28 de mai de 2009

Anhangüera dá Samba XXIII

Toniquinho Batuqueiro fazia parte dos nossos planos desde o começo. O que eu ouvia, de várias pessoas, era que seria difícil contarmos com sua presença; que as limitações da cegueira e da velhice o aplacavam. Deixamos em banho-maria. Há mais ou menos seis meses travei contato, na casa da Railídia, com uma grande figura: Renato Dias; um sujeito que, de cara, virou meu amigo. Ao lado de sua mulher, Lídia, é uma daquelas figuras agradabilíssimas. Eu o conhecia só de nome. Renato é um pesquisador voraz do samba paulista, além de produzir shows e discos de insuspeita qualidade. É, ainda, é um compositor intuitivo e competente.

Renato presenteou-me com um discaço do Toniquinho, que ele produziu recentemente. No repertório tem música composta pelo meu camarada junto com o velho mestre, além do incansável T. Kaçula. Definitivamente, um disco de cabeceira. Foi neste ambiente descontraído – como sempre! –, com partido de improviso, tacacá e cachaça, na casa da Railídia, que a intenção voltou com tudo: Renato era o elo que levaria o velho perucheano ao Anhangüera!




Toniquinho foi acompanhado por um filho e dois netos e chegou ao nosso terreiro cedo; as portas ainda estavam fechadas. Apresentação marcada para as onze; à meia noite o mestre iria dar linha. Ajudei-o a sair do táxi. Assim que pisou a rua, perguntou-me, com aquela voz ancestral: “- Aqui é perto do campo do Sulamericano, não?”. Toniquinho, que viveu anos do outro lado do Rio Tietê, ali no Parque Peruche, é um varzeano de quatro costados, tendo jogado em todos os campos da região. De óculos escuros seguiu para o camarim para se trocar. O camarim do Anhangüera! Lá o luxo passa longe, já que o camarim é o humilde vestiário onde tomamos banho após os jogos de domingo. Em suas dependências constam um banco de concreto, piso vermelhão e um chuveiro com água quente.

Portão aberto, cachaça e festa de gente. Toniquinho foi devidamente homenageado como grande nome do samba brasileiro. Cantou, cantou e cantou, esquecendo-se de horários pré-combinados. A faixa vermelha de “embaixador do samba” no peito e a força da sua música, do seu batuque. Foi embora as duas e meia da madrugada, “extremamente emocionado”, como me confidenciou na despedida. Assistam:



Estamos, graças aos deuses, comemorando dois anos de Anhangüera dá Samba! neste mês de Maio. Quando idealizamos, o primeiro nome à mesa foi o de Wilson Moreira. Sem venda de convites antecipados, sem apoios extras, dependendo apenas da bilheteria e das cervejas vendidas, sabíamos que a coisa poderia não passar da primeira vez. Bancamos a empreitada e trouxemos o Alicate e estamos segurando a marimba há dois anos.

Wilson Moreira abriu os caminhos, e sua bênção só fez aumentar nossa responsabilidade. Naquela noite, Ângela Nenzi, sua esposa, cravou: “- Não deixem de nos convidar novamente!”. Hoje, depois de dois anos – muito graças a Wilson Moreira – não haveria outro homenageado possível. Porque é preciso, além de sempre reverenciá-lo, ter gratidão e exaltar quem comprou a idéia e derramou o axé que mantém a chama acesa.

Amanhã, quando Wilson Moreira sentir um sopro no ouvido, é o giro do mundo; tudo se repete...



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Até amanhã!

26 de mai de 2009

Economia inútil

Dentre as minhas predileções, uma está bem aqui. Escrever me faz um bem danado. Principalmente quando imortalizo histórias do bairro, da várzea e das grandes figuras que esbarro pelo mundo afora – é importante ressaltar que este “mundo afora” não passa dos limites da Barra Funda, Bom Retiro e Casa Verde. Sou, e quem me conhece sabe, um sujeito fincado neste brejo.

Nestas mal traçadas que insisto há mais de dois anos, venho colecionando causos que me fazem sentir, nos momentos após escrevê-los, um homem cumprindo seu dever com sua gente e com o seu lugar. Escrevo muito raramente coisas do cotidiano; inclusive porque não é essa a finalidade deste espaço. Mas tenho grandes amigos que o fazem com maestria.

