24 de abr de 2007

Saudade... Nostalgia inconsciente

Narrarei aqui um dia que passei ao lado de um grande homem, o Osvaldo.

Foi há três semanas, era Sábado. Minha intenção era apenas comprar a Gazeta Esportiva na banca da esquina. Encontrei-o na Rua Lusitana. Ele acabara de alimentar os animais (é carroceiro de burros) e estava indo para casa. Conversamos sobre a pancadaria que acabou com o baile na sede do Anhanguera uma semana antes.
Pausa: o Osvaldo, pra quem não conhece, é um baita briguento. Não leva desaforo pra casa e não tem muita paciência. É tão forte e corajoso que encara uma briga com dez homens de uma vez!

Fomos até o buteco Nunca Fecha na Rua do Bosque beber umas geladas. Lá encontramos Augusto e Siola, que se juntaram a nós. Siola, sempre retraído, tranqüilo, com seu cigarro de palha, enquanto o Augusto contou-nos sobre um novo campo que o Anhanguera vai conseguir ali na Rua dos Americanos. O Augusto é jogador e diretor do clube, já o Osvaldo joga, mas não gosta de se meter em assuntos burocráticos.

Saímos do Nunca Fecha o Osvaldo e eu e fomos tomar mais uma no Fecha Nunca, um pouco mais a frente. Falamos sobre nosso time, o Corinthians. Estávamos entusiasmados, pois é o atual tri-campeão paulista e, além disso, vamos inaugurar o estádio Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu, na próxima semana, contra o Atlético Mineiro. Faremos também, no começo do ano que vem, um jogo beneficente contra nosso maior rival, o Palestra Itália, para arrecadar fundos para um time novo, o São Paulo Futebol Clube, que está falindo.

Dali partimos em direção à sede do Anhanguera, pois jogaríamos contra o potente time do Piratininga, na casa do adversário. Fui direto e o Osvaldo foi pegar o caminhão que acabara de comprar. Ele é quem levará os atletas e os torcedores para os jogos a partir de agora!
Eu fiquei apenas na torcida, pois era jogo do 1º quadro e eu, como vocês bem sabem, não sou um jogador que se diga: “Nossa, que craque, esse Arthur!”... Mas o Osvaldo joga. É beque! E daqueles que não tem medo. Sabe jogar e quando é preciso enfia o bico na gorducha!

A peleja estava nervosa... Estávamos perdendo por 1x0, quando, aos quarenta minutos do segundo tempo, no final do jogo, o juiz apitou um penal para nosso esquadrão. O Osvaldo, nervoso que só ele, pegou a bola e foi bater. Ele nunca havia batido uma penalidade máxima. Correu e deu um tirambaço no travessão. A torcida do Piratininga gritou em coro um sarro pra ele, que, puto da vida, fez para a torcida (que tinha várias damas) aquele singelo sinal de segurar firme o genital (tapando-o) e balançá-lo incessantemente, dizendo: “Aqui pra vocês, ó!”.

Três homens entraram em campo com pecheras do tamanho de uma espada para arrancar-lhe a “clava forte”. Foi um tal de segura daqui, segura dali, que enfim conseguimos sair do campo sem nenhum arranhão. Pura sorte!

Mais calmo, o Osvaldo me chamou para ir ao cinema à noite. Ele iria com sua noiva, a Antonia, que levaria uma amiga, a Trieste, que é a moça mais linda que há na Barra Funda. Uma boneca. Eu, nem acreditando, aceitei na hora!

As 18h30 encontrei-me com o Osvaldo, passamos nas casas das moças e fomos ao Cine Paris a pé. Não quisemos pegar o bonde. A Trieste estava mais linda do que já é. Chegando ao cinema, acomodamo-nos e as duas pediram maçã-do-amor. Sentei-me ao lado da Trieste, que se emocionou com o filme A Estrada de Santa Fé, estrelado por Errol Flynn e Olivia de Havilland. Ao final do filme, peguei na mão da escultural donzela, que não se opôs à minha investida e sorriu com o canto da boca. Uma semana depois já namorávamos oficialmente!

