27 de fev de 2008

Quem é o valente?

Na década de trinta, na Rua Julio Conceição, Bom Retiro, existia uma turma da pesada. Todos na faixa dos vinte anos; Zezito, Calango, Valente, Ferrugem e Áureo. As exceções eram Orlando, o mais velho, com uns quarenta e o Chumbinho, um moleque de doze. Fizeram tanta arruaça que não dá pra resumir em um causo. Claro, causo é causo e só vou – além de apresentar as figuras - rabiscar um neste texto.

Orlando, ex-cadeiero, vivia de um bico aqui e outro ali há alguns anos. Carteira assinada, nem pensar. Ninguém daria emprego a um marginal que foi preso em flagrante metendo o cano na cara do trabalhador do outro lado do balcão. Está certo que ele tinha apenas dezenove na época do ato bandido, mas a ponderação geral só ia até aí. Depois de seis anos de cana e o juramento de nunca mais bandolear na vida, o artesanato o salvaria da fome. Orlando ficou craque, quando guardado, na arte com a madeira; bichos, casinhas, enfeites de todos os tipos e, de sarro, bonequinhos pornográficos daqueles que puxando uma cordinha o pau sobe. Era sucesso. O pão era garantido assim. Seu estabelecimento era a rua, mais propriamente a calçada em frente à casa de sua velha e viúva mãe, na Júlio Conceição. Um tablado, as ferramentas, o suor e a cara sisuda. Daí a turma dos cinco vagabundos o adotaram como “conselheiro”. Orlando, com suas tatuagens disformes à base de nanquim, era o tipo durão que servia de exemplo a ser seguido. Porém, a relação entre o coroa e os vagais era, no fundo, antagônica. Embora convivessem diariamente bebendo e jogando baralho, o Orlando não se metia nas encrencas e tentava aconselhar o bonde a “tomar um rumo”.

Chumbinho era um negrinho que vivia na rua. Ninguém sabia exatamente onde morava; apenas que era aprendiz no ofício de alfaiate, no salão do Seu Tenório, da Tenente Pena. Antes era engraxate. Astuto com o baralho na mão, ganhava uns trocos a mais fazendo mágicas primárias para donas de casa na feira. Moleque ligeiro, o Chumbinho logo conquistou a simpatia dos mais velhos e virou o mascote da turma.

A amizade da turma da Julio Conceição era coisa antiga, desde a época em que o Orlando estava encerrado e dormia com um olho aberto. Moravam todos uns perto dos outros e, quando pivetes, batiam bola na Julio Conceição, rua que acabou virando deles. Ferrugem e Áureo eram irmãos, filhos de um caixeiro-viajante e de uma costureira; viviam na rua. Jamais foram à escola e morreram, os dois, analfabetos. Calango era filho de mãe solteira; empregada doméstica. Baixinho e magérrimo, o caboclo era feio; mas feio a dar com pau. E ruim. Era, de longe, o que mais aprontava. Tinha, às vezes, instintos de larápio. Sua rapidez virou lenda na área; vacilou, ele levava mesmo. Mão fina de primeira categoria. Zezito era forte como um touro. Não muito alto, mas era quadrado, o português (era filho de portugas). Uma patada do Zezito era capaz de derrubar, e desmaiar, dois ou três. A turma tinha nele a segurança necessária; aquele que “vai na frente” e topa qualquer parada. Era o Zezito que enfiava o braço em nêgo da Barra Funda que atravessava a fronteira pra buscar balão. Meu avô sempre contou que se alguém do Bom Retiro viesse à Barra Funda buscar o balão que caiu, também levava cacete. Era lei.

O último dos cinco, que foi o personagem principal do causo que vou contar, era o Valente. Mauro Valente era seu nome completo. Totalmente doido. Dizem que, graças à sua colossal inteligência, o Valente tinha sérias dificuldades no campo dos relacionamentos. Dentro de casa apanhava do pai, um engenheiro aposentado que bebia o dia inteiro. Por isso rua era mais segura, mas nem tanto; Valente tinha talento pra apanhar. Primeiro virou capacho dos irmãos Ferrugem e Áureo. Pagava lanche, tomava tapa na orelha e servia de gandula no futebol da molecada, o “mauricinho”. De fato tinha uma condição social mais avantajada. Com o passar do tempo Valente foi sendo aceito pela turma. Talvez por dó, vai saber... Outra coisa que é fato - taí um mistério - é que toda turma tem um lerdo. Seus arroubos de gênio contrastavam com sua lerdeza, ou melhor, sua falta de destreza. Valente resolvia um impossível cálculo matemático em poucos minutos, mas não conseguia entender a piada mais simples do mundo ou captar qualquer movimento que requeresse um pouco de malícia. Ser assim, na Rua, é prejuízo. A sorte que o acometeu foi o Calango ter ido com sua cara de tonto.

