31 de jul de 2008

Senhoras & Senhoritas

Fui, há um ano, quando este blogue ainda engatinhava, até a casa de Mário Giovanelli, o Marinho, ávido por fotos de um dos maiores blocos já vistos. É sabido que minha principal missão por aqui é a de imortalizar passagens e personagens do meu lugar que merecem, minimamente, um registro. Meu intuito, à época, era escrever sobre a fuzarca anual promovida pelo grande Dinão. Porém – é sempre assim - não consigo escrever sobre certos temas exatamente quando bem desejo; tenho uma lista de causos que até hoje não passaram da primeira linha. Não adianta; determinados assuntos têm data marcada para abordarmos e, estranhamente, numa centelha inesperada, pronto; está escrito.

“É deixar o barco andar e a vida prepara as surpresas que nos salvam neste mundo sofrido pelo desencantamento”, é o que sempre diz meu grande amigo Bruno Ribeiro. Dele recebi hoje um e-mail com fotos de uma pelada do Pátria Futebol Clube, um dos maiores times do Brasil (tive o prazer de conhecer sua sede semana passada), na década de 60. Ele as postou em seu Botequim. Revelei ao Bruno que estava há três dias pensando em falar sobre o Senhoras & Senhoritas, que marcou época na Barra Funda. Por isso digo que coincidência – perdoem, sou um lorde – é o caralho.

O ritual masculino de se vestir de mulher em determinados eventos é coisa antiga; de séculos. No Brasil, o “futebol de saias” é tradicionalíssimo de norte a sul praticamente desde que o próprio esporte bretão por aqui deu as bolas. A divisão dos times, no entanto, é o que mais me fascina; o critério mais justo possível, que não se pauta em posição econômica ou social, ou em habilidade futebolística, mas simplesmente numa escolha pessoal: o famoso Casados X Solteiros, o clássico mais antigo da história do futebol. Além de milenar é o de maior freguesia, com os casados ostentando 100% de aproveitamento. Já assisti e participei de incontáveis prélios e garanto que nunca soube de uma derrota dos casados. Se os solteiros ganham, esteja certo que há vários amasiados no time, o que não legitima a quebra do tabu. Apesar de a média de idade e as barrigas serem maiores que as dos solteiros, o quesito “experiência” sempre se sobressai. É uma Lei Universal; os casados ganham.

O primeiro troféu do Anhangüera, datado de Maio de 1.929, é de um jogo entre casados e solteiros. Nos anos 40 e 50, poucos dias antes do tríduo de Momo, havia um festival envolvendo quase todos os times do bairro. Era uma espécie de Torneio Início, com os homens todos vestidos de mulher. Depois, na década de 80, pelas mãos do saudoso Dinão, que criou junto com Coquinho o legendário Senhoras & Senhoritas, que acabou virando bloco, a coisa voltou com tudo, chegando a botar na Rua mais de 1.000 homens usando saias e batom.

Dinão chegou à Barra Funda nos anos 50. Criado na Zona Norte, sempre participou em associações de bairro, em reivindicações junto a políticos por espaços sociais e, principalmente, em butecos e orgias. Em pouco tempo Dinão já era diretor do Anhangüera e, mais que ninguém, deu atenção especial às crianças. São várias as gerações que começaram a bater bola nos times do “Seu Dino” e, depois, já barbudos, continuavam pedindo sua benção. Desde a categoria Mamadeira até o Juvenil era com o velho, que abria as portas do clube para a molecada do bairro, para os filhos dos amigos e associados e para os meninos da Favela do Gato jogarem bola e depois comerem lanche e pipoca; tudo pago. O dia das crianças, sob sua batuta, tinha jogo de todas as categorias, churrasco, sanduíche e brinquedo pros inúmeros pirralhos que depois se espremiam em volta de sua imensa pança para ainda receber do velho uma medalha de “honra ao mérito”. Na foto abaixo Dinão está de boina.



