31 de dez de 2008

São Silvestre

Estive, de manhã, no trabalho, mas é bom deixar claro que "estar no trabalho" e "estar trabalhando" são coisas completamente distintas. Cocei, desde às oito da matina até o meio dia, o saco. Sendo assim, após acessar todos os sites imagináveis e digitar mil nomes de conhecidos, amigos e parentes no Google, resolvi escrever meu último texto do ano.

Mudei de emprego há vinte dias atrás. Voltei a trabalhar na Avenida Paulista, que será palco hoje à noite da virada paulistana, com shows esdrúxulos e a queima de fogos mais esquisita do Brasil. O pobre mortal que se desloca de vários cantos da cidade, coitado, deve sair daqui desiludido; quem, meu Deus, consegue ver os fogos com tantos prédios em volta? É, disparado, o pior programa para o ano novo. Eu, que não sou bobo, estarei bem longe daqui à zero hora.

Mas antes da meia noite, porém, mais precisamente a partir das três da tarde, tem a tradicionalíssima Corrida de São Silvestre. E é sobre ela, a corrida, que vai correr este texto. Não vou me ater à história da prova, nem ao seu idealizador, o jornalista Cásper Líbero, que essas coisas estão todas na rede, pra quem quiser saber. De minha parte, falarei do papel desempenhado pela Barra Funda na São Silvestre.

Não. Nunca nenhum representante do bairro cruzou a linha em primeiro; meu avô e seus amigos corriam, na década de 40, mas só pela participação. A Barra Funda, todos bem sabem, é um bairro central, de modo que faz parte do percurso da prova. Atentemos para um detalhe: o "México" (Barra Funda de baixo) é o palco. A Barra Funda além linha férrea, não. Esta parte do percurso, que passa pelo México, é exatamente a metade da corrida. Ali, ao descerem do Elevado, os atletas pegam a Norma Giannotti e atravessam as portentosas ruas Cruzeiro e Anhangüera para depois entrarem na Rudge e seguirem para o centro da cidade. Estão, via de regra, ainda inteiros – pelo menos o pelotão de frente.

Dentro de cada evento, no entanto, há sempre um motivo que preocupa sobremaneira os organizadores. No caso da São Silvestre, o assombro, o horror, a paúra da organização, da polícia, da televisão, é justamente a esquina da Giannotti com a Cruzeiro. Ali, ano após ano, concentra-se a assistência mais imprestável do percurso de 15 quilômetros. Mané Catapano, por exemplo, é um espécime dessa horda. São incontáveis bêbados, das piores matizes, juntos. Ano a ano, a segurança naquela esquina aumenta. A famosa fita amarela e preta não servia de nada; depois botaram três cordas (nas alturas do joelho, cintura e peito de um adulto), o que também não resolveu; depois a polícia apelou para uma pequena base montada ali, mas dois policiais não dão conta de uma matilha; até que, nos últimos dois anos, a esquina foi isolada e ficou sem assistência.

Nada que intimidasse os vagabundos, mesmo com todo ano um ou dois passando a noite de reveillón no xadrez; e justiça se lhes faça: o motivo dos transtornos, da bagunça e da revolta da turma da Barra Funda é um só: são grandes patriotas. Há também uma outra razão para a baderna que eles promovem: a torcida pelo Deley, o único barrafundense a correr a São Silvestre. Wanderley, o último remanescente da família dos tapeceiros, com sua tapeçaria na Rua Anhangüera, é um atleta; corre todos os dias, anda de bicicleta, joga futebol aos domingos, e trabalha duro, um incansável. Mas perto de um Paul Tergat, de um Simon Chemwoyo, de um Marílson dos Santos, é uma tartaruga, um aleijado. Sua melhor colocação foi um ducentésimo quarto lugar, há seis anos.

