26 de nov de 2009

Anhangüera dá Samba XXIX

Eu já imaginava que o Toninho Geraes arrastaria gente. Isso foi o de menos; estranho se fosse o contrário. O Anhangüera, como eu previra – mesmo sendo véspera de feriado prolongado e mesmo com a nossa divulgação capenga -, lotou. Mas no Anhangüera, no entanto, casa cheia é apenas um mero detalhe quando se fala em “público”. Há, nos que lá dão as caras, samba na veia; fenômeno cada vez menos presente nas rodas que pululam pela cidade.


Toninho Geraes pareceu-me meio chocado após a apresentação. Pegou-me pelo braço: “Bicho, esse pessoal é brincadeira. Todo mundo canta, todo mundo presta atenção. Faz tempo que não vejo isso!”. Outro cravou: “Um qualquer que freqüenta o Anhangüera vale por dez.”.

Eu, que trabalhei no bar devido ao desfalque do cracaço Bugalu (nosso barman), pouco participei da roda. Quando deu uma brecha me aproximei; Toninho puxou a música que dá nome a seu novo disco, Preceito, em parceria com Roque Ferreira. Um senhor samba, de resto como todos. No vídeo abaixo, Toninho ao chegar à roda. É brasa!
Estamos antecipando a comemoração do Dia do Samba, além do aniversário da Barra Funda, dia 30/11. Nós, que preferimos não planejar quase nada – e assim abrimos espaço para grandes e boas surpresas -, já havíamos definido há tempos homenagear, nessa data, um baluarte do samba paulista: Seu Carlão do Peruche. Palavras do meu compadre na Agenda do Samba-Choro:

Seu Carlão é uma das figuras mais conhecidas e respeitadas da história do samba paulistano, tendo fundado em 1956, ao lado de João Cândido, a gloriosa Unidos do Parque Peruche. Partideiro de primeira, conhecedor e contador de histórias como poucos, vai mostrar para quem quiser ver seu domínio sobre os fundamentos do samba (em todos os sentidos) que ele ajudou a consolidar na cidade. As homenagens serão reluzentemente abrilhantadas pela presença da excelente Velha Guarda Musical do Peruche.

Clique neste link para ouvir trechos das músicas gravadas no disco da Velha Guarda do Peruche produzido pelo meu querido amigo Renato Dias.

Até amanhã!

18 de nov de 2009

Dona Marcina, a benzedeira

Minha avó Antonia viveu seu último ano de vida num asilo na Rua Garibaldi com a Cruzeiro. Lá os velhinhos eram tratados a pão-de-ló. Ela, que na velhice morou com o filho caçula – meu pai -, ficou impossibilitada de ficar sozinha em casa. Após a morte do meu avô, e com todo mundo da casa trabalhando fora, não dava pra deixá-la só.

No asilo, costumávamos visitá-la com grande freqüência. Meu pai ia quase todos os dias, eu ia uma vez por semana, sempre aos sábados, já que na época eu trabalhava no interior do estado e só chegava em São Paulo na sexta a noite.

A grande maioria dos velhos já estava muito debilitada física e psicologicamente. Tinha um senhor que vivia disparando tiros imaginários e se jogando no chão. Quando eu aparecia ele ficava desesperado. Tinha a certeza que eu era um nazista e que ia matá-lo. Outra velhinha achava que eu era seu filho, papel que eu representava orgulhoso, com a virtude cênica de um Paulo Gracindo.

As velhinhas (eram apenas três os velhos homens – o que vivia na guerra, um que achava que era jogador do Palestra e outro entrevado na cama) ficavam a maior parte do dia numa sala de televisão ampla, bem arejada. Cafezinho da tarde e tudo que era confete. Nessas tardes de televisão elas batiam papos alvoroçados. Parecia a Torre de Babel, eu não entendia bulhufas. As anciãs, porém, apesar de parecerem conversar, viviam cada uma dentro de si e de seu mundo cheio de lembranças, imaginações e delírios.

Entre elas, totalmente travada e só conseguindo balbuciar palavras ininteligíveis, estava um mito, uma lenda da região: Dona Marcina, a célebre benzedeira. Com mais de 90 anos ela estava consciente, apesar do derrame que lhe reduziu sensivelmente os movimentos. Minha avó, que conviveu com Dona Marcina uma vida inteira de bairro, nutria pela benzedeira um respeito, uma admiração santificada e – por que não? – uma veneração. Tanto que todos os dias sentava-se ao lado da cadeira de rodas de sua santa de carne e osso, segurava suas mãos e ficava ouvindo o balbucio do qual não se extraia uma palavra sequer.

Breve parêntese: Apesar de sabermos das plantas e recursos palpáveis que os benzedeiros e benzedeiras lançam mão para a cura de qualquer tipo de chaga, jamais serão entendidas as palavras por eles utilizadas. Faz parte do processo não deixar transparecer a oratória.

