7 de fev de 2012

Jean Carlos, reco-meçar

* Este texto vai na intenção do irmão Roberto Domé e de Mario Giovanelli, amigo de outras vidas do querido JeanCarlo.

Sou um defensor das tradições, mesmo não sendo nostálgico, purista ou - pior! - conservador. Sou pela tradição porque é ela quem contrabalanceia as reviravoltas desse mundo cada vez mais urgente, mais tecnológico e menos pessoal. Menos pessoal nas relações comezinhas do cotidiano, do trabalho, da família. Menos respeitoso, conseqüentemente. Diametralmente, mais triste, mais carrancudo e depressivo.

Sendo assim, é preciso se apegar em algumas coisas pra não se esquecer de quem a gente é. Mas em poucas, já que a gente não pode dar conta do mundo. Eu cultuo os meus ancestrais, o chão em que nasci – em particular a Barra Funda – e as relações de verdade, cara a cara.

Graças a isso angariei grandes amizades ao longo da vida. Graças a isso, tive uma oportunidade que mais considero uma bênção: ser amigo de alguns amigos de meu pai. E é sobre um deles, especialmente, que quero falar: Giovane Carlos Margiotta, afamado na Barra Funda pela corruptela do apelido Giancarlo, ou seja, Jean.

Não quero aqui fazer qualquer tipo de esboço de personalidade do meu amigo-personagem, até porque as pessoas são mui complexas. Minha intenção é apenas a de lhe render uma singela homenagem escrevendo aqui o que apreendi do nosso convívio.

Sujeito simples, de poucos argumentos – o que o diferenciava de seu irmão Domé, que é eloqüente –, quase sem vaidade e nenhuma demonstração de arrogância em vida. Sua característica mais pujante pra mim, acima de tudo, era seu inabalável cotidiano. Jean era meticuloso, e seus dias, como num ritual, eram iguais. Há cinco anos atrás, escrevi sobre ele o seguinte: “Jean é um dos sujeitos mais metódicos que pude conhecer. Acorda, trabalha, come e dorme todos os dias religiosamente nos mesmos horários. Nunca sai a noite em dias de semana e bebe sempre nos mesmos lugares, como uma prática de louvor à monotonia.”.

Mas essa monotonia era diferente. Era animada, alegre, expansiva. Principalmente por causa de suas duas grandes paixões: A Sociedade Esportiva Palmeiras e o implacável reco-reco amassado, seu companheiro inseparável desde que era garoto. Jean talvez não tenha contribuído artisticamente como músico, e acho mesmo que não tocava reco igual o lendário Mussum, mas tem grande responsabilidade de ter incutido em mim a chama do samba – junto do Grupo Xamanóis, do qual foi um dos fundadores há quase trinta anos.

Os domingos eram sempre no Anhangüera junto dos amigos Bonitão, Bule, Gilmar, Zé Bertolozzi e outros que, com ele, tornavam nossos domingos de futebol mais divertidos. Depois, iam todos pro bar do Sinval assistir o jogo da televisão – bebendo, evidentemente.

Jean cantou pra subir anteontem, aos 55 anos, pouco antes de cumprir sua rotina de ir ao Anhangüera ver o jogo e beber com os camaradas.

A perda é grande, e pra mim há um motivo. Jean, conscientemente, talvez não soubesse, mas tinha uma coisa muito parecida comigo: a conservação da tradição, seja por idealismo – no meu caso -, seja por mania – no caso dele. O fato é que, sem ele, a Barra Funda fica menos Barra Funda, os domingos no Anhangüera ficam menos domingo, o bar do Sinval fica menos bar do Sinval, o Xamanóis fica nóis sem "xama", e o reco-reco metálico agora não tem mais graça nenhuma...

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