29 de jun de 2007

O Aniversário do Szegeri

O final de semana que passou anunciava que seria inesquecível. Era o aniversário de Fernando Szegeri. E descrever tudo o que aconteceu é impossível, sim, porque não consigo descrever as emoções que senti. Fica mais difícil ainda contar-lhes após os minuciosos relatos do Edu Goldenberg, do ótimo apanhado geral do Bruno Ribeiro e do incomparável texto do Simas, que consegue dizer tudo em poucas linhas.

Pra mim começou na quinta feira quando me encontrei com o Szegeri no Bar do Bigode, na Paulista, e bebemos algumas Brahmas. Na sexta cheguei a Casa Vermelha as 23h00 já bêbado e deparei-me com estes quatro monstros na cozinha numa bela reunião entre amigos. Linda noite. O único fator contrastante era a sensação térmica. Eu, o Bruno Ribeiro e o Szegeri, que somos de Sampa, estávamos de camiseta, com calor. Simas e Edu, numa noite de 22º, estavam de cachecol, luvas, boinas e muitas, muitas blusas! Havia fartura de comida e bebida. As melhores cachaças e milhares de litros de chopp irrigavam as goelas que engoliam incessantemente camarões, alheiras, lingüiças, queijos mil... Uma coisa! Mas nada, NADA comparável à colossal perna de presunto cru, uma iguaria que só vi no Mercado Municipal. (Foto roubada do Buteco do Edu)



No Sábado fui ao Ó do Borogodó após a tradicional caxeta no Anhanguera. Aliás, o final de semana estava tão perfeito que, pela primeira vez, ganhei sozinho a caxeta! Meus irmãos Bruno e Daniel também foram. O bar estava infestado de gente boa e o samba comeu solto. A certa altura, fiz uma descoberta: meu pai e minha mãe, secretamente, foram algum dia ao Ó do Borogodó e juraram amor no balcão do bar. Deviam estar embriagados já...



A certa altura, o Bruno perguntou pra mim com um ar de coitado, de quem foi excluído, jogado pra escanteio:
- Arthur, depois você vai pra casa do Fernando, né?
Eu, seco, respondi:
- Sim, vou.
E ele:
- Não fui convidado.
Eu, assumindo a bronca:
- Foda-se! Você vai.



Mesmo assim, depois de algum tempo o Fernando convocou o Bruno e o Dani para ir à Casa Vermelha a noite. Lá chegando, o Bruno, que come mais que um exército em tempos de guerra, pegou a perna no presunto como quem pega uma coxa de frango e comeu todas as rebarbas que a faca já não cortava mais!
Ainda ganhou de presente do Edu - este demonstrando toda a cordialidade e gentileza dos tijucanos - uma bela peça de presunto (não do cru).

Neste momento chegaram diretamente do Rio de Janeiro Rodrigo Ferrari e Pratinha, com seu endiabrado 7 cordas para nosso deleite. Após uma puta roda de samba comandada por Simas e Paulinho Timor, o Prata debulhou no violão enquanto eu, um rouco, cantava emocionado “...É, será melhor não procurar um novo amor...”.



No Domingo, após o futebol no Anhanguera, fomos eu e o Daniel para um almoço com os amigos na casa do Valtinho e da Tetê e de lá partimos pra casa da Railidia para comemorar o aniversário da Iara, filha dela e do Szegeri. Mais uma festa linda, com muito forró e danças e quadrilha.



Agradeço imensamente ao Fernando e a Stefânia por as portas da Casa Vermelha não existirem e eles me receberem, e também meus irmãos, de braços abertos.

25 de jun de 2007

Anhanguera dá Samba II

Na próxima sexta, dia 29, acontecerá a segunda edição do projeto Anhanguera dá Samba, com os Inimigos do Batente convidando alguém especial.

A primeira, com Wilson Moreira, foi antológica, com o Alicate cantando e contando histórias da vida e do samba durante duas horas. Coisa linda. Eu já presenciei shows do Wilson em que ele cantou dez músicas, desceu do palco e foi embora. Na nossa festa ele estava em casa, deixando-nos felicíssimos.

