15 de mai de 2009

Madrugada no Bom Retiro

Paulinho Timor, batuqueiro dos Inimigos do Batente, bateu-me o fio na segunda-feira. Queria comemorar seu aniversário, que foi ontem, no Anhangüera – ano passado foi lá também. Fiz o meio campo e ficou tudo acertado. Eu já imaginava que, sendo a festa de um dos maiores vagais que conheço, a refrega seria extensa. Cheguei as onze da noite e fiquei até uma e meia, coisa suficiente para beber, conversar e bater um samba de malandro com Sucena, Homero, Arcanjo, Mauro de Jesus, Lobo, Mineiro e outros sambistas de boa cepa.

Hoje pela manhã recebo e-mail de Wilson Travia, diretor-tesoureiro do clube. Na mensagem consta que “a festa começou às 13h e terminou às 7h”. Se quando fui embora – seis horas antes do término, portanto -, o estado etílico da rapaziada já era preocupante, imagino hoje, com o sol raiando.

Falando em beber, uma vez, de passagem, presenciei uma festa de bolivianos num salão no Bom Retiro, mais precisamente na Rua da Graça. Há muitos deles trabalhando como escravos dos coreanos nos comércios e galpões da José Paulino. A festa estava no fim e os cachaças já saiam do salão. A impressão que eu tive - e até parei pra acreditar no que via – era a de que estavam saindo de uma guerra. Os bolívias, indecorosamente bêbados, se abraçavam no meio-fio. Estavam todos estropiados, sem exceção. Narizes sangrando, olhos inchados, roupas rasgadas e sujas. Discutindo de maneira desordenada, ainda empunhavam garrafas de cerveja e caninha braba. Só então que reparei que aqueles abraços não eram abraços; eles estavam era se escorando uns nos outros com o único propósito de não caírem com a fuça no chão. Apesar de não se agüentarem de pé, continuavam a beber e discutir vigorosamente, um negócio que eu jamais vira.

Perguntei a um morador do prédio em frente e ele me disse que é assim mesmo, como um ritual; os bolivianos bebem como porcos furiosos e brigam, se matam; depois voltam a beber, como se nada tivesse acontecido. Na maioria das vezes, porém, a polícia do 2º DP chega e desce o cacete nos bebuns; e geralmente fica por isso. Como todos eles vivem de maneira ilegal por aqui, se borram de medo da justa. Basta ver a polícia pra que dêem no pé rapidinho. Sebo nas canelas!

Ainda na festa do Timor, um amigo seu, o Bruno - que inclusive comentou neste blogue quando esteve na Alemanha fazendo seu doutorado -, veio me chamar: “- Precisamos comprar cerveja, só que não conheço os botecos daqui. Você vai comigo?”. Passou um tempo e, após mais alguns apelos – dali, só eu era da Barra Funda -, larguei o cavaco e fomos, nós dois. O destino era o Bar Fofoca, o único bar do bairro que mantém as portas abertas por toda a madrugada. Entramos imponentemente com três engradados, para a troca das ampolas. O bar, que estava lotado, parou. Pelezão do Camisa, Chico Farmácia, Gaúcho (que nos ajudou com as caixas) e Pulguinha me perguntavam onde era a orgia. Do Fofoca do grande Valter – que nos deu um belo desconto – fomos para a padaria 24 horas da Rua dos Italianos com a Barra do Tibagi. Pão para a patuléia!

Bruno ficou no carro me esperando. A padaria tinha, naquele instante, coisa de sete, oito fregueses. Todos bebendo cerveja, à exceção de uma senhora baixinha e roliça, que falava para o senhor do caixa que o tatu era um bicho “da época das cavernas”. Foi isso o que ouvi. Quando entrei ouvi gritos; era uma discussão entre dois irmãos bolivianos. O balconista já ameaçava os tirar dali a base de pontapés, pois um já estava dando cascudos no irmão mais novo. Os dois, logicamente, mais bêbados que toda a festa do Timor lá no Anhangüera, junta. Pedi 60 pães e espreitei, pelo espelho do balcão, uma viatura com dois militares encostando. Os bolívias, em choque, ficaram imóveis e, depois, começaram a se abraçar. Enquanto o balconista que me atendia foi buscar mais pão, um dos guardas entrou como quem não quer nada e se encaminhou para o balcão. O outro ficou na porta com a arma na mão.

Ao meu lado, o policial pediu, bem baixinho para outro empregado da padaria: “- Posso usar sua balança? É que a nossa, da delegacia, quebrou”. O 2º DP fica a uma quadra, em frente ao portentoso Bar da Dona Ana. O do balcão fez sinal que sim e o tenente puxou um pacote do bolso. Os clientes que bebiam chegaram mais perto. Abriu o pacote que revelou umas vinte cápsulas de cocaína. O policial deitou-as na balança e falou: “Beleza!”. A assistência toda fez um “UH!” em uníssono. E começou a gozação: “- Quanto é o quilo?”, “- Que flagrante, doutor. Vai ser promovido!”. Todo mundo comentava, puxava conversa com o homem da lei, menos os dois irmãos do país do paladino Bolívar, ainda inertes e pálidos. O policial sorriu, disse estar com pressa. Embrulhou a farinha e deu no pé.

Meu pão chegou. Os funcionários e clientes, incrédulos, teciam todas as hipóteses possíveis. Fui ao caixa – o senhor ainda estava ouvindo as enfadonhas conversas da senhora gorda -, paguei e sai. O Bruno já devia estar preocupado com a demora. Já atravessando a rua em direção ao meu carro, começou a balbúrdia na padoca. Eram os dois bolivianos se batendo...

5 Comentários:

Blogger Felipinho disse...

Estão por toda a parte aí. Lembra quando fui pela primeira vez no bar do Sinval e tinha um boliviano vendo o jogo do lado de fora?

Mais um conto ducaralho, Favela.

15 de maio de 2009 17:30  
Blogger Julio Vellozo disse...

Favela, abri um blog também.

www.casagrandefutebolclube.blogspot.com

abraços,

Julio Vellozo

15 de maio de 2009 22:03  
Blogger Luiz Souza disse...

Lá na Bolívia não tem uma festa em que todo mundo sai na porrada - provavelmente para agradar algum "esprito" - e depois, com a cara cruenta, todo mundo se beija, se abraça e toma todas?

Luiz.

18 de maio de 2009 10:05  
Blogger Claudio Yida Jr disse...

A coisa vai ficar melhor ainda, Favela. Estão chegando iraquianos aos borbotões!

18 de maio de 2009 11:23  
Blogger André Carvalho disse...

Favela, cheguei ao meio-dia e fui embora às 5 da manhã...

20 de maio de 2009 12:08  

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