Dinão inventou o Bloco dos Acqualoucos. Uma vez por ano, perto do Carnaval, uma grande turma do bairro descia a serra e ia pra Santos encher o pote.


No ano de 1.980, Dinão atinge seu ápice fundando o Senhoras & Senhoritas e o que começou com meia dúzia de avariados se transformou, em menos de uma década, numa das maiores festas de rua da história da Barra Funda. Dinão tinha um carisma fantástico. As pessoas o rodeavam; crianças o viam como um vovô carinhoso, homens adultos como um mestre e as velhas como um galanteador charmoso. Gostava como poucos de um rega-bofe. Quando o Senhoras & Senhoritas tomou proporções inesperadas – já elevado à categoria de bloco com carros alegóricos e a porra toda -, Dinão saia à frente rodando a saia. Quando algum incauto não travestido se aproximava para fazer as brincadeiras mais estúpidas como “Aí Dinão, assumiu a viadagem!”, o velho sacava de debaixo da saia uma piroca de borracha enorme, esperava o otário virar as costas e batia na bunda do pilantra.

O “esquenta” era no bar da esquina da Rua do Bosque com a Cruzeiro. De lá, a banda puxava os bárbaros e o bairro inteiro saia pra acompanhar. As ruas iam sendo tomadas até o campo do Anhangüera, para a disputa dos casados contra os solteiros, em que os jogadores já chegavam bebaços. Algumas personalidades apareciam no bairro apenas para o Senhoras & Senhoritas, como um crioulo que se auto intitulava Nega Maluca; nunca ninguém soube seu nome.

Dinão, um dos grandes líderes populares do século XX, mesmo após ter a perna arrancada pela diabetes (pouco depois foi oló), manteve-se inabalável. “Façam festa e pensem nas crianças” era o lema de Dinão. O menino Dinão.

23 de jul de 2008

Anhangüera dá samba XIII

Ivan Milanez é um suburbano nato, figura da melhor qualidade. E-mail e celular são tecnologias dispensadas pelo malandro. E nessas horas a gente vê como são dispensáveis; porém admito que fiquei cabreiro no dia. O ônibus atrasou e o Ivan estava incomunicável; pedi ao taxista me ligar assim que o das 11h01 chegasse, e assim foi:

- Alô, mestre Ivan? Foi bem de viagem?
- Foi, só faltou um refresco...

Na primeira hora após pisar o Anhangüera, foram três uísques sem gelo batendo papo comigo, Bonitão e Gilmar antes de ser convocado para o comando do samba. Ivan Milanez é bom de prosa, de roda e de copo. Nesses minutos de cotovelos no balcão mostrou sua delicadeza. O Bonitão, sujeito finíssimo, depois um tempinho de ótimo papo:

- E aí? O senhor não vai comer, não?
- Senhor? Porra, tu é mais velho que eu!
- Toma mais um uísque!

Daí o Ivan botou a mão no meu ombro e chegou mais perto:

- Favela, e tu não faz samba não?
- Faço, Ivan.
- Então quando eu for cantar fica lá pertinho, tá?
- Às ordens!


O samba estava quente como sempre. O público é que estava amedrontado com a Lei Seca, que estreava naquela semana. Nunca se bebeu tanto refrigerante e água no Anhangüera após as duas da madruga. Antes disso, porém, Ivan Milanez incendiou. Chegou pianinho cantando sambas conhecidos pelo grande público até mandar o primeiro da Serrinha. Sentiu firmeza na assistência e deitou o verde e branco no terreiro pra deleite geral. Botou o jongo na roda, versou e batucou até o fim da noite e escreveu mais uma bela página do nosso projeto!



