31 de mar de 2007

O velho Sacarrão

Dedico-me hoje a escrever sobre um cavalo, digo, um homem que jamais conheci, pois seu paletó já foi fechado há muitos e muitos anos. Um português daqueles quadrados, forte como um besouro (sabem que o besouro é o bicho mais forte do planeta, né?) e inteligente como uma ameba, característica marcante de homens nascidos naquele pequeno país europeu (os mesmos que levaram nosso ouro – burros, não?)...

Seu nome (sobrenome) era Sacarrão e morava na Rua do Bosque, na época em que as ruas eram de terra ainda...
Pausa: Atentem para o nome do galego... Sempre achei que combina muito com suas características – as já citadas acima.

Pouca coisa sei sobre sua história de vida, mas não quero me apegar nessa lengalenga! Vamos ao que importa: Sacarrão tornou-se um mito na região por se destacar nos três estados: sólido, líquido e, principalmente, gasoso. Descreverei abaixo.

1 – Sólido – Sua força descomunal:

A força do caboclo, dizem, equivalia à de dez homens. Uma famosa passagem registra que ele passeava em sua carroça quando, teimosamente, o burro insistiu em empacar. E nada de o burro sair do lugar. Cruzou as pernas e ficou, como dizendo “daqui eu não saio”. Já putodavida com o animal, Sacarrão simplesmente pegou o bicho pelas orelhas e enfiou a cara do teimoso no chão, dizendo: “Tu podes ser mais inteligente que eu, mas mais forte não és, raios!”. Era realmente um Hércules, esse Sacarrão.
Dizem também que quando seus cinco filhos aprontavam, ele tinha um método prático para economizar as pancadas que daria nas crianças. Enfileirava os pirralhos, um bem pertinho do outro e enfiava uma bordoada no primeiro da fila. Batata, era um mês de sossego pro portuga.

2 – Líquido – Sua capacidade de ingerir vinho:

Meu avô costumava dizer, disso me lembro bem, que o Sacarrão jamais bebera outra bebida que não fosse vinho. Assim como a lendária história na qual os pequenos irmãos bebês, Rômulo e Remo, que mais tarde fundariam Roma, foram criados e alimentados por uma loba, em Portugal contam que o pequeno Sacarrãozinho foi criado à base do suco da uva etílico, o vinho. Era vinho no café da manhã, no almoço, na janta... Toda hora. E o homem não ficava nem zonzo. Era realmente um beberrão, esse Sacarrão.

3 – Gasoso – O estrondo de suas flatulências:

O que realmente o imortalizou foi o total controle do momento que desejava expelir o gás e o altíssimo volume do ronco da cuíca. Nos dias de hoje com certeza ele seria objeto de estudo dos cientistas... Reza a lenda que uma bufa do elemento chegou a 3 pontos na escala Richter e foi ouvida num raio de meio quilômetro de distância!

Sentava-se sempre na frente da casa, num banquinho sobre a calçada, e gostava de sacanear, o gajo. Era só passar alguém do outro lado da rua e ele fazia o ritual: duas tapinhas na enorme pança eram suficientes para um baita susto do distraído transeunte.

Numa ocasião, no fatídico 18 de Maio de 1.940 o dia que ficou conhecido na Barra Funda como O Dia da Falsa Guerra, o que aconteceu foi isso. No momento do possante ruído: “PRPRPRPRPRRPRPRPR”, uma apavorada senhora saiu correndo e gritando “Tiros!!! Abaixem-se, é a Guerra. Chegou ao Brasil! Escondam-se todos!!!”. Vocês, meus leitores, não sabem a balbúrdia que aconteceu no bairro. Gritaria, choro, desespero, gente correndo, todos procurando abrigo... A notícia rapidamente se espalhou e, em questão de minutos só havia na rua um português gordo, dando risada e tapinhas na barriga.