A prova maior da cabacice do Mauro Valente se deu num buteco na Rua da Graça. O Áureo, que era um galanteador barato, pagou um guaraná pro Chumbinho entregar um bilhete pra uma mulher que passava por ali. Azar é que o marido da dona, que estava no bar com mais uns oito amigos, viu e foi tirar satisfação. Ferrugem chegou metendo a bolacha e o couro comeu. Não sobrou uma cadeira intacta. Todo mundo no meio do bolo e sopapo sobrou até pro dono do bar. Algum vizinho deu sinal e a polícia chegou firme, botando todo mundo encostado na parede. Dois dos “outros” estavam estragados com as porradas do Zezito, mas Ferrugem tomou uma garrafada que abriu sua cabeça; nada grave. O chefe dos “hômi” estava brabo. Sabia, de longa data, que aqueles cinco da Júlio Conceição são de lascar, principalmente o Calango, que a essa altura já tinha dado no pé.

Falando alto, puto da vida, o polícia-chefe botou banca:

- Vocês acham que são bons, seus vagabundos? Agora tá todo mundo aí, com cara de coitado! Não vão falar nada? Quem começou tudo isso? Eu quero saber quem o valente, aqui! Quem é valente?

O idiota do Mauro levantou a mão, imponente:

- Eu sou o Valente! Por quê?

Ficou de cama uma semana com a surra que levou da justa.

21 de fev de 2008

Bingo!

As raízes do jogo de bingo, que começou na Itália no século XVI, vêm de uma loteria estadual e logo tomou a Europa. Porém, a marcação dos números era diferente. Foi um tal de Edwin S. Lowe, um americano, que popularizou o bingo do jeito que se joga por aqui nos dias atuais. Ele atentou para este jogo, que se chamava Beano (feijão é bean, em inglês), em que os participantes marcavam nas cartelas os números cantados com um feijãozinho seco. Era só o primeiro completar a linha que vinha o grito: “Beano!”. Dizem que a palavra “Bingo” surgiu com uma velhinha, que ao “fechar” uma linha, gritou o “Bingo” ao invés de “Beano” e acabou ficando assim o nome do jogo.

No Brasil, a partir de 1993, com a legalização do jogo a partir da Lei Zico para ajudar o esporte amador, pipocaram várias casas garbosas, com visor e sorteio eletrônico, garçons exclusivos, mesas de mármore, drinques exóticos e outros melindres característicos dos grandes negócios. A adesão foi instantânea; as casas lotavam e os números movimentados chegavam a estratosféricos milhões de reais. Aí teve máfia internacional bancando a importação e aluguel das perigosíssimas máquinas caça-níquel nos bingos e o troço virou lavagem de dinheiro de narcóticos. Quando, em 2004, o governo investigou daqui e dali e mandou fechar, os bingos voltaram à clandestinidade, só podendo funcionar com liminares.

Conto isso tudo pra chegar onde quero. Foi justamente nessa época, em que todos os bingos estavam lacrados e o pau comia solto na justiça, que ganhou notoriedade – pelo menos nas redondezas - um bingo às escondidas na Barra Funda, nos fundos de um buteco que vou sempre (outro dia eu conto). Ganhou força, também, o bingo que vez em quando era realizado no Anhanguera. É assim, nessas horas, que presentemente eu confirmo extraordinários episódios que elevam o lugar a esta condição admirável que têm os cantos que preservam uma singularidade inquebrantável; na maioria das vezes repugnada pelos soberbos.

Foram muitos os bingos que o Fábio Matarazzo (ele é Matarazzo, mas não daquela turma que era cheia da bufunfa) promoveu no salão social do Anhanguera; sempre para angariar divisas para o clube, que sobrevive sem aporte público, apenas com o suor dos amantes que lutam pra peteca não cair. O último bingo, inclusive, foi para cobrir os custos dos novos fardamentos de futebol.

