30 de mai de 2007

Ovelhas Boys

Dentre os grandes times de várzea que já existiram na história da Barra Funda, alguns se destacaram.

O Grajaú, por exemplo, era um time de fazer brilhar os olhos dos espectadores. Tinha os maiores craques da várzea. Sua “linha” tinha jogadores como Peck, Lostal, Wande e Armando... De fazer inveja à linha do Santos, com Dorval, Mengálvio, Coutinho e Pepe (tenho que excluir o Pelé, que é incomparável).
O Carlos Gomes era um dos times mais antigos da várzea e também o time de maior torcida da região. E dos maiores briguentos. Imaginem só: na torcida deste time figuravam nomes como Waldir, ele mesmo, o Diabo e Barrabáz. Era quebra-pau todo jogo!
O Anhanguera, o único dos três até hoje em atividade, sempre se destacou pela sua organização e pelos bailes em sua sede social. Era um time, à época antiga, visto como modelo, já que dispunha de uma estrutura anos-luz a frente de seus rivais varzeanos.

Mas um time que sempre me encantou, que fico imaginando nos meus delírios, foi o Ovelhas Boys, pela irreverência e criatividade. Pela quebra dos paradigmas impregnados no futebol amador até então.

Só pra me fazer entender melhor, devo explicar como é o clima varzeano, pois, entre meus dez leitores, têm mulheres que acredito não conhecerem este ambiente hostil. Não se resume a um campo, duas traves, uma bola e 22 jogadores. Podemos definir basicamente necessário para se fazer completo tal ambiente mais alguns requisitos. O juiz quase sempre é ladrão e barrigudo, um bar é necessário e os bêbados encostados no alambrado também, hordas furiosas de brigões ignorantes estão sempre a postos pras pancadarias rotineiras. Cusparadas, palavrões e bofetadas são constantes.

O Ovelhas Boys existiu por curtíssimos dois anos, entre 1967 e 1969. Seu presidente era o Nivaldo. Dizem que foi o maior jogador que o bairro já viu, mas no Ovelhas ele não jogava. Era composto por dois times: o extra e o sport (hoje chamados de 2º e 1º quadro, respectivamente). No extra jogavam os ricos e barrigudos que “bancavam” o Ovelhas. Tomavam goleadas em todos os jogos. Era coisa de sete, oito a zero para o adversário. Um saco de pancadas, o extra. Já no sport, foi formada a seleção dos times da Barra Funda e do Bom Retiro, um esquadrão imbatível mesmo. Tanto que, nos dois anos de vida, o sport do Ovelhas jamais perdeu um jogo sequer. E jogando fora contra os tais juízes ladrões e torcidas vikings, já que eles não tinham campo.

Como eu já disse, o estilo deste time era único, por isso eram chamados de “time de fresco” pelos adversários brutamontes. Saquem só o porquê dessa fama.

Ao chegar ao campo adversário para assistir aos dois jogos (extra e sport), a torcida do Ovelhas, que tinha algumas meninas (algo inimaginável à época), estendia esteiras de vime e cadeiras de praia, guarda sol e mesinhas. Duas garrafas de uísque importado eram obrigatórias, assim como um balde de gelos com formatos de ovelha. Uma vitrola portátil, que era o aparelho de última geração no momento, tocava apenas twist e rock´n roll e embalava os homens, que usavam lenço no pescoço e as meninas, com seus vestidos-tubinho a dançarem. Imaginem os embasbacados adversários assistindo uma cena dessas!

O uniforme do time era de babar. Camisa de manga comprida, de botão, com botões de pressão, gola engomada, símbolo bordado e os números nas costas dos jogadores em algarismos romanos. Nem a seleção brasileira tinha um uniforme desses!

Uma pena ter durado tão pouco tempo, mas, mesmo sem ter vivido, sou torcedor fanático do Ovelhas Boys!

24 de mai de 2007

Waldir versus Mãozinha

Já lhes contei aqui sobre a maldade e a intolerância do Waldir para com os espécimes não racionais. Mas os animais não são os únicos que sofrem de suas perversidades. Algumas pessoas também. Entre elas está Gerson, o Mãozinha. Para que fique bem elucidativo, detalharei para vocês terem a dimensão dos requintes de crueldade de Waldir, o Diabo.