Nessa sexta vem chumbo do grosso. O Anhangüera recebe Marco Antonio e a Velha Guarda da tradicional Nenê de Vila Matilde. E para abrilhantar a noite teremos a presença portentosa de Seu Nenê, um dos últimos cardeais do samba paulista. Nenê é uma lenda viva; o maioral da Zona Leste. Seu nome representa uma comunidade, a única escola de samba paulista a desfilar na Marquês de Sapucaí. Lá atrás, muito antes do primeiro samba enredo da escola, o Casa Grande e Senzala de 1956 (de Paulistinha e Popó), Nenê do Pandeiro já era amigo de Inocêncio da Camisa Verde e Branco; dançavam juntos na mesma gafieira. É assim que receberemos os velhos da azul e branco; com o respeito e a amizade que sempre caracterizaram as relações entre Barra Funda e Vila Matilde. Dancemos juntos nossos sambas.
Para saber mais sobre Seu Nenê e sua Escola, leia aqui. Deixo o áudio do samba enredo da Nenê de 1981, que homenageia o gigante Candeia.
Até sexta!

17 de jul de 2008

Os monstros da Itaboca

A história do Bom Retiro lhe confere, seguramente, o título de bairro mais cosmopolita de São Paulo. Das várias chácaras que no século XIX serviam de resorts para famílias abastadas (incluindo a chácara do Bom Retiro, que deu nome ao bairro) até a predominância atual dos coreanos, foram várias as colônias que se estabeleceram no pedaço. Assim como todos os outros bairros da região, a inauguração das estradas de ferro pela São Paulo Railway foi decisiva para o desenvolvimento do Bom Retiro. Indústrias e pequenos depósitos se instalaram, assim como os muitos imigrantes. Os primeiros a chegar foram os italianos, que moravam em cortiços; abriram pequenas sapatarias e serrarias, mas quem mandava no comércio local eram os portugueses, turcos e libaneses. Depois, na década de 20, vieram os judeus da Rússia, Polônia e todas as outras adjacências e, em poucos anos, se tornariam maioria esmagadora. O bairro operário das grandes olarias do começo do século aos poucos foi se transformando pólo da indústria têxtil e um enorme centro comercial; a Rua dos Imigrantes (hoje José Paulino) fervia.

Colado aos varzeanos Barra Funda e Bom Retiro fica situado o bairro de Campos Elíseos, reduto de alta sociedade. No final do século XIX os magnatas dos Campos Elíseos ficaram preocupadíssimos quando foi aberto um canal, por baixo da linha do trem, que ligou seu nobre bairro (Alameda Nothman) ao operário Bom Retiro (Rua Silva Pinto), justamente numa fase em que uma política de higienização era prioridade na cidade. Com isso, em 1905, sobe o prédio da Escola Livre de Farmácia na Rua Três Rios, onde hoje é a Oficina Cultural Oswald de Andrade e, na Rua Tenente Pena, o Serviço Sanitário do Estado instalou o famoso Desinfectório. Com a peste bubônica, a malária e diversas febres à solta, este órgão foi incumbido de desinfetar tudo o que fosse suspeito. Residências, fabriquetas, butecos; bastava alguém caguetar um local contaminado para as jardineiras encostarem. A presença dos técnicos desinfetadores causava verdadeiro pânico nos transeuntes e moradores locais; os contaminados, e até os que demonstravam um sintoma qualquer eram levados para o Araçá, no Hospital de Isolamento, onde ficavam trancafiados a sete chaves. O prédio do Desinfectório Central virou um terror; durante anos foi considerado um lugar macabro; as pessoas evitavam até passar em frente.

Em meio a todo o processo de expansão e progresso do Bom Retiro, com comerciantes, operários e bodegas mil, o bairro notabilizou-se por ser, durante quase toda a primeira metade do século passado, o maior centro de jogatinas e prostíbulos da cidade. A Rua Itaboca (hoje Professor Cesare Lombroso), com o paredão da ferrovia ao lado, era bem escondida; parecia ter sido projetada para ser a capital da sacanagem. Cem metros de rua concentravam a quantidade de putas que lotam a Rua Augusta no corrente. Com o tremendo fervor da libertinagem, lá pelos anos 30 o furdunço invadiu também uma paralela, a Rua Aymorés. Essas duas ruas representam um dos maiores centros históricos da boemia mundial de todos os tempos e foram palco, numa noite de 1938, de uma balbúrdia bíblica. Neste ano, dois grandes torneios foram disputados: a Copa do Mundo da França, que sagrou a Itália bicampeã; e o extinto Torneio Monstro, o mais competitivo da história da várzea paulistana, vencido pelo Anhanguera.