Como a divulgação deste último bingo foi razoável, a terceira idade da região estava toda lá. Fabião, que é o “cantador oficial”, nesta noite era um completo afônico devido a uma inflamação na garganta, passou o microfone para o Dinho e foi cuidar do bar. Dinho, sujeito sério, não empolgou a velha guarda com seu modo modorrento de cantar o jogo e o molho azedou. Não repetia, não falava as letras correspondentes aos números (a cartela é daquelas que tem, nas verticais acima dos números, para facilitar, as letras B, I, N, G e O) e na maioria das vezes cantava baixo demais para os exigentes ouvidos surdos do ambiente que não ouviam picas. Nem soltou o tradicional “dois patinhos na lagoa” no número 22; nem o óbvio “boa idéia” no 51. Nada. A conseqüência é que o espírito varzeano que nunca adormece dentro do Anhanguera tomou conta do recinto e, como um juiz ladrão, o Dinho foi trocado pelos veteranos jogadores.

No meio da transição do “cantor”, muitas velhinhas, com muito custo, se levantaram para abandonar o barco. Nessa hora, percebendo que se todos fossem embora o prejuízo seria grande, o Agostino pegou o microfone e começou a cantar o jogo. Estava xumbregado feito um gambá e, graças às pérolas que proferiu, foi ganhando a simpatia dos velhotes. A língua enrolada e as pernas sem firmeza completavam o espetáculo cômico do evento que, de sério jogo de bingo, passou a ser um circo.

- Número vinte e quatro! Aí Cláudio, seu viado!! Anota aí!

- Número setenta e cinco. Letra O de Homem! Alguém fez?

Após a primeira rodada, a quantidade de cartelas vendidas triplicou e um monte de gente que estava ali só pra bebericar alguma coisa também entrou no jogo. O ritmo foi este até o final. Muita gente deixou de gritar “Bingo” porque parava de marcar pra rir da performance do cachaça Agostino.

- Número sessenta. Letra G de Jóia! G de Jóia!!!

O bingo, previsto para acabar às 2h00 foi até as 5h00. O herói da noite, ainda chapado, posou ostentando os dividendos que entraram no caixa do clube. Graças a ele os fardamentos foram quitados e ainda sobraram uns caraminguás pra um churrasco no Domingo seguinte, após a pelada.


15 de fev de 2008

Anhanguera dá Samba VIII

O mês de Janeiro ficou devendo nessa garoa que completou 454 anos na última sexta do mês, portanto o ano de samba no Anhanguera começa agora e vamos continuar no ritmo, no embalo e na cadência bonita que bate no compasso do surdo de primeira. Fechamos 2007 com chave de ouro e com a alma lavada por toda a emoção que nos tomou nesses encontros repletos de amigos, de batucada e de cachaça. Como sempre, fica registrado aqui o samba mensal que os Inimigos do Batente comandam no Anhanguera.



Recebemos, no dia 14 de Dezembro, os parceiros Ideval e Zelão, dupla histórica de compositores de São Paulo. Cantaram clássicos sambas de enredo e outras brasas que estavam devidamente na boca do povo. E foi de arrepiar. E é de se espantar a quantidade de músicas boas que os dois têm. Vários outros compositores da Verde e Branco marcaram presença pra prestigiar esses dois grandes. Além disso, aconteceu dessas coisas que só no terreiro e na várzea são possíveis. Após os dois malandros arrebentarem, avistei o Zelão batendo um papo com meu pai e presumi que os dois talvez se conhecessem do São Paulo Chic. Mas não. Zelão, peladeiro também, é figura manjada na várzea e conhece meu pai desde moleque, embora não se vissem há muitos anos. Ao saber que o Mimi é meu pai, um grito de “putaquepariu” revelou a surpresa e o encanto com as voltas que o mundo dá. Dois camaradas seus; pai e filho. Brinde à satisfação do reencontro; e tome cachaça! Cliquem no play pra assistir ao filme:



No próximo dia 29, pra matar a vontade de muita gente que me liga dizendo que está com saudade do pagode, a casa está aberta com os Inimigos do Batente trazendo, diretamente do Rio de Janeiro, do morro, ninguém menos que Tantinho da Mangueira, partideiro de primeira, ótimo compositor e cantor que carrega a memória da Mangueira, onde nasceu, foi criado e conviveu com nomes como Cartola, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Jorge Zagaia, Nelson Sargento, Padeirinho, entre outros bambas. Tantinho participou, na década de 70, das rodas de samba do Teatro Opinião e do conjunto Originais do Samba. Como integrante da Velha Guarda da Mangueira, em 99 participou da gravação do disco Velha Guarda da Mangueira e convidados e em 2006 lançou um discaço duplo, Tantinho, memória em verde e rosa, uma jóia rara com sambas de todos os tempos da Mangueira. Deixo o Tantinho cantando uma música dele em homenagem à Dona Neuma pra vocês sentirem o que nos espera.

