21 de set de 2011

Tio Déto

Diziam que nós dois éramos parecidos. Não sei, talvez nunca ninguém tenha dito isso, mas eu sempre quis me parecer contigo. Enfim... Fato é que, inegavelmente, há entre nós semelhanças brutais. Uma delas é o apego à nossa história de vida e todas suas subsidiárias: pessoas, lugares, memórias – tudo com um toque de saudade, de bairrismo e, vez por outra, de nostalgia. Temos também um bom discernimento daquilo que é justo – não vou dizer “correto” ou “certo” porque aí entram questões muito mais complexas a serem discutidas. A “verdade” não deve existir e a “razão”, como disse mestre Candeia, está sempre dos dois lados -, sempre achei suas posições justas, sóbrias. Somos também, por outro lado, muito orgulhosos: fruto tanto de autoconfiança quanto de teimosia, defesa, medos, traumas, sei lá que merda!

Porém o Corinthians é o elo que nos ligou pra valer, fazendo revelar muitas das coisas que compartilhamos, que sentimos. Você tem um grande coração. Falo isso pelo que passei, pelo que vi, pelo que fizeste por mim. Só você se preocupou com o fato de eu não desfrutar dos privilégios dos meus irmãos, que sempre iam aos jogos do Palmeiras com meu pai. Pode ser coisa pequena, mas pra você não era. Nossa diferença de idade não é lá muito grande. Quando você começou a me levar aos jogos do Timão, você era um garoto de 22 ou 23 anos, mas pra mim sempre me pareceu ser um homem bem mais velho, responsável, respeitoso e um tanto reticente à expor, ainda que minimamente, qualquer intimidade e insegurança. Também sou assim.

A gente acaba, ao longo do tempo, tentando se diferenciar dos outros – daqueles mais próximos de nós. O fato de eu ser tão diferente do Angelo e você do Dornel não é meramente uma questão genética, tampouco de providência. Você me alertou, me preparou e amenizou as inapeláveis comparações que as pessoas fazem entre irmãos. Também somos parecidos nisso: “Ele é muito inteligente, mas é sem graça”. Na adolescência isso é motivo para se dar um tiro nos cornos, não?

Tirante meus pais, ninguém foi mais preocupado em conversar, orientar, aconselhar, apontar caminhos e perspectivas. Aliás, não só para comigo como também com seus outros sobrinhos. Você é o protótipo do “tiozão” – nunca foi à toa eu ter lhe chamado assim -, do cara que batalhou, que remou contra a maré, que deu certo em todos os sentidos: profissional, acadêmica, econômica e, principalmente, humanamente – e tudo isso foi muito sofrido, o que valoriza sua biografia.

E mesmo eu sendo às vezes polêmico e radical, mesmo divergindo ideologicamente em algumas questões, imagino nós, velhinhos – quando você tiver 82, terei 70 – juntos, falando do Coringão e cantando o samba do João Bosco e do Aldir Blanc que dá glória aos piratas, às mulatas e às sereias. Mas saiba que ainda te olharei com a mesma admiração e respeito. Te chamarei de “tiozão” com a mesma inocência do garoto que você levava ao Pacaembu. E que você sempre foi, é e será, para mim, uma referência imorredoura.
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