O Mãozinha, amigo nosso, sofre de uma deficiência de nascença, que acabou atrofiando seus braços, fazendo com que ele não alcance nada a mais de quinze centímetros de distância. É da Barra Funda (mais uma figura!!), joga bola no time do Sucatão do Anhanguera, faz jogo de bicho e é um piadista, embora suas piadas tenham pouquíssima graça. Seu apelido não é reflexo de preconceito, de maneira alguma. Simplesmente é uma demonstração de brasilidade. A mesma brasilidade inventiva e irreverente que apelidou Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Aliás, só para contestação da coincidência entre estas duas figuras, o Mãozinha é um exímio pintor. Ganhou inúmeros troféus por suas pinturas, principalmente em paredes. Um artista nato, o Mão.

Aliás, uma rápida pincelada: alguns amigos meus têm comentado essa viadagem do politicamente correto. Imaginem se não pudermos chamar nosso amigo negro de “crioulo”. Ou ao invés de chamar o albino de “rato branco”, teríamos de falar “indivíduo com falta de melanina”. E o anão? Imaginem se não pudéssemos chamá-los de “pintor de rodapé”, “salva-vidas de aquário”, “meia-foda”... Teríamos que dizer “indivíduo desprovido de estatura normal”, entre essas outras baboseiras. O apelido é uma maneira de gozação bem característica do nosso povo. É uma cultura popular que, se Deus quiser, jamais se extinguirá. Mas existe o escárnio, que é o que o Diabo fez algumas vezes com o Mãozinha. Para maior entendimento de todos, recorro ao “pai-dos-burros”:

* Escárnio
Acepções
■ substantivo masculino
1 o que é feito ou dito com intenção de provocar riso ou hilariedade acerca de alguém ou algo; caçoada, troça, zombaria.
2 atitude ou manifestação ostensiva de desdém, de menosprezo, por vezes indignada.


Taí. Existem brincadeiras e escárnios. Contarei o que houve para tal afirmação e, tenho certeza, vocês hão de concordar comigo. Descreverei as cenas. Eu não estava presente nenhuma das três vezes. Ainda bem. (Vou até pular duas linhas para dar mais destaque)


Cena 1) Churrasco no clube. Todos felizes e se empanturrando. E enchendo a caveira, claro. Uma beleza. Até aí, normal... O Diabo, tentado, pensa numa brincadeira e parte para a ação. Simplesmente pegou o Mão (que deve pesar no máximo 60 quilos) e o enfiou deitado dentro de um freezer horizontal bem grande que temos no Anhanguera. O coitado do homem parecia uma tartaruga de barriga pra cima, só mexia os membros e gritava. Não contente, o Diabo tampou a boca do Mão com um bife cru. Vejam só... Somente depois de uns 5 minutos ele foi resgatado por outros bêbados, quase congelado.

Cena 2) O campo do Anhanguera estava sendo gramado, por isso os jogos neste período eram fora. Houve um jogo em que foram apenas os onze jogadores, o técnico e o Mãozinha, o único torcedor. Dentro do vestiário havia grandes ganchos para os jogadores prenderem as roupas enquanto a pelada rolava. Após todos os jogadores irem para o campo, o Diabo pegou o Mão, o levantou e prendeu-o pela camiseta em um gancho, saiu do vestiário e foi pro jogo. O homem ficou esperneando, balançando os braços e gritando em vão, pois não foi ouvido. Foi resgatado após o jogo, uma hora e meia depois.

Cena 3) Nesta, Waldir ultrapassou todos os limites, provando ser mesmo o filho do Cão. Churrasco na chácara do Vadinho. Lotado. Uma belíssima piscina de água cristalina e azulejos decorados contornava ares de mais beleza àquela ensolarada manhã de Sábado. Algumas horas se passaram e muito uísque pra dentro. Um possuído Waldir começa a pensar em sua próxima maldade e não poderia, tenho certeza, pensar numa pior. Com rapidez, pegou um Mãozinha já desesperado no colo e – pasmem – o atirou na piscina. Mãozinha foi como um parafuso, rodando, de cabeça parar lá no fundo. Pelo menos dessa vez o Diabo mesmo, logo após jogá-lo, pulou para salvar o pobre Mão...

