25 de set de 2007

Glamour por água abaixo

A palavra “glamour”, por si só, é afrescalhada. No século XX, ainda ganhou uma conotação nojenta e deturpada, tornando-a mais arrogante ainda. Esta palavra vem do escocês (embora muita gente pense que é francesa) e sua origem vem de “grammar”, gramática, que nos tempos medievais era acessível a pouquíssimos clérigos. Os outros, que não sabiam escrever e ler, a associavam a práticas mágicas, ocultas. À época, “grammar” em inglês significava “feitiço” e na língua escocesa era escrita com L, “glammar”, virando depois “glamour”, que no sentido atual é uma qualidade extraordinária que torna coisas e pessoas charmosas, atraentes e na moda, graças ao cinema americano.

Ontem à noite, assistindo televisão enquanto dava uns tragos na cozinha, passei pela Gazeta e parei. No letreiro, na parte de baixo da tela, a frase estampada: “Assunto de hoje: Glamour”. Como o apresentador é o metrossexual, ex-roqueiro e jovem guarda Ronnie Von, decidi checar e comprovar a boiolice do tema e do apresentador. Um cozinheiro preparando doces chiques com chantilly dava ares mais maricas ao ambiente (ah, se eles comessem a goiabada da tia Maria do Carmo).

Os convidados eram o casal Paulo Goulart e Nicete Bruno. Particularmente, os vejo como bonachões desprovidos de status e pose, do jeito que eu gosto. Era apenas uma impressão que eu tinha que, ao longo do programa, foi se confirmando. Paulo Goulart parece um dirigente de clube de várzea, no melhor estilo Carlitos do Nacional e a Nicete Bruno tem todas as características de uma tia da minha mãe, a Maria do Rosário, uma senhora que gosta, como ela mesma diz, das “coisas mal-feitas”, entre elas peidorrear sem se preocupar com o volume e falar coisas pornográficas. Terrível, a tia Rosária.

O programa ia se desenrolando por tópicos, todos à volta do tema principal, o glamour. Bebidas, cigarro, música, lugares, filmes, situações, restaurantes, entre outras coisas. O que me enoja é que tudo o que o Ronnie citava como glamouroso, é tudo o que pouquíssimos têm acesso.

No tópico “bebidas”, Ronnie ficava dizendo que é sommelier, que conhece muito de vinho e tal. Neste momento, Paulo Goulart deu uma talagada que matou a taça de vinho e um sorriso amarelo caguetava sua tremenda vontade de tomar uma Brahma gelada ou ainda aquela cachacinha de alambique. Já a Nicete, tenho certeza, preferia uma boa batida de maracujá, doce e forte. A pior parte veio quando, extasiado, Ronnie falou da bebida espumante, sem perder a pose e a classe de um experiente sommelier: “Champéin! Só o nome já é chique! Tem muito glamour, não?”. A resposta do casal foi um “é...” mais sem graça que o Dedé Santana, o que causou um mal estar, já de cara.

Von, com sua pose, lá do alto disse, em tom marrento: “Falemos de música! Quer algo com mais glamour que um belo tango?”, ao que vem o bronco Goulart: “Eu gosto é de um samba!”. Nicete ria e o Von, engasgando, mantendo a classe: “Claaaaaro, existem sambas lindos. E bem dançado, é de um glamour espetacular!”. O casal: “É...”. Percebendo que seus convidados não eram tão glamourosos, decidiu falar de cigarro e citou as dificuldades de Paulo Autran, decorrentes do tabaco, em tom piedoso: “Ah, eu falei tantas vezes pra ele parar!”. Tomou mais uma bordoada, dessa vez da tia Nicete: “Temos que respeitar a individualidade!”.

Daí pra frente, o Paulo Goulart sempre dava um jeito de responder alguma coisa que fingia ser engraçada, pra, junto da tia Nicete, cair na gargalhada, sendo observados pelo deslocado apresentador. Com certeza estavam rindo das viadagens do Von, que foi apanhando e, para não deixar o glamour afundar, começou a falar sozinho, até tomar uma bronca da diretora e dar a palavra novamente aos convidados, que são o anti-glamour. Que beleza! Eu, mais um “barqueiro” nascido e criado na Barra Funda, convivendo com Quitos e Bonitões, agradeço. Muito obrigado, tia Nicete e tio Paulo!