28 de mar de 2007

Waldir versus animais

O Waldir é, antes de mais nada, polêmico. Têm um bom cargo numa grande empresa, dois filhos e três netos e um casamento de 40 anos. É extremamente informado sobre vários assuntos, lê diversos livros e é um dos maiores conhecedores da história da várzea da Barra Funda, além de ser um cozinheiro de mão cheia. Vocês dirão: “Nossa, é um exemplo esse Waldir!”... Tsc, tsc... Nem tanto, nem tanto...

Imaginem as outras qualidades do Barni (seu sobrenome) pelos apelidos que o alcunharam: Louco e Diabo. Isso mesmo, Diabo! Não é preciso dizer mais nada...

Com certeza o maior briguento da região, após a aparente aposentadoria de Agostino Tomaselli no quesito e o sumiço de Ricardinho, o Cyborg, Valdir ocupa hoje no bairro, sozinho, a primeira posição. Bem distante de mim, um pacato.
Pra se ter uma idéia, ele nunca saiu de campo sem arrumar uma confusão. É a maior característica dele como jogador. As porradas nos pobres adversários e em quem tenta inocentemente segurá-lo.

Como não sou chegado nessas “batalhas campais”, vou contar-lhes sobre a guerra declarada do Diabo aos animais, de todas as espécies. O Waldir odeia animais, a exceção é Baggio, seu cachorro Boxer. Atentem, até o cachorro é de uma raça que tem nome de praticantes de um esporte de porrada – o boxe – que é, e isso já não seria mais surpresa a essa altura do texto, o esporte preferido do brigão (pra se ter uma idéia, ele freqüenta as lutas de boxe de amadores no Baby Barione).

Voltando ao assunto: o ódio, a maldade para com os doces bichinhos. O que mais impressiona, vejam como é sábia a natureza, é que a recíproca dos animais é na mesma proporção em relação a ele. Vou narrar um dos incontáveis episódios dessa odisséia.

Um português simpático freqüentou o Anhanguera durante muitos anos, sempre acompanhado de seu papagaio de estimação, o Figo, que era tranqüilo, contanto que não o importunassem. Algo impossível em se tratando do Louco.
Era só os dois chegarem perto um do outro que começavam trocas de farpas, Waldir puxava as penas do Figo, que retrucava com potentes bicadas, a ponto de sangrar várias vezes a mão do maldoso. Mas em uma ocasião, o papagaio arrancou um bife do dedo mindinho do Diabo. Pronto... Figo seria submetido à primeira prova diabólica...

O português se distraiu, e numa fração de segundo, o Diabo dominou o bichinho e o levou para o campo. O que ele faria?

Pôs o Figo sobre a trave, justamente no gol em que o esquadrão do 1º quadro do Anhanguera estava pressionando o adversário. Era bola na trave, bola raspando a trave, salto do goleiro, chute no gol, chute pra fora, e o Figo pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, fugindo dos tiros que persistiam naquele gol, às vezes até ameaçava voar, mas não sabia o coitadinho... Isso durou cerca de 10 minutos, até o desesperado portuga salvar o Figo do perigo.

Após uma semana, no falecido bar do Vichiski, estava lá o Waldir, que batia ponto no tal buteco, assim como vários associados do clube. Papo vai, papo vem e quem chega? O Manoel com o Figo no ombro. Pronto, nova troca de farpas. E dessa vez o bife que saiu no bico do Figo veio do dedão...

A segunda prova diabólica que Figo provaria seria muito pior que a primeira, a da trave.

O Louco, ainda com o dedão sangrando pegou o bicho (notem a frieza) do ombro do português e, rapidamente, o jogou – pasmem – na chapa, ao lado de um misto quente que estava sendo preparado. O Figo, apavorado e dando voltinhas, apoiava sobre a chapa um pé e tirava o outro com extrema rapidez, e assim sucessivamente por umas cinco vezes, como naqueles filmes de bang-bang em que um atira no chão e o outro fica pulando pra não tomar um tiro no pé. Parecia dançar polca, o Figo.
Não agüentando mais e não sabendo voar, deu um salto digno de homem-bala em direção ao chão e conseguiu escapar dessa. Foi a primeira vez na história que se viu um papagaio assoprando os pés!