Sempre digo que o Waldir já comprou seu carnê de um terreno no inferno...

21 de mai de 2007

Brincadeiras de infância

Aprecio, com muito gosto, as crianças brincando. Porque quando as vejo brincando, sou arremessado ao passado, na época em que escalava muros, jogava taco, bolinha de gude, botão, pega-pega, esconde-esconde, mãe-da-mula, pique-bandeira, queimada, três-dentro-três-fora, linha-de-passe, polícia-e-ladrão, entre outras brincadeiras pré-históricas e há muito tempo obsoletas.

Diversões extintas graças a duas questões: a primeira é social, como o trânsito e a violência, que faz com que os pobres infantes de hoje joguem bolinha de gude no carpete, futebol somente nas pseudo-escolinhas e os coitadinhos só empinam pipa no ventilador, dentro de seus apartamentos, pois é perigoso sair na rua... A segunda questão é a tecnológica, como o computador e o vídeo game. A pirralhada dos dias atuais não sai da frente da tela, fato preponderante causador de uma geração bem característica, de quatro-olhos e obesa.

Mas voltando, ontem estava eu no Anhanguera, após o jogo, tomando uma cerveja e vendo uns moleques atirando coisas um no outro, e lembrei-me de uma brincadeira que o Ângelo e eu praticávamos, no auge dos nossos sete anos de idade. A brincadeira era perigosa, pois poderia machucar-nos, o que a tornava muito mais atrativa e emocionante. Era sempre realizada aos Sábados no apartamento em que morávamos na Rua Anhanguera. Dia de faxina em que a casa ficava, literalmente, de cabeça para baixo. Aproveitávamos que mamãe estava atarefada para brincarmos tranqüilos, sem levar bronca ou pior, os temíveis e doloridos beliscões que ela dava.

Sinceramente não me recordo como denominamos a brincadeira que inventamos, mas basicamente consistia em atirar chinelos um no outro. Mas não era só isso. Tinha regras. Os sofás, um de cada lado da sala, serviam de trincheiras. Cada um ficava atrás de um sofá. Era preciso levantar e esperar o outro aparecer para atirar o chinelo. Quem acertasse o inimigo três vezes primeiro, ganhava. Dividíamos os pares de chinelos. Um pé de cada para cada, ou seja, eu ficava com os cinco pés direitos e ele com os esquerdos. Quando atirávamos, se não acertasse, o adversário ficava com o chinelo atirado, ficando em vantagem em quantidade de munição.

Deixem-me detalhar um pouco mais. As “armas” tinham calibres. Guerreávamos com cinco tipos de armas, eram elas: nossos próprios chinelos de dedo Havaianas (que à época não significavam status algum como hoje) calibre (tamanho) 32, as Havaianas calibre 37 da mamãe e uma sandalinha calibre 25 do Bruno, que era um bebê de três anos. Eram boas armas, mas nada comparado ao portentoso Ryder tamanho 40 de papai, capaz de estourar os miolos das tropas do outro lado. Essa era a bazuca, o armamento mais pesado, pois danificava muito o estado físico do adversário.

Graças a essa brincadeira “inocente”, recebi uma lição que jamais esqueci. A vida nos prega peças, pois sempre existe o fator surpresa. Aprendi que jamais devemos subestimar alguém que esteja, digamos, desfavorecido. Pois bem, nesse dia aconteceu o improvável.

Eu, que sempre fui um bom estrategista, fui acumulando as armas atiradas pelo Ângelo, que, com uma péssima pontaria, errou todas as quatro primeiras tentativas. Para azar dele, sobrou em sua mão somente uma sandalinha do Bruno. E eu com nove, incluindo os dois pés do Ryder calibre 40. Essa guerra, na minha cabeça, estava ganha. Eu o fuzilaria facilmente, dando o tiro de misericórdia com a bazuca.

