27 de nov de 2007

Anhanguera dá Samba VI

Nem o otimista poderia imaginar a belezura que foi a última edição do Anhanguera dá Samba!. Eu não presumia, confesso, que poderíamos reviver naquele espaço o ambiente do Cuca em tão pouco tempo. E eu senti - durante quase toda a festa - a emoção que me dominava nas sextas de três anos atrás, no espaço que o brasileiríssimo Mário de Andrade idealizou.

Quando relembro o Espaço Cuca, não quero (e nem tenho pretensão) comparar, tornar o Anhanguera igual. Apenas constato a força que o Diabo Velho tem (a Rua, o Clube e o Projeto), assim como o Cuca teve, de aglutinar gente. Gente nossa, gente do povo. O clube onde fazemos o samba é um espaço de resistência, é várzea. Um espaço de defesa da igualdade, de preservação de uma identidade que tanto querem - os vendidos - nos usurpar. O futebol varzeano foi, assim como foram os engraxates, um dos pilares de resistência dos negros e do samba em São Paulo. A confluência entre futebol de várzea e samba é o que estamos conseguindo realizar às últimas sextas do mês. Nesta próxima ainda comemoraremos, além do Dia do Samba, uma data especialíssima que me fez acreditar que a sorte, quando se faz necessária em tempos tão difíceis de tanta alienação e individualismo, aparece como uma dádiva que vem para dar cores mais lindas e comprovar que a luta não é em vão. Sexta Feira dia 30, nosso bairro, a Barra Funda, faz 117 anos.



Voltando à última festa, não só eu fui enfeitiçado pela grande comoção, mas todos os presentes que inundaram o Anhanguera para presenciar um Chico Médico que cantava tão feliz quanto uma criança ao abrir um presente. Aliás, o Chico era uma criança ali. Sorria, cantava e se embalava de maneira às vezes descordenada. Lembrava, com doçura, de gente antiga, de lugares antes freqüentados e de sambas históricos. Agradeceu seus mestres e foi devidamente homenageado por seus discípulos dos Inimigos do Batente, grupo que tem sido merecidamente elevado a grandes potências em todos os quintais e butecos em que faz samba. Assistam no vídeo abaixo o Chico mandando brasa:



Dando continuidade, o convidado especial dessa próxima edição é um grande baluarte do samba paulistano. Lutador ferrenho da nossa cultura e dos nossos costumes, Oswaldinho da Cuíca. Transcrevo abaixo texto do amigo André Carvalho, o Peruca:

Se tem alguém que pode ser chamado de “Enciclopédia do samba paulista”, esse alguém se chama Oswaldinho da Cuíca. Aos 67 anos, ele vive o samba em sua essência desde menino. Em suas apresentações, ele sempre conta um pouco de como o samba da Paulicéia era antigamente.

Sempre que pode, também toca frigideira e outros instrumentos que já não mais estão presentes nas rodas de samba de hoje em dia. E como seu nome sugere, domina como poucos a arte de tocar cuíca (fazendo inclusive solos impressionantes que eu nunca vi nenhum outro cuiqueiro fazer). E pra não deixar de registrar, foi o primeiro paulista a ser agraciado com o título de Cidadão-Samba.


Além disso, Oswaldinho ainda foi o fundador da Ala dos Compositores da Vai-Vai e integrante do tradicional Demônios da Garoa por muitos anos.

Ouçam “Rei Café”, samba de Geraldo Filme interpretado pelo Oswaldinho da Cuíca:

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Até Sexta!

23 de nov de 2007

A primeira vez num Salão da Raça

A Barra Funda, bairro essencialmente composto por negros e por imigrantes italianos e espanhóis no começo do século passado, foi, ao longo das primeiras três décadas, sofrendo um processo de expulsão dos negros ao ponto de, na década de quarenta, restarem poucos morando na região. Este processo se deu principalmente porque os negros, menos favorecidos, sofreram fortemente o impacto da valorização dos imóveis, além da então vigente "italianização" da cidade. Embora estivessem, ainda que timidamente, já inseridos no mercado formal de trabalho - o que ainda os mantinha ligados à região central - foram relegados à periferia, como Casa Verde, Vila Formosa e Cruz das Almas.

Os cordões carnavalescos, como Camisa Verde, Flor da Mocidade e Campos Elíseos, representavam, na Barra Funda, um pólo de resistência negra na cidade, em que os brancos imigrantes pouco se misturavam. Este era um relacionamento individualizado. O Camisa Verde, por exemplo, por causa de suas cores, ganhou imediatamente simpatia da colônia italiana, que torcia, nas disputas carnavalescas, para seu “representante”. Esta relação – que era alimentada pelos dirigentes do Cordão visando um bom convívio com os moradores -, porém, acabava não indo muito além. Já o Cordão do Vai-Vai da Bela Vista, bairro onde os moradores e o comércio local eram muito mais presentes e entusiasmados com o bloco, construiu uma relação bem mais próxima entre os negros componentes do cordão e os brancos moradores, fazendo inclusive, obrigatoriamente, apresentações pelo bairro antes do Carnaval.