A torcida pelo Deley, como eu dizia, é um motivo secudário, de menor força. Os arruaceiros são é brasileiros, não admitem a vitória de um gringo, abrindo uma exceção altamente nobre: mexicanos. Arturo Barrios, por exemplo, bicampeão, em 90/91. Um brasileiro já não ganhava a prova desde 85, com José João da Silva, e um pigmeu chamado Rolando Vera, equatoriano, era o atual tetra campeão. Não tinha pra ninguém, o baixote Vera corria à vera, deixando os pobres brasileiros comendo poeira e a assistência da Barra Funda pê-da-vida. Eis que, em 90, surge Arturo Barrios e liqüida a fatura. A vitória do mexicano, para que todos saibam, foi definida onde? Justamente na Barra Funda, no "México"! Quando os rudes, na esquina da Cruzeiro, viram o Barrios, deram gritos de incentivo, tapinha no bumbum e água (não era água em copinho, mas jato de mangueira). Era o representante do México e, sendo assim, da Barra Funda, na liderança. Com a brasileirada em farrapos, Arturo Barrios virou herói no bairro.

Depois dessa fase, vieram os quenianos. Daí em diante, amigos, só deu eles. Nos últimos dezesseis anos, apenas cinco canarinhos e um etíope ergueram a taça; de resto, só Quênia, Quênia e Quênia. Imagino que, para um brasileiro, ver um queniano se aquecendo antes da corrida seja o mesmo que foi pra mim, na primeira prova de vestibular que prestei, atentar para um japonês cabeçudo ao meu lado apontando um lápis. Naquele momento, antes de pensar no Pitágoras, eu bombei.

No ultimo dia do ano, não há maior inimigo da Barra Funda que um queniano. Paul Tergat, por exemplo, quando dobrava a Giannotti, ouvia xingamentos de todos os tipos; em português, italiano e inglês. Mas isso era pouco. Chegaram a arremessar tomate no homem. Na torcida tinha um e outro que enganava os atletas. Tinha um que botava cachaça no copinho de água pra dar pros gringos, isso antes de inventarem os "postos de hidratação". Um dia deu o copo pra um neguinho que vinha bem na corrida, achando que o crioulo era queniano. Foi o neguinho jogar a "água" na cara e lamber o beiço para, ainda correndo, virar o pescoço em direção à esquina, onde se amontoavam os vikings, e mandar um: "Vão se foder, seus filhos da puta!". A estratégia da pinga foi abolida.

Com o passar dos anos, muita gente deixou de ir pra Rua Cruzeiro ver a corrida, já que só dava os quenianos. Para tranquilidade da organização, dos atletas gringos, da polícia, a turma que se juntava ali se desfez; hoje restam quatro ou cinco. Mas há uma pessoa que sente a falta da horda e, sem ela, sabe que não terá chance alguma de levantar a São Silvestre para o Brasil e, mais, para a Barra Funda: Deley. Será, hoje – ele me confidenciou – sua última corrida. Sem torcida, não haverá motivação. Inclusive não completará a prova. Vai correr apenas até a gloriosa esquina.

E se não der um brasileiro na cabeça hoje, amigos, que seja um mexicano.

24 de dez de 2008

Zulu

Compungido, embargado, triste. É assim que sou hoje, véspera de Natal de 2008. Dona Maria, 90 anos, muito mais que eu. Hoje à tarde será realizado o enterro de seu único filho, meu amigo e tio (me chamava por sobrinho) Antonio Carlos Apolinário.

Meu querido Zulu era, acima de tudo, um profundo conhecedor da Vida e do Tempo. Não apenas por ser um homem religioso, temente a Deus; mas por ser dotado de um estigma divino, o de reconhecer o que lhe chegava não só aos ouvidos e ao tato, mas, principalmente, à alma. Zulu era apaixonado pela Vida, pelos amigos, pela noite e pela bebida. Esta última, aliás, que insistirão em dizer e teimar ter sido seu algoz, cruel e vil assassina, é que foi, em verdade, sua amante, seu esteio e seu bem-querer. Um homem que não tem uma mulher é, indubitavelmente, um solitário.

