25 de jul de 2007

Saúde pra cachorro

Eu já lhes contei sobre o Cirilo. Mais precisamente sobre o Jonnhy, seu “eu bêbado”, em Março, num dos primeiros textos que me aventurei por aqui. E eu havia prometido falar do Cirilo e, como sempre cumpro com minha palavra, vou fazê-lo.

Vou me ater especialmente a uma passagem que, não tivesse sido presenciada e contada pelo Chico, seu companheiro de trabalho e de noitadas, nós jamais saberíamos (o Cirilo não é de contar vantagens) do ocorrido ou ainda que ele mesmo tivesse nos relatado, seria difícil de acreditar. Este é daqueles fatos que não pode prescindir de uma testemunha confiável.

Cirilo e Chico trabalham há muitos anos vendendo plano de saúde para empresas e também para pessoas físicas. Claro que a maior parte de seus rendimentos é proveniente dos contratos com empresas, mas eles nunca dispensam um atendimento a uma pessoa que queira adquirir o tal plano, pois, como eles dizem, os PF (pessoa física) “pagam a cachaçinha nossa de cada dia”. O campo de atuação deles compreende desde a região de Campinas até Ribeirão Preto, onde, todas as sextas após as seis da tarde, um chopinho no Pingüim é religioso. E é justamente nessa cidade que se deu o inusitado fato, a prova peremptória e irrefutável de que o Cirilo é um grande vendedor.

Há uns cinco ou seis anos as vendas neste segmento passaram por um péssimo período, caindo ladeira abaixo, a ponto de Cirilo estar desesperado... E olha que o homem sempre foi o melhor vendedor da sua região. Arrebentava de vender, o Cirilo. Era uma sexta feira e, ao meio dia, como não tinha mais nada para fazer, se encontrou no Pingüim com o Chico, que já bebia. Depois de lamentarem a má fase que estavam atravessando e de tentarem, em vão, pensar em soluções para o problema, almoçaram e tomaram umas cervejas até as três da tarde. O Cirilo não virou Jonnhy. E como não saiu de si, sua cabeça ainda funcionava, apesar de já estar consideravelmente deteriorada. E isto lhe deu uma idéia esquipática, causada pela falta total de tostão.

Cirilo avistou uma bela casa antiga de esquina com uma senhora (uma sexagenária) debruçada na janela admirando o movimento. Ela acariciava um cachorro, de certo de pé ao lado dela, pois também estava debruçado na janela e com a outra mão agradava um macaquinho, um sagüi que ficava pulando de ombro para outro. Nesse instante, Cirilo, mais duro que pau de tarado, dá um salto: “Chicão, vem comigo! Essa mulher adora os bichos dela!”. Após indagar e não obter a resposta do que faria o homem, Chico calou e apenas acompanhou nosso grande vendedor. Pararam debaixo da janela:

- Boa tarde, senhora.
- Pois não?
- Eu gostaria de apresentar à senhora um plano de saúde!
- Já tenho.
- Não, não. É um plano de saúde novo. É para animais! – Era tudo mentira do Cirilo.
- Para animais? Nossa! Quero saber como funciona!!

Depois de algumas xícaras de café e biscoitinhos, a viúva – a essa altura Cirilo já estava quase íntimo dela, viúva de um famoso coronel da cidade – já convencida de que compraria o plano de saúde para seu cachorrão, recuou:

- Olha Seu Cirilo, está certo que o Moacyr Franco – o cachorro – vai ter acompanhamento semanal de um veterinário, fará testes cardiológicos nos melhores hospitais, tratamento odontológico de primeira e ainda vai ganhar de brinde roupinhas e docinhos de cachorro... Eu estou disposta a pagar esses duzentos reais...
- Então, Dona Cremilda. Pode assinar aqui e pagar em dinheiro. O Moacyr terá um tratamento de rei!
- É que eu amo meus bichinhos. Não posso fazer pra um e não pro outro. E o Beto? – o macaco – Como fica o Beto? Mais que duzentos eu não pago!
- Pode ficar tranqüila, Dona Cremilda. É por isso que nosso plano é o melhor do mercado.
- Como assim?
- O Beto entrará no plano como dependente do Moacyr!