O IBAMA oferece uma bela recompensa pela cabeça do Waldir...

26 de mar de 2007

Dois em um

Este mês de Março, de nascimento do blog (pelo menos dos meus textos, já que o caxias Sherra o escreveu em Janeiro e Fevereiro) está sendo caracterizado pelos “causos”, como diz o povo antigo e o excelente Rolando Boldrin.
O causo de hoje aconteceu há uns três anos atrás, final de 2004, se não falha minha falha memória. E ocorreu num dia de domingo, pertinho do Natal, último dia de jogo da temporada varzeana, na tradicional celebração de “fechamento” de ano lá no salão do Anhanguera para os associados e suas famílias.

Antes de contar, permitam-me uma rápida pincelada para melhor compreensão: Como o personagem principal são duas pessoas (isso mesmo, o cara é duas pessoas completamente diferentes), vou tentar defini-los. Parece estranho e até a concordância verbal não concorda... Mas vamos lá.
Este homem divide-se em a.C. e d.C. Isso não significa o óbvio “antes de Cristo” e “depois de Cristo”, visto que ele está longe de ser um cristão evangélico destes que se regeneram com a presença de Jesus em sua vida. Significa: “antes da Cachaça” e “depois da Cachaça”!
Existe uma frase (que até é moda agora) que diz: “Eu não bebo. Quando bebo me transformo em outro homem. Este sim, bebe muito”. Isso é rigorosamente o que acontece com este dupla-personalidade.
O a.C. chama-se Cirilo. Esta é a sua identidade em estado de sobriedade. Sujeito bom de papo e de truco, bate sua bola, tirador de sarro daqueles, boêmio e profundo conhecedor das quebradas do mundaréu (salve Plínio Marcos) e dos meandros da noite.
O d.C. chama-se Johnny. Esta é sua identidade quando alcoolizado. Um tremendo pau-d´água sem doutrina, cachaça nervoso, um tarado babão, que endoida a cantarolar músicas da Jovem Guarda em inglês misturando ao português, invoca Exu e dança freneticamente alguns passos exclusivos e engraçadíssimos. Além disso, em todos os finais de frase que fala, solta seu bordão com a voz rouca: “Filha da puuuuta”.

O próximo causo será sobre Cirilo. Hoje vamos falar de Johnny.

Pois bem, no dia da festa de fim de ano, o salão estava cheio e o Cirilo estava lá tranqüilo, sem beber, comportadinho, jogando conversa fora com o pessoal do time do 2º quadro. De repente, uma força maior o fez tomar um copo (somente um copo) de cerveja. Era o anúncio: Johnny está chegando! Eu previ... Em poucos minutos, após mais algumas talagadas, Cirilo já não estava mais na área. Agora era a vez de o Johnny curtir a festa. Um rodopio em torno do próprio eixo selou a troca de personalidade. De repente as pernas já não tinham a mesma firmeza, os olhos avermelharam, as pálpebras pesaram, o pescoço perdeu a força, a boca entortou e a coordenação ficou seriamente comprometida. Pronto. Era mesmo ele... Chegou cantando Elvis Presley, vejam só...
Depois disso foi dança pra cá, cachaça pra lá, um tombo aqui, outro ali, e a cana descendo pela goela... E a turma toda rachando o bico com suas peripécias. O Johnny, minha gente, é engraçado demais, a ponto de o Tom Cavalcante, humilhado, encerrar na hora sua carreira de comediante vendo sua performance!

A certa altura, antes de servirem o almoço, num daqueles momentos de irmandade, bem característico do Natal, alguém ordenou: “Vamos rezar e agradecer pelo ano que passamos juntos aqui no Anhanguera!”. E fez-se uma enorme roda, cerca de 100 pessoas de mãos dadas para o Pai Nosso. Nessa hora, Johnny jogado num canto tirava uma soneca. Ninguém queria acordá-lo, pois no momento de agradecimento a Deus seria cabível e condizente com o ambiente a presença de Cirilo, que estava em alguma outra dimensão.

