18 de dez de 2009

Anhangüera dá Samba XXX

No último dia 27 recebemos a Velha Guarda do Peruche, e foi uma grande noite. Pra mim, então, nem se diga. Eu e Milena receberíamos em nossa casa Luiz Antonio Simas e sua mulher, Cândida. E foi um final de semana glorioso!

Na sexta a tarde chegou ainda outro irmão, diretamente de Campinas: Bruno Ribeiro. Fomos nós dois para o Sinval e depois pra minha casa. Quando o Simas chegou na rodoviária, fomos buscá-lo. Voltamos para casa – onde a Milena já nos esperava – e, em poucos minutos, chega meu compadre Fernando Szegeri pra completar o esquadrão. Entre camarões fritos e cerveja gelada na pequena cozinha, tive uma ponta de vontade de ficar ali mesmo, batendo papo; mas logo recebo uma ligação de meu pai, que já estava no Anhangüera, me comendo o toco: “- Porra, você fica com a chave do freezer e ninguém bebe?”. Saímos correndo.

O samba estava quente, assim como as várias doses de Domecq que eu traguei. Quando chegou a Velha Guarda, foi uma comoção porque tinha muita gente da Casa Verde, do Cruz da Esperança e do Parque Peruche no terreiro. Entre eles meu querido amigo Zé Augusto, a quem fiz questão de prestar singela homenagem – a seu pai José das Dores, falecido há exatos 30 anos, também.

Seu Carlão chegou com aquela elegância imponente. Logo atrás vinham Bernadete, Zé Maria, e os outros integrantes da respeitável Velha Guarda. Antes de começarem a cantar, Seu Carlão, com a envergadura de quem viu o samba nascer na cidade, contou um monte de história e ensinou algumas maneiras a quem não sabe chegar devagar. Depois a Bernadete arrebentou (ela é quem canta no vídeo abaixo) e fizemos homenagem à grande Denise, que se foi no começo deste ano.

Os Inimigos do Batente e o projeto Anhangüera dá Samba! fazem sua última farra do ano de 2009 hoje - que é, efetivamente, a última do mês, já que dia 25 todo mundo vai estar empanturrado de peru. Sem fazer muitas digressões, constato que foi, lá no nosso terreiro, um grande ano. Vamos fechá-lo com chave de ouro convidando um dos maiores sambistas da atualidade, Eduardo Gallotti, figura conhecidíssima e requisitada nas melhores rodas do Rio de Janeiro.
Deixo um áudio do Gallotti cantando Pedro do Pedregulho, de Geraldo Pereira, e Unha de Gato, do Elton Medeiros.
Até mais tarde!

16 de dez de 2009

Dou-lhe uma, dou-lhe duas

A prática do leilão vem de muito antes de Cristo. Na Babilônia, por exemplo, as mulheres em boa idade para o matrimônio - ou “na hora do abate”, como diz o Gordo – eram leiloadas em grandes feiras anuais. As mais formosas eram disputadíssimas, chegando a causar grandes quebra-paus entre os licitantes; já as mais fracas de feição geralmente eram oferecidas junto de uma ovelha, um cavalo, uma boa vaca leiteira, enfim: um dote que desse uma valorizada na bruaca.

Outro leilão de enormes proporções era o de espólios em Roma. Depois de pilhar outros povos, era comum vender os bens dos rendidos ou mortos. E assim foi: escravos, jóias, quadros, animais; o tempo passa e o leilão é prática cada vez mais corriqueira. Hoje em dia, na internet, se leiloa desde tampinha de refrigerante até a mãe.

O que define, no entanto, um bom rendimento para o competidor é o fator psicológico. No leilão de donzelas na Babilônia já era assim: nêgo que se descontrolava perdia a beldade e acabava saindo de mãos dadas com a jabiraca. Alguns manuscritos dão conta de que muitos destes homens preferiam ter relações sexuais com a cabritinha que vinha de brinde com a megera.

O fator psicológico – que inclui comportamento, indumentária, pose e blefe - é tudo! Dito tudo isso chego onde quero chegar: Rua Anhangüera, setembro de 1959.

A Associação Atlética Anhangüera vivia áureos tempos. No futebol o rubro negro vinha levantando caneco atrás de caneco; o pingue-pongue arrebanhava uma infinidade de associados; e os estrondosos bailes e eventos sociais tratavam de manter a agremiação num patamar inalcançável para os rivais varzeanos.