Lembro-me bem quando levei Fernando Szegeri e Bruno Ribeiro na portentosa Rua Dobrada, com o único objetivo de beber com Antonio Carlos Apolinário, o majestoso Zulu, um homem em quem penso todos os dias. Foi uma tarde sublime, com o negrão esbanjando categoria à mesa. Antes de sairmos, Bruno cravou: “- É preciso que se escreva o que passamos aqui!”. E pediu ao Szegeri que o fizesse. Meu compadre cerrou seus olhões marejados sobre o Bruno e decretou: “- Você é que escreverá”. Szegeri sabia que Bruno faria o serviço com destreza e precisão. E assim meu irmão escreveu; ninguém faria melhor. Bruno Ribeiro é um cabra que, quando o vejo, enxergo um espelho à minha frente. Assim é que são os amigos.

Mas há um tal – amigo nosso em comum - imbatível no quesito “cronista”; de nome Eduardo Goldenberg. Um tijucano de fina estirpe e de respeitosa linhagem. Edu é outro que reconheço como irmão. Através dele conheci os meandros da Tijuca, a Barra Funda da cidade maravilhosa. Em seu disputado Buteco escreveu, ontem, o texto “Os Tirone”, descrevendo a bênção dos encontros que nos fazem homens melhores. Meus pais ficaram emocionadíssimos, assim como ficaram quando foram alvo do Szegeri.

Lá, nos comentários do texto do Edu, Felipinho Cereal, outro tijucano imprescindível, tascou: “O Mimi está no nível máximo da espécie humana. O malandro é gente finíssima. Os Tirone formam uma família e tanto, foi um prazer enorme conhecê-los”. A amizade requer estas parcialidades e exageros inefáveis. Meu pai é mesmo um sujeito querido, capaz de inspirar comentários como este. E mais uma vez me disponho a falar sobre ele. Como eu dizia no começo, mesmo não sendo meu forte, neste texto abordarei coisas do cotidiano. Descreverei uma mania cada vez mais presente no jeito de ser do meu pai: a economia inútil.

Economizar, poupar, guardar. Cresci ouvindo isso. Por terem uma infância pobre e uma vida de casados sem regalias e pouco conforto, meus pais conquistaram o pouco que têm hoje dessa maneira. Nunca foram sovinas, muito pelo contrário. Minha casa sempre foi cheia, com muita festa, bebida, comida e gente. Mas o desperdício sempre foi combatido violentamente. Lembro-me do Velho Tirone raspando os pratos todos após o almoço; jogava no prato dele e mandava pro bucho: “- É pecado jogar comida fora”. Meu pai, de pouco tempo pra cá, foi se tornando um neurótico contra o desperdício inútil. Se por um lado gasta os tubos com cerveja, cigarros, comida e caxeta, além de umas viagens com minha mãe, por outro lado perde a paciência com os troços menos importantes, o que nos causa crises de gargalhadas.

Dentre suas manias, uma é a de guardar papel para rascunho. Corta em pedacinhos para anotar recados e fazer contas. Dias atrás atendi o telefone e anotei um recado pra ele numa folha de sulfite. Foi o suficiente para que ele ficasse puto dentro das calças. Usar toda uma folha virgem e pura para anotar um simples telefone; onde já se viu?

Certa vez minha mãe ganhou uns guardanapos de papel cheios de lero-lero. Com desenhos de frutas coloridas, os guardanapos eram enormes, com quase o dobro do tamanho convencional. Num almoço de domingo para os filhos e alguns sobrinhos, ela decidiu que era a ocasião propícia para usá-los. Arrumou a mesa toda com os talheres sobre os guardanapos cheios de fru-fru. Meu pai, prevendo o desperdício, rasgou, na surdina, todos os guardanapos ao meio. A metade “economizada” logicamente minha mãe jogou no lixo.

São muitos os exemplos, um mais cômico que o outro. O recorde de sua estranha obstinação se deu com o palito de dentes. Mimi é viciado na caixinha da Gina. Já o vi palitando os dentes após ingerir gelatina. Pois dia desses, após um farto almoço de Domingo, Mimi palitava os dentes ainda à mesa assistindo ao seu Palmeiras. Meu irmão caçula, o Bruno, solicitou: “- Pai, passa pra mim o paliteiro!”, e o velho, sem titubear, tirou o palito da boca, estendendo-o para o filho: “- Toma, palita com este lado que eu não usei”.