Dona Marcina começou ainda moça com a benzedura. Com o tempo foi aplacando toda a Barra Funda e os bairros vizinhos. Ganhou divisas de curandeira da pesada quando desembestou a curar mazelas que davam uma trabalheira danada pros médicos. Sua fama se espalhou como um tornado; dizem que não havia quebranto que ela não botasse abaixo. Quem nasceu a partir da década de 40 via a mulher como uma milagreira, tamanha a fama de seus feit(iç)os.

Não houve uma só criança do bairro que Dona Marcina não benzeu. Minha avó levava religiosamente seus quatros filhos pra carimbamba curar toda a sorte de mau-olhados e cobreiros. Era um tempo em que o pediatra não era tão solicitado!

Eu já sou de uma época em que a velha rezadeira estava aposentada. A pirralhada da minha geração se submetia às rezas e às mãos da Dona Yolanda, também muito requisitada! Nunca me esqueço quando aparentávamos, eu e meus irmãos, qualquer sintoma de moleza. Minha avó, com toda experiência, bradava: “- Direto pra Dona Yolanda!”. A Dona Yolanda aprendeu muita milonga com a Dona Marcina.

Na “casa de repouso”, apesar de toda a higiene e dos serviços das moças prestativas e atenciosas que lá trabalhavam, virava e mexia a velharia apresentava um comichão, uma mancha estranha na pele, uma íngua, um cobreiro ou uma gastura. E as funcionárias não se conformavam com um mistério: como só as duas – Dona Marcina e minha avó - podiam ser as únicas das velhinhas daquele asilo que jamais apresentaram qualquer sorte contrária que as mãos e a reza de uma boa benzedeira não pudessem curar.

4 de nov de 2009

Okê, Caboclo!



Meu gosto pelo batuque foi construído ainda no ventre materno. Eu já disse por aqui que uma das minhas lembranças mais remotas era a da minha mãe fazendo faxina em casa - impreterivelmente aos sábados pela manhã – ao som de Clara, Paulinho, Fundo, Beth e Martinho. Meu pai, antes do matrimônio, tocava caixa e repinique pelos pagodes do bairro e das peladas – eu e meus irmãos não presenciamos por razões óbvias.

O batuque encravado e encrostado em minha alma certamente não veio do samba. O samba me chegou depois. E quando me vi nesse “depois”, os crioulos velhos me chamavam de “pretinho”. Aos catorze comecei a arranhar uns acordes no cavaquinho (o que faço até hoje) e aos dezesseis me embrenhava em tudo quanto era samba; de quintal, de bar, de futebol e de favela. Sempre gostando de cantar os sambas pra santo, pras divindades, samba de macumba, de terreiro. Foi nessa época que eu virei o “Favela”, o branquinho que tinha “um pé na senzala” – ouvi isso trocentas vezes.

De vez em quando junta toda a família na casa da minha mãe e a gente faz umas cantorias. Fica bonito porque todo mundo é do riscado. Meus irmãos, nossas mulheres, meus pais... É um pagode de responsa. De vez em quando o Mimi – meu pai – pega a timba e dá mostras de uma versão bem peculiar. Valtinho, um amigão meu, certa vez me cutucou: “Esse jeito do seu pai tocar é estranho, mas eu gosto”.

Vai daí que toda vez que estamos fazendo esta confraternização – acho que o termo “ritual” cai melhor – familiar, volto pra uma cachoeira de infância nas festas em que eu ia, ainda bem fedelho, no meio de uma gente pobre e preta toda congregada pela Dona Joana, uma senhora doce que me metia muito medo de vez em quando. Eu não entendia como ela podia alternar de humor, de voz e de postura com tanta facilidade – fui sacar quando já era maiorzinho.

Mas o que me fascinava mesmo era a cachoeira; a água caía e o batuque corria. Essa lembrança vem antes da faxina nas manhãs de sábado. No atabaque da esquerda meu pai batendo o som que eu já estava acostumado há tempos. No centro da gira, entre tantos outros, minha mãe, penas e pemba.

Quando cheguei a este mundão, foi o Caboclo Pena Dourada quem riscou o chão e que me levou pra mata; foi ele quem me bafarou na cara o charuto do limpamento e que me assoviou no ouvido as coisas que sei-não-sei.

Em casa, minha mãe mantém um altar com imagens de Jesus Cristo, caboclos, preto-velho, Cosme e Damião, Nossa Senhora Aparecida, Zé Pelintra, Santo Antonio e outros santos. É o Brasil em seu estado-bruto, com toda a sua herança, rica em fé. E se eu sou do samba, sou antes de uma religião afro-brasileira, assim como toda a nossa riqueza musical sofre influência dos batuques para as divindades.

Fecho com o áudio de um ponto de caboclo que considero dos mais lindos e que canto pra os nossos ancestrais de pele morena; a primeira música que ouvi na vida. Salve, meu pai!

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