Naquela noite Jonnhy e Chico gastaram duzentas pratas nas bocadas de Ribeirão Preto...

19 de jul de 2007

Waldir versus Tião do Açougue

Inesperadamente os relatos sobre as maldades do Barni estão virando uma série. Nesta terceira (confira as outras duas aqui e aqui), o Diabo veste o branco de médico e o episódio se dá novamente no nosso estimado campo, no solo sagrado do Anhanguera, a embaixada da Barra Funda no Bom Retiro e foi relatada a mim detalhadamente pelo grande Sardinha, há duas semanas atrás no incomparável Bar do Mauro, na Rua Dobrada.

Em meados da década de 80, num Domingo, após o jogo do 1º quadro, que é o último dos quatro times a jogar, chega ao clube um baianão sarado. Timidamente encosta no balcão do bar e pergunta para o Bule, que estava bebendo há horas, como fazia para jogar e com quem devia falar:

- Bom dia! Eu tárra quereno jogá aqui.
- Quem é você?
- Meu nome é Tião. Eu trabáio no açôgue da Jaraguá.

Interrompendo o diálogo, o Bule guinchou:

- Wardí, esse aqui é o Tião do açougue. Ele quer jogar!

Os olhos do Diabo brilharam. As mãos nos bolsos da calça, o olhar para baixo, o sorriso disfarçado e os passos curtos e lentos denunciavam que estava armando alguma malevolência. Aproximou-se do rapaz e apresentou-se:

- Oi. Eu sou o Doutor Barni, médico do clube.
- Dotô, eu quero jogá. Sabe cumé, né... Só trabaiá num dá!
- É verdade. Mas para jogar, você terá que ser submetido aos testes por dois motivos. O primeiro é saber como está o seu preparo físico para definir em que quadro você jogará. E o segundo motivo é para saber se você não tem nenhum problema cardíaco. Fazemos estes testes mensalmente com todos os atletas.
- Tá certo, dotô. O sinhô vai ver que meu preparo é de profissional! Eu corria todo dia mais de dez légua da minha cidade pra namorá uma minina notra cidade.
- Vamos para o campo!

Primeiro comentário: A única chance de existir um médico em um clube de várzea é, por acaso, se ele for associado e vai bater sua bola com os amigos. No caso do Anhanguera, temos apenas o Seu Osvaldo, nosso massagista (na verdade ele apenas representa a figura, pois não faz massagem em ninguém), um Preto Velho de 83 anos que mal consegue atender os atletas que se machucam em campo. E o remédio para pancadas, torções, luxações, estiramentos, fissuras e até fraturas é o bom e velho éter. Quando não, é só ele jogar uma água que passa. O Seu Osvaldo é um curandeiro.

Segundo comentário: Após os jogos, todos ficam num espaço grande, ao lado do campo, bebendo, jogando truco, dominó, caxeta... Rola vaquinha pra fazer churrasco... É gente pra caramba, fica todo mundo ali, jogadores do Sucatão, dos Veteranos, dos 2º e 1º Quadros, além dos amigos do bairro que não jogam e só vão pra beber. Neste dia, quando o Waldir levou o Tião para o campo, começou o burburinho.

Após meia hora de polichinelo e aturando risos e gozações dos cachaças de plantão, veio a sessão de 50 flexões. Tião deu tudo de si e conseguiu, fazendo um esforço sobre-humano. Suas veias saltavam, ele estava vermelho. Pensando que tinha acabado, veio o “teste” final: Vinte voltas no campo em trinta minutos!
E lá foi o Tião, exausto. Nas dez primeiras voltas ele foi bem e depois se arrastou. A “torcida” ficou a favor dele e muita gente encostou-se no alambrado para acompanhar o tremendo esforço do homem, que parecia não estar mais consciente. Sua coordenação não era a mesma e os olhos estavam esbugalhados. E o Diabo gritava: “Corre, Tião! Corre!”, até o a vigésima volta, que foi completada antes do inevitável desmaio...

