29 de out de 2009

Anhangüera dá Samba XXVIII

Ernesto Pires já havia ido ao Anhangüera duas ou três vezes – como eu disse outro dia. Dessa vez – na última sexta de Setembro - era ele a bola da vez, o convidado especial. O figurino em nada estava alterado; calça e camisa brancas, sapato bicolor e chapéu panamá com uma pena. No samba Ernesto também foi elegante. Cantando sambas clássicos e autorais, comemorou os trinta anos de estrada no mundo do samba. A noite foi muito agradável, o ambiente estava tranqüilo, a noite quente. Depois de sua apresentação, Ernesto encostou o cotovelo no balcão e só saiu dali as quatro da manhã, ao lado de seu irmão que o havia levado. Fiquei conversando com ele durante um tempo; perguntei se estava tudo certo, se ele havia gostado, essas coisas. Ernesto, que pediu um conhaque pra me acompanhar – eu já devia estar no quinto -, me disse: “Canto em várias casas, mas o melhor público está aqui. Por isso só vou embora quando me enxotarem.”.

Infelizmente vou ficar devendo as fotos e o famoso videozinho tosco que o Daniel Gordo faz toda última sexta. Não se sabe o motivo, mas a máquina fotográfica destrambelhou; alguma configuração errada fez perder o Ernesto Pires cantando no Anhangüera.

Amanhã já é a última sexta de Outubro. Os Inimigos do Batente receberão um dos maiores compositores do samba na atualidade: o grande sambista Toninho Geraes, autor de sucessos gravados na voz de Martinho da Vila (Mulheres), Beth Carvalho (Amor e Festança), Zeca Pagodinho (Pago pra ver / Seu Balancê).

Toninho Geraes é mineiro - vive no Rio de Janeiro há muitos anos - e tem mais de 200 músicas gravadas. Além de compositor é ótimo cantor. As rodas em que se faz presente costumam “pegar fogo”. Não tenho dúvidas de que nosso terreiro virá abaixo amanhã. Quem já o viu sabe do que estou falando.

Deixo um áudio de outro samba de autoria do nosso convidado Toninho Geraes, samba esse que ganhou o Prêmio da Música Brasileira na categoria Melhor Canção de 2009. “Uma prova de Amor”, na voz do Zeca. Som na caixa!

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Até amanhã!

6 de out de 2009

Odisséia

Recebi – já faz mais de ano -, por e-mail, uma mensagem que discorria sobre “as fases da vida”. No melhor estilo auto-ajuda, a mensagem comprovava que, de alguns anos pra cá, o ser humano passou a ter, segundo um estudioso social norte americano, sete (repito, sete!) fases, do nascimento à fase idosa.

A teoria contida no e-mail foi, instantaneamente, louvada e aderida pelos destinatários – os mesmos que vivem a repassar correios eletrônicos com mensagens de amor ao próximo e de ataques à esquerda política.

Segundo o pensador, o mundo globalizado, a tecnologia, a necessidade de conscientização ambiental, a vida atribulada por mil afazeres, o estresse e o pouco tempo disponível alteraram a simples definição de infância-vida adulta-velhice.

Eu não abro arquivos que contenham este tipo de mensagens. Só fi-lo quando percebi minha caixa de entrada bombando vertiginosamente; as respostas – chatíssimas, empolgadas – se multiplicavam. Entre os destinatários só gente conhecida minha (amigos de um amigo), todos mais ou menos da mesma faixa etária e classe social. Os únicos a não participarem da “conversa”: eu e Daniel, o Gordo, a quem admiro mais a cada dia que passa e que já ultrapassou há muitos anos o limite da amizade.

A teoria, repetindo, consiste em determinar as fases da vida nessa nova era. Vamos a elas: 1) Infância (até os 8 anos); 2) Pré-adolescência (dos 9 aos 12 anos) 3) Adolescência (dos 13 aos 19 anos); 4) Odisséia (dos 20 aos 35 anos); 5) Vida adulta (dos 36 aos 55 anos); 6) Amadurecimento total (dos 56 aos 70 anos); 7) Melhor idade (dos 71 até abotoar o paletó).

A fase que causou gritos virtuais de comemoração foi justamente a que me causou estupor: a tal da odisséia. Segundo a definição do pensador, a odisséia contempla uma fase em que o indivíduo está se descobrindo. Fase de viajar (para diversão, mas também para acumular experiência), curtir os amigos, planejar o futuro, fazer investimentos (comprar um imóvel é o ideal) e trabalhar bastante – mas só com o que gosta de fazer.

A odisséia representa a preparação para a vida adulta. Ou seja, a partir dos 36, você, após ter guardado um bom dinheiro, ter aproveitado a vida loucamente, ter acumulado experiências e conhecimentos (de preferência fazendo intercâmbios em países de primeiro mundo), pode casar e fazer um filho - no máximo dois. A vida adulta, no cenário atual, começa mais tarde que na época dos nossos pais.

