23 de set de 2009

Afrodisíaco de malandro

* Para Fernando Szegeri


Sábado fui ao casamento de um amigo de infância num buffet chamado Baiuca, salão que abriga boa parte da nata paulistana, e que eu não conhecia. Acomodei-me numa mesa perto do bar, onde pululavam garrafas de Black Label. Cerveja era só Nortenha, uma uruguaia barriguda que é boa. Não é uma Brahma, mas é boa. Daniel, o Gordo, e Valtinho, se esquiafaram no Black. Eu, que não bebo uísque, fiquei na cevada. Não bebo uísque e sei que perco uma belíssima bebida; é que aos dezesete fui parar no Hospital das Clínicas desacordado. Aquela garrafa de Red que eu bebi foi a última.

Enquanto eu deglutia uns canapés, o Gordo derrubava mais um copaço de Black. A mim me fez uma tremenda falta uma bebida diferente, pra acompanhar a uruguaia. E pensei logo numa bebida que tem feito minha cabeça há um bom tempo: Cynar! Não é uma bebida muito sofisticada e talvez não combine com uma festa no Baiuca, mas faria grande diferença pra mim.

O Cynar é tradicional entre os bêbados que têm menos compostura. O rabo-de-galo (pinga com Cynar) está entre os três "drinques" mais servidos nas bodegas do Brasil. De minha parte o saboreio purinho, assim como o Seu Soares, um senhor que sabe das coisas. Seu Soares bebe no mesmo bar há trinta anos: o boteco do saudoso Zé Mané na esquina da Rua Anhangüera com a Rua Garibaldi. Depois da morte do português, um paraíba assumiu o bar. O ponto virou palco para lastimáveis cantores de videokê e entusiastas de 51. Seu Soares, que nunca misturou o Cynar com 51, está todo os dias no bar. O paraíba só vende rabo-de-galo (ou só pinga, ou só Cynar) e Skol.

O velho Soares é aposentado. Aos 76, viúvo sem filhos, vive da nostalgia dos grandes tempos do bar do português, seu amigo do peito. Não sai dali porque há muitos anos atrás fez uma promessa de responsa ao Zé Mané: jamais beberia em outro bar da Barra Funda. E cumpre assim sua missão diária de aturar bêbados desqualificados e beber Cynar. Os antigos frequentadores morreram ou estão com sérias limitações causadas pela idade; o único ainda em "bom estado" é o Quito, nosso roupeiro do Anhangüera, que nunca mais apareceu por lá depois da morte do Zé Mané.

Ninguém do bairro bebe no bar do paraíba que se instalou ali - aquilo virou um lixo! Nem os velhos, nem a geração do meu pai, nem a minha. Outro dia parei lá única e exclusivamente pra curtir uma nostagia, também. Cheguei a ir ao bar quando o patrício era vivo. O bar tinha clientes de respeito! Eu me lembrava do Seu Soares (o conhecia de vista); ele é que não me reconheceria - seria um disparate se fosse o contrário, convenhamos. Eu beberia uma cerveja - coisa rápida - e seguiria pro Bar do Sinval, um pouco mais a frente. Desisti da cerveja quando vi aquele velho recostado no balcão, com um ar triste: bebendo uma dose cavalar de Cynar. Pedi um também. Puxei algum assunto. O papo, que começou tímido, foi que foi. No fim das contas nem fui pro Sinval. Seu Soares me contou muita coisa do bairro e grandes histórias do Bar do Zé Mané e de seus assíduos frequentadores. Me falou da sua vida e da promessa que fez de sempre beber ali, mesmo "tendo que aturar esses péssimos bebedores". Seu Soares é bom pra beber, pude comprovar.

