15 de set de 2009

As manias do Freitas

Sem querer ser cansativo, reitero: dos inúmeros clubes varzeanos da região, só sobreviveram dois, Anhangüera e Nacional. A principal razão que me vem à cachola é simples; eram – e ainda são - os únicos dois que dispunham, além do campo de futebol, de um salão social para festividades. A prefeitura jamais subsidiou qualquer agremiação. Pelo contrário, sempre marcou em cima o funcionamento e o cumprimento dos regulamentos dos estatutos. Vai daí que a diretoria, composta por membros da comunidade, tinha que se virar pra pagar água, luz e a porra toda, de modo que o salão social assegura uma fonte de renda indispensável.

No começo da década de oitenta o nosso campo abriu vaga para aluguel aos sábados à tarde. Após algumas propostas risíveis, um time bateu o martelo: o Liberty Plaza, que tinha o apelido de Libercom. Era um time conhecido no ambiente amador por montar esquadrões de respeito. Fundado na década de setenta por Freitas, um homem cheio de manias, o Libercom atingiu seu ápice no começo dos anos 90 e morreu dez anos mais tarde, quando Freitas cansou.

Nos últimos quarenta anos, desde que o Anhangüera detém a atual praça de esportes, mais de trinta times alugaram nosso campo aos sábados, já que o rubro negro sempre jogou aos domingos. Nenhum deles, no entanto, estreitou relação conosco como o time do Freitas. Com dois quadros – veteranos e 1º -, muita gente se reencontrou após longa data. No time do Freitas jogavam os veteranos Arnaldo, Gaúcho, Nelsinho e outros craques do passado que, na várzea, jogaram ao lado – ou contra – nossos veteranos. Já o primeiro quadro era uma potência. Seu principal jogador chamava-se Neco, um camisa dez do naipe de um Zico, sem exagero. Neco foi profissional e encerrou a carreira quando Henrique – o zagueiro queixudo do Corinthians – quebrou sua perna. Foi, de longe, o melhor jogador que vi em campo até hoje. O cracaço faleceu há cinco anos, aos 37, vítima de um infarto.

Freitas é uma espécie de Vicente Mateus com Carlito Rocha. Era treinador dos dois quadros do Libercom, além de dono do time. Suas manias extrapolavam a beira do campo. A molecada, da qual eu fazia parte, o adorava. Antes do jogo, ainda no vestiário, Freitas dava a preleção – adorava um discurso cheio de parábolas – segurando uma guia. Antes de entrar em campo, a molecada fazia fila para o famoso cumprimento do mestre. A cada semana, Freitas inventava um “toque” novo. O aperto de mão ia se seguindo de um toque de ombro, de pé, de bunda; a molecada ia ao delírio com o velho. E o simples ato de cumprimentá-lo durava dois, três minutos.

Em pouco tempo Freitas já era treinador do segundo quadro do Anhangüera. Os jogadores do preto e amarelo – as cores de seu time – começaram a jogar no rubro negro e vice-versa. Os times praticamente se fundiram. Foi nessa época que eu entrei em campo pela primeira vez num time de adultos. Eu tinha catorze anos. Durante um ano devo ter jogado um total de vinte e cinco minutos, sempre entrando nos acréscimos, na ingrata lateral direita.

Sua fase como treinador do Anhangüera alcançou o expressivo número de 67 invictas. Mas Freitas era fanfarrão. Lembro-me do jogo em que o time estava com 28 invictas. Tomando de três a zero, faltando dois minutos para o fim, Freitas discutiu com um jogador adversário, foi pra cima do caboclo – ele nem era de briga – e deu um jeito de o jogo acabar: não contou como derrota. Alguns meses depois, com umas 52 invictas, o rubro negro estava tomando um sacode. Na metade do segundo tempo Freitas entrou em campo, tomou o apito do Lampião e deu fim no jogo. Sua obsessão eram as 100 invictas. Na 67ª não teve jeito. O Anhangüera perdeu, enfim. E o Freitas, relutante, cravou: estávamos há 67 invictos, agora estamos há 66.

Mas eu dizia que o salão social ajudou muito a segurar o Anhangüera. As festas do Libercom eram tão folclóricas quanto o seu patrono. Comida da boa e aquele glamour varzeano. Freitas empunhava o microfone e agradecia mais que o Maguila. Distribuía troféus e medalhas à rodo. Premiava todos os jogadores, a quem chamava de “filho”. As festas, anunciadas como “Jantar Dançante”, não tinham banda. A parte solene – discurso e entrega de troféus – dominava toda a noite.

Não satisfeito apenas com as chuteiras de ouro e condecorações aos diretores, Freitas passou a premiar as mulheres, “que davam apoio a seus atletas” e, mais tarde, aos filhos deles. Com o batido “bom pai, bom filho, bom amigo” ao apresentar cada um dos infinitos premiados, o velho Freitas fechava a noite - devidamente embriagado - com um Pai Nosso. Era uma festa imperdível!

Há alguns anos Freitas está afastado do campo. Mas essa figura ímpar deixou, além de vários amigos que continuam conosco todos os domingos, grandes recordações. E nos tempos atuais, em que figuras como esta nem são lembradas pelos atuais comandantes, deixo aqui meu recado ao querido Freitas: sua irreverência e suas manias fazem falta, elas quebrariam um pouco da “praticidade” que se instalou naquele chão, meu caro.

A criançada exibindo as medalhas: eu sou o primeiro da esquerda, meu irmão Bruno o quarto da esquerda para a direita, e meu gêmeo Angelo sentado.

2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Sensacional....Sensacional !!!!

O Freitas é uma dessas pessoas que merecem todo nosso respeito...uma pessoa que fez muito pelo seus clubes.

Foi jogando ao lado de Neco, Carlinhos, Paulinho e outros que comececu na várzea...tempos que não voltam mais !

Abs,

Angelo

15 de setembro de 2009 20:35  
Blogger Claudio Yida Jr disse...

Porra, e esse detalhe do Henrique queixudo hein? Bom, o cara era um cavalo mesmo.

E hoje realmente são poucos aqueles que respeitam e exaltam a luta de quem, lá atrás, prepararam o terreno. Preferem a modernidade...

Abraço!

16 de setembro de 2009 10:08  

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