Vou escrever um pouco do que foi a primeira, dia 18 de Maio, com muito atraso. Acredito que não ressuscitarei o Guilherme Parmegiani, que morreu de curiosidade por eu não contar absolutamente nada sobre a festa. Soube que, por causa disso, teve vários ataques epiléticos o pobre Pompom, que implorava: “Conte-me! Como foi o Dá Samba?”, não obtendo uma mínima resposta minha. Nem um simples “Foi ótimo!” eu disse.

Eu pouco assisti a roda e o Wilson. Tinha que ficar atento para que tudo corresse bem, e isso toma todo o nosso tempo. Fui buscar o Moreira no hotel e o Gilmar foi comigo. Ficamos esperando um bom tempo no bar do hotel, bebendo uísque. O Gilmar acabou se engraçando com uma mulher solitária que afogava as mágoas num copo de vodka e, quando desceram o Wilson e a Ângela, sua esposa, fui chamá-lo e recebi a resposta: “Espera! Chama o Wilson Moreira pra tomar uma dose conosco. Não vou deixar essa mulher aqui.” Fui embora e o deixei a pé... Já no carro, diz o Moreira pra mim: “Pô, quando o Fernando me falou que o Favela vinha me buscar, imaginei um negrão de dois metros, um bicho solto!”. E rachou de rir. Eu também.

A simpatia do Moreira é um troço. Quando entramos no Anhanguera, por onde passava cumprimentava a todos, dava tchauzinho, mandava beijo. Eu previ: “Hoje o homem tá com tudo! Vai arrebentar!”, embora isso não seja nenhuma novidade... Aí está o momento em que chegamos. Reparem que os primeiros a falarem com o Wilson Moreira foram o Zé Augusto e depois o Zulu. Este último, um monstro que a cada dia que passa, a cada atitude, demonstra sua exuberante sabedoria e seu infinito carisma. Esta conversa entre ele e o Wilson, que o conhece há anos, foi presenciada apenas por mim e posso afirmar que é apenas mais um episódio que confirma a influência que o Zulu tem, como já contei por aqui. O que foi dito ali eu não conto.



Daí pra frente, quando o homem sentou na roda e pegou o microfone, não vou descrever simplesmente porque não encontro palavras para fazê-lo. O povo cantou junto todas as músicas que ele mandou, causando enorme surpresa para o próprio Moreira, que foi reverenciado por todos como o grande sambista que é.



Mas voltando, sexta feira dia 29, mantendo o altíssimo nível, contaremos com a presença do “Catedrático do Samba” Germano Mathias, grande baluarte de São Paulo, que se mantém fiel às raízes e às peculiaridades da terra da garoa, como batucar na lata de graxa. Seu estilo único de cantar os sambas sincopados e armar as famosas presepadas – como ele diz – durante a música caracterizam esta figura do samba paulistano. Deixo aqui o grande sucesso “Tem que ter mulata”, de Túlio Piva, gravado por Germano em 1958.

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Para saber mais sobre Germano Mathias, cliquem aqui e leiam sua biografia.

Começa as 22h00. Apareçam por lá!

19 de jun de 2007

Escreveu não leu...

Há alguns meses atrás aconteceu uma das mais hilárias situações dos últimos tempos lá no Anhanguera com um atleta (hahaha) do time do Sucatão, história essa relatada a mim pelo grande Fábio Matarazzo. Só pela categoria do time já dá pra presumir o desfile de panças dentro das quatro linhas. Pra se ter uma idéia, o time dos Veteranos, que tem uma média de idade de 55 anos, é mais novo que o Sucatão, que tem como dois de seus craques o Mãozinha e o Becão, este no auge de seus 85 aninhos. Um menino, o Becão.

Pois bem, um dos jogadores do Sucata (vou chamá-lo de Juca. Não revelarei sua identidade) chegou como sempre cedo, umas sete e meia da manhã, para o jogo. E chegou de cara fechada, triste e com um desânimo contagiante, e este semblante de pesar não passou despercebido. Os amigos ainda no vestiário antes do jogo, já tomando uma cachaça de garrafão, perguntavam o que ele tinha, e recebiam como resposta um silêncio desolado.