Na década de 20 surgiram os famosos “salões da raça”, pontos de encontro dos negros advindos de todos os cantos da cidade. Estes salões, que perduraram com sucesso até a década de 50, eram freqüentados principalmente por negros jovens, para dançar, trocar conhecimentos e manter uma ligação que formava uma identidade entre estes jovens. Os salões da raça, que ficavam quase em sua totalidade no centro velho da cidade, serviram ainda como fortalecimento das relações entre negros de classes sociais diferentes, já que faziam parte da peregrinação dos Cordões no centro da cidade nos dias de Momo. Os salões da raça incitaram uma explosão de redutos negros para jovens dançarem e se divertirem e é justamente sobre um episódio num desses “bailes” negros que vamos voltar, no ano de 1965.

O informante desta passagem é meu querido amigo Antonio Carlos, o Zulu, que relatou sua primeira incursão aos tais “bailes negros”. A introdução feita é necessária para que tal processo seja entendido. O Zulu representa justamente uma parcela dos negros que foi criado em bairro branco, no caso dele nos Campos Elíseos, bairro resistente às manifestações negras, bem diferente do bom relacionamento visto na área da Vai-Vai. Viveu toda a sua infância, na década de 50, numa mansão em que Dona Maria, sua mãe, era cozinheira. Seus amiguinhos eram todos brancos. Detalhes sobre sua infância eu já abordei em outro texto.

Aos quinze anos a necessidade de conviver com os “iguais” era grande. A primeira e mais importante razão que fez com que ele buscasse um povo que com ele se identificasse foram – e isso não poderia ser mais óbvio – as recusas que sofria das meninas. Seus amigos todos já tinham dado suas esfregadas nas donzelas, menos ele. Um negro não era o perfil ideal para as filhas das madames e, por isso, nosso amigo muitas vezes era até “limado” das festinhas e bailinhos promovidos pelos patrões. As outras razões de sua necessidade também são as mais normais, como a busca por uma identidade de igualdade. Entre os negros ele não seria “diferente”.

Devido à falta de convivência no meio da negrada – é claro que tinha a família, mas quase não tinha amigos negros -, houve um estranhamento no primeiro baile que Zulu compareceu, na Freguesia do Ó, num salão indicado por um amigo branco. Foi, e foi só. Zulu não andava maltrapilho, muito pelo contrário. O filho do patrão de sua mãe usava roupas – dos melhores e mais bonitos panos – no máximo duas vezes. E tudo ficava pro negrinho. Dona Maria, mulher sabida, apoiou a idéia do filho de ir ao baile e deu, pela primeira vez, além do dinheiro do ônibus, uns trocados que pagariam no máximo três bebidas (pensava ela que seu filho ainda não bebia, aos quinze!).

Uma portinha com uma escada que levava para uma espécie de porão era a entrada. O pé-direito era baixo, mas o salão era grande, comportava coisa de 100 pessoas. Logo na entrada, um elegante Zulu foi mal-encarado por alguns elementos que o rotularam como “engomadinho”, o que causou tremores no garoto, receoso pela fama atribuída aos negros de serem rudes e briguentos – talvez a maior contribuição para essa pecha tenha sido o “Bloco dos Esfarrapados”, em que os cordões, antes do Carnaval, se encontravam apenas para violentíssimos embates físicos -, que o obrigou, já na entrada, a decidir não paquerar garota nenhuma, temendo sofrer cobrança dos rapazes da área.

Na primeira cerveja, recostado no improvisado balcão, um tímido Zulu ouviu dois caras dizendo que uma turma da pesada queria “pegar” um rapaz folgado da Barra Funda. Começou o suador e o negro ficou branco. O arrependimento bateu. “O que estou fazendo aqui?” se perguntava, visivelmente inquieto e tenso. Todos os olhares masculinos – em seus tenebrosos delírios - advertiam a bela camisa e seu impecável pisante de cromo alemão. Um coroa já meio bêbado, do outro lado do balcão, avisou: “Esses moleques acham que são malandros! Eles vão se dar mal. Estão mexendo com cobra-criada!”. Zulu, inocentemente, encheu o peito. Neste momento, pernas compridas e andar gingado desce os degraus um bamba e adentra o baile após ter surrado, na rua, os três rapazes que quiseram, em vão, impor o domínio da área e da capoeira. O sujeito, tranqüilo e risonho, pediu um vinho e puxou conversa. Zulu o conhecia de vista e sabia de sua fama e, apesar de no começo ter ficado acanhado, ao falar que era da Barra Funda ganhou o “apadrinhamento”, naquela noite, do temido gente boa.