Como levamos as duas para suas casas às 22h00 (elas não podiam chegar mais tarde), fomos para um cabaré na Avenida São João. Ao chegarmos, penduramos os chapéus e abrimos dois botões da camisa. Estava muito calor. As damas, quando viram nós dois entrando, foram em cima do Osvaldo. Ele é um exímio pé-de-valsa. Dançamos tangos e boleros com elas por uma hora e ainda bebemos e tiramos umas casquinhas das damas, já que com as meninas de família é impossível isso acontecer antes do casamento. Após isso, ainda jogamos pôquer com uns malandros dos Campos Elíseos numa salinha escondida e escura no fundo do cabaré. Perdemos todo o nosso pouco dinheiro...

E bêbados, com uma garrafa de vinho em punho, saímos pelas ruas do centro abraçados, cantando a marchinha de João de Barro Dama das Camélias, gravada por Francisco Alves, grande sucesso do carnaval deste ano de 1940!


*** Narração de um sonho surreal que tive há alguns meses. O Osvaldo é meu avô, o velho Tirone, falecido em Novembro de 2.000.

18 de abr de 2007

Casamento trágico

As mais atuais notícias na mídia são tão construtivas que não tenho vontade de assistir ao jornal na TV, abrir portais como Terra e Uol e nem escutar rádio (tirando poucas exceções): “O casamento de Sheila Carvalho”, que já está sendo ventilado há mais de uma semana é uma notícia que me fez lembrar de um casamento épico na Barra Funda, não pela pose, nem pela empáfia. Este casório que vou descrever foi o anti-casamento-pomposo, reverso do da tal dançarina (gostosíssima, aliás) e o de tantas outras “celebridades”. A união de Osmar e Maria José!
Eu não estava presente, e nem poderia, pois não tinha vindo ao mundo ainda. Mas sei de todos os detalhes, já que a tragédia teve proporções bíblicas, de fazer a Gripe Espanhola parecer apenas um espirro.

Osmar morava com os pais, nunca lavou um prato. Era um sujeito do mundo, tinha incontáveis amigos, jogava bola todos os dias e depois tomava uma cervejinha no Vichisky. Fazia um sambinha de vez em quando e era um mulherengo nato.
Maria José, advinda de uma cidade pequena do interior, morava com uma tia e trabalhava arduamente para se sustentar. Uma guerreira, a Maria!
Conheceram-se numa escola. A Maria já cursando o Normal (os mais novos que se virem pra saber o que é isso) enquanto o Osmar, que abominava os estudos e cabulava aulas desde o pré-primário, aos 5 anos, fazia supletivo do colegial no auge de seus 24 anos!
Apaixonaram-se, e o Osmar, assim como o Pedro do Pedregulho - personagem da linda canção de Geraldo Pereira – “trocou o revólver por uma marmita”, ou seja, deixou a boemia para viver seu grande amor com a Maria, que botou o homem nos prumos!

Até aqui tudo lindo. Apesar da vida dura que levavam, a paixão que os movia superava as dificuldades. O casamento foi marcado e, como não tinham condições de bancar uma festa pra muita gente, fariam a cerimônia religiosa aberta e para uma festinha depois, chamariam apenas os familiares, já que os amigos do Osmar, juntos, lotariam um Maracanã.

Pois bem, chega o grande dia! A igreja de Santo Antonio, na Rua Anhanguera, tinha, além de todos os bancos lotados com 6 pessoas sentadas em cada um (o banco é para 4), duas voltas pela igreja inteira de pessoas em pé e gente – acreditem – pra fora! Um negócio jamais visto. O bairro inteiro compareceu à cerimônia religiosa, mesmo "não tendo" a famosa festa com comes e bebes, fato que provara o quanto Osmar era popular. A festa seria, torno a dizer, apenas para familiares e os mais chegados, umas 100 pessoas. E não para as 600 que compareceram à igreja.

No dia do rebuliço, Osmar já postado no altar, Maria chegou atrasada (o lero-lero de sempre), o padre diz o mesmo blá blá blá até que solta a seguinte pérola, para todos os presentes: “Ao final da cerimônia, acontecerá a festa no salão da igreja”, para delírio dos barqueiros, bebuns e arrozes-de-festa de plantão.

O padre continua: “Osmar, aceita Maria como sua esposa?”... Com engulhos, o noivo, suando frio, disse o “SIM” mais puto da história, fuzilando o geriátrico padre com os olhos vermelhos de raiva! Maria José nem respondeu o “sim”, pois desmaiou de desespero neste momento. E o povo dizia: “... o amor é lindo!”, “... isso é que é emoção!”...

