27 de mai de 2010

Anhangüera dá Samba XXXV

Acertamos em cheio; foi uma patada a apresentação de Douglas Germano, dia 30 de abril passado.

- Um gênio! Gênio!, era o que mais se ouvia naquela noite.

Poucas vezes vi, no Anhangüera, tanta gente boa junto. Douglas tratou de arrastar todos os bons sambistas de São Paulo pro Bom Retiro. Todos seus amigos e admiradores do seu trabalho. Eu, que fiquei no caixa devido à impossibilidade de meus pais estarem presentes, via tudo de longe, e não raro alguém vinha me parabenizar pela escolha do convidado. Houve um momento em que um senhor veio se apresentar; era o pai do Douglas, e a pedido do filho foi lá falar comigo. Ficamos, depois do samba, bebendo as poucas cervejas que sobraram.


A roda foi pegada do começo ao fim - há dias em que o time resolve jogar muito. Depois de uns quinze sambas apresentados pelo Germano, eis que Paulinho Timor, num lampejo definitivo, soltou, ao microfone:

- Douglas, agora canta aí um samba mais ou menos. Só um!

Essa frase sintetiza a competência de Douglas Germano. Quem não o conhecia ficou abismado com a qualidade de seu repertório autoral.

Pra ficar mais bonito ainda, a grande cantora Dulce Monteiro, do Bando Afro Macarrônico, se juntou à Railídia Carvalho no coro. E as duas, mais o homem, não precisavam de mais nada. Acho mesmo que há poucos que seguram uma roda de samba como Douglas Germano - são raríssimos os que dominam esta arte. Eis aí um compositor muito acima da média; um bamba de quatro costados; um extraordinário, musical e pessoalmente.

Confiram aí. A noite foi inteira nessa toada:



E é bom preparar o coração e o fígado, porque amanhã completamos 3 anos de Anhangüera dá Samba! Os Inimigos do Batente convidam, para esta grande noite um mito da cultura popular brasileira: Nei Lopes!

Entre suas inúmeras composições gravadas, podemos citar Gostoso Veneno, Tempo de Don Don, Goiabada Cascão, Morrendo de Saudade, Tia Eulália na Xiba, Senhora Liberdade, Fidelidade Partidária, Ao Povo em Forma de Arte (um dos maiores sambas de enredo de todos os tempos) e mais uma infinidade de brasas gravadas por quase todos os grandes intérpretes do Brasil.

Compositor consagrado, escritor profícuo, pesquisador mundialmente respeitado, militante aguerrido - além de cantor, partideiro, malandro (no bom sentido!), boa praça etc. etc. etc. - dispensa maiores apresentações. Oportunidade ímpar para o público ver esta lenda viva do samba brasileiro fora do palco, cantando e contando suas impagáveis histórias, ali "no terreiro", em volta da mesa.

Contaremos ainda com a participação especialíssima do arranjador e virtuoso instrumentista Thiago França no saxofone.

Será mais uma noite inesquecível.
Deixo uma música do Nei Lopes que eu gosto muito: Samba de Eleguá, pra gente já ir abrindo os trabalhos com o respeito que exige uma noite dessas.

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Até amanhã!
EM TEMPO: Saiu matéria sobre o Anhangüera dá Samba! na Carta Capital, aqui. Agredeço aos jornalistas e grandes amigos Lucas Conejero e André Carvalho.

25 de mai de 2010

Sou verde e branco!


Lá se vão três anos da morte do mestre Hélio Bagunça. O velho baluarte, porém, ao contrário da grande maioria dos sambistas - pelo menos os que não gravaram -, recebeu algumas homenagens post mortem. A última delas feita com muita raça pelo pessoal do Bloco da Santa Cecília, no carnaval deste ano.

Já contei bem uma meia dúzia de histórias do Tio Hélio por aqui. E pretendo, de quando em quando, falar de outros bambas da paulicéia, especialmente da Camisa Verde e Branco.

Um amigo me indicou um vídeo da verde e branco que faço questão de postar aqui. Foi feito há pouco tempo, antes das disputas eleitorais na quadra, que terminaram com a vitória de Ribamar para presidente, tendo como vice T. Kaçula. É uma turma nova, com vontade de "fazer acontecer", expressão que me arrepia. Aliás, mesmo atravessando altos e baixos, jamais deixaremos de representar uma das maiores forças do carnaval paulistano; com ou sem disputa. É preciso apenas ter a serenidade pra fazer as coisas com a paciência e a sapiência que se exige um momento desse.

O vídeo é apresentado por Zulu, grande nome da Escola. Zulu, inclusive, perdeu essa última disputa: ele encabeçava a outra chapa concorrente. O vídeo tem momentos emocionantes; e mostra um monte de amigos meus, principalmente na bateria - que ainda segura a marimba de "furiosa".

O samba na quadra, o Largo da Banana, o glorioso salão do São Paulo Chic, os grande nomes da agremiação, uma conversa entre Dionízio Barbosa e Inocêncio Mulata - dos aquivos da Cultura - e, rapidinho, de passagem, tio Hélio Bagunça empunhando o estandarte da Escola que representou durante tantos anos. Ao contrário do movimento "de raiz" que jorra por aí, principalmente entre os jovens, sou daqueles que acha que há, sim, samba nas Escolas de Samba. Muita coisa se perdeu e pouco se criou; os desfiles se deturparam, o samba virou negócio. Mas essa negrada de três, quatro gerações carrega um axé que não é moleza; e de toda essa patifaria que grassa nas escolas, pouca coisa pode ser atribuída a quem luta pra manter a tradição.

Aliás, pergunto daqui: o que não foi deturpado, de alguns anos pra cá?

Eu vou saudando. Salve, salve à rapaziada nova que se devota e que se esfola. Salve à Velha Guarda. Salve, Talismã. Salve, Ideval e Juscelino. Axé, Tio Hélio Bagunça, Tio Mario e Zeca do Morro. Minha reverência, Dionísio Barbosa, Inocêncio Mulata, Tobias e Taidão. Sua benção, Dona Sinhá; "a bença", Mãe Cleusa.

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