Após muita insistência dos companheiros que queriam ajudá-lo, um Juca envergonhado discursou, para os 40 atenciosos atletas (hahaha), todos os detalhes em tom de confissão do que acontecera na desastrosa noite anterior:

- Amigos, vejam isso! – Abaixou as calças e lá estava ele, excitadíssimo, como um garanhão quando sente a emanação da égua.

Houve um grande burburinho. Alguns riam, outros, menos pacientes, exigiam modos: “Mas que falta de respeito, Juca! Um homem dessa idade mostrando esse negócio duro pra gente!”. Outros tiravam sarro: “Sai pra lá com esse troço!”... “Corram, o Juca está armado!!”. E até o Becão, revoltado, deu a bronca: “Como pode estar mal se ainda tem virilidade? Olha isso aqui, seu puto!!!”, e também abaixou as calças, expondo uma uva passa nojenta com mais de mil rugas.

Ainda no meio do bulício, alguém botou ordem na casa: “Porra, parem com essa desordem! Vamos ouvir o que o Juca tem a dizer.”. E o Juca continuou:

- Eu marquei um encontro para hoje as 10h00 com uma moça vinte anos mais nova que eu. E como fiquei com medo de não satisfazê-la, tomei um Viagra e meio à meia noite! Um amigo me disse que tinha que tomar doze horas antes!! – Juca quase chorava. - O resultado é que, as 2h00 eu acordei com o negócio latejando. Tive que acordar minha mulher e dizer que estava louco por ela, mesmo depois de quatro anos sem nada!

Os estáticos ouvintes perguntaram em coro:

- E aí????

- E aí? – Juca chorava muito - Aí que ela ficou nervosa que eu a acordei e me detonou dizendo que já tinha desistido de mim, que ela já tentou e eu não conseguia mais. Ela revelou que perdeu a vontade...

- E a outra, Juca? A moça nova? – Atentem: a moça nova tem 45 anos – Seu encontro é daqui a pouco! – Alguém disse.

- Era! Ela desistiu. Ligou-me agora a pouco dizendo que voltou com o marido e não quer saber de mim.

Neste momento os colegas o consolaram e ele ficou mais tranqüilo, embora com o dito cujo doendo muito, pois estava “no ar” há sete horas.

- E o que vai fazer agora?

- Vou jogar. Só me resta jogar! Por isso vim pra cá. Pelo menos me distraio, já que não posso nem beber enquanto não passa o efeito dessa porcaria.


Juca jogou daquele jeito, e, não sendo poupado por ninguém, foi achincalhado. Mas foi o melhor jogo de sua carreira, pois nenhum marcador se atrevia a chegar perto do homem. Neste dia meteu dois golaços! Perguntem se alguém foi comemorar com ele...

14 de jun de 2007

Não sou camaleão, sou Corinthians!

Algumas coisas que acontecem servem, no mínimo, para provar que estamos certos. Eu sustento algumas opiniões e não abro mão e sou extremamente intolerante, fazendo com que alguns amigos confiram a mim o título de radical, título este que em nada me afeta, visto que eu sei que sou mesmo para com algumas coisas. E cito aqui, já de cara, algumas delas que me causam horror e às quais declaro guerra:

- Smirnoff Ice: uma vodka de bicha.
- Todos os drinks escrotos, com nomes esdrúxulos, como Sex on the beach.
- Essa onda de roqueiros melancólicos, os Emos. Todos estavam na parada gay. Não tenho dúvidas.
- Assíduos freqüentadores de academia: bandos de escravos da imposição estética passam horas e horas malhando e se admirando frente ao espelho. Após a prática, ingerem fibras de alguma porcaria protéica, acompanhado de barras de soja e um Gaytorade pra repor as energias. Patético!
- Narguilé, aquele cachimbo usado pelos persas e turcos. Nada contra o cachimbo em si ou os turcos, mas putaquepariu, agora a molecada quer se aparecer fumando esse troço, com nojentos sabores de morango, cereja, hortelã... Carregam para bares, faculdade, casa de parentes. E a grande maioria não sabe nem tragar. Terrível. Tenho certeza que, se derem um trago no cigarro que o Tonhão da Rua Solimões fuma, um Eight, morrem na hora de insuficiência respiratória.
- Música eletrônica: pra mim, é um barulho insuportável. Meia hora ouvindo pode me levar à mais instintiva e primitiva reação, como assassinar um dj.

