15 de abr de 2009

Ventre livre

Quem não conhece um cagão?

Não, não estou me referindo ao medroso, ao poltrão, àquele sujeito que se arrepia todo nas situações mais temíveis. Aqui nesta crônica falo é daquele caboclo que tem, digamos, um intestino “soltinho”. E falo daquele caboclo, e não daquela. Porque, meus caros, se há uma coisa que distingue um homem de uma mulher é, de fato, o intestino. Tenho absoluta certeza de que o homem é desprovido do intestino grosso, ou seja, tem apenas o reto; e se dispõe só do intestino reto não há, portanto, curvas, o que facilita o serviço e faz com que o homem evacue sem maiores percalços. Diferentemente das mulheres, pobres mulheres. Como sofrem! Não existe uma mulher que não deseje o relógio biológico que os homens detêm. Não há uma só mulher que não inveje o poder de abstração do homem na hora H. Salvando raríssimas exceções, as mulheres simplesmente travam. Elas conseguem ficar dias sem “ir de corpo”. Mas tenho pra mim que o buraco (opa!) é mais embaixo. Há o fator social, cultural. Explico.

A mulher não é criada para porquices; e o homem é que é imundo. Pensem numa donzela arrotando escandalosamente após se fartar de feijoada. Impossível! Já os meninos, ainda na infância, são treinados exaustivamente para a prática do cuspe e do mijo em distância, do arroto mais longo, da flatulência mais volumosa. Por isso o fato de a grande maioria das mulheres ser travada; são criadas para o asseio extremo, além até do limite humano. Daí acabam precisando de mil e um produtos; cereais, danoninhos especiais, remédios, tudo para conseguir dar aquela evacuada básica que nós, homens, damos diariamente.

É claro que há os travadinhos também. O que explica um homem não fazer cocô se não for na sua casa, por exemplo? Uma tremenda frescura! Um cabra macho, um varão, não faz cerimônia para defecar em qualquer lugar, seja num boteco, no trabalho, na casa da nova namorada ou daquela tia mais chique.

Mesmo assim, para tudo há um limite. Quando a coisa extrapola o que é natural, biologicamente falando, é que surge a estimável e doce figura do cagão. Entre umas e outras dessas celebridades que a gente vai trombando na vida, uma me é especial. Atende pelo nome de Daniel Frangiotti da Silva, meu querido irmão, o Gordo. Quantas vezes liguei em sua casa e ouvi sua voz acompanhada de um eco. Batata: o Gordo sentado em seu trono. E quantas vezes saíamos e meu dileto amigo tinha que entrar às pressas num botequim e perguntar com a maior cara de pau “onde é o banheiro?”. Quantas vezes, nos momentos e lugares mais inusitados.

O grande problema é que o Daniel é acometido por um agravante. Uma emergência fatal, uma explosão inesperada, um bicho que desperta constantemente. Um mal ao qual o próprio apelidou “pânico”, e que o ataca implacável e violentamente. Presenciei vários pânicos do Gordo – o último na semana passada, no Anhangüera -, um troço realmente terrível. Quando meu bom amigo é surpreendido após aquela mordida na lingüiça mal passada, após se deliciar naquele pastel oleoso, após aquela vodca vagabunda, se faz necessário um toalete a poucos metros de distância, e que esteja, obviamente, desocupado. Daniel sempre deu sorte, menos uma vez há dez anos no bar Adrenalina, Rua Jaraguá com Avenida Rudge. Eu não estava; quem me contou foi o Valtinho. Disse-me que foi a cena mais cômica que nosso rotundo amigo protagonizou.

Estavam os dois curtindo um samba em meio a vários camaradas do bairro. O Adrenalina foi, durante uns dois anos, o point - expressão nojenta que estava na moda - do Bom Retiro. Quem é da minha geração certamente freqüentou o bar. Nesta noite de sexta, os dois bebiam honestamente e paqueravam umas perdidas; tudo nos conformes. Eis que, súbito, Gordo aperta com força os braços do Valtinho, chacoalha o amigo olhando apavorado no fundo de seus olhos e diz, misterioso e aflito, a palavra que resume a razão de todo o seu pavor: “Pânico!”.