Para se ter uma base de comparação, eu era Israel – um dos maiores poderes bélicos do mundo - e o Ângelo, os muçulmanos – que lutam com paus, pedras e homens-bomba. Seria impossível a vitória dele.

Na certeza da vitória, me levantei para “matá-lo”, abdicando da proteção do sofá - ele precisaria me acertar três vezes, e tinha apenas a sandalinha – Angelo atirou sua última “bala” com extrema força. A sandalinha veio rodando em torno de seu eixo na velocidade da luz e, antes que eu tivesse qualquer reflexo, acertou minha boca, fazendo com que o maior exército (no caso eu) desmoronasse. Chorando, com a boca sangrando e tentando me recuperar, ele ainda pegou as duas bazucas e me exterminou, antes que mamãe, esbaforida, chegasse.

Acabamos de castigo, eu com a boca inchada e o Angelo com o braço roxo dos três terríveis beliscões que levou...

11 de mai de 2007

Craw - O Homem Elétrico

Às vezes fatos marcam tanto uma pessoa que ela é reconhecida e lembrada por algum evento que tenha acontecido, sobrepujando qualquer adjetivo que a possa caracterizar. É um fenômeno corriqueiro, marcante e, na maioria das vezes, massacrante para com o indivíduo autor ou vítima do acontecimento.

Para ser mais claro e objetivo, citarei exemplos. O Mário Gomes (ator), até hoje é chamado carinhosamente de Cenourinha, após aparecer no hospital com o tal vegetal entalado em seu orifício anal, ato que lhe custou um bom tempo de reclusão, de sumiço.
Francisco de Assis Pereira será para sempre o maníaco do parque, ainda que se regenerasse, algo hoje impossível, pois está mortinho. Barbosa, goleiro da seleção de 1.950, será sempre lembrado pelo frango na final dessa mesma copa, apagando todas as suas belíssimas atuações com a camisa 1. E por aí vai.

Após este exemplário, falemos do assunto em questão, o Craw (fala-se cráu) – o Homem Elétrico, nosso amigo Jeancarlo. Claro, como não poderia deixar de ser, é mais uma figura da Barra Funda, bairro excessivamente carregado de pessoas-personagem, tal qual um livro de contos fantásticos, fato que denota a magia arraigada neste chão da zona Centro-Oeste da cidade.

Pode parecer estranho esta alcunha de Homem-Elétrico, visto que são famosos em todos os cantos a Maria Louca, a Loira do Banheiro, o Homem do Saco, e todos estes outros seres que metem medo em muita gente, principalmente nos infantes, que, ingênuos, acreditam em tudo. Mas o Craw – O Homem-Elétrico é real, ele existe e tem sobrancelhas enormes (esta é uma informação crucial para o enredo, as sobrancelhas gigantes). É famosíssimo e muito mencionado no bairro. Mulheres sozinhas à noite andam apavoradas e apressadas, velhinhos não saem de casa após as 22h00 e dizem até que ele já apareceu em banheiros de escolas... Vejam, é o Jeancarlo ganhando proporções de assombração, tal qual o Curupira e o Saci-Pererê.

Tudo começou com um simples caso amoroso. Explico. Ele tinha um caso com uma mulher chamada D. (vou omitir o nome dela por motivos de força maior), que era apaixonada. Pobre coitada.

Jean (é assim que o chamamos) todos os sábados toca seu reco-reco no samba do grupo Xamanóis – aliás, o reco-reco do Jean merecerá um capítulo à parte – e bebe. Ele não bebe pouco. Entorna litros e mais litros de cerveja. Consome barris e fica, não poderia ser diferente, extremamente embriagado e escalafobético ao final do samba. E fica soltando gritos curtos e rápidos, como um tique nervoso: “cráu, cráu!”.

Uma rápida pausa: o Jean é um dos sujeitos mais metódicos que pude conhecer. Acorda, trabalha, come e dorme todos os dias religiosamente nos mesmos horários. Nunca sai a noite em dias de semana e bebe sempre nos mesmos lugares, como uma prática de louvor à monotonia.