Quando conseguiu se recuperar, o Diabo entregou-lhe o resultado do “exame”. Era um papel de caderno com as escritas “Declaro que Tião está apto a ser jogador deste clube” e assinado.

Tião, contérrito, nunca mais apareceu. Em contrapartida, o Diabo, com peso na consciência, até hoje é cliente do Tião, que é o dono do açougue há uma década.

13 de jul de 2007

Desencontros amorosos

A arte da conquista através do papo, da lábia, é pra poucos. Neste quesito, conheço duas figuras que merecem respeito: Gilmar e Jaci. Cada qual com sua estratégia e personalidade na hora de cortejar a dama. Eu, inclusive, já presenciei algumas ocasiões em que eles saíram bem acompanhados após destilarem seus galanteios pra cima das inocentes vítimas.

O Gilmar é um coroa bem apanhado, daqueles à moda antiga. Tirador de sarro e malandro nato, é daqueles que chegam oferecendo um drinque e educadamente puxa uma conversa, tira pra dançar, paga a conta gentilmente, dá carona... O Jaci, que hoje é um sujeito sério e de uma mulher só, já foi um ávido, um tarado que não podia ver qualquer coisa que ovulasse, qualquer jogada de cabelo, que partia, como um atleta na prova de 100 metros rasos, pra cima. Alguns amigos o apelidaram de marinheiro, do tipo que têm uma mulher em cada porto. Mas como o mundo é cheio de surpresas, invariavelmente um ou outro fato jocoso que foge ao nosso controle acontece. Eu relatarei algumas dessas ocorrências.

Há uns dois anos, um Gilmar eufórico chega ao bar do Sinval e, com o braço erguido brada: “É hoje que vou pra cama com aquela gostosa!”... Ele investira um mês em ligações, jantares e presentes para tal escultura (segundo ele), que, fazendo jogo-duro, não permitia um mísero beijo, uma mão boba, nadica de nada, o que fazia com que o homem fosse à loucura e terminasse a noite, no auge dos 47 anos, como um adolescente, apaixonado e com bexigas (quem não souber o que são bexigas, pergunte ao avô) na cara. Neste fatídico dia ele ainda gastou os tubos num perfume para impressioná-la e, chegando bem perto do Bonitão, disse:

- Aí Bonitão, sente o aroma! Coisa fina, morô?
- Sai daqui, Gilmar. Prefiro meu Avanço! Isso aí fede demais. – Exalando um tremendo bafo de cana.
- Mas você é um mané, mesmo. Por isso que não come ninguém.
- Pergunta pra tua tia se isso é verdade. Eu tenho estilo, ô Nhonho! – Respondeu o delicado Bonitão.
- Bonitão, fica aí chupando o dedo que eu vou lá, ô tonto.

E foi saltitante para o encontro. Mal sabia que a noite não seria perfeita. Enquanto isso, no bar, os comentários rolavam: “Pô, o Gilmar tá com a bola toda hein!”, “É, deve ser um mulherão mesmo.”.
No dia seguinte, todos aguardavam ansiosamente a chegada do homem para contar como havia sido o encontro. Eis que chega o Gilmar todo arranhado e com um pé engessado. Pra que? A galhofa durou cerca de uma hora antes que o pobre abrisse a boca: “Saiu com a Mulher-Gato?”, “Ê tiozinho... Aposenta!”, entre outras zombarias. Até que Bonitão, danando de rir, questionou:

- Vai, Nhonho. Conta aí o que houve! Comeu ou não?
- Pô – emocionado – A noite estava ótima. Jantamos, tomamos vinho, um lero bacana. Ela tava linda! Que traseiro...
- Comeu ou não? – Respondeu um Bonitão impaciente.
- Saímos do restaurante... – silenciou por alguns segundos com um olhar absorto - ...Eu já estava convencido de que ia pro motel com ela. Eu não devia ter andado pela calçada.
- Fala logo, porra!
- Não olhei onde estava pisando. De repente, minha cabeça estava na altura do joelho dela. Eu caí num bueiro. Fiquei todo sujo e ralado até o peito! E ainda quebrei o pé. Não comi!! Pronto, respondido. Tá satisfeito?
- Não. Me dá o telefone dela que eu vou fazer o serviço.


