa, fizeste muito em compartilhá-la conosco.

Abração, meu irmão.

6 de abril de 2009 11:57  
Blogger Bruno Ribeiro disse...

Ah, que beleza! Que beleza! Que rotunda beleza! Precisamos beber urgentemente!

6 de abril de 2009 23:07  
Anonymous Anônimo disse...

Eu já sabia, kkkk

Bruno Tirone

7 de abril de 2009 13:06  
Blogger Claudio Yida Jr disse...

Tipo o gol do Tevez que aquela FDP daquela bandeira desgraçada anulou... Né, Brunão???

Fantástica saga de Saverio!

7 de abril de 2009 13:52  
Blogger Szegeri disse...

Memorável! Antológico! Um lance que deve ter durado, da batida da falta ao chute de Saverio, se muito, 30 segundos. Narrado em tom de epopéia, como só os grandes narradores sabem, faz durar uma eternidade. A eternidade do drama. Desse grande e incomparável drama chamado futebol.

7 de abril de 2009 16:15  
Anonymous Anônimo disse...

Bonito Cabra...atualmente você é o nosso Saverio Russo..hahahaha.

Vc é um fenômeno.

Bjs

Angelo

9 de abril de 2009 08:47  
Blogger WILLIAM disse...

Confesso que pulei umas linhas e li primeiro o final do texto e fui voltando, tamanha a ansiedade que se fez para saber o desfecho da viagem daquela bola...

Placar moral da partida: Anhangüera 2 x 1 Carlos Gomes.

16 de maio de 2009 20:09  

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