O desespero do casal, meu povo, é facil de se entender. A humilde festa, para 100 pessoas, agora teria 600! E Jesus Cristo não se fazia presente para multiplicar os pães. Ou seja: Fudeu! Ainda mais conhecendo a maioria dos presentes. Tem gente na Barra Funda (em outras bandas também, convenhamos) que, quando vai à uma festa, faz jejum de uma semana antes. Mesmo neste caso, em que a festa não foi anunciada, diz a lenda que muita gente que havia jantado enfiou o dedo na goela e limpou o bucho para mandar brasa nos comes e bebes que viriam!

Maria chorava e suas irmãs foram consolá-la. E o povo dizia “Olha como está emocionada, não consegue parar de chorar!”. Osmar, se desfazendo do dinheirinho guardado para a lua-de-mel na praia, pediu para seu irmão comprar mais cerveja para os beberrões. Mas e os comes? Não teria mais como fazer nem comprar...

O que se viu no salão foi grotesco. Briga por comida. Cena de somalianos se amontoando por um naco de qualquer-coisa.
Vários “educados” ficavam na porta de saída da cozinha, fingindo estarem conversando. Resultado: o garçom saía com os acepipes na bandeja e não dava dois passos além-porta. Quem estava mais afastado ou sentado nas mesas começou a se ligar. Aí fudeu mais ainda.

Cotoveladas pela escassa comida. O fotógrafo foi empurrado e teve sua máquina quebrada. Duas senhoras foram pisoteadas. Uma criança teve membros fraturados. O bolo, nessa guerra, serviu de munição para franco-atiradores. A família do noivo brigou com a família da noiva. O estoque de vinho da igreja foi saqueado. Os “convidados” saíram fofocando sobre a catástrofe generalizada. Os noivos, chorando copiosamente, foram retirados da festa por parentes e o pau continuou quebrando.

Um casamento que começa assim, vocês dirão, não dá certo!

Pois bem, até hoje estão casados e felizes. E fariam várias celebridades, que casam e descasam cheios de pompa, se roerem de inveja da história de amor que ainda vivem, muitos anos depois!

16 de abr de 2007

Várzea paulistana - Uma tradição se esvaindo

Hoje estou mais sério que o normal, justamente porque vou falar de uma realidade que me deixa, digamos, chateado.

Pra quem não sabe, o futebol varzeano é uma das maiores tradições desta cidade, desde a época em que Charles Miller, um almofadinha bigodudo, trouxe duas bolas da Inglaterra pra cá, no final do século retrasado após completar seus estudos na terra da rainha e organizar o primeiro jogo de futebol do Brasil: uma peleja entre funcionários da Gás Company e da São Paulo Railway, no longínquo ano de 1.895, na Várzea do Carmo (daí o nome varzeano), num enorme descampado que servia de pasto para vacas.

O esporte acabou se difundindo e apaixonando a todos. Com isso, inúmeros campos e times foram criados, da Várzea do Carmo para toda a cidade, principalmente nos bairros operários do centro expandido, como Bom Retiro, Penha, Brás, Ipiranga, Canindé, Barra Funda, Brás, Belém... Mesmo anos depois, o futebol varzeano continuou sendo o maior celeiro de inúmeros craques que iam para os times profissionais e até para a Seleção Brasileira. Até o Corinthians, meu time do coração, nasceu na várzea.

Embora seja importante conhecer a história, o que mais importa é a tradição do troço, uma das nossas maiores, que vêm sendo impingida por politicagens de poderosos, por corruptos que estão à frente das agremiações enchendo o bolso, por um tempo mais-que-desumano e mais dominado pelo capital, em que um terreno no centro da grande e triste cidade vale muito para ter “joguinhos” aos finais de semana e poderia ser uma bela fonte de renda e negócio...

A várzea tem, meus amigos, o espírito do futebol antigo, talvez morto quando decidiram separar torcidas no estádio e quando a bufunfa imperou sobre a paixão. É no nosso campo de fé que vamos jogar uma vez por semana e sentimo-nos, como nos delírios infantis, que o tal jogo vale como final de Copa do Mundo, e depois comentamos: “...viu meu gol?”, “... que drible que eu dei, hein!”.
Além disso, os clubes de várzea representavam seus bairros. Torcer por um time era uma demonstração de amor pelo seu bairro. E as rivalidades eram enormes, pois, como uma batalha, não eram apenas dois times se enfrentando, e sim qual bairro era o maior revelador de craques. E nessas batalhas, muitas vezes, o “pau quebrava”. Porrada pra todo lado, no tempo em que se meter em uma briga não era risco de morte. Na pior das hipóteses, hematomas pelo esqueleto...