Já no caso do Jaci foi amor à primeira vista. Ele conheceu a mulher num dia em que foi com o Gilmar (o mesmo) e o Bruno (meu irmão) no Mêmphis, uma boate bem esquisita, com umas bandas toscas e gente metida a besta. Pelo menos foi isso que me disse o Bruno, em quem confio cegamente.
Jaci avistou a moça sentada à mesa tomando um negócio e, com suas pernas em formato de ferradura – parece que ele desceu do cavalo e as pernas não voltaram ao normal – foi direto pra cima dela. Sentou-se. Papo vai, papo vem, e o Jaci, com seu jeito fino de nordestino, agarrou a mulher pelos braços com força e beijou-a. Ela adorou!
Cansado de ficar sentado, convidou-a para dançar. Convite que foi recusado várias vezes.

Logo depois, em uma conversa com os dois amigos, Jaci confessou: “Com essa eu namoro! Vocês viram que linda?”. É preciso fazer uma pausa importantíssima. O Jaci tem pressão baixa e sob qualquer coisa anormal ou inesperada sua pressão tende a zero.

Depois de umas duas horas e mais beijinhos e abraços, a moça diz ao Jaci: “Preciso ir ao banheiro.”. Subitamente, ela arranca debaixo da mesa duas muletas e se levanta com dificuldade. Jaci reparou que ela não tinha a perna esquerda e, instantaneamente, desmaiou. Desacordou e não voltava, tamanho o choque. Gilmar o levou correndo ao hospital.
Quando acordou, ficou deprimido por não ter o telefone da mulher que arrebatou seu coração e só se recuperou quando conheceu a Mônica, no final do ano passado...

10 de jul de 2007

O inesquecível gol de honra

Guardo grandes lembranças de espetaculares jogos que aconteceram no Anhanguera. Jogos esses que me marcaram de diferentes maneiras, seja pela qualidade técnica, pelos belos gols, por pancadarias, por grandes viradas ou por roubos descarados do juiz. Mas um jogo nunca sairá da minha memória. O dia em que nosso time, que à época “voava”, em meados de 2004, foi “amassado” de maneira humilhante por um time, digamos, bem superior. Mas não é pela derrota que sofremos que a peleja foi histórica, mas sim por um gol que teve importância ímpar.

Nossa derrota começou antes da bola rolar, ainda no vestiário, quando vieram nos avisar que o time adversário - não consigo me lembrar do nome do time, sei que é de Pirituba - acabara de chegar e trazia ninguém menos que Marcos Assunção (que já jogava na Espanha), Marcos Senna (acabara de deixar o Corinthians para ir pra Europa também) e Paulo Assunção (jogava no Palmeiras), além de outros quatro jogadores profissionais. Pois é, era período de férias do futebol europeu e o time era do irmão do Marcos Senna.

No nosso vestiário, um clima de velório tomou conta do ambiente, pois estávamos invictos a 49 jogos e ganharíamos da diretoria, como prêmio pela qüinquagésima partida sem perder, um belo churrasco de comemoração. Mas não foi só o clima de velório. Neste momento, teve jogador que vomitou, que desmaiou, nêgo simulou contusão ao se aquecer... Terrível. E ainda que ninguém assumisse essa posição derrotista, estava no semblante de cada um o temor de ser destroçado em seu próprio campo, frente a amigos e familiares.