15 de mai de 2009

Madrugada no Bom Retiro

Paulinho Timor, batuqueiro dos Inimigos do Batente, bateu-me o fio na segunda-feira. Queria comemorar seu aniversário, que foi ontem, no Anhangüera – ano passado foi lá também. Fiz o meio campo e ficou tudo acertado. Eu já imaginava que, sendo a festa de um dos maiores vagais que conheço, a refrega seria extensa. Cheguei as onze da noite e fiquei até uma e meia, coisa suficiente para beber, conversar e bater um samba de malandro com Sucena, Homero, Arcanjo, Mauro de Jesus, Lobo, Mineiro e outros sambistas de boa cepa.

Hoje pela manhã recebo e-mail de Wilson Travia, diretor-tesoureiro do clube. Na mensagem consta que “a festa começou às 13h e terminou às 7h”. Se quando fui embora – seis horas antes do término, portanto -, o estado etílico da rapaziada já era preocupante, imagino hoje, com o sol raiando.

Falando em beber, uma vez, de passagem, presenciei uma festa de bolivianos num salão no Bom Retiro, mais precisamente na Rua da Graça. Há muitos deles trabalhando como escravos dos coreanos nos comércios e galpões da José Paulino. A festa estava no fim e os cachaças já saiam do salão. A impressão que eu tive - e até parei pra acreditar no que via – era a de que estavam saindo de uma guerra. Os bolívias, indecorosamente bêbados, se abraçavam no meio-fio. Estavam todos estropiados, sem exceção. Narizes sangrando, olhos inchados, roupas rasgadas e sujas. Discutindo de maneira desordenada, ainda empunhavam garrafas de cerveja e caninha braba. Só então que reparei que aqueles abraços não eram abraços; eles estavam era se escorando uns nos outros com o único propósito de não caírem com a fuça no chão. Apesar de não se agüentarem de pé, continuavam a beber e discutir vigorosamente, um negócio que eu jamais vira.

Perguntei a um morador do prédio em frente e ele me disse que é assim mesmo, como um ritual; os bolivianos bebem como porcos furiosos e brigam, se matam; depois voltam a beber, como se nada tivesse acontecido. Na maioria das vezes, porém, a polícia do 2º DP chega e desce o cacete nos bebuns; e geralmente fica por isso. Como todos eles vivem de maneira ilegal por aqui, se borram de medo da justa. Basta ver a polícia pra que dêem no pé rapidinho. Sebo nas canelas!

Ainda na festa do Timor, um amigo seu, o Bruno - que inclusive comentou neste blogue quando esteve na Alemanha fazendo seu doutorado -, veio me chamar: “- Precisamos comprar cerveja, só que não conheço os botecos daqui. Você vai comigo?”. Passou um tempo e, após mais alguns apelos – dali, só eu era da Barra Funda -, larguei o cavaco e fomos, nós dois. O destino era o Bar Fofoca, o único bar do bairro que mantém as portas abertas por toda a madrugada. Entramos imponentemente com três engradados, para a troca das ampolas. O bar, que estava lotado, parou. Pelezão do Camisa, Chico Farmácia, Gaúcho (que nos ajudou com as caixas) e Pulguinha me perguntavam onde era a orgia. Do Fofoca do grande Valter – que nos deu um belo desconto – fomos para a padaria 24 horas da Rua dos Italianos com a Barra do Tibagi. Pão para a patuléia!

Bruno ficou no carro me esperando. A padaria tinha, naquele instante, coisa de sete, oito fregueses. Todos bebendo cerveja, à exceção de uma senhora baixinha e roliça, que falava para o senhor do caixa que o tatu era um bicho “da época das cavernas”. Foi isso o que ouvi. Quando entrei ouvi gritos; era uma discussão entre dois irmãos bolivianos. O balconista já ameaçava os tirar dali a base de pontapés, pois um já estava dando cascudos no irmão mais novo. Os dois, logicamente, mais bêbados que toda a festa do Timor lá no Anhangüera, junta. Pedi 60 pães e espreitei, pelo espelho do balcão, uma viatura com dois militares encostando. Os bolívias, em choque, ficaram imóveis e, depois, começaram a se abraçar. Enquanto o balconista que me atendia foi buscar mais pão, um dos guardas entrou como quem não quer nada e se encaminhou para o balcão. O outro ficou na porta com a arma na mão.