E começa a oração. Todos de olhos fechados, concentrados e cheios de fé: “Pai nosso que estás no céu / santificado seja o vosso nome”... Um estranho assovio atravessa o salão. Algumas pessoas desconfiadas já abrem os olhos e constatam a tragédia. Johnny já está de pé e cambaleantemente se aproximando. “... Venha a nós o Vosso reino / seja feita a Vossa vontade...”. Num salto, um enlouquecido Johnny rompe um elo de braços e vai parar no meio da roda e, tomado por um espírito carnavalesco, canta aos berros: “Hei, você aí / me dá um dinheiro aí / me dá um dinheiro aí!”. Entre risos contidos de alguns e indignação de outros, o povo tenta continuar a reza: “... Assim na terra como no céu / O pão nosso de cada dia nos dai hoje...”. E ele mandando junto, inventando passinhos depravados - para horror dos embasbacados espectadores - e batendo palmas, chamando os fiéis para a farra: “... Se você pensa que cachaça é água / Cachaça não é água não...”. A reza foi sucumbindo. Pessoas saíram da roda porque não paravam de rir, outros tentaram em vão contê-lo, mas era tarde demais, a merda já estava feita. A reza que começou com 100 pessoas chegou no “Amém” com apenas duas senhoras surdas de uns oitenta anos de idade...

21 de mar de 2007

Quito – Boca suja, coração limpo

Primeiramente, uma explicação. O último texto, em referência (e reverência) ao Zulu manteve-se propositadamente dez dias no ar, quantidade de dias igual à nota que ele merece entre zero e dez.

Como vocês sabem, o intuito deste blog é contar histórias antigas do clube e do bairro, jogos inesquecíveis e personagens históricos, como o meu saudoso avô Tirone, o Durão, Pé-de-Pato, Antenor, Barraca, entre outros eméritos que já estão batendo uma bola do lado de lá.

Mas hoje vou falar de mais um que está conosco todos os Domingos. Seu nome é Leonildes, o famoso Quito. Este que bebe pinga igual água, que tem um sorriso de Tião Macalé, e que a cada dez palavras proferidas, solta nove palavrões. Este que é alvejado com garrafadas de plástico, que toma ovada na cabeça... Um sofredor. Realmente, um pagador de pecados... O pior é que ele gosta das abjetas brincadeiras que fazem com ele!
Nascido e criado no começo da Rua Anhanguera, perto da extinta porteira (onde hoje é a passarela), Quito é daquelas figuras que só existem na Barra Funda. Não vou entrar em detalhes sobre sua infância e sua vida. Isso vai ficar pra outra ocasião. Quero, além de contar um “causo” dele, apresentar a vocês um Quito jamais reconhecido no clube. Um homem boêmio, malandro, sambista...

Uma rápida reflexão: certa vez enviei um e-mail falando sobre apelidos. Eu nunca soube e não faço a menor idéia deste que cravaram: Quito. Que raio é Quito? Por favor, se alguém souber, revele nos comentários deste texto.

Vamos às cinco características que mais marcam este homem, em ordem:
1 – Palavrões;
2 – Pinga;
3 – Palavrões.
4 – Samba e boemia (vocês hão de ver logo abaixo, não perdem por esperar!);
5 – Palavrões.

O involuntário e inconsciente vocabulário deste cidadão é extremamente carregado de palavras de baixo calão, como todos sabem. Mas de onde vem isso? Procurei saber e, certa vez a Elza, sua irmã, contou-me como tudo começou. Criança pequena quando começa a falar não consegue dizer palavras com mais de uma sílaba, a não ser o famoso “papa” ou “mamã” ou ainda o insuportável “cuti-cuti”. Reparem só o dom que ele recebeu. Sua primeira palavra dita, uma monossílaba, foi um simples e agudo “cu”. Os pais imaginavam ser a abreviação do abominável “cuti”, mas mal sabiam da propensão do então Leonildinho às imundas palavras... E assim começou. O pequeno Quitinho gritando “cu” pra cá, “cu” pra lá. Isso com apenas um ano de idade.

