26 de mar de 2008

Eu já fui prefeito!

Antes da gravadora, trabalhei em uma multinacional na Avenida Paulista, num fausto prédio cheio de gente empinada. Antes, dei o sangue em uma outrora grande indústria de alimentos situada em José Bonifácio, perto de São José do Rio Preto. Trabalhei também, logo quando entrei na faculdade, numa distribuidora de materiais elétricos a três quadras da minha casa, em frente ao ponto de bicho do Bonitão. Mas posso afirmar que antes da tal distribuidora já fui poderoso.

É que, antes da elétrica, eu fui prefeito; ou melhor, vice-prefeito, alcunhado de prefeitinho. Pode parecer loucura, mas não é. Exerci, no auge dos meus dezoito anos de idade, meu poder nas ruas do centro de São Paulo. Quer dizer... Nas ruas não. Mandei - e devo registrar que contra a minha vontade - durante um período exato de um ano (Agosto de 2000 a Agosto de 2001) num pedaço da calçada da Rua Cavalheiro Basílio Jafet, bem de frente para a Comendador Abdo Schahin. Meu mandato era desempenhado de segunda a sexta, das 13h00 às 14h00. Mas antes de relembrar minha autoridade, é preciso explicar como ela caiu em meu colo.

Com uns dezessete eu queria poder gozar da minha própria grana. Algum salário garantido. Ter um qualquer todo mês ao invés de fazer uns bicos de vez em nunca ou ganhar uma merreca de meu pai pra passar a semana – nesse tempo bebi muita Lecker a R$ 1,00 a garrafa, na Cruzeiro do Sul - era fundamental. No entanto, em época de exército, arranjar emprego seria mais difícil que ser premiado nas rifas do Mãozinha. Foi aí que um amigo meu me indicou para trabalhar em seu lugar, num simpático e desordenado armarinho que tem nome de santa, ali no meio da baderna, no centro. A Rua Cavalheiro Basílio Jafet, onde se situa a loja, é continuação da Ladeira Porto Geral e fica entre a 25 de Março e a Barão de Duprat. Após um teste matemático digno de pré-primário, fui aprovado com louvor. Trezentas pratas por mês, sem registro.

Além de atender quatro ou cinco clientes de uma vez, eu era responsável pela organização do estoque no andar de cima junto com um japonês, o Marcos. Cada funcionário ainda cuidava de uma sessão. A minha, por exemplo, era a de isopor; a mais mamão-com-açúcar do estabelecimento. O reboliço ali é constante, infindável e cansativo. Tem que ser jovem pra agüentar o tranco sem ter um infarto fulminante. Porque o jovem consegue, ainda que quase não tenha tempo durante o expediente, espaço pra brincadeiras. Lembro-me que Netinha, a mais velha, com uns 32, não tinha paciência para as palhaçadas dos outros 14 funcionários (10 mulheres e 4 homens), todos bem mais jovens, com exceção de Araújo, o Prefeito.

Araújo é um cearense cabra-macho ignorante loroteiro piadista manco. Tirando o “cearense”, foi um balaço na perna que o deixou assim. Era o segurança da loja. Passava o dia inteiro andando pelos corredores a dar cascudos em larápios ou a fazer graça com as velhinhas consumidoras de bugigangas ou – principalmente! – a destilar cantadas pornográficas nas 10 meninas que ali trabalhavam. Era uma delas subir na escada pra apanhar qualquer produto e em poucos segundos o nobre Araújo já estava de prontidão, segurando a escada e falando bobagens. Elas riam.

O organograma da loja era o seguinte: a matriarca, Dona Lú, era a dona. Seus filhos, Omar e Ricardo, os donos. O resto é bosta. Os turcos – assim os chamávamos -, além de donos da loja, se arvoravam em donos da rua. Bastava um camelô parar um carrinho na calçada, mesmo longe da porta, que o Araújo tomava comida de rabo. Talvez por dó, o único que tinha – ainda tem - a concessão para botar seu isopor de bebidas ali era o Rincón, que tem os braços atrofiados. O problema é que, de dez em dez minutos, um dos milhares de carrinhos aportava na porta da loja e lá ia o Araújo, na base do lero-lero, tirar o fulano dali. Na maioria das vezes a conversa era bem sucedida; em outras o molho azedava, motivo que o obrigou a comprar um oitão após receber várias ameaças de morte. Araújo já estava devidamente apelidado de Prefeito, o dono da Rua.