Só lembrei desse negócio de odisséia porque meu irmão Bruno Ribeiro recomendou, em seu indispensável Botequim, a leitura do espetacular blogue Classe Média Way of Life. Leiam todas as 32 (até agora) recomendações para fazerem parte da classe média brasileira. Os destinatários do e-mail que recebi seguem à risca todas as indicações; e aí eu pergunto: - “fase odisséia” é ou não é um melindre de classe média?

Finalizando. Logo depois desse e-mail, numa das rodas de samba no Anhangüera, havia um grupo de pessoas brindando à odisséia, “aproveitando” a fase da vida que prolonga a adolescência e refuta as responsabilidades da vida adulta; um nojo. Um deles me convidou a brindar. Sem pestanejar, dei uma talagada na cachaça, virei as costas e dei no pé, ato nada apreciado pelos odisséicos em questão.

Para arrematar, sugiro aqui a leitura de um texto de outro irmão, Luiz Antônio Simas, sobre a dificuldade dessa turma em encarar de frente a implacabilidade do Tempo.

2 de out de 2009

Concorrência leal

Acho uma boa comemorar aniversário em bar. Mas o aniversariante que se presta a tal papel tem por obrigação, se não arrematar a conta toda, pagar pelo menos algumas rodadas aos convidados. Ando com o pé atrás quando o convite é para comemorar em bar; compareço, sem pestanejar, quando o aniversariante é de confiança ou quando o bar faz parte do meu roteiro. O pessoal que estudou comigo no Mackenzie, por exemplo, só convida pra bar de fresco. Minha ausência é certa. Eles entendem minha negativa porque eu era o único que bebia, dia após dia, no Bar do Gênis, o boteco mais imundo ali das imediações. Fui o primeiro e único aluno daquela faculdade a pisar lá.

Há alguns anos organizei, no Bar do Sinval, um pagode de aniversário num sábado à tarde. Eu, que só mantenho contato com dois camaradas dessa turma, convidei o pessoal da faculdade. Para minha surpresa uma moça “antenada” reclamou que, após procurar em vários sites especializados em bares, não descobriu nada sobre o Bar do Sinval. No fim das contas veio só o povo da Barra Funda, do Bom Retiro e o couro comeu.

Minha relação com os donos dos bares da região - Sinval, Valter (do Fofoca), Dona Ana, Mauro – é de número baixo. Por isso prefiro ficar por aqui sempre que possível. O único problema é que todos esses bares fecham invariavelmente antes da uma da manhã (a exceção é o Fofoca que fica um pouco mais). Aí a gente que gosta de um biricotico tem que se aventurar em outras paragens – estou me referindo única e exclusivamente ao ato de beber -, o que não era necessário até a década de 50.

A Barra Funda – quando me refiro à Barra Funda obviamente falo do México, a parte de baixo do bairro – viveu duas décadas mágicas no quesito “bar”. Três bares se notabilizaram pelos nomes, pela proximidade um do outro, pela qualidade das cartas de bebidas, pelo rodízio dos MESMOS clientes – dizem que todo mundo bebia nos três - e, principalmente, pela cordialidade entre os donos dos três históricos bares: Nunca Fecha; Fecha Nunca; e Sempre Aberto.

Até hoje os velhos dizem que não houve melhor lugar pra se praticar o nobre esporte de enxugar umas ampolas. Todos os homens da Barra Funda e dos bairros adjacentes sabiam que, se quisessem entornar sem a preocupação de serem enxotados pelo dono do bar, era lá que deviam beber. O alvoroço era enorme. Em pouco espaço, três senhores botecos entravam noite adentro. No mapa abaixo ilustro: em vermelho o Nunca Fecha (esquina da Garibaldi com Cruzeiro), em verde o Fecha Nunca (esquina de Garibaldi com Anhangüera) e em azul o Sempre Aberto (esquina de Cruzeiro com Salta-Salta).


As histórias envolvendo os três bares são infinitas, mas já que falei sobre comemorar aniversário em bar, vou nessa toada. Naquele tempo não tinha esse negócio de bolo de aniversário pra marmanjo crescido – pelo menos entre os carcamanos daqui da área. Depois de um dia de trabalho era de lei ir para um dos três bares; fazendo anos ou não. Dizia meu velho avô, o Tirone, que quando um sujeito ficava mais velho, tinha por obrigação pagar cerveja no Fecha Nunca, no Nunca Fecha e no Sempre Aberto. Independente da ordem, os três donos já sabiam que tinham que esperar a comitiva de bêbados a hora que fosse, o que pra eles não fazia diferença, já que não abaixavam as portas mesmo.

Meu avô (o da esquerda) e alguns amigos no Fecha Nunca, em 1946.
Mas o mais bonito é que, em três dias do ano, dois dos bares fechavam suas portas. Era justamente quando aniversariavam seus donos: no dia do Teófilo, por exemplo, dono do Fecha Nunca, o Mateus, do Nunca Fecha e o Nelson, do Sempre Aberto, baixavam as portas e iam para o rega-bofe do Teófilo pra ter o seu único dia de cliente do ano. E assim, desprovidos da infecciosa regra da competição, quebravam uma única vez por ano a missão a que se propunham, que estava cravada nos nomes de seus bares.
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