Algum tempo depois, com uns doze anos, na escola, Quito já fumava. Certa vez o professor, já antevendo à época a degradação ambiental e a camada de ozônio sendo estuprada, o repreendeu: “Você, com seu cigarro, também está abrindo o buraco na atmosfera!!”. Justo pra quem o professor disse... Ouviu uma sonora e gritante resposta: “Ah, é o buraco da sua mãe, seu filhodaputa!”. Notem a revolta do Quito, com sua razão: Atmosfera era o nome de uma zona no centro da cidade... Quito nunca mais voltou à escola.

Desse dia pra cá, seu repertório de palavrões expelidos a cada minuto supera a quantidade de balas que uma metralhadora de última geração “cospe” no mesmo tempo. Tenho estudado seu comportamento e já sei que quando ele diz “vai tomá no cu” quer dizer “bom dia, tudo bem?”, ou quando ele te chama de “cheio de bicho” quer dizer “está forte, hein!”. Ele criou um dialeto feio e puro, bem como ele, como boa praça que é!
Apesar de sua língua solta, gostaria de dizer que sua contribuição e amor pelo Anhanguera são dignos de um busto, de uma grande homenagem. Afinal, o melhor roupeiro do Brasil trabalha arduamente. E com 72 anos nas costas!


Mas a bomba mesmo, meus amigos, o ápice, a revelação, vem agora. Vocês, que subjugam, que maltratam, que desdenham dele, nem imaginam o respeito e as amizades que convivem junto com a fera nos butecos do mundo. Quito é sambista bamba, amigo de nada mais nada menos que Bezerra da Silva, a voz da malandragem não calada, apesar da sua morte em 17/01/05. Durante anos ele saiu do Anhanguera e subiu os morros pra fazer samba junto com Bezerra quando este estava em São Paulo!

O que? Não acreditam? Pois como eu não minto nem invento, digo: uma imagem vale mais que mil palavras.

E agora, o que me dizem, pagãos?

12 de mar de 2007

Antonio Carlos Apolinário - Uma entidade chamada Zulu

Há alguns dias eu disse que dedicaria um texto especialmente ao Sherra, o maior trabalhador destas plagas. Mas o incansável, determinado e engravatado canhoto da bunda grande será assunto em outra edição.

Desta vez, vou falar de um portento, um colosso. Mestre de sabedoria inconteste e um irrefreável fígado, capaz de absorver uma fábrica de Cynar em poucos minutos, até travar o maxilar. Aliás, não só este texto será dedicado a ele. Seria impossível definir suas qualidades e “causos” em mil contos, afinal sua implacável genialidade é destilada ferozmente a cada palavra.

Considerado por muitos não como um simples homem, mas como um semi-santo (santos não enchem a caveira), no instante em que ele chega a qualquer lugar, um silêncio ensurdecedor se faz, e de repente filas quilométricas se formam para um abraço, um aperto de mão ou até um simples “oi” deste homem. Pessoas cedem o melhor lugar da mesa, a cadeira mais confortável, um copo de cerveja gelada... Como uma devoção, em segundos está rodeado de sedentos por uma mísera palavra que seja.

Hoje vou dar uma palinha da força da presença dele. Atenção!

Há uns três meses atrás, num domingo comum, saímos do Anhanguera eu, Bruno, Cabeção, Gilmar, Jean Carlo, Zé Augusto e ele, Zulu. Após algumas rodadas de Brahma na Vila do Samba na Casa Verde, quando Zé Augusto e Gilmar quase saíam na porrada em uma discussão na qual Gilmar alegava que a Peruche nunca havia sido campeã do carnaval, o Zé urrava: “Somos tri! Somos tricampeões!!!”.
Notem a sutileza do homem que hoje é o assunto: “Gilmar, cala a boca! Se o Zé falou tá falado. Vai dá o cu pra lá”.
De fato, senhores, a Peruche é tri (66/67/69).

Zé Augusto, um negrão extremamente passional e parcial, como os justos, decretou: “Vamos ao ensaio do Peruche!”.
Breve comentário: O Zé Augusto é meu amigo de infância. Apesar de ele estar na faixa dos 60 anos e eu com 25, temos uma amizade de uns 45, 50 anos. E não ousem contestar!