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Até o dia 29!

8 de fev de 2008

Torcedor Símbolo

Alguns times têm torcedores apaixonados que removem montanhas, atravessam oceanos a nado, fazem mil promessas e os priorizam em detrimento de família, trabalho e outras redundâncias menos importantes que o clube do coração. Coisa comum nessas plagas é o tal torcedor símbolo, aquela figura que é eleita o representante da torcida; que tem, notoriamente, a cara e a alma do time e que de alguma maneira se destaca mais que todos os outros torcedores.

Caso muito famoso é a fé de Elisa, a fanática corinthiana que nas horas vagas era cozinheira e doméstica. Elisa nasceu no mesmo ano que o Corinthians e carregava sua bandeira alvi-negra para todos os estádios em que o time jogava. Jamais xingou um jogador por mais perna de pau que fosse; apoiou o time com garra durante todos os infindáveis 23 anos de fila e recebeu merecida e miserável homenagem da diretoria, que cravou seu nome numa placa no Parque São Jorge.

Zé do Rádio é torcedor do Sport de Recife. Renomado por cultivar uma das mais nobres tarefas em um campo de futebol; a de atazanar os inimigos. Sua chatice, que enlouquece os incautos opositores, ganhou muito jogo pro Leão. Ganhou publicamente, de Zagallo, a pecha de chato, por ficar com seu enorme rádio ligado no último volume atrás do técnico e dos reservas adversários. A partir daí, justiça foi feita e o Zé não parou mais de colher os devidos louros. Foi homenageado no Carnaval de 2007, na cidade de Olinda, com um boneco gigante, o maior de todos, para êxtase total dos foliões rubro-negros. Em 2006 alcançou o ápice de sua carreira com direito a festa no Marco Zero de Recife promovida pela prefeitura ao ser honrosamente declarado pelo Guiness Book o torcedor mais chato do mundo, título tão nobre quanto um Nobel da Paz.

Na Barra Funda, legendária região varzeana, algumas dessas figuras que se agarram no alambrado, xingam o juiz incessantemente e topam qualquer briga são mais lembradas que os boleiros. O temível Barrabás, briguento e louco, foi o maior torcedor do Carlos Gomes. Carlito, um polêmico, viveu pelo Nacional do Bom Retiro. Os irmãos Catapano torcem ainda pelo Grajaú, time extinto há décadas, e por aí vai.

No Anhanguera, dentre tantos apaixonados, um se destaca, pelo menos pra mim. Tenho certeza que só pra mim, já que ele está longe de ser um dos históricos fanáticos pelo rubro-negro. Sua presença não é notada por absolutamente ninguém; quando sim, é desprezada, afinal é um tímido qualquer apreciando uma pelada. Enigmático senhor de uns 70 anos, magro, alto, calvo e elegante. Foram inúmeras vezes que o vi, andando a curtos passos e mãos no bolso, chegando ao Anhanguera para assistir, quieto e isolado, ao jogo. Religiosamente todos os Domingos, há anos, aquele triste homem – é a impressão que tenho que e que o torna mais fascinante – vê a peleja entre as árvores que ficam na lateral do campo, na Rua Anhaia, entrada dos fundos do clube. É como se quisesse se esconder, não de alguém, mas de alguma coisa que talvez viva em sua mente. Meu avô dizia que o homem é filho de um dos fundadores do Anhanguera, mas nunca se aproximou mais que isso. Não conversa com ninguém. Não fala nada e nem dá sinais de qualquer emoção, pois, imagino eu, vê muito mais que um jogo de futebol, como via a Elisa. Ele cumpre fielmente uma sagrada incumbência de estar ali durante aquelas horas do Domingo, sempre sozinho. No apito final, a cabeça se abaixa levemente para os olhos, fitando o chão, não cruzarem com outros e os passos curtos o levarem embora dali com seu dever executado.