Neste cenário o aprendizado vai muito além das quatro linhas. Nele há uma total convivência social, com pessoas de todas as classes sociais, com malandro e com bandido e com polícia, com trabalhadores e vagabundos, com acadêmicos e analfabetos. Ali, dentro de campo, com a mesma camisa, todos são iguais... Não há pose nem badalação. É um jogo de futebol. Inevitavelmente, 99% dos campos varzeanos têm um bar para, após o jogo, aquela cerveja gelada e um bom jogo de truco.

Mas como nem tudo são flores, a várzea vem, ano após ano, acabando. As pseudo-escolinhas de futebol (futebol não se aprende, porra!) e os societys espalhados como praga por todos os lados ajudam a acabar mais rapidamente com essa tradição tão característica, que na iminência do fim já se faz anunciar. Este infelizmente é um processo irreversível. Muitos campos já foram tomados pela prefeitura principalmente para programas duvidosos de moradia popular e esquisitas construções de empresas. Mas nós, no Anhanguera, ainda não seremos enterrados por essa avalanche, pois estamos nos adequando às exigências imperativas da prefeitura de uma sociabilidade mascarada em relação à comunidade (não entrarei em detalhes)...

É com uma mistura de tristeza e não-conformismo que recebi a notícia de que a aeronáutica irá “desapropriar” os cinco clubes (Pitangueira, Baruel, Paulista, Saad e Cruz da Esperança) que atualmente (desde 1.980) têm a concessão de uso de seu território. Ainda ninguém sabe se esta notícia é especulação ou não.
Aquele pedaço, no bairro da Casa Verde, talvez seja hoje (e digo talvez porque não conheço outro) o maior aglomerado de campos da várzea paulistana num mesmo espaço. São cinco campos independentes, um ao lado do outro, bem como era antigamente, com suas rivalidades e boa convivência. Eu, assim como os bons freqüentadores dos campos, já corri muito por lá, naqueles gramados.

Digo, em nome de minha pessoa, aos amigos da Casa Verde que ficarão órfãos de seus clubes e campos: Atravessem o rio Tietê e sejam bem chegados pra uma cerveja no Anhanguera. Pra jogar bola é outra história...

9 de abr de 2007

Dick - Fidelidade canina

Para desespero do Waldir e do Guilherme Pompom, fã número um do Waldir mesmo sem conhecê-lo (veja aqui), vou falar de animais.

Assim como pessoas, certos animais são notórios e têm o dom de perpetuar pela nobreza de suas atitudes.

No Japão, por exemplo, uma estátua de cão da raça Akita foi levantada em homenagem a um cão que acompanhava seu dono até a estação de trem todos os dias. Este cachorro, de nome Hachi, aguardava na estação o dono voltar do trabalho para ir para a casa. Após a morte do dono, em 1925, o fiel animal, durante 9 anos, continuou indo diariamente à estação aguardar a chegada do dono, e o esperava até a meia-noite, quando passava o último vagão. Isso durou até sua morte, em 1934.

Outro caso antológico de um fato como este foi o do cão Greyfriars Bobby, na Escócia, que após a morte de seu dono, em 1858, recusou-se a abandonar o cemitério por uma noite sequer. Isso durou 14 anos, sempre deitado sobre o túmulo do dono, até sua morte em 1872. Bobby também ganhou uma estátua.

Aqui na Barra Funda alguns animais aparecem, de tempos em tempos, como se fossem reencarnações de Hachi ou de Bobby e marcam uma época. E são lembrados mais do que muita gente por aí, que passam pelo mundo sem serem percebidas.

Claro que alguns animais se destacam não por atitudes nobres, mas por outros motivos.

Um exemplo é o Nêgo, dálmata do Gaúcho, que mora na Rua do Bosque. O Nêgo, meus amigos, dizem, tem mais de 1.000 filhotes espalhados pela cidade. É um aventureiro sempre em busca de cadelas que não resistem ao seu charme.

Houve também, por aqui, o Berne. Um esguio cachorro de rua que na década de 1930 espalhou a raiva ao morder inocentes transeuntes. Há registros que nessa época metade das pessoas do bairro babavam exageradamante, afetadas pela doença. Berne foi sacrificado.