Ao meu lado, o policial pediu, bem baixinho para outro empregado da padaria: “- Posso usar sua balança? É que a nossa, da delegacia, quebrou”. O 2º DP fica a uma quadra, em frente ao portentoso Bar da Dona Ana. O do balcão fez sinal que sim e o tenente puxou um pacote do bolso. Os clientes que bebiam chegaram mais perto. Abriu o pacote que revelou umas vinte cápsulas de cocaína. O policial deitou-as na balança e falou: “Beleza!”. A assistência toda fez um “UH!” em uníssono. E começou a gozação: “- Quanto é o quilo?”, “- Que flagrante, doutor. Vai ser promovido!”. Todo mundo comentava, puxava conversa com o homem da lei, menos os dois irmãos do país do paladino Bolívar, ainda inertes e pálidos. O policial sorriu, disse estar com pressa. Embrulhou a farinha e deu no pé.

Meu pão chegou. Os funcionários e clientes, incrédulos, teciam todas as hipóteses possíveis. Fui ao caixa – o senhor ainda estava ouvindo as enfadonhas conversas da senhora gorda -, paguei e sai. O Bruno já devia estar preocupado com a demora. Já atravessando a rua em direção ao meu carro, começou a balbúrdia na padoca. Eram os dois bolivianos se batendo...

8 de mai de 2009

Do céu ao inferno

Muitos são os casos de gente que vai – na verdade vão com ele - de um extremo a outro da noite para o dia. No futebol é praxe; basta tomar um frango, perder o gol do título, ou mesmo não resolver uma partida, que o ídolo, o querido, o salvador torna-se o canalha, o culpado pelas dores do mundo, o rascunho do que era há quinze minutos.

A regra, no entanto, vale para além do esportista. Houve um caso no Bom Retiro, há muitos anos, de um homem, pai de quatro filhos, que era um tremendo gatuno. Foi vereador e todo mundo sabia de suas atitudes bandoleiras e conchavos perniciosos. Na rua era alvejado por olhares enojados. Toda a vizinhança dizia que era um cabra violento e tinha pena de sua mulher e filhos. Um dia, porém, correu a notícia de que sua mulher o traíra com um amigo seu. Foi um escândalo! A mulher, então, tomou de imediato o lugar do larápio na boca da gente toda. O político mudou-se da Jaraguá para a General Flores e levou as crianças consigo. Passou a ser, às vistas que o julgavam impiedosamente, um coitado, um corno indefeso, um bom pai, um traído; os saques no cofre público, perto do chifre que tomara, eram bobagem pouca.

Hoje, o nome falado na Barra Funda um só: Gabriel. Sujeito querido até alguns dias atrás, Gabriel despertava na população local um bem querer, um carinho, uma adoração e, por que não, uma idolatria. Gabriel foi criado e mora na Rua Garibaldi com um senhor, um ancião que tem por ele um amor de filho.O fato de Gabriel pisar pra fora de casa era um acontecimento; ninguém deixava de sorrir ao encontrá-lo. A criançada, feliz, o acompanhava nos passeios vespertinos que fazia com o velho.

Agora Gabriel não sai mais. Trancafiado, recluso, o outrora corpulento já perdeu mais de dez quilos; a depressão o assola de uma maneira terrível e os passeios diários pelas ruas do bairro são inviáveis. Há senhoras, rapazes e moças, e até o padre da Paróquia de Santo Antonio - que fica em frente à casa de Gabriel - querendo extirpá-lo dali pra bem longe. Há, inclusive, uma beata fervorosa e maluca que defende a idéia de queimá-lo, ou enfiar-lhe um tiro, uma injeção letal, ou qualquer outra coisa que o faça bater as botas.

O velho, pai do Gabriel, anda desacorçoado. Tendo como único ente o mais novo vilão das cercanias, já disse que mata e morre pelo “filho”. Grita, aos sete cantos, que Gabriel de nada tem pecado por ser como é. Acontece que Gabriel é normal, não tem defeito algum. A culpa dele, com essa loucura da imprensa mundial em torno de uma epidemia que anda matando no México, é ser um simpático porco que anda pelas ruas de coleira, como um cão. E como o México é aqui, seus dias infelizmente – principalmente para a criançada - parecem estar contados...
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