Este comentário serviu para explanar que, todos os Sábados após o samba, ele voltava para a Barra Funda e ia bêbado como um porco manco para a casa da D., que sabia que ele chegaria as 23h07.

Certa noite de Sábado, Gilmar (o cara mais boa-praça da região) o deixou na porta da casa dela. Ele conseguiu, aos trancos e barrancos, descer do carro e ir se escorando na parede até o portão. Chovia aquela chuva fina. Jean, não se atentando para um fio desencapado que ligava à campainha, meteu o dedo no botão. Senhores, o choque foi tão forte que sua mão grudou no interruptor. Suas pernas batiam uma na outra, seu corpo balançava tanto que parecia uma mola, e o pior: sua sobrancelha, com cabelos de 4 centímetros, se arrepiou inteira. Uma das cenas mais horripilantes da história, de deixar o Lobisomem parecendo um poodle inofensivo. D. ouviu o barulho e socorreu o homem, que mais uma vez caiu na cama e dormiu, ainda com descargas elétricas pelo corpo.

Muitos Sábados se passaram e muitos choques Jean tomou, até D. se cansar dessa vida e largá-lo. Acabou se casando e foi embora para o interior. O pobre diabo, amargando a dor da desilusão, ainda hoje, anos depois, como uma auto-penitência, todos os Sábados às 23h07 toca a mesma campainha, leva o choque e vai pra casa todo arrepiado com todos os requisitos de assombração, assustando os incautos da Barra Funda aos sábados a noite: Craw – O Homem Elétrico!

8 de mai de 2007

Anhanguera dá samba

Dentre as coisas que me movem está o samba, o ritmo nacional por excelência, em sua forma mais autêntica, como manifestação popular de celebração e dança. O samba é na minha família presente há tempos. Principalmente nos mineiros por parte de minha mãe. Tenho eu – que sou um esquecido - pouquíssimas lembranças de minha infância até os seis anos de idade, mas uma imagem jamais me saiu da memória. Uma coisa cotidiana. Mamãe, aos sábados, fazia faxina no apartamento da Rua Anhanguera ouvindo Clara Nunes, Bezerra da Silva, Quarteto em Cy, Beth Carvalho. Nunca me esqueci dela cantando entre vassouras e baldes e escovas... Vejam só. Este traço sambístico foi se delineando até meus primeiros acordes no cavaquinho, aos quinze anos, quando comecei a conhecer as rodas e gentes do samba, algo que faço até hoje e que, se me for permitido, até o fim dos meus dias.

E como nada é à toa, fui nascer justamente na Barra Funda, berço do samba paulistano. Ali, na Rua Anhanguera, era a casa da Tia Olympia, reduto negro de resistência do samba no começo do século passado, onde freqüentavam Dionísio Barbosa e outros, que fundariam mais tarde o Cordão da Barra Funda (atual escola de samba Camisa Verde e Branco).

Todo este intróito pra dizer que tenho um projeto há três anos que finalmente está saindo do papel. Um projeto cultural e social de realizar um samba no Anhanguera sem pretensões comerciais, uma roda de amigos, com o intuito de preservação do samba e dessa cultura brasileira. É mostrar o samba na sua essência, e não o que não se vê nas escolas de samba, que já se venderam à força do capital há muito e hoje, infelizmente, são apenas show para turista ver.

Queridos, o projeto chama-se Anhanguera dá samba. Será um evento mensal e contará com um dos melhores grupos de samba de São Paulo (e por que não do Brasil?), os Inimigos do Batente, e nessa primeira edição com a participação mais-que-especial de ninguém mais ninguém menos que Wilson Moreira, que está entre os maiores compositores da história da música brasileira. Suas músicas foram gravadas por Beth Carvalho, Clara Nunes, Alcione, Zeca Pagodinho, Jair Rodrigues, Paulinho da Viola, Roberto Ribeiro, João Nogueira, entre outros e, entre essas pérolas posso citar: Senhora Liberdade, Gostoso Veneno, Goiabada Cascão, Morrendo de saudade, Gotas de veneno. Além disso, ainda fundou a Mocidade Independente de Padre Miguel. Ouçam Oloan, música lindíssima dele. É só clicar no play.