Têm outras, têm outros... Mas eu só queria citar alguns exemplos, pois vou mesmo é abordar especificamente um assunto, uma dessas patifarias. A abominável micareta. Eu fui a um bizarro evento desses. Eu fui... Em Novembro de 2005, movido pela paixão e para surpreender a recente namorada (estávamos juntos há cerca de um mês), que havia aceitado o convite de umas amigas para ir, me enfiei num Camaleão Fest, no Anhembi, show da banda Chiclete com Banana. Mas fui com ela, pois seria impossível encontrar uma pessoa no meio de uma multidão de 30.000. Era Domingo. Joguei no Anhanguera e fui com o mesmo tesão de quem dança uma valsa lenta com a avó.

Eu me arrependeria de ter ido, eu sabia. Mas houve um agravante. Foi no histórico dia em que o Corinthians sapecou 7 a 1 no Santos e eu posso assegurar que aquele foi o único jogo do Timão naquele campeonato que eu não fui em terras paulistanas. Vou narrar o acontecimento fazendo um paralelo com o épico jogo. Isso terá um nível de detalhes jamais visto neste blogue.

O começo do pesadelo se deu quando, em segredo, comprei o convite por módicos (notem a ironia) cem reais. Acabei contando pra ela e fomos no Sábado, um dia antes, retirar o horrível abadá, uma camisa regata azul bebê capaz de transformar instantaneamente qualquer feioso num bonitão irresistível para as barbies que freqüentam estes ambientes. Fomos a uma casa na Vila Olímpia (onde mais?) e após duas horas de fila e algumas latas de cerveja, pegamos o negócio.

Eu, tentando esconder de todo mundo essa minha imperdoável empreitada, fui vítima de uma caguetagem, até hoje não sei de quem. Quando cheguei em casa do futebol de domingo (a garota já me esperava em casa), apareceram Valtinho, Sabrina, Angelo, Bruno, Daniel e Tetê rindo escrachadamente da minha cara. Obrigaram-me, já na porta de casa, a vestir a porra do abadá (que depois serviu de pijama) e simular passinhos coreografados de axé. Eu, humilhado, me recolhi no banco do carro de meu pai, que, rindo, nos levou. Eram 14h30 e o sol rachava sem aliviar.

Com um trânsito ferrado na marginal do Tietê, meu pai nos deixou a mais de um quilômetro do lugar, já em meio à multidão. Minha primeira análise do que viria foi otimista. Pensei: “Bom, vou tomar umas cervejas e aproveitar e pegar sol, pois estou mais branco que minha bunda!”... Porém, logo depois, notei que a coisa seria feia quando vi uns vinte caras, mais-que-aparecidos, subindo e pulando numa caminhonete parada no trânsito, pilotada por uma assustadíssima senhora. Eles cantavam algum axé pornográfico quando um ônibus cheio de Gaviões que iam para o Pacaembu passou e mandou o grito de guerra ideal: “Ô bâmbi viado!”.

Ficamos num posto de gasolina esperando as amigas dela chegarem. Eu bebia cerveja e sabia que o jogo estava começando...

Corinthians 1 x 0 Santos – Procurando as amigas:
Houve um desencontro, celular não pegava. Com tudo isso e eu me esforçando tremendamente para conseguir esboçar um mini-sorriso com o canto da boca, decidimos partir ao encontro delas. Saímos do posto e andamos uns dois quilômetros em meio à legião de bobos empolgados.

Corinthians 1 x 1 Santos – Sem aviso:
No meio do caminho, uma pausa e um diálogo em tom de confissão e desespero: - Você não acredita! – e eu: - O que houve? – e ela, não conformada, com a cara fechada: - Acabou de descer. Preciso de um banheiro! Saímos correndo.