Mas voltando às nobres atitudes caninas, quero citar um exemplo daqui destas plagas. O Dick, um vira-latas inteligentíssimo e bondoso. Viveu na década de 1980 e pertencia ao Cuza.

O Cuza, minha gente, ao contrário dos donos do Hachi e do Bobby, não estava nem aí para o pobre do Dick. Tratava o cachorro com desdém, fornecendo ao animal apenas o quintal da casa e água. Nem comida ele dava ao esfomeado cachorro, a não ser pão velho e duro. Mesmo assim, o Dick, como um fiel escudeiro, adorava o Cuza...

Há relatos de que o Dick ficou anos e anos sem comer carne. Num desses relatos, o Joel contou-me que certo dia foi ao açougue e comprou carnes variadas para um churrasco que faria. Parou no bar do Vichisky pra um tira-gosto e lá estava o Cuza, e o Dick deitado num cantinho.
Quando ele enconstou o carro e abriu a porta pra sair, o Dick já havia pulado por cima dele e estava no banco de trás tentando achar uma brecha, com o focinho, para chegar ao porta-malas, onde estavam as proteínas bovinas que ele não comia há tanto tempo.

Após tanto pão duro, o Dick ficou fraco e apático. Quase não se mexia. O mesmo Joel, que era muito amigo do Cuza, contou que, certo dia, no auge da desnutrição, o Dick, após conseguir levantar-se, foi abanar o rabo para o Cuza, demonstrando seu afeto pelo dono, e caiu. Ele não aguentava mais nem com o rabo...

O coitado estava fraquinho... A morte aproximava-se lentamente.
Mas Dick ainda não havia provado sua nobreza, mesmo estando ao lado de um homem que o desdenhava, que o considerava acomodado e inútil.

Cuza, após uma noite de Vichisky, voltava embriagado para a casa quando foi abordado por dois homens armados. Além do inevitável assalto, poderia acontecer o pior, já que "Cuza" de bêbado não tem dono. Ao ouvir o dono em apuros, Dick, reunindo forças sobrenaturais e arriscando a própria vida, conseguiu correr e se pôs a latir ferozmente para os dois bandidos, rosnando e mostrando os pouquíssimos dentes que ainda resistiram aos pães duros. Os dois, com medo de a vizinhança acordar e chamar a polícia, fugiram.

Neste mesmo dia, ao acordar, um Cuza arrependido, comprou carnes de diferentes tipos para o Dick, que se esbaldou. Mas como Dick já tinha uma certa idade, acabou aproveitando pouco da vida boa de bajulação e faleceu três meses depois...

Dick provou ser nobre ao aceitar o dono que tinha e protegê-lo acima de tudo, mesmo sendo ignorado e passando fome.

Estátua pro Dick já!

4 de abr de 2007

Parque da Aclimação

Ontem fui a uma apresentação do ótimo grupo Samba Rahro, na Galeria Olido, no Largo do Paissandu. Infelizmente como no local não se podia beber e fumar, fomos, faltando meia hora para o fim do evento, eu, o grande compositor e diretor de teatro Marcelo Fonseca, o ilustre sambista da Velha Guarda do Camisa, mestre Airton Santa Maria e meu amigão Kiko do Cavaco bebericar umas Brahmas no simpático bar do Sérgio, ali no Paissandu mesmo. Logo após o show chegaram Paulinha Sanches, Kaká Sorriso, Rodrigo Pirituba e Edu Batata, que estavam lá tocando. Detalhe: eles mataram a pau!

Notem que, das oito pessoas citadas, eu sou o único que não atua na carreira artística. O único leigo em assuntos pautados nas burocracias ligadas a projetos de arte. Mas como perambulo aí pelos sambas há alguns anos, sinto como se eu também fosse do “metiê”.

Após essa breve introdução, vamos ao assunto. E o assunto é o futebol, a várzea.

Depois de umas cascudas, o papo, como não poderia deixar de ser em um buteco, acabou no futebol. E foi migrando do futebol profissional para a várzea. E o Marcelo Fonseca contou-nos o que ocorrera Domingo passado, no campo do Parque da Aclimação e definiu, com os olhos esbugalhados e emocionados: “O Parque da Aclimação é o time mais poético de toda a cidade!”. Tal afirmação causou-me calafrios e uma homérica crise de ciúmes. Como poderia qualquer outro time ser mais “qualquer coisa” que o Anhanguera?? Resignei-me e quis ouvir sua aventura de Domingo.