Zulu é o mais constante personagem deste miserável blogue - e isso nunca valeu como homenagem! – porque há na sua passagem um peso de mais, porque suas belas histórias vazavam-lhe pelos poros, e porque sua presença era sobrecarregada de uma magia indescritível. Mas de mim, não acreditem em nada, não; estejam na Casa Verde, na Barra Funda, estejam com quem, com ele, dividiu uma mesa de bar, com alguém que tenha tomado uma bronca – não era de alisar – ou que tenha apenas presenciado Zulu solicitando as milhares de saideiras ao Mauro; pedia apenas um "dedal" de cachaça pra não pesar a consciência de pedir uma dose inteira (o problema é que tomava dez, quinze "dedais" no fim da noite).

Em princípio não vou deixar de escrever sobre meu dileto amigo, não hesitarei em narrar mais causos dos tantos que sei dele, todos devidamente contados à mesa do bar, na Rua Dobrada. Lá que uma ou duas vezes por semana estava eu pra beber do prazer que era estar com Zulu. A última foi há duas semanas e me deixou muito preocupado. Zulu, mais pesado e inchado que nunca, mal conseguia dar dois passos sem ter que parar, recuperar o fôlego. Pra entrar no carro, aquele custo. Mas à mesa destilou a categoria de sempre. Falamos basicamente sobre trabalho, com o homem contando sua época de banco quando foi gerente de agência do Unibanco durante quinze anos - e apenas com terceiro ano primário, o que seria impossível de vinte anos pra cá.

O que mais me encantava era que Zulu é desses que, falando de trabalho, de mulheres, de futebol, de cachaça, de racismo, de política ou de qualquer outra coisa, transpõem os limites do assusto dando-lhe uma carga imensa de humanidade, inserindo-lhe ou tirando dele uma lição, uma conclusão que fazia questão de transmitir aos mais novos, com um detalhe: a quem quisesse ouvir, porque Zulu sabia que, para alguns, não adiantaria gastar a saliva.

Ditinho é um caso clássico. É um rapaz de dezenove anos que mora perto da Dobrada. Seu pai, morreu na cadeia; seus irmãos mais velhos também todos em cana; sua mãe, com mais cinco filhos mais novos que ele, um de cada pai. Zulu, durante anos a fio, tentou "trabalhar" o garoto. Comprava material escolar, queria ver as notas e não gostava de ver o moleque na rua. Até o dia em que Ditinho, bêbado, estranhou-o, solicitando com veemência e ódio uma nota de cinco mangos. Zulu largou de mão.

De dois anos pra cá, que é quando comecei a escrever e registrar algumas histórias por aqui, Zulu, meu grande amigo Zulu, interpelava-me ao final de algumas: "não vá escrever isso!", "isso não pode". Em uma dessas tantas noites, o negrão me pediu: "essa, filho, escreva no dia em que eu morrer". E vos confesso que choro neste momento como chorávamos naquela noite, embriagados, falando de amores.

Zulu teve um, e não mais que um único e inesquecível amor na vida. Uma mulher que passou pelo seu caminho há trinta e cinco anos atrás. Graças a ela e desde ela Zulu se auto-proclamou um "otário" pro resto de sua existência. Outras mulheres vieram, farras, saunas, zonas, amigas, namoradas; a última sendo a Augusta, há uns dez anos, mas nenhuma fez cócegas perto do que o homem sentiu pela Cristina, uma lourinha do interior, prostituta de uma boîte na Bento Freitas. Com lágrimas borbulhando, admitiu que não a reconheceria depois de tanto tempo, mas que gostaria que ela aparecesse ali, naquela hora, e que tudo explodisse, inclusive eu.

Na tal boîte, Zulu e alguns amigos do Bom Retiro batiam ponto diariamente na época. Dava cinco da tarde e lá estava ele, no bar da esquina. O gerente da casa era camarada, o que lhes dava o direito de entrar sem couvert, só pagando o "bebum". Cristina, a mais linda de todas – e mais jovem -, era o xodó da casa; em teoria só dançava, mas acabava "subindo" com quem lhe desse um dinheiro pesado, coisa que acontecia muito raramente. Zulu, um duro, ficava no balcão hipnotizado, vendo o show. Via com os olhos e lambia com a testa. Só que a moça gostou do negrinho e Zulu passou a ser o único homem com quem Cristina ia pros finalmentes.