Só para esclarecimento, pra quem pouco conhece de futebol, existe um abismo descomunal entre jogadores amadores, no caso nós, e jogadores profissionais, no caso eles. Principalmente no quesito preparo físico, do qual os caras eram privilegiados, enquanto nós, com protuberantes barrigas, éramos uma lástima. Principalmente eu, que corro pouco mais que um jabuti velho.

Os diretores de esporte, Renatinho e Moisés, que foram profissionais há uns 30 anos atrás, entraram, fecharam a porta e deram uma preleção com o intuito de acreditarmos na vitória, coisa parecida com essas pernósticas palestras motivacionais que tomou conta da cabeça dos técnicos. Por incrível que possa parecer, a maioria dos nossos jogadores se animou e começaram os gritos de “Vamos lá, porra! Pra cima deles!”, “Aqui é nossa casa, cacete!!”...

Quando, já à beira do gramado, aguardávamos para entrar em campo, voltei ao vestiário por algum motivo que não me recordo e dei de cara com os dois diretores ajoelhados frente a uma vela e uma imagem de Santo Expedito, o santo das causas impossíveis e urgentes, rogando: “Por favor, faça com que aconteça um milagre e o nosso time vença. Só hoje!”... Não revelei isso pra ninguém. Até agora.

Enquanto batíamos bola, o Sherra tomou uma arriscada decisão: “Vou dar um rolinho no Marcos Assunção!”...

Começou o jogo e ficou só no toque de bola. Eles tocavam pra lá e pra cá e não vinham pra cima, enquanto nós corríamos muito e também fazíamos a gorducha correr. O jogo estava parelho até os dez minutos e, com isso, pensamos que eles não eram nada daquilo... Aí é que começa o destroço. Quando achamos que jogávamos de igual para igual fomos despedaçados! Eles nos deixaram confiar em nosso potencial. Sentindo isso, o zagueiro deu o sinal, berrando: “Tá valendo, gente!”. Daí pra frente o que se viu foi um time correndo atrás da bola (no caso nós) e outro time brincando de jogar. Os lançamentos e viradas de jogo eram inacreditáveis, em sua maioria de três dedos. A bola, após sua trajetória elíptica, era dominada de maneira sutil, como seu tivesse grudado no pé do malandro que a ajeitasse, e logo já não estava mais no pé dele... Já estava com outro. Era só tapa “de prima”! Isso nos irritou, mas, cansados, não conseguíamos nem chegar pra “arrepiar”.

Quinze minutos de jogo. Falta no meio campo pra eles. Nosso goleiro, o Marquinhos, mandou: “Abre!”. O Senna enfiou uma castanhada no ângulo. A bola, que voou a 120 km/h fez umas doze curvas antes de entrar. Golaço. Detalhe: eu, jogando de meia armador, atuei na mesma faixa de campo que o Marcos Senna, o médio volante deles. Não peguei na bola.

O Sherra, quando teve a oportunidade, tentou meter o prometido rolinho no Marcos Assunção que, esperto, conseguiu roubar-lhe a bola. Roubou a bola e, perseguido pelo próprio, ameaçou lançar. Quando o Sherra inocentemente esticou a perna para interceptar a redonda, tomou um rolinho antológico e, resignado, cumprimentou o Assunção estendendo-lhe a mão, admitindo sua superioridade. Daí pra frente, tomamos chapéus, canetas, dribles da vaca, gol de chaleira, gol de bicicleta...

Vira o jogo. Quatro a zero. O que ficou nítido é que eles fariam gol quando bem quisessem. Já conformados e combalidos, só nos restava terminar a batalha dignamente. Jogando. Entretanto, como o jogo já estava dado como perdido, nosso técnico, o Marcelinho, colocou o Quincas - ele nunca entrava - em campo. O Quincas, pra quem não conhece é, sem dúvida, o pior jogador do Anhanguera dos últimos anos. Tem uns dois metros, é desengonçado, tropeça nas próprias pernas, “fura” todos os chutes e não ganha nem do Piolho (que tem 1,50m) no jogo de corpo. Ele era centroavante e nunca havia feito um gol. Um mísero gol... Nada! A única coisa que o Quincas fazia era proporcionar risos incontidos à torcida, principalmente à adversária. Ele consegue ser pior que o Da Lua, outro imprestável jogador que passou por lá...