Falei dos estrondosos eventos sociais: eram muitos, e variadíssimos. Todo mês tinha um grande acontecimento. Foi com base nessa regra que Ministrinho, notável diretor social do clube à época decidiu organizar um leilão de proporções jamais vistas na região. Chamou muita gente importante – neste quesito constavam pequenos industriais e comerciantes, papagaios de pirata e aspones de vereadores e deputados. Ofereceu coquetel antes do evento para essa gente importante e convidou um candidato a vereador que tinha o “dom da oratória”, e que nos anos que seguiriam estaria sempre presente no clube quando chegava a época de eleição, para ser o pregoeiro.

Era um domingo, sol à pino. O leilão seria realizado na sede do clube. Ministrinho já havia planejado tudo: iam leiloar utilidades domésticas, bola de futebol, uma camiseta do primeiro escrete rubro negro (a que foi usada pelo beque Radiador), brinquedos para crianças e outras coisas de caráter simplório, culminando com o pregão de um relógio italiano finíssimo.

O leilão fora idealizado por Ministrinho para sanar algumas dívidas que o clube tinha com um associado poderoso: o velho Mateus Sabatine, dono de comércios na região – que desde a fundação fazia parte da diretoria do clube. Um leilão, pensou o diretor social, reuniria o bairro inteiro; homens, mulheres, crianças, velhos, brancos e pretos. A única questão era cuidar para que as pessoas se sentissem à vontade e tascassem lances nos objetos à venda.

O pregoeiro, um fanfarrão que se candidatava pela primeira vez a vereador, começou a discursar aquela papagaiada toda, com parábolas cristãs e tudo mais. A essa altura, a “gente importante” tentava comer e beber o máximo que podia, pois os “comuns” já estavam entrando, mesmo sem convite, nos refrigerantes e quitutes.

Um leilão, teoricamente, era uma boa idéia de render um qualquer pros cofres do clube, não sendo um porém: a assistência, quase em sua totalidade, era dura, pobre, fodida. Os emergentes da classe média da Barra Funda, nessa época, eram ainda fedelhos filhos de operários, carroceiros, sapateiros, marceneiros e donos de bodegas, de modo que os utensílios domésticos foram vendidos a preço de banana.

A sede estava lotada, mas pouca gente tinha ímpetos de entrar na disputa. Quando veio a leilão a histórica camisa do Radiador, por exemplo, Ministrinho já tinha pensado numa tática para botar fogo no negócio. Combinara seu plano com outro diretor, o Plácido. A camisa foi exibida e Ministrinho tascou um lance; Plácido replicou. Os dois, tentando instigar a assistência, ficavam um dando lance mais alto que o outro, num furor danado. O problema é que ninguém entrou na onda e, quando a velha camisa do Radiador estava valendo quase o passe do Luizinho Polegar, o quase-vereador bateu o martelo. Ministrinho fez pose de magnata, subiu ao palco e recebeu a camisa... É evidente que não pagou.

O leilão acabou sendo um desastre. Ministrinho tentou não botar o relógio no prego, mas não teve jeito; o povo gritou pela peça, na esperança de dar um lance maroto e ninguém cobrir. Um lance aqui, outro ali, e nada de decolar. O homem do martelo, com o saco cheio da monotonia, após o famoso “dou-lhe uma, dou-lhe duas”, pareceu sofrer uma possessão. Num rompante deu um lance. A assistência vibrou como nunca!

Endemoniado, começou a fazer um discurso político falando, entre educação e saúde, dos milagres de Cristo. Ministrinho, tentando lançar mão da tática falida no caso da camisa do becão, deu um lance em cima do pregoeiro – que a essa altura já tinha virado pregador. Apontando para a platéia atônita, o pregador deu mais dois lances em cima de seu próprio lance, bateu o martelo três vezes e foi ovacionado. Pagou uma fortuna pelo relógio, dinheiro que deu para sanar a dívida do clube. No auge da loucura, citando Cristo, Kardec e o desapego material, o fanfarrão doou, ali mesmo, o relógio ao clube.

Poucos meses depois o malandro já era vereador, sendo votado unanimemente na região. Depois, durante o regime militar, angariou mais simpatizantes daquela classe média emergente, apoiada nos valores da fé e da família. E assim foi durante infindáveis anos, sempre dircursando com o “dom da oratória”, pautado nas parábolas bíblicas.

Felizmente para o Brasil (este sim maiúsculo), o cabra já não mama há anos. Credito única e exclusivamente ao “fator psicológico” do colarinho branco naquele leilão toda a sua carreira política, cheia de trambiques.

Ouvi dizer que até hoje o homem vai à missa todos os domingos.