Corinthians 2 x 1 Santos – Eu, azarado:
O espaço era imenso, o que já me fazia acreditar que não encontraríamos as amigas dela e iríamos embora. Mas encontramos. Em meio a milhares de pessoas. Impressionante o meu azar. Para meu desespero, fomos em direção à portaria e avistamos uma muvuca gigantesca.

Corinthians 3 x 1 Santos – A entrada:
Esta com certeza foi a pior parte. O sol não perdoava e começava arder meu ombro. As pessoas se amontoavam para conseguir entrar. Eu me sentia uma sardinha em lata. Começou um baita empurra-empurra e era gente desmaiando, chorando, gritando, gente com fobia, neguinho metendo cotovelada, passando a mão. Coisa feia. Não tinha como voltar atrás e nessa altura eu me sentia o cara mais cretino do mundo – e naquele momento era mesmo. Após uns quinze minutos, a situação melhorou e conseguimos cair pra dentro.

Corinthians 4 x 1 Santos – O Show:
Ficamos lá atrás, com certeza os últimos, vendo bem de longe. Estava mais tranqüilo ali. A cerveja estava quente e meu estômago roncava. O som, amigos, uma bosta. O cabeludo (cantor da banda) parecia estar doente, não se mexia e fazia um esforço danado pra cantar... O pior é que conseguiu. Teve participação especial do Xande. Imaginem meu estado de humor: paguei cem paus e fui amassado na porra da fila pra assistir o Chiclete com Banana convidar o Xande pra rebolar no palco. Uma das cenas mais medonhas que eu já presenciei.

Corinthians 5 x 1 Santos – O público:
A verdade é que cada um curte sua onda e quem estava errado ali era eu. Ponto. Mas é de foder o povo que vai nessas festas. Pra começar, os caras. Na minha opinião, um bando de infelizes com auto-estima baixíssima, fazendo campeonatos de quem beija mais mulher. Eles beijam umas 20, 30... Alguns dizem que beijam 50 e por aí vai. Mas ninguém come ninguém. Derrotados. Bebem como quem nunca viu birita e caem, como dominó, um atrás do outro. Eu vi quatro caras vomitando um no outro, como um tipo de pacto bizarro. Triste... Encontrei ainda um rapaz que apanhava da molecada do bairro inteiro e era cheio de complexo dançando bisonhamente com uma mão no chão e simulando uma trepada. Repulsivo. Estava lá, todo fodão. Da mulherada, tenho pouco pra falar. Elas vão pro “arrebento” também, sem filtro.

Corinthians 6 x 1 Santos – Eu já sabia:
O sol já estava mais ameno, mas eu já parecia o Chapolin Colorado, quando tive o único instante de alegria. Todas as quatro amigas se olharam e, arrependidas, cravaram: “Que bosta!!”.

Corinthians 7 x 1 Santos – Chega!:
Após duas horas no local, fomos os primeiros a ir embora.


De tudo isso, a certeza que tenho é que recebi um dos maiores castigos por ter embarcado nessa furada. Eu perdi o melhor jogo do meu time nos últimos anos. Castigo merecido!

11 de jun de 2007

Zé Moeda e a maquininha

Nunca ganhei nada em loteria nenhuma. Tentei a sorte umas três ou quatro vezes na Mega-Sena. Eu gosto de jogar no bicho, mas também o que ganhei até hoje deu pra tomar umas cervejas... Nada demais. Bingo não me apetece. Adoro caxeta e pôquer, mas deste último tenho medo. Resumindo, tenho uma certeza: jamais ganharei milhares no jogo. Também não perderei o pouco que tenho.

Mas de uma coisa eu tenho verdadeira ojeriza, repulsa, antipatia, rechaço, asco, repúdio e aversão: as maquininhas. Vou contar-lhes sobre o Zé Moeda, um operário-padrão de uma fabriqueta de roupas na Rua Baronesa, quase esquina com a minha rua, a Cruzeiro. O Zé é um viciado em jogo, mais especificamente em maquininhas, as da máfia. Jogava todos os dias após a labuta na padaria-buteco da Baronesa com a Anhanguera. Mas era coisa de cinco, no máximo dez paus. Nunca apostava mais que isso, visto que ele, sua esposa e seus dois filhos pequenos, levam uma vida de muitas limitações financeiras, com os dois salários mínimos que ele ganha.