Fomos para o Peruche sem o Gilmar e o Jean Carlo. Ao chegarmos à rua da tradicional e simpática agremiação, que estava lotada, os guardadores de carro amedrontados com a presença Dele, fizeram uma baita operação para arrumar uma vaga – pasmem – na porta da quadra!

Ao entrarmos, claro que de graça, a cena foi apoteótica. Zé Augusto é diretor no Peruche. Mesmo assim todos passavam direto por ele e iam em direção ao Zulu, e ouvia-se um grande burburinho: “Olha quem está aí, o Zulu!!”. Na entrada, o dono do bar já nos deu várias cervejas, meros acompanhantes... O entusiamos foi tanto que a bateria errou o compasso, a comunidade esqueceu a letra do samba, um troço jamais visto. E olha que eu já andei muito por aí, pelas escolas de samba.

Após mais cervejas, Cabeção, que temia tomar um cartão vermelho da Solange sugeriu ir embora. E fomos. Cabeção e Zé Augusto ficaram em suas casas e o Zulu foi levar Bruno e eu pra nossa. Passamos em frente ao Camisa Verde e Branco. Pra que?
Ali é minha área e eu, extasiado: “Zula, vamos ao Camisa!”. Na verdade o que eu queria era não ficar por baixo do homem. Ele havia sido tratado como rei e eu um bobo-da-corte, mero figurante. No Camisa seria diferente, ele veria minha moral. Redondo engano...
Entramos na quadra depois de uns 20 minutos, após mil tapinhas nas enormes e gordas costas pretas dele. Ele parecia o Seu Inocêncio ressuscitado. A Barra Funda o reverenciava. Bruno e eu, atônitos, nem existíamos, parecíamos espectros, totalmente ignorados...

A quadra estava lotada, muito cheia. Conseguimos chegar em frente ao bar. Eu, decepcionado comigo mesmo, reclamava para o Bruno o fato de sermos meros mortais sem nenhum destaque na companhia dele...
Súbito, notamos que ele estava sentado numa cadeira!! Eu NUNCA vi alguém sentado numa cadeira no meio da quadra em um ensaio. E lá estava ele, já com uma cerveja que havia ganhado de um diretor junto com a cadeira, olhando-nos com um ar humilhante. Fui ao banheiro chorar...

Com o andar gingado, bem característico da velha e boa malandragem, o maior baluarte do samba de São Paulo, Hélio Bagunça, aproximou-se do Zulu, deu-lhe um forte abraço – redundância – e começaram a conversar. Zulu contou-nos sobre uma passagem histórica e nada exemplar da Lenda Hélio, que no mesmo instante diz: “Zulu, malandro que é malandro não cagueta...”, ao que vem a resposta instantânea do colosso: “Hélio, não sou malandro. Sou cagueta!”.

O Hélio foi quase parar no hospital com uma crise de riso, assim como eu e o Bruno que, como as criancinhas fazem nos colchões, chegamos mijados em casa...

7 de mar de 2007

Anhanguera - Um clube social

Há dois anos venho martelando isto na minha cabeça. O Anhanguera é um clube varzeano de futebol. Fato inegável.

Seu maior destaque, porém, sempre foi na área social. As festas e eventos promovidos na saudosa sede da “abençoada esquina”, nas idas décadas de 30 a 60 eram capazes de agregar, numa noite, gente de todos (eu disse todos) os clubes da várzea regional. As rivalidades – naquele tempo eram fortíssimas – davam trégua graças aos imperdíveis festejos.

Pois bem. Na humilde opinião deste que vos escreve, é aí que está a força motriz da nossa revitalização e identificação.
Lembrem-se dos domingos até dez ou quinze anos atrás. Aquilo era um furdúnço! Era gente saindo pelo ladrão. O alambrado tomado de espectadores assistindo a pelada.
Infelizmente, com o tempo, a freqüência começou a diminuir ao ponto de, no ano passado, ficarem sempre a mesma meia dúzia de gatos pingados após o jogo do 2º quadro. Este ano já está bem diferente. Pra melhor, e por quê? Será que é porque os times estão melhores?