O Torneio Monstro, temível até no nome, era o fino do futebol amador; só esquadrão. Barraca, goleiro do Anhanguera, garantiu o título defendendo um pênalti. A solene comemoração do título, um dos mais importantes da história do clube, foi justamente na Rua Itaboca, naquela noite de sábado. A comitiva anhanguerista chegou, liderada pelo próprio Barraca, à rua da perdição soltando fogos e empunhando garrafas de todas as categorias com mais de 40 homens; todos os jogadores, comissão técnica e alguns torcedores. A Itaboca era uma rua democrática - turcos, alemães, judeus, italianos e uns poucos negros se esbaldavam ali – e perigosa, pois a jogatina (principalmente o pôquer e ronda) era pesada.

A patuscada já seria inesquecível, mas havia de ser antológica devido à surpresa que se seguiu. O então prefeito Prestes Maia, cedendo às reclamações dos moradores da Rua dos Timbiras, no centro da cidade, ordenou à polícia dar fim na prostituição da área. A justa foi de uma praticidade tremenda. Na mesma madrugada, sem aviso prévio, botaram as donzelas nos camburões e despejaram todas – dizem que mais de 50 – na Itaboca; confinando a partir de então todas no Bom Retiro. A cena, presenciada pelos campeões do Anhanguera, foi inacreditável; mulheres eram trazidas em camburões e se juntavam às que já eram do lugar. O auge da noite se deu com nossos atletas valsando no meio da rua com cabrochas nuas e com uma rapariga revelando publicamente a fimose de um judeu.

Aquela farra não acabaria. “Se nem a polícia fez o serviço de nos despachar, quem faria?” era mais um motivo de festejo. Porém, o que ninguém esperava aconteceu; às quatro da madrugada encostaram várias “barcas” do Desinfectório. Durante anos suspeitou-se que um vizinho que lá trabalhava tratou de acabar com a depravação. Os técnicos da saúde - escoltados por leões de chácara armados - recolheram dois bêbados e, na base da força, anotaram nome e documento de uma meia dúzia de incautos; ação suficiente para acabar com a festa. Ser levado como “contaminado” naqueles dias era pior que amargar xadrez por atentado ao pudor. Palhinha, nosso center-alfo, que já havia sido guardado no Hospital de Isolamento anos antes e sabia que a coisa era séria, coordenou a fuga dos campeões pela linha do trem até a porteira da Rua Anhanguera.

Muitos velhos afirmam que, durante anos a fio, o troféu do Torneio Monstro do longínquo 1938 guardou o perfume de alfazema e as marcas de batom das moças da Itaboca.

11 de jul de 2008

Um craque anônimo

Eu vi, com olhos de ver, poucos jogadores desses que brincam com a bola; que desfilam com a redonda e protagonizam a beleza que encanta a quem não desfruta de tal intimidade. Abençoado, o boleiro é guardião de um segredo perene, o de ser confidente daquela que se deixa levar em seu pé e que estanca, macia e cheia de graça, em seu peito. Eles se entendem e se procuram; deslizam como se nada nem ninguém pudesse os desunir, a não ser pela força bruta; único recurso possível para o medíocre apaixonado não correspondido.