O jogo, todos sabem, é traiçoeiro e instigante. É como mulher muito bonita ou um placar de 2 x 0 no futebol. Quando você acha que está por cima, pronto. Toma uma rasteira! Aconteceu com o Zé. Ele saiu do trabalho e como sempre foi tentar a sorte na tracônica máquina. Pra piorar, era sexta feira e dia de pagamento. Os dividendos do mês avolumavam a carteira no bolso da velha e surrada calça jeans. O Zé recebe em dinheiro. Não tem conta em banco. E isso anunciava o perigo iminente.

Conversa vai, conversa vem, cerveja, pastelzinho, torresmo e a maldita maquininha. Ele gostava de jogar sempre na mesma. Separou os dez reais que poderia perder e enfiou a nota. Detalhe: o Zé faz uma espécie de mandinga quando joga. Três chutes leves, de bico, do lado da máquina e um beijo na tela engordurada, cheia de impressões digitais.

A máquina tem figuras de Halloween, com bruxas, abóboras, Frankenstein, diabo, fantasma e outros. Só pra explicar, o prêmio acumulado sai quando aparecem quatro abóboras na tela, o que faz com que o Zé, carinhosamente, repita sem cessar como uma ladainha: “Vem, abobrinha! Vem, abobrinha! Vem, abobrinha!”. Mas a sorte não estava ao lado do infeliz nesse dia, o que fez com que o limite dos dez reais fosse violado, e isso custou caro. Em todos os sentidos.

Trocou uma nota de cinqüenta - um galo - e foi pras cabeças. Perdeu. Botou mais cinqüenta. Perdeu.

Quando metade do salário já estava dentro da vilã, ele começou a ficar desesperado. Amigos, bêbados, conselheiros, intrometidos, palpiteiros, adivinhos, todos dividiam opiniões e o bar inteiro foi acompanhar de perto a aflição do coitado. Uns diziam: “Vai embora antes de perder tudo!”. Outros, a maioria, otimistas: “Agora vai ou racha. Recupere o que perdeu!”. O Zé, tomado pela “corrente pra frente”, decidiu enfrentar, ato que rendeu aplausos das testemunhas de plantão. Um belo gole na maria-mole marcou a intrépida conduta.

A boa sorte teimou em não aparecer e, a partir daí, a cada nota engolida pela caixa, a mandinga tornava-se mais bruta. Os três chutinhos de leve passaram a ser torpedos e pernadas de fazer a máquina balançar, acompanhado de berros dirigidos aos desenhos na tela: “Bruxa rapariga! Devolve meu dinheiro, sua quenga!”... “Ô diabinho Corno!! Chifrudo! Vai-de-reto, Satanáis!”... “Frankistéin féla-da-puta duma figa!”. Em vão. De nada adiantou. O Moeda perdeu o salário inteiro e chorou. Chorou como bebê quando se caga.

Ali, naquele momento, um sentimento de solidariedade tomou conta do bar. Uma “vaquinha” foi feita e metade do salário do Zé foi recuperado em troca de sua promessa de não mais jogar.

Zé Moeda nunca mais jogou, mas sempre que toma umas cervejas a mais neste buteco, desfere golpes e xingamentos contra a insolente máquina que continua, incólume, depenando outros “Zés”.

8 de jun de 2007

Indispensáveis

Está difícil narrar aqui mais um causo. Já até está escrita uma história, finalizada há quatro dias e adiada pelo Szegeri, conforme contei no último texto. Só que mais uma vez terei que jogá-la pra frente. Agora por culpa do grande Eduardo Goldenberg. Sujeito da melhor qualidade, flamenguista roxo, tijucano fanático, lutador incansável pela preservação da identidade e cultura do povo carioca e brasileiro.

Ele, em seu Buteco do Edu, prestou homenagem a este blog e isso causou-me instantes de aguda vaidade, pois o cara é magistral na arte de contar histórias, tendo inclusive lançado o livro Meu Lar é o Botequim, com prefácio de Aldir Blanc, apresentação de Fausto Wolff e a porra toda. Uma fera, o Edu. Leiam o texto aqui.