Elisa, Zé do Rádio, Ramalho do Vasco, Coalhada do Santos... É gente com um fanatismo devoto que alcança patamares além-futebolísticos. São abençoados com a graça de quem detém o mistério que encanta a todos os outros torcedores; o de ser deles a intransferível missão de carregar nas costas a cruz que simboliza todo o séqüito. São a imagem e semelhança do distintivo do clube que, bem sabem, lhes pertence.

Não tenho como explicar e tampouco vou perguntar alguma coisa a ele, mas tenho absoluta convicção de que o domingo em que aquele senhor não estiver no Anhanguera alguma coisa ali mudará. Pra pior.

1 de fev de 2008

Cordão Classe A



Em São Paulo são poucos os blocos carnavalescos. Comparando-se ao Rio de Janeiro então, o número é desprezível. Porém a coisa vem, de uns tempos pra cá, tomando corpo graças a uma meia dúzia que segura o rojão e mete as caras pra cima da CET e da prefeitura, grandes merdas que se arvoram em donos do que é do povo, a Rua, e nojentamente fazem de tudo pra tolher o festejo carnavalesco em nome da boa fluência do trânsito e da ordem, mascarando a patente razão; a de coibir qualquer manifestação popular que junte mais de 2.000 pessoas; a de tentar fazer com que um povo desconheça a força que tem e, principalmente, que não lance mão dela em qualquer ocasião que seja. O povo da garoa gosta da Rua, e nos gritos presencio, a cada ano, a resistência.

Vou falar em especial de um bloco do meu bairro, mas não posso deixar de citar aqui - estive lá no Sábado passado - o Bloco do Ó do Borogodó, que pelo quarto ano fez tremer a Vila Madalena, desta vez com cerca de 3.000 foliões embalados pelos excepcionais músicos e pelas marchinhas de todos os tempos. Destaco a coragem do casal Stefânia e Fernando, que enfrentam no peito todo o cenário contrário movidos pelo indelével zelo à herança que nunca haverá de escapar por entre os nossos dedos.

Na Barra Funda, o Carnaval de Rua é representado, há alguns anos, exclusivamente pelo Bloco Classe A, time varzeano criado em 1979 e hoje presidido pelo meu grande camarada Zonga. O Classe A foi o maior responsável pela integração, no futebol, entre a Barra Funda de baixo – pessoal do São Paulo chique – e a Barra Funda de cima – turma do Teatro São Pedro - e tornou-se a maior referência do bairro nos campeonatos pela cidade. Porém, como já estamos sob reinado de Momo, o futebol fica pra outra. Vou me ater ao bloco.

O bloco, que é composto só pela comunidade, sem modistas, sai com 2.000 componentes e o carro do Bafo de Onça, mascote da agremiação, à frente. Como a ligação com a Camisa Verde é estreita, os instrumentos do bloco são os da Escola, assim como os ritmistas, a madrinha de bateria, os compositores... Em contrapartida, o time de futebol que representa a Verde e Branco é o esquadrão do Classe A. No fim das contas, pode-se dizer que os malandros são os mesmos, porém o que diferencia é o espírito do troço. No bloco é apenas a brincadeira que predomina; nada contra a disputa mas, do jeito que anda o carnaval na avenida, sou mais os blocos; o que também não me faz deixar de ser doente pela Verde e Branco.

Não hesito em afirmar que o Classe A representa o Carnaval dantes, os préstitos tradicionais desta São Paulo, a semente que Dionísio Barbosa plantou e que Inocêncio Mulata regou junto com D. Sinhá, Pé Rachado, Carlão do Peruche, Seu Nenê, D. Eunice, Seu Zezinho do Morro e outros eméritos; árvore esta que tombou em 1.968, com o fim dos cordões e a adequação ao Carnaval carioca; concessão às imposições comerciais, televisivas e outras laias. Ali, a partir da sede do Classe A, na Rua Souza Lima, uma vez por ano, as ruas do bairro revivem o Cordão Barra Funda. É lá que os velhos integrantes da gloriosa Camisa Verde e Branco rememoram sua infância e os novos conhecem um pouco do carnaval de seus antepassados, com toda a corte presente, com porta-estandarte e mestre de cerimônias (falta o baliza!). Aquelas ruas são retomadas pela gente pobre e preta que foi expulsa do lugar há muito, pelos netos e bisnetos dos velhos batuqueiros. Ainda que por um dia...

Vida longa ao bloco do Classe A!
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