20 de set de 2007

A maior celebridade do Bom Retiro

Desde que o Cacique Tibiriçá, em 1532, travou contato com Martim Afonso de Souza, onde hoje encontra-se a Avenida Tiradentes, muita gente importante nasceu e se criou no Bom Retiro. O músico Toquinho e o ator Elias Gleiser são bons exemplos disso, além do Xixiró, que deixou de ser importante quando seu romance com a Rita Cadillac terminou, há trinta anos. Hoje, ninguém supera o multitalento de um homem. Homem não. Um fenômeno. Este é o adjetivo para Dirceu Datti. Um senhor de 80 anos que vive contando suas histórias. E são inúmeras. Vencedor de concursos de variadas modalidades, Dirceu Datti não para de bater recordes. Resolveu imprimir seu impressionante currículo e sair por aí o distribuindo para que ninguém mais duvide de seus feitos. No Sábado passado, na barbearia do Osvaldo e do Belizário, na Rua Barra do Tibagi, entregou um currículo para meu irmão Daniel. Homenageio o Sr. Datti, figura notória do Bom Retiro, expondo aqui seu imponente currículo na íntegra (inclusive os erros de pontuação e tudo mais):


DIRCEU DATTI
CURRICULUM

MUNDIAL: GASTRONOMIA 1 TÍTULO / CHOPP 1 TÍTULO / CERVEJA 3 TÍTULOS
BRASILEIRO: SORVETE 1 TÍTULO / BATIDA 1 TÍTULO / VINHO 1 TÍTULO


ASSOCIAÇÃO DATTI DE GASTRÔNOMOS DO ESTADO DE SÃO PAULO, Fundado em 05/08/59, seu fundador e Presidente Dirceu Datti, Vice-Presidente Vicente Medeiros (Mestre Cuca). Foi a única Associação a realizar Campeonatos no Mundo. Dirceu conseguiu obter 5 Títulos Mundiais começou a disputar em 14/03/63, estando invicto até 2005. Nunca foi derrotado em sua vida. É considerado autêntico e legítimo Campeão Mundial por diversos órgãos de imprensa de diversos países do mundo. Dailto Datti, primo de Dirceu Datti, Vice-Campeão Brasileiro de Gastronomia, da cidade de Capivari, SP terra dos poetas e dos maiores glutões do Mundo.

COMENDADOR:
Pelo Centro de Estudos, Pesquisa, Parapsicologia, Psicologia, de São Paulo, em 28/09/79, no Hilton Hotel. Cunha Bueno e Lindomar Castilho também receberam a comenda.

GASTRONOMIA:
Campeão Mundial em Gastronomia em 14/3/63 – Diário da Noite – Folhas – Canal 4.
Campeão do torneio Rio-São Paulo em 12/7/69 – Canal 4.
Superou o recorde mundial em 12/7/69 – Canal 4.
Campeão Brasileiro em 4/8/69 – Canal 4.
Campeão do concurso realizado no Programa do Chacrinha, em 3/1/70 – Canal 5.
Completou 40 anos de invencibilidade até 2005.
Considerado autêntico e legítimo Campeão Mundial em Gastronomia pela “NIPON” TV Canal 4, TÓKIO (JAPÂO), em demonstração de 3 horas, gravada em video-tape em 17/3/70.

GINKANA
Vencedor da Ginkana Paulistas x Cariocas no Programa Flávio Cavalcanti, em 25/7/71 – Canal 4.

MACARRÃO
Vencedor no Programa do Bolinha em 10/4/68 – Canal 9.