Hoje, além de dividir mais essa felicidade com vocês, quero lhes indicar algumas leituras que, humildemente, julgo indispensáveis. Pelo menos pra mim são. E a partir de hoje, eu deixo nos "links" para vocês acompanharem (em ordem alfabética):

BARBECUE À PARMEGIANI, de Guilherme Parmegiani: insanidades geniais deste, que de muito longe, conta o que anda aprontando.

BUTECO DO EDU, de Eduardo Goldenberg: como eu já disse, grandes histórias. Um blog pra rir e se emocionar. No Buteco, Edu declama a paixão pelos seus e espanca os que, da maneira mais imunda, tentam acabar com as tradições mais características do Rio de Janeiro.

HISTÓRIAS DO BRASIL, de Luis Antonio Simas: histórias do lado B do Brasil com pitadas de um inteligentíssimo humor mostram a cara do povo brasileiro.

PÁTRIA FUTEBOL CLUBE, de Bruno Ribeiro: da política à cachaça, do samba ao amor por Caminas e pelo Guarani, do jornalismo às questões do cotidiano.

SÓ DÓI QUANDO EU RIO, de Fernando Szegeri: um banho de cultura. Música, poesia, política, futebol e textos dos mais variados assuntos denotam o fenômeno que é o Szegeri.


Edu, já que você copiou descaradamente o Szegeri, tomo eu a liberdade de copiá-lo:

Ergo de pé, diante do meu balcão imaginário, uma caneca de cerveja gelada e digo: Está chegando o dia 24. Segura "nóis"!!!

6 de jun de 2007

Só dói quando eu rio: padrinho do Anhanguera

Eu ia postar um causo hoje. Não vou mais. Porque um motivo maior me fez escrever o que escrevo agora, ainda tomado pela emoção. Vou contar, mas antes preciso falar algumas coisas.

Primeiro que eu tenho uma mãe e um pai que são, de fato, guerreiros que jamais deixaram a peteca cair. Se eu conseguir passar pra frente metade do que eles me ensinaram, tenho certeza que serei bom pai. Rebatem a rotina do dia-a-dia com um amor inexplicável e são amigos dos meus amigos. Tenho com meus irmãos, Angelo e Bruno, relações diferentes e o mesmo amor. O Angelo, meu gêmeo, leva uma vida diferente, não tão vadia quanto a minha. O Bruno é meu mascote, meu companheiro. Eu protejo o pivete além da conta. Tenho tios e tias impressionantes. Tenho grandes e imprescindíveis amigos que, ao longo do tempo, já provaram ser mais que irmãos. Eu tive um avô que me legou o amor pelo pedaço de chão em que nascemos, a Barra Funda. Tenho o Anhanguera, meu time de fé, meu campo, meu futebol, meu Domingo. Tenho o samba, que percorre minhas veias noite e dia. Ele é minha cachaça, meu canto. Tenho um amor incomensurável pela noite e pelas coisas da noite. Eu já tive amores e quiçá terei outros pra me envenenar.

Eu tenho, meus caros, além disso, um grande amigo chamado Fernando Szegeri. Uma figura indispensável para mim, que está entre as melhores pessoas que já conheci. Dono de uma inteligência e sabedoria sobrenaturais, além de generosidade tamanha que mal cabe dentro dele. Pois hoje abri seu blogue, legítima fonte de cultura, e deparei-me com uma homenagem a este humilde blogue que vocês lêem, que não tem pretensão alguma a não ser imortalizar fatos ocorridos nessas bandas. Leiam o texto aqui.

Irmão, finalmente estou "batizado". Estamos na luta. Lado a lado!

2 de jun de 2007

Hélio, Bagunça!

Presto-me a escrever hoje, Sábado, ainda que tardiamente, a Hélio Bagunça, uma figura legendária do samba paulistano e da Barra Funda. Tenho cá uma sensação de omissão em relação a este preto, um velho danado que me chamava de “fio”, com sua voz rouca.

O Tio Hélio, como eu o chamo, desapareceu no meio da noite no meio da semana. Até agora não sei a verdadeira causa, mas isso, pra mim, pouco importa. Ele já se foi e acabou.