Daí até o final do baile, mais tranqüilo e “seguro”, Zulu dançou, paquerou, bebeu e fez, como bem fazia seu padrinho, Bagunça...

14 de nov de 2007

Direção ofensiva

Dirigir não me apetece muito. Desconheço rigorosamente todas as engenhosidades de qualquer veículo motorizado. Eu tenho, há seis meses, um carro e o considero útil pras minhas andanças noturnas, principalmente quando bebo, na mesma noite, em bairros distantes. Pra trabalhar, prefiro o ônibus. Em uma hora de viagem rumo à labuta, posso dormir ou ler e ainda presenciar episódios hilários, histórias do cobrador, bronca no motorista e os bêbados do busão. Conheci há poucos dias, na Avenida Rio Branco, o amigo do Szegeri. Bradava, o cachaça!

Voltando aos automóveis, creio que essa minha total ignorância em relação ao “pé-de-borracha” é conseqüência de um desinteresse causado, principalmente, pelo status a ele atribuído, que suprime sua condição básica de transportar e incita, de maneira abjeta, uma veneração odiosa. O Jorge, um rapaz que trabalhava comigo, por exemplo, sabe tudo sobre todos os modelos e marcas e fábricas do mundo, inclusive os preços de cada carro (com os centavos). O Heleno, amigo de um amigo meu, é louco por Fórmula 1. Manja, por exemplo, toda a trajetória e o paradeiro de Pupo Moreno, Ricardo Patrese e Jean Alesi, entre muitos outros. Acompanha também, emocionado, as fórmulas genéricas, como Indy, 3, Stock Car e Kart. O Nilton, da Rua Padre Luis, passa o domingo lavando e polindo seu carro. Tem também o Duda, um mecânico do Bom Retiro que percorre a cidade atrás dos rachas (ou pegas) e dedica todo o seu tempo para “envenenar” seu “possante” e arriscar sua vida. Mas cada maluco, como dizia Bezerra da Silva, com a sua mania.

Sem mais delongas, após a longa introdução vou ao assunto, que é sobre péssimos motoristas. Não falo aqui de gente que tem suas dificuldades na baliza, nego que não tem muito senso de direção norte-sul/leste-oeste, essas coisas que acometem a maioria das pessoas. Refiro-me a condutores que têm carteira por milagre – ou suborno -, já que os estragos que causam com um volante na mão são terríveis.

Conta minha mãe que foi viajar com a Hulda – uma amiga de sua mãe, minha avó - para Guaxupé, sul de MG, em meados da década de setenta. Hulda, aos quarenta, já cultivava a fama de ser um perigo ao guidom. O resumo do episódio é que, a viagem, que levaria no máximo quatro horas, demorou oito. A pilota, medrosa, é daquelas que anda com o peito colado na direção e a cara quase no vidro. Necessita - e por isso minha mãe corajosamente deixou de ir de ônibus e correu este grande risco - de alguém sempre ao seu lado, pois – acreditem – ela não lê placas! Não consegue de jeito nenhum dirigir e ler placas, o que faz com que se perca sempre que vai a algum lugar, conferindo a ela a fama de “atrasilda”. Outro agravante: A Hulda – acreditem novamente – não faz ultrapassagens. Nesta viagem, da cidade de Casa Branca, quando a pista fica duas mãos (“lambe-lambe”), até Guaxupé, a traseira de um caminhão a quarenta por hora foi a única vista por elas apreciada.

Num grau tão tosco quanto o da Hulda está o tio Emar, marido da Rosária, tia da minha mãe. Cometeu algumas proezas nas viagens que fez de Guaranésia para São Paulo, como dar 26 voltas na Praça Campo de Bagatelli, na zona norte, até chegar à conclusão que estava a andar em círculos. Destruiu, o tio Emar, vários motores, graças à sua resistência em trocar de marcha. O câmbio é seu maior inimigo, já que pra passar de primeira pra segunda é preciso olhar para a alavanca, e isso é a maior causa de seu longo histórico de colisões. Aliás, por falar em batida, o Emar aprendeu a dirigir num parque de diversões, levando seus filhos pra brincar no perigoso “carrinho de bate-bate”. O auge de seus desvarios automobilísticos se deu quando, ao não saber o caminho de volta da Barra Funda para Perdizes, onde seu filho mora, voltou pelo mesmo caminho, na contra mão, causando um grande caos na Avenida Sumaré, culminando no atropelamento de um poodle acompanhado de uma pomposa madame.