Pra se ter uma idéia, existia um inenarrável sentimento de esperança na espera do inimaginável gol de Quincas. O milésimo gol do Rei Pelé e do Romário não chegam aos pés do que foi a ansiedade pelo primeiro gol de Quincas. Isso pelo menos na Barra Funda. Como sabíamos que a derrota era certa, apoiamos a entrada dele no jogo: “Ah, deixa ele jogar. Já apanhamos mesmo!”... “O churrasco já era. Que entre o Quincas”, “Ele ainda não jogou esse ano e já estamos em Junho. Deixa ele jogar!”, “Pelo menos vamos nos divertir.”...

Começou o segundo tempo e, no primeiro lance, nosso lateral foi à linha de fundo e cruzou. Do nada, dentro da área, reparamos um corpulento Quincas subindo num salto elegante. Ele estava iluminado e, neste instante, tudo parecia acontecer em câmera lenta. A bola chega, bate na molera do Quincas e entra, para uma explosão jamais vista, digna de gol do Brasil na Argentina em final de Copa do Mundo. Quincas, tomado pela emoção nunca antes vivida, deu de correr sem rumo, sendo parado quando a multidão enlouquecida pulou em cima dele, já na Rua Anhaia, formando uma verdadeira montanha humana e parando o trânsito. O jogo não teve como continuar...

Graças a ele nosso time não levou a maior surra da história do clube. E ainda teve churrasco de comemoração para o gol! Dá-lhe Quincas!

3 de jul de 2007

O Portunet

Não tenho dúvidas quanto aos benefícios oferecidos pela internet e a valia que ela tem. Não obstante, traz novidades esdrúxulas. É a uma dessas novas ondas que quero me ater, o Portunet, idioma abjeto utilizado principalmente por jovens que assassinam a riquíssima e linda língua portuguesa em prol de umas tecladas a menos. Cada vez que me deparo com o Portunet, sinto dor na alma, uma tristeza aguda misturada com revolta que me causa engulhos. Minha visão se embaralha e demoro minutos, por vezes horas, para decifrar uma mensagem.

É certo que os mais novos, ao lerem isso, afirmarão: “O Arthur é um chato!”, ou “Imagina, é que ele um velho mesmo...”, mas eu não me conformo com esse negócio, que, além de horrível, dá a sensação de que a pessoa que escreve não tem o Pré-Primário (hoje em dia nem existe mais o Pré) concluído! Embora em algumas escolas, alguns professores infelizmente já sejam tolerantes com este novo tipo de escrita...

Discrimino abaixo alguns adeptos do Portunet (se vocês lembrarem de mais, comentem):

1) Adultescentes em sua totalidade;
2) Solitários de todas as idades que freqüentam salas de bate papo (hahaha) na internet. Aliás, isso é uma outra babaquice que merece um texto exclusivo;
3) 99% dos usuários de msn que tenham menos de 25 anos de idade;
4) 99% das pessoas que tem fotolog;
5) Pessoas cuja única leitura e fonte de pesquisa é o Google.

A utilização deste ignóbil idioma é como um vício e, em cada usuário, se manifesta em diversos níveis. Vou exemplificar algumas dessas expressões:

O nível mais leve quase não compromete. Geralmente transforma a palavra você em vc, o beleza em blz, o muito em mt e o beijo em bj e por aí vai. O próximo estágio é caracterizado pela escrita das risadas. Está certo que existem diferentes tipos de riso, mas fico pensando em que som teria esse tipo de gargalhada, que outro dia li num comentário de algum blogue: “ashashashuahsuahsuhaushuahsuahsuahsuhaush”. E nessa: “AUHuahauhUAHUAHuhauhauHAUHuahUHAuhAUh”? O que me parece é que o volume aumenta e abaixa sem parar, de acordo com as maiúsculas e minúsculas. Pensem nisso! Quem teria uma gargalhada horrenda dessas?