Um desses, e que me motiva a essas mal-ajambradas, é um grande amigo. Antes, porém, há que se deixar claro que muito embora seja eu parcial, não houve quem não brilhou as pupilas ao perceber o talento nato que denota cada matada, cada chute, passe ou drible do garoto. Mais que pura técnica, o craque é possuidor de uma elegância e altivez que, mesmo sem a bola, o caguetam: “esse é boleiro!”. O Brasil, disparado o maior celeiro dessas criaturas, produz um sem número nessa seara. Sem apelar para o futebol profissional, que não é meu objetivo neste arrazoado citar barbadas que todo mundo ao menos já ouviu falar, vou discorrer, além do meu personagem central, sobre a várzea e o profissionalismo; craques de pelada que chegaram ao estrelato e os que nunca saíram do terrão.

O futebol varzeano revelou uma penca de craques. Aliás, até a década de 80, quando da proliferação desse mal chamado “escolinhas de futebol” e antes dos empresários deitarem e rolarem, a pelada na rua ou na praia e o futebol de várzea eram os únicos reveladores. Olheiros aos montes peregrinavam rincões afora, de norte a sul, à procura de um moleque habilidoso. Era assim que se fazia. Lembro-me de ter aprendido com o Velho Tirone a escalação do Corinthians de 1938 e dele contar que o Rato, tremendo jogador, brilhava antes no Corinthians do Bom Retiro. De lá foi pro profissional. Rato gostava de uma cana; na maioria das vezes jogava chumbado e a artimanha só fazia aumentar seu jogo de corpo. Foi com 17 anos que um olheiro levou meu avô pra fazer teste também no Corinthians. Beque e capitão do Anhanguera, ele poderia se sair bem no time do seu coração, mas nada feito. No meio do treino, Teleco, Carlinhos e Carlito - poderosíssima linha do Timão - o puseram de bobinho. Depois de 60 anos o velho contou como desistiu do profissionalismo: “Fui na bola e o Carlinhos tocou no Teleco; fui pra cima e ele tocou no Carlito; corri e ele jogou no Carlinhos. Quando ele tocou pro Teleco eu voei com os dois pés no peito e o mandei pra fora do campo.”.

Além do Rato, só da região saíram para o profissionalismo figuras de peso como Bozó, Nato, Chupeta, Mossoró, Moisés, Ivair e outros. Da várzea do Belenzinho nomes como Cabeção, Idário e Luizinho foram para o Corinthians. Dr. Rubis para o Flamengo, Dema, Cilas e Liminha para o Palmeiras e assim vai. Do Palmeirinha da Penha, o ponta Julinho foi para o mundo. São incontáveis os craques, mas há aqueles que não vingaram. Contam que na Barra Funda não houve jogador melhor que o Nivaldo e que, se o Wande jogasse hoje em dia, o Ronaldinho Fenômeno jamais teria sido titular da seleção. Renatinho, dizem, dava lançamentos que deixariam o Rivelino e o Gerson no chinelo e o Palito, que jogava salão calçando uma Conga velha e cultivava um ritual de vomitar antes dos jogos, era tão habilidoso quanto Garrincha.

O último craque do Anhanguera havia sido o Vitché, na década de 90. Sua carreira profissional foi até o título da Copa SP de futebol jr. pelo Nacional. Vitché é o zagueiro mais clássico que o futebol produziu depois de Luis Pereira. Parou de jogar há dois anos. Atualmente, o único craque atende pelo nome Avary Fernandes Vilas Boas Neto, o Ava, freqüente comentarista deste blogue. Avary, desde criancinha, é um fenômeno. Lembro-me da época em que o menino, que estudava com meu irmão Bruno ainda no pré, deu dois chapéus num garoto da 4ª série. Mais tarde, aos 10 anos, foi artilheiro da Copa Danup, que era disputada por colegiais. Nesse tempo começou a treinar no Corinthians; era o camisa 10 daquela geração que revelou os pernas de pau Coelho, Abuda, Élton, Fininho e Bruno Otávio.