Pequena pausa: O Marcelo Fonseca sabe TODOS os sambas de breque do Moreira da Silva. Eu, particularmente, nunca vi alguém que cante mais Moreira que ele. Só ontem no bar foram cantados uns oito sambas. Eu, um semi-analfabeto em Moreira da Silva, conhecia apenas três...

Voltando à várzea. De vez em quando, o Marcelo vai ao Parque da Aclimação assistir aos jogos, sempre aos Domingos. E neste último, fatos que só podem ser vistos numa partida varzeana aconteceram. Era dia importante, de festival com direito a troféu para o vencedor e para o melhor jogador. Chega o Fonseca lá e vê que o time já está trocado e vai entrar em campo. O time da casa, o Parque, tem um jogador chamado Bisqui, que é atacante, além de ser boêmio, encher a cara e ir ao campo jogar todas as vezes “virado”, ou seja, sai da noitada e vai jogar direto. Lá no Anhanguera temos um jogador desses também...

Mas Bisqui estava esquisito, amuado. Antes do jogo foi pegar uma água pra lavar o bucho, e abriu o jogo pra rapaziada que estava na torcida, inclusive o Marcelo, que insistia em afirmar que ele ainda estava bêbado. O Bisqui, com náuseas e arrotando compulsivamente, disse: “Comi uma puta feijoada às dez da noite e fiz um repeteco as quatro da matina”. Imaginem o que aconteceria dentro de campo, sob um sol de 34º...

O juiz apita. Começa o jogo. O Bisqui dá o primeiro pique e pára no meio do caminho. Não enxergando nada e com a pressão baixa, fica ali na “banheira”. Seu marcador era um negrão de dois metros chamado Peroba, que tinha canelas finíssimas e uma barriga de protuberância invejável. Após um novo lançamento pro Bisqui, não teve jeito. Parou na meia-lua, apoiou as mãos nos joelhos suando frio e esperando a avalanche de feijoada que viria nos próximos segundos. Lavou toda a entrada da área.
A torcida, delirando, não podia perder a piada e começou:
- Aê Bisqui, pega o porco que ele saiu vivo!
- O Bisqui é palmeirense e tá dando a luz!!

O vomitante atleta saiu de campo desmaiado. Logo depois, o tal do Peroba, parecendo pressentir alguma coisa ruim, se pôs a dar escândalo: “Eu é que não vou jogar aqui. Manda alguém limpar essa merda!”, e deu uma bicuda na bola, o Peroba. E novamente a empolgada torcida entrou em ação:
- Ê negão, é assim que a tua mulher chuta tua bunda!
- Olha a Vera Verão aí, gente!

O Peroba decidiu ficar quieto, pois viu na torcida o Zóio e o Raméla, dois irmãos da pesada!

Já no segundo tempo, jogo nervoso, acontece uma falta na entrada da área para o time adversário. Peroba, que tem um canhão no pé, aproximou-se e ajeitou a bola, deslocando-a dos dejetos deixados pelo Bisqui. Este é o ápice do jogo e da narrativa do Marcelo. Segundo ele, quando acontece uma falta perigosa no campo do Parque da Aclimação, a torcida e os jogadores calam, o vento pára de balançar as árvores, os passarinhos param de cantar... Tudo fica congelado!

Peroba deu distância e correu, sacudindo sua enorme pança. A um passo da bola, pisou numa calabresa que havia, como uma moeda que corre em pé, ido parar ali. A perna esquerda subiu primeiro, logo em seguida a direita. O negrão caiu de costas no chão e, assim como o Bisqui, desmaiou.

O único reserva que estava ali no banco era um anão. Acreditem, ele tem 92 cm, mas é um serelepe. Seu principal e mais humilhante drible é passar com bola e tudo por baixo das pernas dos incautos adversários. Foi o herói do jogo fazendo no último minuto – pasmem – um gol de cabeça, que rendeu a vitória aos visitantes. Saiu o anão dançando e carregando o troféu, quase maior que ele por sinal, de melhor jogador em campo.

A torcida, pra não perder a oportunidade, bradou em coro:
- Samba Tevez! Samba, Tevez!
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