01 Oloan.mp3


Tenho uma imensa alegria de terem cruzado meu caminho pessoas como Fernando Szegeri, o Impronunciável, e a Railídia, através dos quais tenho essa oportunidade de realizar um dos meus sonhos, que é o de, juntamente com eles, produzir um projeto cultural e trabalhar com pessoas do porte do Wilson Moreira.

Conto com a presença e a ajuda de vocês na divulgação deste projeto e em especial desta primeira, dia 18 de Maio às 22h00.

Ah, e só para constar... Tenho outros dois projetos em fase de planejamento com grandes amigos. Um é uma parceria com Guilherme Parmegiani, o Gênio, e Rômolo Ricci, o Sábio, o outro é com meus irmãos Valtinho e Daniel e a Tetê!
Acreditem, vocês não perdem por esperar!

7 de mai de 2007

Desculpas, agradecimento e indignação

Desculpas: Por estar atualizando o blogue apenas uma vez por semana. Vocês, meus ávidos dez leitores, têm me cobrado mais textos, mas a labuta tem me deixado sem muito tempo para escrever mais. O tempo livre nesta última semana foi para fins mais importantes, indispensáveis. Este turbilhão de trabalho acabará amanhã e terei mais tempo para o blogue!

Agradecimento: Para dividir uma alegria com vocês, fiéis. No dia 11 de Abril instalei um programa de busca por visita no blogue (role a barra até embaixo) e, para minha surpresa, hoje, dia 07 de Maio, 26 dias depois, ou seja, menos de um mês, o programa acusa 760 visitas. Um ótimo número para um blogue recém-nascido. É claro que eu devo ter acessado pelo menos a metade deste total, mas mesmo assim, é uma belíssima quantia.

Indignação: Na sexta-feira passada, dia 04 de Maio, completou-se 70 anos da morte do gênio Noel Rosa. Um brasileiro máximo que faleceu às vésperas de completar 27 anos, deixando uma obra fabulosa que ditaria os rumos da música popular a partir de então. Minha revolta é com o pouco caso que a merda da imprensa dispensa para com um dos nossos mais importantes símbolos, enquanto um evento de caráter mais-que-duvidoso como essa porra de Skol Beats, cheio de gente alienada, é ventilado em todos os meios. Um desastre, a imprensa.

1 de mai de 2007

Prova (de bosta) de amor

Ontem, domingo frio, eu, dolorido por causa do quebra-pau que fechou no jogo do Anhanguera (não apanhei, apenas errei um soco e acertei a trave, o que me causou um inchaço na mão direita – notem meu dom para as artes marciais), estava assistindo TV quando passei pelo programa Pânico na TV e deparei-me com uma matéria na qual a estonteante gueixa Sabrina Sato revelava o terrível trabalho dos limpadores de fossas, verdadeiros heróis que vivem, literalmente, trabalhando na merda. Assisti por alguns minutos, hipnotizado pelas três bundas e coxas e peitos (a japa e duas estupendas figurantes que desfilavam na tela).

Na hora lembrei-me de uma passagem trágica e cômica, prova irrefutável de amor por parte de Nelma (minha cunhada) à Angelo, meu irmão gêmeo. Para ilustrar melhor o que foi esta inconteste declaração amorosa, é preciso deixar claro que valeu muito mais do que qualquer outra demonstração afetiva, como fazer uma faixa de 5 metros com as escritas “Eu te amo” ou despejar toneladas de pétalas de rosas de um helicóptero sobre a casa do amado ou ainda cantar uma música de amor em público para o felizardo. Nelma fez muito mais que isso. Explico.

À época, o namoro não tinha completado três meses. Angelo, ainda usando a famosa carapuça de “homem-perfeito”, artimanha altamente corriqueira em se tratando de conquista, jamais havia arrotado ou emitido qualquer flatulência perto da amada, nem enfiado o dedo no nariz e muito menos tomado um porre. O rapaz era um lorde.