A carreira futebolística prometia, mas a perda repentina do pai – um dos acidentes mais estúpidos de que se têm notícia -, seu maior fã e apoiador, abalou suas estruturas e, num treino, Ava brigou com Juninho, então técnico dos juniores corinthianos. Um empresário meia-bomba que o agenciava fez o meio campo e nosso craque foi para o Atlético Mineiro, então comandado por Márcio “Brilhantina” Araújo, que de cara gostou do seu jogo e o subiu para os profissionais. Mas o pai teimava em fazer-lhe chorar e a depressão e a saudade da namorada e da mãe o fizeram largar tudo e voltar pra São Paulo. Ali terminava, e ele ainda não sabia, sua carreira profissional, aos 20 anos. Voltou fumando e bebendo como gente grande, o que faz até hoje. Tentou em vão – sem um maldito empresário é ruim – algum time grande e cogitou, no ano passado, uma tentativa maluca de jogar num pequeno país europeu pra ganhar uns caraminguás em cima dos pernetas de lá; afortunada sua mãe, que não deixou. Quem ganhou com isso foi o Anhanguera; o moleque passou a jogar todos os Domingos no rubro-negro e arrastou multidões. O bairro parava pra vê-lo jogar. Daí pra vestir a 10 do Classe A foi “dois palitos” e foi escolhido o craque da Copa Kaiser em 2006.

Avary está com o joelho estropiado há 6 meses e vai operar. Anda amuado. Seu comentário no último texto deixa clara sua decepção com a contusão. Daqui homenageio este amigo, artista da bola, mais um desses meninos que, por obra do destino, não comemoram seus gols em palcos à altura de seu belo futebol. Mais um craque que não foi.

4 de jul de 2008

Mais que só massagem...

Caímos, no penúltimo Domingo, na primeira fase dos Jogos da Cidade; torneio capaz de humilhar, em número de times, a bizarra Copa SP de futebol júnior e a enxertada Copa do Brasil, com mais de 400 equipes. Conquistamos o pior desempenho de todas as edições da copa. Não obstante, o Anhanguera, após ser eliminado, não despeitou; não houve confusão nem tapa na orelha do juiz. Mas não é do time, nem da pífia campanha, que quero falar. Apenas citei o torneio porque no último jogo um fato me fez lembrar um ícone do clube e do bairro na década de 40: o Dr. Zé.

Eu estava, injustamente, escalado no banco de reservas. Fui, até a metade do segundo tempo, quando precisávamos fazer um mísero gol, preterido. Acabrunhado, assistia ao jogo com ar de desdém, puto dentro do calção, e perguntava pra mim, pra Deus, e pro Neguinho, um torcedor bebum que, do outro lado do alambrado, pedia a minha entrada alegando “Põe o Arthur que ele é homem-gol”, como eu chegara nessa situação, esquentando o banco enquanto um monte de pernas de pau representavam o Anhanguera. Não obtive resposta de Deus, mas o Neguinho balbuciou: “Arthur, você é irreverente, polêmico. Tá certo que você anda em campo, mas você faz a bola rolar. O Marcelinho não tolera jogador assim; ele gosta de correria”. Resignei-me por instantes, mas depois me revoltei com o Daniel, o Gordo, simplesmente porque ele, o Gordo, é o técnico. O problema é que, no campeonato, quem escalava, sacava, dava bronca, preleção e xingo, era o Marcelinho, o auxiliar-técnico. A diretoria, alegando ser o Marcelinho mais experiente, botou o baixinho (parece o Romário) pra “ajudar” o Gordo. Mas houve, entre os dois, um acordo tácito para a troca de cargos. Aos poucos o poder e o comando do Gordo foram esmagados pelo Marcelinho, um marrento. O auge da inversão se deu quando, antes de começar o jogo, o mesário chegou-se no nosso banco de reservas e impôs uma regra do campeonato: “Só podem ficar dentro do campo, além dos jogadores reservas, duas pessoas”. Estavam Gordo, o técnico, Marcelinho, o “auxiliar”, e o Seu Osvaldo, o massagista. Começou a sessão de gentilezas entre o Marcelinho e o Gordo, culminando com o técnico ficando do lado de fora. Não foi cogitada a saída de Seu Osvaldo, velho esguio de 82 anos, que ficou em campo com o Marcelinho.