Tínhamos uma relação curiosa e extremamente carinhosa, desde quando fui apresentado a ele pelo Gilmar, há uns dez anos, na quadra do Camisa Verde e Branco, sua casa em que exercia, de fato, um reinado absoluto.

Seu humor alternava com qualquer postura não condizente com seus valores e sua experiência que acontecia dentro da escola. Ele não gostava de ver meninas (crianças) sambando ao lado da rainha-de-bateria após certo horário, para ele (e eu concordo), impróprio para os pequenos. Dava bronca “braba” em mestre-sala que quisesse aparecer demais e em batuqueiro extravagante. Não aceitava o fato de as escolas de samba não passarem pra frente a sua história e os grandes nomes que fizeram tudo isso acontecer. Ficava puto da vida com o carro de som ou com o som de carro que, do lado de fora da escola, tocasse qualquer música que não o samba. Mandava desligar!

E quando ele ficava nesse estado, indignado, bebia muito vinho. E sempre que eu estava presente me chamava: “Fio, vem beber um vinho comigo”. Isso me orgulhava sobremaneira, visto que, entre amigos e admiradores, ele escolhera a mim, um branquinho quarenta e seis anos mais novo, que gosta dos sambas das antigas e que tem, pelos velhos, profundo respeito e sede de aprendizado. Ele sentiu essa parada desde o primeiro dia, ou melhor, desde a primeira noite.

Os causos deste homem são tantos que já esqueci de uma porrada, mas um marcou demais pela maneira como ele contou-me, já de dia, numa noitada na quadra, após uns shows esquisitos. Ficamos do lado de fora, nas barracas. Esta história, uma das mais fantásticas que conheço, retrata toda a rivalidade que existia entre Barra Funda e Bixiga, Camisa e Vai-Vai.

O Hélio Bagunça sempre viveu uma vida de malandragem, era temido. Assim como Pato N´água, mestre de bateria (na época falava-se apitador) da Vai-Vai, da pesada também.

Na rua Brigadeiro Galvão ficava o São Paulo Chic, ponto de encontro de sambistas, jogadores de futebol, vadios. Coisa da negrada. O batuque comia solto. Território do Hélio Bagunça, na Barra Funda. Pois que certo dia chega, sozinho, o Pato N´água. Sozinho! Saquem a “pegada”... Todos sabiam que aquilo daria merda.

Ele foi disposto a brigar. E com o Hélio. A intenção era desbancar o valente na sua área. Como num ritual, os dois postaram-se para a briga, que seria só de perna. A rua parou!
Pernada pra cá, rabo-de-arraia pra lá. O embate demorou. Após uns vinte minutos – há quem diga que brigaram por meia hora – o Hélio, visivelmente cansado e em desvantagem correu! Deu as costas e correu, para desespero e incredulidade do bairro inteiro. Ele jamais correra de uma briga. Pato N´água, pra humilhar, correu atrás. E aí é que foi estampada a traquinagem de Hélio Bagunça. Que estratégia! Quando o apitador correu e chegou a dois passos do Hélio, este botou a mão no chão e, de costas, desferiu o definitivo golpe que acabaria com a luta. Uma pernada no queixo e... Lona!

Essa eu ouvi da boca dele, entusiasmado. Interpretando, até me mostrou como foi o chute. Coisa linda!

Mas voltando, minha sensação de omissão é forte. Há um ano, na Contemporânea, o Hélio pediu-me ajuda, em qualquer sentido, para com seu projeto “Filosofia de Vida”, que tinha o propósito de valorizar a terceira idade. Uma escola de samba para a Velha Guarda. Ele estava atrás de terreno e outras coisas junto à prefeitura... Nunca movi uma palha e sinceramente não sei se o projeto continuará ou desaparecerá com ele. É isso que dá deixar pra depois.

Terça-feira, após sua missa, vamos eu, Zulu e Zé Augusto, grandes amigos do Hélio, encher a cara de vinho.

Obs: Leiam no Só dói quando eu rio, ótimo blogue do meu irmão Fernando Szegeri, sua história e contribuição para o samba e para a Barra Funda!
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