CHOPP
Campeão Mundial em beber chopp pela rapidez, categoria 15 copos em 25 segundos, em 12/12/70, no 1º Campeonato Mundial realizado no Brasil. Participaram: Brasil, Alemanha, Itália, Portugal e Bolívia, Canal 5. Outro recorde mundial, categoria 10 copos em 17 segundos, em 13/5/72, na 1ª Festa da CERVEJA da Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo (Restaurante Zilertal) – Presentes: Mauro Pinheiro, Vicente Feola, Flavi Iazetti, Lucas Neto, Pedro Luiz e Francisco de Assis, Canal 13. Outro recorde mundial, categoria 5 copos em 5 segundos, em 15/7/70 no Programa Hebe Camargo – Canal 7 e Programa Clarice Amaral – Canal 11 em 1/3/72 (cronometragem sem interrupção).

BATIDAS
Campeão Brasileiro em beber “Batidas” – 56 doses 2:30 horas, em 19/6/1991 (no Mário das Batidas).

BRAZÃO
Da família Datti desde 1300 e Ofício Heráldico de Firenza – Itália, em meu poder.
Rua Nunes Garcia, 101, apto. 61, São Paulo – Brasil – Tel.: 6281-6860

ENTREVISTAS
Considerado Autêntico Campeão = Revistas
Life E.E.U.U.
Repórter Peter Rodger
Nippon Television Network
Corporation Tokio Japão

JAPÃO – SHOW SURPRESA NO MUNDO
Sr. Diretor Masatoshi Oshids – TV Canal 4.
Fuji Telecasting Co. Ltd. Canal 8, Entrevista com Sr. Minori Shioda em 10/7/69 – Tókio Japão
Revista La tribuna Ilustrada, Itália em 20/7/69

RÁDIO – A VOZ DA AMÉRICA U.S.A.
Felicitando por telefone pelos títulos mundiais adquiridos em 15/5/70

ATRAÇÃO TURÍSTICA
Visitas consecutivas de turistas de diversos países: Europa, América do Sul, América do Norte, Japão, China, África, etc.

CORRESPONDÊNCIA
Com a França, África Portuguesa, China, U.S.A., Portugal, Alemanha, Bolívia, Israel, Itália, Japão.

JORNAL THE SUM BALTIMORE U.S.A.
Considerado autêntico e legítimo Campeão Mundial em diversas modalidades – Repórter Sr. Robert A. Erlandson em 9/12/71.

LIVRO GUINESS – Guiness Book of Records
PARABENIZANDO PELOS TÍTULOS:
Rádio B.B.C. de Londres, Revista Life, Europa Press, Revista Bunter Illustrier 1971

CHOPP
Vencedor do Concurso Paulistas e Cariocas em 10/9/66 – pela quantidade ¾ de Barril com 18 litros – Folhas

CERVEJA
Superou seu próprio Recorde Mundial tomou 1 em 4 segundos pela rapidez categoria 5 copos em 18/10/74. Canal 13 e 5 Notícias Populares, Repórter Mauro Dias Pereira (Cronometragem sem interrupção).

BARALHO
Campeão Paulista no jogo de Truco em 12/9/72 – Capivari – SP – Notícias Populares.

SORVETE
Campeão Brasileiro em tomar sorvete, 8 tijolos em 2 horas, demonstração em 4/3/73 – Sorvete Kybon – Notícias Populares.

CERVEJA
Campeão Mundial em beber cerveja pela quantidade 105 copos cristal em 4 horas, em 5/5/75, ex-campeão mundial Jack Manakar Neozelandez, 2/1/70, com 77 copos. Folhas.

DATTI x SILVIO SANTOS
Datti tomando 10 copos de cerveja em 21 segundos, pela rapidez Silvio Santos despejando 10 copos em um vasilhame conseguiu em 29 segundos (Datti o vencedor) 9/3/71 – Canal 5.

CERVEJA x QUEIJO
Campeão Brasileiro, tomando 1 cerveja no prato fundo com uma colher, em 1 minuto e 15 segundos e o adversário comendo 100 gramas de queijo fresco (Datti o vencedor), em 23/2/73 – Canal 5 (Repórter Edgard Cavalheiro).

BATIDAS
Vice-Campeão Paulista em preparar a melhor batida em 17/11/74 no Círculo Militar de São Paulo. Programação Clube Solar de Amigos.