Correu para o banheiro do bar, que tinha na fila dois caras. Implorou que passasse a frente, por motivos de força maior. Pedido negado. Gordo correu pra fora do bar. Olhou, em vão, para um lado e para outro à procura de uma latrina. Novamente fitou, dessa vez de longe, o Valtinho como quem diz “agora danou-se!”, e saiu em disparada pela Jaraguá. Valtinho, um bom amigo, correu atrás, gritando calma ao camarada. Mas como poderia o Gordo estar calmo? O “pânico” estava em seu último – e único - estágio, e o suor frio lhe escorria a face, descia-lhe a espinha.

Sua casa fica a cinco quadras do bar, não daria tempo; a esperança era encontrar um boteco aberto, mas nada. Foi então que Daniel, torturado pelo pânico, desesperado, avistou a alguns metros sua salvação. Nunca, em toda sua vida, sentiu tamanho alívio. Só podia ser obra divina. Na rua deserta estava lá o esperando, como que de braços abertos, uma caçamba lotada de entulhos. Ainda correndo desabotoou a calça que escorregou, deixando à mostra suas nádegas balançando feito gelatina. A três metros da caçamba deu um salto digno de um João do Pulo e pronto. Cagou - Valtinho é testemunha! – rezando, agradecendo pela boa alma de quem contratara aquela caçamba. A caçamba redentora.

12 Comentários:

Blogger Claudio Yida Jr disse...

Sei muito bem o "Pânico" do Daniel. Malandro, imagine você ter que sair do meio do Cordão do Bola Preta, em plena Av. Rio Branco empanturrada de gente, porque seu intestino resolveu trabalhar em pleno carnaval?

E não tem maior desprazer do que você começar a comer e ter que sair pra dar aquela cagada. Sou extremamente solidário ao Daniel, por fazermos parte da mesma confraria. Só que caçamba eu AINDA nunca tive que encarar ahhahahahaha...

16 de abril de 2009 10:18  
Blogger Filipe disse...

Enredo de terror!
Para o cagão, obviamente...

Bela crônica escatológica!

16 de abril de 2009 12:51  
Blogger Bruno Ferraz (sOUL) disse...

HAHAHA
Cara muito bom, ja passei por umas situações parecidas, mais na caçamba é foda. hahahahaha

Eu acabei lendo aqui pela indicação no post do Japonês.

Vo adicionar nos favoritos do meu blog.

Um abraço hahaha.

16 de abril de 2009 15:50  
Blogger Szegeri disse...

Um dos textos mais líricos dos últimos anos. "Porque, meus caros, se há uma coisa que distingue um homem de uma mulher é, de fato, o intestino." Poesia pura.

16 de abril de 2009 18:35  
Blogger Carolina Mello disse...

Hahahahaha ...
Adorei Arthur ...
Muuuito bommm ...

Beijo's

17 de abril de 2009 15:13  
Anonymous Anônimo disse...

Merda acontece.

Luiz.

17 de abril de 2009 22:26  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Concordo com a pertinente observação do Szegeri.

17 de abril de 2009 22:33  
Anonymous Anônimo disse...

É á única pessoa com quem saí, que além do celular, chave de casa, carteira, e três maços de cigarro,leva em algum dos bolsos o seu papel higiênico.

Bruno Tirone

19 de abril de 2009 14:53  
Blogger Renato disse...

Não tenho muito a comentar sobre o texto, tenho a falar que já passei por apuros iguais, como aquele famoso..."ih esse pesou...."rsrs
Mas na verdade entrei no blog, para matar saudades deste personagens, autaores e jogadores que tanto gosto. Sumi isso é verdade, mas nunca esqueci desta familia, logo farei uma visita.

Deixo meu abraço a todos

Renato / Xuxinha / ou Buiu como quiserem

20 de abril de 2009 16:42  
Anonymous Daniel Frangiotti disse...

Um dos melhores assuntos quando saimos pra beber com certeza é a merda, todo mundo tem sua história de pânico e isso nos rende belas risadas, viva a cagada de cada dia! Fim aos pânicos indesejados!
hahahaha

Abraço mano
Belo texto

28 de abril de 2009 10:04  
Anonymous Piruca disse...

o triste é imaginar a cena...
huauahuahuahuauh

29 de abril de 2009 12:16  
Anonymous Anônimo disse...

hahahaah, muito bom arthuca...
Um dia quero presenciar um pânico do Gordo.
Abraçosss.

Alemão

4 de maio de 2009 18:45  

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