Em algum instante da conversa falamos sobre cerveja. Seu Soares já estava soltinho, soltinho. Me pegou pelo braço, parou por um instante, e retomou eufórico: "- A molecada da tua idade não sabe nada... e os mais velhos estão ficando bobos!". Eu abri um sorriso como quem diz "prossiga". O velho retomou: "Tem uma cerveja que eu não vejo mais ninguém bebendo, nem vendendo, que bebo há décadas. Tenho estoque em casa!". Afirma, Seu Soares, que só vive com saúde até hoje, que carrega o peso que for, que tem joelhos de menino, que não caiu em desgosto na vida, e que seu pau ainda enrijece por causa da Caracu que bebe - batida com ovo - todos os dias.

Lembro-me que em determinado momento no casamento de sábado passado - enquanto os integrantes da banda contratada se apresentavam vestidos como os personagens do seriado Chaves - participei, sem querer, de uma conversa com uns caboclos metidos a besta, amigos do meu camarada que casava. Um deles também era amigo do Valtinho. Falavam de afrodisíacos, um assunto que nunca me seduziu. Aliás, acho uma viadagem. Citaram nomes que eu jamais ouvira: cantárida, larginina e outras papagaiadas. Um deles afirmou que "caviar excita". Outro disse que "o gengibre estimula". Pedi licença para ir ao banheiro e mantive distância daqueles xaropes até o fim da noite.

E no banheiro chique refleti: Será - me responda, meu irmão querido - que o Seu Soares sabe o que é um afrodisíaco?

9 Comentários:

Anonymous Daniel Frangiotti disse...

Mano veja só, meu avô morava numa chacará e lá tinha diversos animais, ele pegava um ovo fresquinho de alguma pobre galinha, colocava no bolso da camisa, e andava 2 quarteirões até chegar no buteco do seu Mirto(com sotaque caipira) que preparava para ele o Caracú com ovo, ele fazia isso todos os dias, todos, o velho viveu até os 93 anos.
Caracú é a bebida da vida!

O casamento do Antônio e da Carol foi lindo, até onde lembro. Ainda bem que não ouvi essas pessoas, mataria um na hora do "caviar excita".

Abraço mano, belo texto, viva a Caracú!

23 de setembro de 2009 13:24  
Blogger Diego Moreira disse...

Grande Favela,

naquele tempo, com um linho S-120, uma esticada no cabelo, um pisante invocado e uma dose de Caracu com ovo... Malandragem, não tinha pra ninguém.

Abraço!

23 de setembro de 2009 17:22  
Anonymous Anônimo disse...

Cabra,

Afrodisíaco é viver bem a vida...feliz, com a família, amigos, sambando, bebendo e cantando...além de um futebolzinho lógico.

Realmente imagina essa mulecada de hoje quando ficarem velhos...as boas e velhas estórias acabarão...

Bom, vou nessa que vou até o Mineirão ver o Verdão quebrar o Cruzeiro.

Abs,

Angelo

23 de setembro de 2009 17:53  
Blogger Arthur Tirone disse...

Daniel, como diz a propaganda que postei junto com o texto, propaganda essa de 1958: "Beber Caracú é beber saúde!". Abraço!

Grande Diego Moreira! Seja bem chegado (acho que é teu primeiro comentário aqui)!
O Seu Sores é desse naipe que descreveste. O velho é problema!
Abração.

Angelo:, falou e disse. Beijo.

24 de setembro de 2009 17:50  
Blogger André Carvalho disse...

Textão!

24 de setembro de 2009 18:46  
Blogger Szegeri disse...

Respondo, querido mano, ainda que com atraso: afrodisíaco de homem é mulher. Beijo

14 de outubro de 2009 14:30  
Blogger Arthur Tirone disse...

Esse é meu compadre!

14 de outubro de 2009 15:37  
Anonymous Anônimo disse...

uhauhAHUAuhaahuHUAHUAhuaUHAua
AhuAUHAhuaHUAuhaHUAuhaAHUhua
UHAHUahuaHUahuaHUaAHUahuAHUahuAHU

EU SOU SEU FÃ!!!!

aBS,

SHERRA

5 de novembro de 2009 12:03  
Blogger Unknown disse...

M-O-R-A-L-I-Z-A-D-O-R
nada menos que isso.

5 de janeiro de 2016 18:56  

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