LOTERIA FEDERAL
Ganhou o 1º Prêmio com 17 pedaços do nº 30811
Ganhou o 3º Prêmio com 6 pedaços do nº 00696

COBRA JARACUÇÚ
Após recusa dos demais convidados a comer, Datti devorou 2 travessas – 1974 – Notícias Populares. Repórter Mauro Dias Pereira.

FEIJOADA
Foi convidado e deixou a família sem comer, na residência do Mestre Cuca Sr. Vicente Medeiros – 1971.

CHURRASCO
Depois de comer 6 kg de churrasco e 30 copos de cerveja, em 20/3/75, na churrascaria Bella Rio (venceu a aposta).

CUSCUS
No final de uma festa depois de 03 hrs comeu 45 cuscus pesando 150 gr cada em 27/7/78, na Clube Anhanguera.

COSTELA DE VACA
Comeu 6 espetos com 2 kg cada e 8 cervejas em 22/06/78, no Stop Clube.

PASTEL
Comeu uma cesta com 48 pastéis em Tietê, cidade de São Paulo.
Quando acompanhei a Seleção Paulista de Veteranos de Futebol em 1971.

CAPIM
1º Festival Internacional, em 24/10/71 – Brasil, o 1º no mundo nesta realização tudo com campim. Macarrão, Polenta, Pudim, Batida, Sopa, Arroz, etc.

VINHO
Em uma festa de inauguração, enquanto os convidados tomavam chopp, DATTI acompanhou na mesma quantidade, tomando vinho. Tomou 2 garrafões em 8 horas – 05/06/66.

ESTÔMAGO DE AÇO
Considerado o Homem do Estômago mais forte do mundo, pelo Círculo da Fraternidade de Espiritualista dos Essênios Universalis da Meditação Profunda.
Ao Irmão Fraterno Dirceu Datti a quem consideramos, uma rara e impressionante figura humana que irradia grande simpatia no campo magnético da vida pela bondade e capacidade de fazer amigos em toda parte do mundo. Dr. Israel Averbach, Grety Marcon – Atriz, Charles Galant – Ator. 05/02/74.

TEATRO
Bonturo Datti, meu tio participante da Divina Comédia na Itália, por Dante Aliguieri.

APERITIVO
Alguns dos meus amigos que participei tomando aperitivos:
Jânio Quadros, Ademar de Barros, Assis Chateubriand, Prestes Maia, Faria Lima, Barbirotto, Adelaide Carraro, Ermelino Matarazzo, Adoniran Barbosa, Silvio Caldas, Samuel Klein, ...

FUTEBOL
Mixto do São Paulo, Juvenil do Corinthians, Mixto do Corinthians, Comercial, Nacional, Ipiranga, Veteranos do Palmeiras, e Veteranos Paulista.

TÉCNICOS DE FUTEBOL – Meus técnicos
Dell Debio, Arakem Patuska, Feitiço, Vicente Feola, Augusto, Barilote.

SAUNA
Campeão em fazer massagem com Vassoura de Eucalipto e com Espuma de Sabonete.

MASSAGEM
Faço massagem da coluna. (grátis)

ESPORTE
São Silvestre 4 vezes, Maratona A Volta de São Paulo, Futebol de Salão, Basquete, Box, Natação, Passeio a Pé e com Bicicleta pela cidade com milhares de participantes, Alterofilismo.

ENTREVISTAS
Silvio Santos, Flávio Cavalcanti, Manoel de Nóbrega, Chacrinha, Hebe Camargo, Clarice Amaral, J. Silvestre, Vicente Leporace, Gular de Andrade, Jacinto Figueira Jr. Bahia Filho, Gonçalo Parada, Antonio Aguilar, Domingos Paulo Momone, Percival de Souza.

SUA INFÂNCIA
DIRCEU DATTI nasceu em 01/06/27 em Vila Rafard, Município de Capivari, passou a infância em Porto Feliz, na Fazenda Conceição, em 1936. Filho de um pobre barbeiro, Sr. Primo Datti, que vivia também da pesca. Como suas refeições não eram suficientes, para completar chupava cana e comia abobrinhas cruas. Era um dos menos favorecidos. Em 1941 mudou-se para São Paulo. Tendo necessidades de fazer uma operação, só foi possível com atestado médico de pobreza.