Acontece que até o prefeito tem horário de almoço e alguém precisa fazer o trabalho sujo. Dos outros três homens que trabalhavam na loja, com certeza eu fui escolhido para a função de cobertura quando separei uma briga de porrada entre os dois irmãos, donos da loja. Briga extremamente compreensível, afinal o entrevero se deu pela indefinição de qual dos dois folgaria no feriado. Com D. Lú enlouquecida e sem a presença do cangaceiro cearense (ainda não tinha dado seu horário de entrada), só me restou dar um mata-leão em um deles. Virei o prefeitinho.

Eu já conhecia quase todos os camelôs fixos; aqueles que tinham seus carrinhos em local definido. Conhecia também alguns dos chefes, que botavam empregados pra trabalhar em suas dezenas de estabelecimentos-móveis. A máfia entre essa turma é grande também. Lembro-me bem da minha rotina de descer do busão no Largo do Paissandu, atravessar o viaduto Santa Ifigênia e descer a ladeira cumprimentando um monte deles. Do pé da ladeira até a loja, gritos como “Aí prefeitinho. Você tem que assumir!” ou “Dá-lhe, prefeitinho!” ecoavam. Eu passava cumprimentando a massa! Isso porque, durante minha hora diária de segurança, eu deixava os carrinhos se amontoarem na frente da loja. A fachada tem vários metros. Eu não tirava ninguém. E quando os donos me cobravam, alegava que “estou atendendo aquele cliente ali” ou “esse cara é bravo. Só o Araújo mesmo!”. Fui assim, de longe, o pior segurança que já se viu, o que fazia com que os ambulantes tivessem grande simpatia pela minha pessoa.

Outro dia, após sete anos que deixei de trabalhar na loja, desci a ladeira e não reconheci ninguém; nenhum trabalhador da minha época. Porém, quando chegava perto da loja, ouvi o caco* Géra, um maluco que ainda está lá, gritar “Olha o prefeitinho aí, gente!”. Emocionado, fui recebido da mesma maneira que era há anos. Ganhei quebra-queixo do Tales, água de côco do Zé-Cabeça-de-Côco e uma lata de Brahma do Rincón, grande camarada! Ali, naquele pedaço do centro, impus a minguada autoridade que me foi outorgada ao meu jeito. A Rua não tem dono!


* Os cacos são os homens designados para, de binóculo, fiscalizar a chegada da fiscalização da prefeitura. Seus altíssimos berros, geralmente de “Olha o rápaaaaa!”, são o aviso para a fuga dos comerciantes ilegais.

6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Muito bom Cabra..me lembro bem da sua cara ao chegar em casa nas semanas que antecediam o Natal...hahahhahaa.

Você esqueceu de citar seu emprego como "dogueiro" durante 01 mês no Posto do Agostino...que parceria hein ? Lembra do Dog Alemão...hahahahha.

Abs,

Angelo

26 de março de 2008 18:52  
Anonymous Carol disse...

hauauahuahuhauahu ...
Arthuca para presidente !!!!
Gosteiii !!
Um dia desses eu fui pra esses lados com a minha mãe, e ela lembrou: - Nossa, faz muito tempo, mas o Arthur já trabalhou aqui !!!
Juro !! Ela lembrou !!!!!!!!
Falou que vc já deu um duro danado nessa vida !!! ahahhahahaha ...
Lanço aqui minha campanha: Arthuca para a presidência !!!!!
hahahahahah ...
Beijo Boêmio !!

26 de março de 2008 20:44  
Anonymous Daniel Frangiotti disse...

Angelo, ainda bem que não comi esse dogão ai que vocês faziam...

to ligado que cada 10 feitos, era os 10 jogados fora...

Cabras, belo texto mano, abraço!

OBS:Chupa curintia!!!

27 de março de 2008 00:02  
Anonymous Melissa disse...

Arthur
Parabéns pelo texto.
Deve ser duro trabalhar na região da 25 em pleno Natal. É pra deixar doido qualquer ser....

Um beijo!!!

Melissa

28 de março de 2008 08:44  
Blogger Szegeri disse...

Que texto!!! Que texto!!! Golaço, mano! Té de noite! Beijo

28 de março de 2008 11:19  
Anonymous Fabio disse...

Grande Favela,
após um semestre todo sem faltar no projeto, não pude comparecer nesta sexta 28/03 por causa do trabalho...garanto q no proximo estarei. Troco a Luciana Gimenez pelo Anhanguera dá Samba!
To na Redetv! agora.

Abração e sucesso,
Fabio Sombra Bertolozzi

29 de março de 2008 00:28  

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