Mas embora eu já tenha lido inúmeras frases nesse idioma escritas por várias pessoas, há um campeão nessa linguagem, que me faz crer que é o precursor do negócio, o Houaiss do Portunet. Estou falando do Alemão, irmão caçula do Sherra que, a cada dia, a cada comentário, a cada “teclada”, estupra violentamente a Língua Portuguesa. Vou citar exemplos tirados dos comentários deste blogue e fazer breves observações:

- Comentário de 05 de Abril, texto Parque da Aclimação:
“eee arthuuuur ahuahuua to raxando o biko...sao mto boas as historias q vc conta, ahahaha.
continua assim q ta foda!
aahuahua
falow e vamo bagaça na praia!”

O que será eee? Raxando o biko? Reparem que as palavras que terminam em s e r são operadas. Essas letras são decepadas.

- Comentário de 10 de Abril, texto Dick – Fidelidade Canina:
“aahahah cachorro eh foda...
melhor amigo do homem certeza!!
faaaloww caderudoo!
ahaha”

Por que os adeptos do Portunet prolongam uma letra, como se estivessem gritando? Faaaaalowww...

- Comentário de 19 de Abril, texto Casamento Trágico:
“ahahaha...mtoo boaa arhurr, pedro pedregulho e acepipe! ahahaha

falto no final...
''viveram felizes para sempre!'' ahahaha

falooww caderudo!”

Falto? Letra U decapitada!

- Comentário de 25 de Abril, texto Saudade... Nostalgia Inconsciente:
“puata q pariu que foda juru...
tava meio sem sentido...ai nakelas letrinhas pekenas tdu fikou mais claro ahaha...
seu vô era foda..ahahah mas hjmeu vô ta la cum ele, e eles com ctz taum batendo uma bola! ahahaha

bejoo, irmão!

Obs* QUE GOLAÇO EU FIZ DOMINGO!”

Este comentário demorei três horas para traduzir!

- Comentário de 01 de Maio, texto Prova (de bosta) de Amor:
“AHUAUHAHUAHUAhuaHUahuAHUahuAHU
mtoooo booooaaa, mtooo...
imaginei o angelo com oos braços xeio de merda em paniko ahauhhauahuahuau...

floow arthuuur”

Estão xeios?

- Comentário de 13 de Maio, texto Craw – O Homem Elétrico:
“''como uma prática de louvor à monotonia.''

ahuAHUAhuAHUaA MTOO BOMM O TEXTO CADERUDO...
auhahuahuahuahua...e ateh hj ele toma o xoke e volta pra casa ahuahuahua

floww kidd, jogo mto hj!
;D
abraçoss”

O xoke me xocou!

- Comentário de 22 de Maio, texto Brincadeiras de Infância:
“AHHHAHHAHHHHAHAHAHAHAHAHAHA...
N CINGO OPARA DE RIIR!
HAAHHAHA, vc escrewve de um jeito q faz ver a historia cmo um filme...
otimo DOM arthuca!...e o arxilu t fudeu hein hahahhaah

eh noiss
abraçao

ps* cansa mto digita soh com a canhota!
hahhaah”

Não me perguntem. Não traduzi até hoje...

- Comentário de 25 de Maio, texto Waldir Versus Mãozinha:
“ele xera cols..
ele eh loko, pobre do mão...
vc eskeceu de flar das gorgetinhas q o mão recebia depois de ser zuado!hahaah
otimo arthucaderrudo!

alemão”

Xera mesmo!

- Comentário de 25 de Junho, texto Anhanguera dá Samba II
“ahahaha eu axo q vo, vo xega la onze horas/meia noite...
mas eu vo la ahahaha
floww arthurr..
e ou...
ainda bem q eu to sem pedalada aahahuahua”

Tsc...

Por essas e outras, lanço aqui a campanha MORTE AO PORTUNET!
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