19 de set de 2007

Anhanguera dá Samba IV

Quando anunciei a terceira edição do projeto Anhanguera dá Samba, eu disse que “a convidada especial é a Fabiana Cozza, excepcional intérprete que, além de cantar de maneira singular, simplesmente domina e hipnotiza todo o ambiente que está sob o encanto de sua potente voz.”. Foi mais que isso. Fabiana, que viajaria para o interior do estado poucas horas após chegar ao Anhanguera, cantou exatos quarenta minutos. O suficiente para fazer a Barra Funda explodir. Ainda este domingo, após nossa sagrada pelada, alguns inebriados expectadores comentavam o quão emocionante foi ouvir Fabiana junto dos Inimigos do Batente.

Como de praxe, disponibilizo um vídeo da festa (pena ter ficado muito escuro):



E como a coisa não pode parar, dia 28/09, a partir das 22h00, os Inimigos do Batente convidam ninguém mais ninguém menos que sete coroas que conhecem como ninguém essas bandas, que desde os tempos do comando de Inocêncio Mulata estão na área compondo, batucando e resistindo. Desde o mais velho Mario Luiz (71) até o caçula Jamelão (60), além de Airton Santa Maria, Dadinho, Nelson Primo, Paulo Henrique e Ailtinho, é muita história pra contar. O bar do H foi o local escolhido para, na quarta feira passada, tomarmos uma cerveja eu, Gilmar, Dadinho e Melão, onde fiquei sabendo de passagens interessantes do carnaval paulistano que virão à tona aqui neste espaço.

Ouçam a gravação de Homenagem à Velha Guarda do Camisa Verde e Branco, no primeiro disco do Quinteto em Branco e Preto, cantando junto com os bambas da Velha Guarda.

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A Velha Guarda Musical, representante maior do samba na Barra Funda, batizará o projeto, que migra do salão social para a várzea de fato, no “quintal” do clube, um terreiro aberto – e coberto -, de frente para o campo, lugar onde acontece a mistura de times, bairros e raças, onde os bêbados se seguram no alambrado, onde os gritos de “truco” e “bati” dominam as mesas de carteado, onde a batucada das torcidas e comemorações de gol ecoam todos os domingos no nosso campo! É ali que a tradição se mantém.

Até o dia 28!

11 de set de 2007

Eu, terrorista

Há exatamente seis anos dois aviões derrubaram as torres gêmeas na empinada Manhattan, ação esta fruto de terrorismo, como todos sabem. Neste dia, lembro-me bem, e isto também não é novidade, que tudo ficou de pernas pro ar. Gente dizendo que começara ali a terceira guerra mundial, que a economia sofreria um abalo tão grande quanto o da crise de 29 entre outras coisas, além do desespero de algumas pessoas que tinham parentes nas terras do Tio Sam. Até aí, tudo bem. Mas a Dona Clara da Rua Boracéia, por exemplo, ficou duas noites sem dormir e quase morreu de insuficiência respiratória decorrente de sua extrema aflição. Claro, afinal seu filho Nezinho estava lá na “América”. Mas estava no interior da Califórnia, do outro lado do país! E não adiantava explicar. A mulher só sossegou quando Nezinho ligou e disse que estava bem.

Curta observação: não pretendo aqui tecer comentários nem fomentar fóruns de discussão sobre este episódio específico. Quero e vou hoje, meus caros, falar sobre terrorismo bem ao meu modo. Antes de mais nada deixo claro que, graças ao 11 de Setembro, aos carros e homens-bomba, aos atentados em metrôs e trens, entre outras barbáries de natureza assassina, suicida e extrema, como estas citadas, a palavra terrorismo ganhou cara e características bem definidas para a maioria das pessoas que a ouve.
Aposto uma grade que, para nove entre dez pessoas, a característica do terrorista é a de matar inocentes em massa com homens-bomba e não a de acumular riquezas e, para manter o poder, arrancar tudo o que o outro, mais fraco, ainda possa ter. Este mais fraco pode ser um trabalhador ou um país do terceiro mundo, por exemplo. A cara que o terrorista ganhou é a do Bin Laden e não a de um Bush ou um Médici, por exemplo. Este último se gabava justamente de livrar o país do terrorismo e da guerrilha comunista. Não obstante, utilizou métodos terroristas para alcançar seus imundos propósitos.
Para melhor entendimento, já que eu não tenho a destreza de um Simas com as palavras, e até para apoiar o causo que vou contar, recorro ao Houaiss:

Terrorismo
Acepções

■ substantivo masculino
1 modo de impor a vontade pelo uso sistemático do terror
2 emprego sistemático da violência para fins políticos, esp. a prática de atentados e destruições por grupos cujo objetivo é a desorganização da sociedade existente e a tomada do poder
3 regime de violência instituído por um governo
4 Derivação: por extensão de sentido (da acp. 1).
Atitude de intolerância e de intimidação adotada pelos defensores de uma ideologia, sobretudo nos campos literário e artístico, em relação àqueles que não participam de suas convicções
Ex.: t. intelectual


Como depois do Houaiss não é preciso falar mais nada, além de minha observação não ter sido curta, vou agora revelar um ato de terrorismo do qual fui um dos cabeças, atuando no planejamento e também na execução do ato, no auge de meus oito anos de idade.

Na maioria dos bairros, sempre existe uma rixa entre os moleques da “rua de cima” e da “rua de baixo” e, naturalmente, minha turma jogava bola contra a molecada da rua de cima, passava o cerol nas pipas (diz-se papagaio também) deles, tocava as campainhas de suas casas e saia correndo, entre outras disputas acirradas. A concorrência entre as turmas era grande e o que estava em jogo era quem exercia o domínio do território, em algumas vezes tal rivalidade acabava na porrada. Houve, porém, durante algum tempo, um período de consenso no qual foi definida a economia de muquetadas, já que um dia o Ruizinho chegou todo arrebentado em casa e seu irmão de 13 anos, valentão, ameaçou bater na molecada. Durante este intervalo não valia briga, mas não houve paz. Tudo era motivo pra provar quem é mais fodão.

Um parceiro meu, o Filé, que havia perdido no bafo a figurinha do centroavante Gaúcho para o Tico, que era o chefe da turma da rua de cima, chorava e queria a figurinha de volta. O Gaúcho era raro e seria impossível achar outro. Como o Tico não devolveu a figurinha e nem quis trocar por outras dez, amparado pela lei da não-porrada, começou a tirar sarro. Nós estávamos em três contra ele, mas não podíamos bater. Foi aí que minha mente terrorista brilhou e eu, veementemente bradei: “Banho de cócegas!”.

O banho de cócegas acabou virando arma dois lados. Tico, todo cagado após as sofríveis gargalhadas, perdeu a moral e foi destituído do comando da rua de cima. Recuperamos o Gaúcho!

5 de set de 2007

A cartomante

Não. Não falarei sobre o conto de Machado de Assis. Também não farei uma introdução sobre a história da quiromancia e suas técnicas, já que não conheço nada do riscado, confesso. Apenas sei que Aristóteles era um craque na leitura de mãos, além da minha querida amiga Leila. Mas vamos ao assunto, o Luciano.

Luciano é um colega meu da época de faculdade. Única pessoa que bebia comigo no buteco mais sujo – Bar do Gênis – duma travessa da Rua Maria Antonia, que é infestada de bares “descolados”. Ele, assim como eu, pouco assistia às aulas do imprestável curso de administração de empresas. Mas não é sobre o curso que quero discorrer. Seria desperdício de tempo. O Luciano é um sujeito de poucos amigos e não dá trela pra quase ninguém. Muita gente o acha esquisito e tímido, o que não procede. Mas também não é sobre o gênio e o jeito do baixote (tem pouco mais de 1,60m o Luciano) que vou falar. Quero é contar-lhes sobre o dia em que ele foi a uma consulta lá no Ipiranga, perto da fábrica de calhas de seu pai, empresa em que ele finge que trabalha. Não era uma consulta médica. Luciano, um cético convicto, após meses cedeu às investidas de uma cartomante e entregou sua mão à leitura.