4 de dez de 2009

Casa de turfista

A cada dia a gente vai perdendo um pouco do que viveu, do que nos formou, dos costumes, das coisas que - mesmo não vivendo in actu exercito - vimos com os próprios olhos.

Dia desses passei pela Rua da Graça – lá em cima, sentido Três Rios – e avistei apenas dois velhinhos sentados no banco que fica bem em frente a uma casa nada suspeita. No tempo em que eu estudava num colégio de freiras ali pertinho, a quantidade de velhos (desde os sessentões até os caquéticos) neste ponto era um disparate; e todos muito alinhados. Eu, que ia todas as manhãs de sábado com meu avô pra esquina da Anhangüera com a Rua do Bosque encontrar seus amigos – e lá, sentados num banquinho, ficavam conversando, relembrando, fumando cigarro de palha e, principalmente, reclamando de dores de todos os tipos – pensava que os velhos da Rua da Graça eram muito mais ativos, já que estavam ali diariamente. Ou então poderia ser o ponto de encontro de alguma associação de moradores, amigos do bairro, coisas que apetecem la vecchiaia.

Era um inocente de quatro costados, eu. Tempos depois percebi que, em determinados momentos, os idosos não conversavam. Estacados todos na porta da casa, olhavam hipnotizados para uma televisão e um aparelhinho que trazia números e letras estranhos. Alguns deles, repentinamente, pulavam, vibravam. Outros xingavam e davam com a bengala no chão. Tomado pela curiosidade, comecei a desviar meu caminho – quando eu vinha pra casa –, e parar de longe pra desvendar o mistério. Um dia avistei meu antigo barbeiro, o Seu Mario – um negro elegante e cachaceiro – naquele mar de cabeças brancas e entrei no meio do bolo: corrida de cavalos!

Seu Mario me disse que todos aqueles homens, sem exceção, eram vigorosos apostadores e que alguns daqueles saudosistas ainda iam ao Jockey devidamente trajados – terno, gravata e chapéu - de vez em quando. Aliás, o esporte (está aí um jogo – dos mais devastadores – que é chamado de esporte), in loco, sempre foi um desfile de pose e ostentação. Os magnatas (industriais, políticos e playboys), fumando charutos caríssimos e acompanhados por damas com vestidos, chapéus e jóias milionários, ficavam separados dos plebeus – todos muito bem vestidos, é bom frisar – num espaço reservado à nata, tal qual um camarote.

Houve um tempo em que o turfe era popular. Meu avô – que perdeu o pouco que tinha apostando nos cavalos – dizia que as transmissões do Vicente Chieregatti tinham notória audiência na década de 50.

Fiquei e acompanhei o Seu Mario na empreitada na casa de jogo de turfe. Isso tem mais de dez anos. Era o terceiro páreo, passando ao vivo. Os números no placarzinho eletrônico traziam o histórico dos cavalos, quantas vitórias naquele percurso e distância, as condições do piso, e tudo que é informação que se pode imaginar. Seu Mario, que não era trouxa, apontou: “Está vendo ali? Só tem dois que podem ganhar. Vou de cabeça nesse aqui. Se ele chegar entre os três, pego uma merreca!”.

Quase todos os velhotes ficaram entre aqueles dois. Mas tinha um senhor que tinha a mania de apostar no azarão; de vez em quando ganhava e fazia pose de sabichão: “No meu tempo ganhei muito dinheiro, eu tinha um amigo jóquei que me dava as barbadas. Freqüentei até o prado da Mooca, antes da Cidade Jardim!”. A verdade – dizia meu avô com a propriedade de quem se danou – é que todo mundo perde: jogo é jogo!

Os cavalos se alinharam e, já na saída, um dos favoritos – não o do Seu Mario - abriu. Na reta oposta já tinha largado uns seis corpos de vantagem. Os velhos estáticos, torciam. Quando o primeiro entrou na última curva os que nele apostaram vibraram como num gol. Seu Mario acabou empatando no dinheiro; o seu chegou em terceiro. E o azarão... o azarão chegou por último.

Dia desses – como eu dizia – passei lá em frente e só vi dois velhinhos. A casa fechou e, pelo que parece, daquela turma toda, só sobraram os dois mesmo.

Naquele dia, antes de partir, Seu Mario me apresentou ao dono da casa, um senhor de cara fechada que não torcia, apenas fazia comentários sobre os páreos. Questionei-o: “- Em qual cavalo apostou?”. O velho, esboçando um sorriso, me perguntou se eu conhecia a Elza Soares. Fiz com a cabeça que sim. E ele: “Tem uma música que ela gravou que diz que em casa de turfista o cavalo é de pau!”.
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