O ego do malandro foi nas nuvens, e não era pra menos. Zulu jamais foi mulherengo, não era de ter sorte com as damas. Ele se salvava, e só. Mas estava com a mais linda das meninas da Bento Freitas a seus pés. E o medo, travestido de malandragem, tomou conta do crioulo. Continuou, sem se abater e se mostrar empolgado, bebendo no boteco em frente à zona. A Cristina dançava; ao final do expediente encontrava-o no bar e iam namorar. Com algum tempo passado, a moça começou a cobrar-lhe uma posição definitiva; queria casar, largar aquele mundo e cuidar dos filhos e da casa de Cacá – era assim que ela o chamava. Mas nosso herói era "malandro", era um homem do mundo, estava seguro de que a moça estaria sempre ali, e continuou na mesma ladainha boteco-motel que já durava quase um ano.

Uma bela tarde, porém, quando desceu do ônibus e dobrou a esquina da Bento Freitas, avistou Cristina entrando no carro de um japonês e indo embora. Foi a última vez que a viu, e a primeira que chorou e se angustiou por causa dela. Passou, então, a se declarar um otário, um idiota completo, porque a amava e sabia disso.

Gostaria, sinceramente, que este causo da Cristina fosse o último que eu escrevesse sobre o homem, daqui uns vinte anos no mínimo, quando ele estivesse com setenta e nove, oitenta. Não imaginava, tão cedo, essa doce prostituta, mulher do meu amigo, ser o motivo do texto. Se Deus quis assim eu não sei, mas sei que o Zulu quis, andava cansado.

Estou saindo de casa agora, em direção à Dobrada, onde um exército de amigos aguarda notícias sobre seu sepultamento. Onde ontem, aliás, Zulu, com todas as dificuldades que o aplacaram de três meses pra cá esteve bebendo, como que numa despedida programada. O mundo dos homens perde sem a sua presença. Eu, sendo mais um, tão pequeno, vou seguindo. Um dia, querido, havemos de nos encontrar no Orum.

E desce mais um dedal!

17 de dez de 2008

Anhangüera dá Samba XVIII

O ano vai chegando ao seu final, o segundo ano de Anhangüera dá Samba!. Sempre, na última semana do mês, aquela correria com bebidas, equipamento de som, convidados especiais e outras coisas necessárias para a realização do samba. Não há, porém, ninguém que trabalhe, para que tudo corra tranqüilamente, nos triques, mais que meu pai, o bom Mimi. É ele quem segura umas broncas que eu, por conta de um cotidiano que não me flexibiliza de dia, não daria conta. A gente resolve muita coisa por telefone, mas quem arranja o troco, compra as miudezas no mercado, controla as fichas e ainda por cima fica a noite inteira no caixa, é o velho. Por isso, e se estou aqui escrevendo mais uma vez e pela décima oitava vez sobre o assunto, deixo registrado publicamente meu eterno agradecimento ao velho.

Quando eu disse que "para que tudo corra tranqüilamente, nos triques", devo fazer uma ressalva. Graças a meu pai, o samba que já tem um tempinho de existência, quase perdeu a invencibilidade no que se refere à confusões, brigas, essas bossas tão inerentes a ele, um varzeano de nascência. Uma vez, por causa de cinqüenta centavos, quase estalou um "camarada" seu do bairro, de infância. Tudo porque a lei que vale para meu pai é a de que "o que é certo, é certo". Se pedir com jeito, do tipo: "olha, senhor, está faltando uma moeda pra eu tomar minha décima cerveja da noite", é claro que Mimi vai liberar. O que não vale, o que não é admitido, é nego querer levar vantagem.

