28 de jan de 2010

Soltem o Barrabás!

Outro dia, no campo do Anhangüera, um coroa me pediu: “- Escreva alguma coisa sobre o Carlos Gomes!”. Retruquei que, vira e mexe, eu cito o tricolor. E ele: “- É, mas você só fala dos anos 30, 40. Escreva passagens dos anos 60, do período que eu presenciei!”. E eis que puxo, repuxo e, - é o estigma! - o assunto que me motiva a escrever sobre tal time é só um: sua torcida.

O time do Carlos Gomes da Barra Funda, extinto há quase trinta anos, foi a agremiação de maior torcida na região. Ainda hoje nenhum outro clube o ultrapassou neste quesito. Mas não era apenas uma torcida grande, a do Carlos Gomes: era fanática, desvairava e muito agressiva, ficando famosíssima na época dos irmãos Cabeleira (década de 40), uma turma da pesada que tocava o terror em todo mundo.

Mesmo depois dessa época dos Cabeleira, a torcida continuou a ser o grande trunfo do Carlos Gomes – muito embora sempre tenha apresentado grandes esquadrões. A enorme assistência acompanhava o time com a prontidão de uma beata dominical. Mas também com a cólera de uma besta: bastava um erro do juiz, um pontapé, ou mesmo um adversário tecnicamente melhor para a torcida inflamar e botar tudo abaixo. São inúmeras as histórias do Carlos Gomes em que a torcida é o protagonista e o time fica pra segundo plano.

Justiça seja feita: eram poucos os times que batiam de frente com eles. O problema é que, em qualquer situação desfavorável, a coletividade extra-campo entrava e levava a melhor no sopapo.

Teve um jogo, no ano de 1973, em que o Carlos Gomes enfrentou um time de Cotia, o Santo Antonio – um time onde os jogadores todos eram freqüentadores entusiasmados de uma paróquia de mesmo nome, recém inaugurada na cidade. Um dos católicos de Cotia decidiu organizar uma pelada do pessoal dessa igreja contra alguma outra; seria uma espécie de confraternização católico-futebolista. Lembrou-se da Paróquia homônima de Santo Antonio, na Rua Anhangüera, Barra Funda, que conhecera havia muitos anos. Entrou em contato com o Padre Luis, titular por décadas na igreja da Barra Funda e este firmou a partida com os diretores do Carlos Gomes, que iam sempre à missa: “- Representem nosso bairro e nossa paróquia. O povo de lá é muito religioso; soube que nessa igreja de Cotia são fanáticos!”.

No dia do jogo, dois caminhões lotados saíram da Barra Funda logo cedo. Porretes de todas as formas e tamanhos, pedras, tijolos e canivetes eram artefatos indispensáveis – mais que bandeiras e fogos. Os diretores, mais velhos, não conseguiam demover os briguentos da idéia de “ir pro pau”. Apesar dos apelos e do aparente sossego da cambada, os velhos ficaram com a pulga atrás da orelha. “- Essas ripas e tijolos são para nossa garantia!”, disse um dos torcedores.

O campo ficava bem ao lado da igreja e o jogo seria após a missa. O time do Carlos Gomes chegou uma hora antes do horário estabelecido. Um cidadão com pose de gente importante os recebeu com extrema gentileza e fez o convite: “- A missa está começando, depois tem o jogo e o churrasco. Venham assistir conosco, fazemos questão!”. Os vagais se negaram a entrar na igreja e foram advertidos pelos mais velhos: “- Vai entrar todo mundo. A gente faz meia horinha e pronto.”.

O problema do Carlos Gomes é que tinha uma molecada de dezoito, vinte anos, terrível, briguenta, completamente insana. Capitaneada por Valdir, o Diabo e Barrabás, era, de fato, uma torcida temível. Sintam o peso da dupla: Diabo e Barrabás!

Na igreja completamente abarrotada a torcida e o time da Barra Funda foi entrando. Estava tudo indo bem, até que começou uma gritaria lá fora: “- Se o Diabo não entrar, eu não entro!”. O padre, que ainda não tinha começado a rezar, foi lá pra fora, e a multidão o seguiu. “- Sem o Diabo eu não entro!”.

Valdir, o Diabo, deu um jeito e se empirulitou, sumiu. Barrabás, seu parceiro inseparável, não queria ficar por baixo e empacou na porta da igreja. O padre, perplexo, começou a gritar um discurso que ali era a casa de Deus: “- Refutamos qualquer manifestação diabólica!”. Os fiéis entraram num frenesi danado. Alguns, mais exaltados, xingavam o time da Barra Funda. Começou um empurra-empurra enorme. Sem conseguir conter o desatinado Ivan (era esse o nome do Barrabás), a turma do Carlos Gomes viu que ia feder, já que estavam em menor número e os religiosos de Cotia – incluindo mulheres, velhas, crianças e o padre – sofriam uma espécie de catarse coletiva de repudio ao “anti-cristo”.

Conseguiram pegar o endoidado que ainda gritava pelo Diabo. O pau começou a quebrar, mas ainda em focos isolados. A torcida do Carlos Gomes, percebendo que ia apanhar da cidade inteira, começou a por panos quentes. O padre pegou o Ivan pela nuca e mandou-o retirar o que havia dito. “- Olha o Diabo ali!”, apontou Ivan. Era Valdir voltando do mato, onde fora às pressas fazer necessidades. Ele, que era o mais louco do bando – inclusive Louco era outro apelido que ele ostentava -, foi chegando e o povo sacou que o verdadeiro anti-cristo era ele, o Diabo em pessoa.

Valdir viu aquele tumulto todo e foi chegando. Todos aguardavam: suas palavras poderiam por fim ao fundunço. Ele mesmo percebeu que seria melhor acalmar a situação. Com ar possesso, deu a ordem: “- Soltem o Barrabás!”.

Foi uma frase infeliz para o momento. A torcida do Carlos Gomes apanhou bem e, pela primeira vez, teve que fugir. Há quem diga que o Carlos Gomes não se extinguiu: foi excomungado.

4 Comentários:

Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Monumental, Favela! Olha o livro de memórias, olha o livro! Beijo, mano.

28 de janeiro de 2010 12:22  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Diabo e Barrabás! Que dupla. Me lembrei dos grandes Curupira e Capiroto, do Vila de Cava. E que final de texto, meu camarada, que final...
Beijo

28 de janeiro de 2010 16:31  
Blogger Felipinho disse...

Favelinha, esta dupla realmente devia ser assustadora. Imagino a galera subindo no caminhão com as ripas e tijolos. Beijo, mano, grande texto. Vemo-nos no carnaval.

29 de janeiro de 2010 10:04  
Blogger Felipinho disse...

Soltem o Barrabás!

1 de fevereiro de 2010 09:26  

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