Vejam bem onde quero chegar. O futebol, por si só, não é fator preponderante para o sucesso e manutenção da agremiação. O fato é explicável e plausível, principalmente por dois motivos. Notem primeiro que as festas e eventos, nos últimos cinco ou seis anos, praticamente não aconteceram. O outro motivo é que os novos adeptos do clube cada vez mais não são moradores ou freqüentadores do bairro.

O que mantém uma agremiação coesa são sem dúvida o convívio e as causas em comum. O exercício de tomar cerveja e “bater papo” após os jogos é extremamente relevante para tal processo, pois fica visível a entrega e o interesse do fulano pelo clube. Assim como, em dias de semana, haver encontros espontâneos ou pré-determinados. Essas migalhas de sociabilidade é que sustentam tudo.

Será por coincidência que o clube era muito mais cheio quando o Vichiski existia ali, em frente a sede? Não que o Bar do Sinval hoje não possa cumprir este papel, mas nunca foi um ponto de referência dos freqüentadores do clube, salvo poucas exceções.
Na época em que o Zulu abria o bar as Sextas, ou quando tinha o samba... Era nítido um maior engajamento de todos. Havia um interesse maior!

São pequenos fragmentos de convívio que, consolidados, tornam-se uma grande referência que influencia o futebol e todas as outras áreas do clube. O Anhanguera nunca foi um time de massa e dificilmente será. Devemos primar primeiramente pela área social. Ela sim, é quem dita as regras, o andamento e os rumos da instituição.

E daqui, erguendo o copo, eu brado: Domingo é pouco. Lineu, bota mais gelada. Terás muito mais trabalho e nós teremos muito mais Anhanguera!


As quartas-feiras nunca mais serão as mesmas...

5 de mar de 2007

Em que bairro fica o Anhanguera?

Escrevo a partir de hoje neste blogue, que será atualizado constantemente, de preferência e se eu conseguir, diariamente.

Antes de mais nada, agradeço ao Fellipe (Sherra) por ter-me concedido o domínio deste espaço após muitas investidas minhas, juntando-se ao fato de ele estar sem tempo, com muito, muito trabalho. Tanto que ele acorda as 4h00, chega no trabalho as 4h22, após um banho de gato, e sai somente as 22h34 para pegar a presença na última aula da faculdade e volta à labuta, para ganhar uma horinha extra até as 2h14. Dormir quase nunca. O tempo livre é pra comer alguma coisa. E só. Qualquer dia conto mais detalhes do cotidiano deste obeso escravocrata.
Feita esta rápida introdução, vamos em frente.

A pergunta parece ser bem simples de se responder até por um macaco ou por um velhinho que sofre do perigoso e dispersivo Mal de Alzheimer .E vocês, incrédulos, coçando a cabeça afirmarão: "O Arthur é retardado!"

Para quem conhece um pouco, por menos que seja, sabe que o clube foi fundado na esquina da Rua Anhanguera com a Rua do Bosque, no portentoso e tradicional bairro da - ainda virão muitas histórias sobre o bairro - Barra Funda. Os "Tomés", sem precisar recorrer ao guia, dirão: "O que é que tem? A Rua dos Italianos fica no Bom Retiro!".

Pois bem. Quem viveu e vive nossa tradição me entenderá e, não tenho dúvidas, me dará razão. Quem não assimilar, pode ficar tranquilo, que não é porque é menos abastado intelectualmente. Apenas continue frequentando o clube e um dia entenderá o que quero dizer.

O Anhanguera é localizado na BARRA FUNDA! E sempre será, independente se o campo for no Bom Retiro, na Casa Verde, no Rio de Janeiro ou na China...

Como eu já disse, qualquer pedaço de chão, enquanto estiver sob o glorioso símbolo rubro-negro, será território Barra-Fundense. A atual sede do Anhanguera é a embaixada da Barra Funda no Bom Retiro.
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