Na década de sessenta, no desfile das escolas de samba de São Paulo – não sei o ano exato -, aconteceu uma burlesca barbeiragem. Dessa vez não era um veículo motorizado, mas foi a que certamente causou mais estrago, já que definiu a desclassificação em uma competição importantíssima. A cena mais cômica desse ano se deu envolvendo um motorista de um carro alegórico da Camisa Verde e Branco, contou-me o Dadinho. A alegoria era um grande sapo, pilotado por um embriagado membro da Escola, que pedalava o anfíbio tranquilamente, com a cachaça em punho. Acontece que a cana bateu na cuca e o tal piloto acabou dormindo. Um tresloucado “sapo” atropelou a metade de uma ala e saiu da avenida. Mas o folião bebum, que depois recebeu o apelido de Sambacaçote, pelo menos não tinha carteira de motorista como a dupla Hulda-Emar.

6 de nov de 2007

A placa de gol

Os altos e baixos são uma constante em todos os sentidos, desde os mistérios relacionados ao amor até a bufunfa no bolso. É com essa consciência que devemos ter bem claro que, se a coisa não está indo do jeito que queremos, é certo que o cenário se modificará e a reviravolta vem. Isso eu digo, logicamente, me referindo a um percurso natural e até certo ponto incontrolável – misterioso também - que o rumo das mil e uma variáveis que influenciam nossas vidas segue.

Passamos por aquelas fases secas em que não aparece uma paquera, não rola nem beijo e nenhuma casquinha pra tirar, uma tristeza só, que só é resolvida – por pouquíssimo tempo – com as próprias mãos. E o que dizer então dos tempos de árduas jornadas de trabalho tendo que aturar um chefe estúpido sem receber aquele merecido aumento? Neste caso as próprias mãos não podem resolver nada, já que espancar o chefe resultaria em justa causa ou até em cana. É preciso ter paciência e tranqüilidade que tudo isso é passageiro.

Eu poderia discorrer sobre os altos e baixos do Rômolo com as mulheres ou da montanha russa profissional do Jaiminho – uma das maiores figuras que eu já conheci -, mas sobre estes dois falarei outra hora. O que me motivou a escrever estas mal traçadas foi o futebol. Mais precisamente foi o meu combalido Corinthians.

Não vou detrair ninguém e nem espernearei como meu amigo Craudio. Também não será objeto em questão a escalação do time, a falta de noção futebolística dos jogadores e a possibilidade da segunda divisão. Isso é fase. O futebol é cíclico. Já fomos o Faz-me rir. Já pegamos vinte e três anos de fila.

Outro dia um amigo, o Binho, perguntou-me sobre a relação feita entre a várzea e a anarquia. A anarquia nega qualquer autoridade ou comando e popularmente virou sinônimo de bagunça. Então presumo que se o Corinthians é tão esculhambado, então é uma anarquia, então é uma várzea. Sendo assim, vou citar o Anhanguera como exemplo, que já passou por algumas – pouquíssimas, é verdade - fases terríveis, com times péssimos como este do Coringão. Lembro-me bem do começo dos anos 90, em que o segundo quadro do rubro-negro da Barra Funda foi uma espécie de Faz-me rir varzeano, tendo como ícones maiores da debilidade técnica o Marquinhos - lateral esquerdo - e o Da Lua - centroavante.

Nessa época o Walter Gordo, que andava preocupadíssimo com a respeitada reputação do Anhanguera, pensou numa solução para que o time não mais fosse impiedosamente “amassado” pelos adversários. Seria difícil trocar um time inteiro. Os bons jogadores do bairro estavam no primeiro quadro ou em outros clubes. Foi aí que o Walter teve a grande idéia de confeccionar uma grande placa com um aviso para os times que jogavam contra nosso segundinho. Um aviso não, era uma ordem. E graças a essa ordem, algumas regras do jogo tiveram que ser alteradas. Os jogadores que ousassem contrariar o aviso da placa – que em cada tempo do jogo ficava atrás de um gol, sempre no gol de defesa do Anhanguera - eram sumariamente advertidos. A redentora placa salvou a moral do time, que ficou sem perder por dois meses, até alguém pular o muro do clube e roubar a tabuleta.



*** O jogador que atirou essa bola no gol do Pezão, nosso goleiro, foi expulso de campo pelo Lampião após o chute. Atrás do gol, a torcida do time adversário balançava o alambrado na tentativa frustrada de derrubar a placa.
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