No exato instante em que vi nosso obeso técnico fora de campo, e já bebendo uma vodca com fanta, olhei pro lado e vi o velho (parece o Delegado da Mangueira) impávido, imponente em sua calada, mas sábia, conduta. Percebi, então, que o massagista é uma entidade no futebol e com ele ninguém deve mexer; não apareceu alguém que se atrevesse a contestar a presença do Seu Osvaldo ou insinuar sua importância. Há, no velho, alguma coisa de curandeiro e até de milagreiro, práticas divinas exercidas à exaustão pelo Dr. Zé (que naquele instante me veio à cabeça), o maior massagista que a várzea já viu.

Doutor Zé seria mais um José não fosse seu inexplicável relacionamento com a água; dizia ser a água o único remédio capaz de curar qualquer tipo de mazela, de olho de peixe à espinhela caída. Começou jovem como massagista do Anhanguera. Numa das primeiras partidas em que estava no banco, um jogador chamado Pardal sofreu uma fortíssima torção de joelho, que demoraria tempos para ficar bom, mas voltou a jogar em uma semana após o Zé ter-lhe feito uma massagem esfregando apenas água no combalido joelho. Zé, um analfabeto, passou então a ser chamado de “Doutor Zé”. Sua massagem milagreira curou, por completo e instantaneamente, várias torções, algumas luxações, um ou outro problema muscular e - há que jure - uma fratura exposta; tudo à base, pura e simplesmente, de H2O.

Após se espalhar pelo bairro a notícia do primeiro milagre, o “Caso Pardal”, o Zé, já devidamente apelidado de Dr. Zé, aderiu à alcunha e assumiu por completo a profissão que, se não angariou em bancos universitários, afirmava, por obra do Homem, ter se formado antes mesmo de nascer. Passou então a freqüentar os jogos do Anhanguera todo de branco, dos pés à cabeça. À tiracolo levava sua maleta de primeiros socorros que continha vários frascos de água e um vidrinho com água benta para os casos mais graves. Coincidência ou não, foi a época que o sport do Anhanguera ficou mais tempo invicto (quatro anos); os jogadores não tinham receio de botar o pé, a perna e até mesmo a cabeça em qualquer dividida. Acreditava-se que Zé incorporava o espírito de um médico morto na Primeira Guerra Mundial, que morreu afogado - daí a óbvia intimidade com a líquida. Passou a ser muito requisitado pela população e bateu a famosa D. Marcina em número de benzeduras. A pedidos, abençoava a água alheia e, por causa disso, foi o maior inimigo do Padre Luis, que ficou por cinco décadas a fio à frente da Igreja de Santo Antonio. Passou a diagnosticar doenças, adivinhar a previsão do tempo e os números da loteria, tudo isso sem sucesso algum. Jamais deixou de ser massagista do Anhanguera e morreu tempos depois vítima de um câncer que nem sua água curou. Sem glórias e esquecido.

O massagista, figura desprezada e ignorada, já não é mais o mesmo; não participa mais de um jogo. Nelson Rodrigues disse que o Mário Américo, por exemplo, era capaz de ganhar um jogo apenas rindo na beira do gramado; os adversários tremiam. Os relatos contam que os adversários do Anhanguera faziam de tudo, - nunca conseguiram - para comprar o passe do Dr. Zé. Quando fomos eliminados deste último campeonato, na saída do gramado, Seu Osvaldo, o último massagista vivo dessa estirpe, me puxou pelo braço e disse, em tom visionário: “Melhor assim”. Eu, que não sou besta pra duvidar da sabedoria do velho, nem perguntei o porquê, mas acabei ficando tranqüilo com nossa eliminação.



Dr. Zé: algum jogo na década de 40.

Seu Osvaldo de todos os Domingos

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