O fatídico dia foi num domingo. Estava meio frio. Almoço na casa da Nelma. Angelo, com arroubos de elegância, comprou flores e chocolates para a namorada, que, impressionada com o cavalheirismo do sujeito constatou: “Este é o homem perfeito. É aqui que vou amarrar meu burro!”.

É aí, caríssimos, que a vida nos mostra a crua e dura realidade, arremessando-nos impiedosamente ao mundo real e à definitiva constatação: ninguém é perfeito. A prova cabal veio em tom marrom e consistência pastosa.

Após o almoço, uma tremenda feijoada, toda a família (inclusive tios, primos e alguns amigos penetras) estava na sala tomando um cafezinho, assistindo a um jogo na TV e batendo papo e, provavelmente, falando mal de algum outro parente que não se fazia presente, hábito indelével de 9 entre 10 famílias. A feijoada estava tão deliciosa que o fino Angelo até perdeu um pouco do porte alinhado que o caracterizava quando junto da Nelma. Comeu dois belos pratos, tomou umas 8 latas de Brahma, chupou o osso da costelinha, palitou os dentes e até chegou a arrotar, ainda que de boca fechada, inflando as bochechas, cena que não passou despercebida pela apaixonada Nelma, que fez vistas grossas. Era um prenúncio. O portado moço sofreria a implacabilidade da natureza logo a seguir.

Um ronco esquisito na barriga anunciou o começo do processo. Logo em seguida, a palidez dominou seu rosto moreno e uma gota de suor escorreu timidamente, contornando a sobrancelha. Contrações de parto o faziam suar mais ainda. Angelo já estava desesperado. Antes de começar a se contorcer e sem que ninguém percebesse, foi disfarçadamente até o banheiro do andar de cima da casa, que estava em construção. Ele sabia, a essa altura, que se fosse a qualquer outro banheiro da casa, o odor do “alien” que estava dentro dele arrebataria a todos em questão de segundos. Sua nobre reputação estava em jogo.

Após meia hora de “serviço pesado” e um alívio maior do que sobreviver a um coreano enfurecido, começou o pesadelo.
Pausa: Nem o Angelo, autor da obra, agüentava o fétido odor que exalava. A privada foi terrivelmente castigada.

A sensação de alívio começou a se esvair no primeiro toque na descarga. O excremento, ao invés de descer, subiu seis centímetros. Uma expressão no rosto em tom de súplica calou o silêncio: “Ai, meu Deus. Faça com que funcione essa porcaria!”. Em vão.
O segundo toque na descarga elevou mais ainda a sujeira. Como ele não queria que ninguém percebesse o que estava acontecendo e não achando desentupidor algum, nosso herói foi obrigado a tomar a atitude mais nojenta e corajosa de sua vida. Respirou fundo, arregaçou a manga e - (não posso deixar de falar o indefectível “pasmem”) PASMEM - meteu a mão (até o cotovelo) na merda, tentando desentupir o vaso, amassando o que ainda estava sólido. Após o ato de bravura, o terceiro toque e a torcida, pensando: “Agora vai!”... Mas o troço subiu até borda.

Chorando de desespero e precisando de ajuda, soltou o grito da garganta: “Neeeeeeeelmaaaaa!!!!”. A moça, após subir a escada correndo, se depara com um Angelo sujo de merda até os cabelos, soluçando de chorar, soltando um muxoxo: “Não queria que você soubesse que eu precisava cagar. Olha o estrago que eu fiz!”...

E, num ato de amor, solidário, daqueles que só quem ama além dos limites é capaz, ela disse: “Calma, ninguém vai saber! Vamos limpar isso tudo, meu querido!”, deixando o enlameado amado mais tranqüilo. Nelma apertou a descarga com tudo e, como um vulcão em erupção, a lava de merda jorrava e caía no chão. Baldes e baldes de água e uma fábrica de sabão em pó foram consumidos para a limpeza.

Ao final da odisséia, tomado por um sentimento de vergonha, Angelo, um vaidoso nato, desceu as escadas em disparada, pulando de dois em dois degraus, e apenas gritou um “tchau” para os parentes da Nelma, que até hoje acham que ele saiu nervoso por causa de uma briga que os pombinhos travaram no andar de cima...
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