O fato de o Luciano ter ido à cartomante causou-me enorme estranheza, já que ele não acredita em nada que os olhos não vêem, tampouco em previsões de futuro, horóscopo, oráculos, santos, hipnose e também na quiromancia.

A explicação que me deu o Luciano é de que ele já não agüentava mais a cartomante, vizinha da fábrica, enchendo diariamente seu saco, chamando-o para a consulta. Era chegar pra trabalhar e lá estava a mulher na porta acenando para ele entrar. Na hora de ir embora, a mesma coisa. Isso por meses a fio. Era muito suspeito aquele beco, pois ele nunca vira alguém entrar ali, a não ser um rapaz que parecia ser o filho dela, que, vez em quando, aparecia com duas crianças para uma breve visita. A insistência da cartomante deu certo.

É claro que meu camarada adentraria a estreita entrada da casa da cartomante com o principal propósito de se livrar do grude que a mulher havia se tornado, além de tirar a prova, ou melhor, comprovar, que ela e aquilo tudo eram uma baita charlatanice. Sua previsão – ironia – seria confirmada, não obstante a um alto preço, o que o credenciou como um otário frente àquela mulher enigmática.

A educação da contumaz cartomante era de deixar o queixo caído. Palitando os dentes, a mulher, após um colossal arroto o recebeu com ar de desdém quando de sua aproximação:

- Até que enfim, hein! Demorou pra vir aqui. Paga dez adiantado.

Esboçando um sorriso amarelo e já pensando na roubada em que se metera, Luciano sacou da carteira uma solitária nota de cinqüenta, uma onça, que fez os olhos levemente puxados da mulher brilharem.

- Não precisa pagar adiantado. Venha comigo.

O longo e estreito corredor de menos de setenta centímetros de largura desembocava numa saleta cheia de adornos exóticos para o leigo cliente que ali se encontrava. Um cliente com uma bela onça na carteira, pensava a sortista, imaginando a nota devidamente alocada em seu sutiã, já que não dispunha de bolsos no enorme vestido em tons de rosa e vermelho e várias camadas de pano.

Após algumas obviedades, um impaciente Luciano reclamou:

- Pô, fala alguma coisa que presta.
- Cala a boca e deixa-me fazer meu trabalho. Estou vendo aqui na esquina dessas duas linhas que vai acontecer uma grande mudança no seu trabalho. – Sussurrava a mulher, dando ares de suspense. - Pra essa revelação, você terá que pagar mais dez.
- Puta que pariu! Tá bom. O que é?
- Você será o dono dessa fábrica dentro de três anos! – Isso era óbvio, mas o herdeiro da Forte Calhas imaginou por um instante que seu pai morreria ou sofreria alguma restrição grave que o impediria de tocar os negócios.
- Vai acontecer alguma coisa ruim na minha família? Algum problema de saúde?
- Vejo aqui sua família. Mas pra te revelar essa questão, venha com mais dez.
- Que é isso? Você falou que a consulta era só dez e já tô pagando vinte, quer trinta agora? Isso é roubo!

O diálogo neste instante foi interrompido por duas tapas na testa de Luciano:

- Quieto! Vejo aqui sua mãe e duas crianças. Sua mãe tem dois filhos!
- Não. Minha mãe tem três filhos. Tenho dois irmãos.
- Ah é. Estou vendo o terceiro aqui no cantinho. – Encostando o indicador no pulso do Luciano, que guinchou de rir.

Após a confirmação de que seu pai não morreria, o suspense voltou a reinar e Luciano pagou mais dez pela informação sobre seu futuro amoroso. Ele, que tem muita dificuldade com as mulheres (além de pouco falar, não é provido de qualquer beleza física, mínima que seja), ficou sabendo que casaria perto de seu aniversário de 28.

Ao final, acabou deixando a nota de cinqüenta e foi embora com a certeza de que aquilo tudo era mesmo patifaria pura. Mas inconscientemente, a dois meses de completar os 28 e com tremendo medo de ficar pra titio, procura desesperadamente a tal mulher que lhe dirá o “sim” no altar.
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