Voltando ao samba. Recebemos, em Novembro, o João Borba. Mas por um triz, quase que não. Sua apresentação, que estava marcada para a 1h, começou as 3h. Depois de o carro ter enguiçado, Borba se perdeu nos meandros do Bom Retiro. Ao chegar foi direto pra roda do samba, até as 4h, quando encerrou a noite em grande estilo, cantando muito samba de São Paulo, sua especialidade. Durante a espera, porém, os Inimigos do Batente estraçalhavam. A noite inteira. Afortunados que somos, as 2h fui convocado pelo Bira à portaria do clube. Estava lá, devidamente uniformizada, uma turma da pesada do Peruche, liderada pelas viscerais cantoras Denise Carvalho e Bernadete, que acalmaram os ânimos daqueles que perguntavam pelo Borba.

O vídeo com o Borba cantando em breve estará disponível.

Sexta feira, dia 19, tem a última edição do ano. A convidada, conhecida de longa data, e que nos prestigia sempre que pode, será a majestosa Dona Inah. Sua voz bem definiu o Paulo Cesar Pinheiro: uma voz natural, intuitiva; nada é muito trabalhado. D. Inah vive grande fase; acaba de lançar seu segundo disco, Olha quem chega, com músicas de Eduardo Gudin (quem sabe se ele não dá o ar da graça?), um disco obrigatório. Enfim, não há histórico que eu escreva aqui que descreva a força da presença de D. Inah. É estar sexta feira lá pra ver. Deixo um áudio de D. Inah cantando Qual foi o mal que eu te fiz?, da monstruosa dupla Cartola-Noel Rosa, gravada em seu primeiro disco.

Por causa de uma falha no programa que eu subo o áudio, também o disponilizarei assim que puder. Perdoem nossa falha.
Até sexta!

15 de dez de 2008

Pela segunda vez, quase

O II Campeonato de Veteranos, para craques com mais de 50 anos, chegou no sábado passado ao seu final. Um torneio que privilegia a técnica, o toque de bola e a categoria. Uma peleja em que quem corre mais é a bola. A organização mais uma vez foi precisa, comprovando o tino do rubro negro da Barra Funda, um clube competente em tudo o que se propõe a fazer. A louvável iniciativa de Luiz Sardinha no ano passado teve sua reedição neste e já é, de longe, a maior competição de futebol veterano da cidade.

Maior não no número de times, mas sim na qualidade, na técnica e, sobretudo, na emoção. Sábado, por exemplo, a final. Foi um jogo daqueles de matar do coração. Houve um torcedor afoito que sentiu dores no peito, falta de ar e terríveis crises nervosas de tremedeira. Falando em torcida, havia tempo que eu não via o campo tão cheio. Uma arquibancada até que cairia bem! Tinha gente forrando todo o alambrado, nas laterais, nos fundos. Três fileiras de gente; nego subindo no outro pra ver um lance de mais perigo.

O Campeonato durou três meses, com doze times. Na primeira fase, duas chaves de seis. A segunda com duas de quatro. Depois semi-final e final. Sempre aos sábados, o que acabou interrompendo a tradicional caxeta na grande mesa redonda, em preto e vermelho.

Como sou parcial e fanático, falarei aqui da campanha da Associação Atlética Anhangüera. Uma caminhada bem diferente do ano passado, quando ruímos na semi final. Montamos, em 2007, um esquadrão, ganhávamos todos os jogos. Ninguém questionava nosso favoritismo. Porém, na semi, invictos, perdemos e caímos fora. Uma tragédia do porte daquela canarinho vinte e cinco anos antes.

Este ano, porém, desde o começo, foi o contrário. Arnaldo, o técnico, assumiu o cargo exclusivamente para o campeonato e conseguiu, aos trancos e barrancos, levar o time à finalíssima. Com um quadro infinitamente mais vulnerável que o do ano passado, o Anhangüera alçou a camisa. O ponto alto do time foi a garra e, mais, a sorte. O último jogo da segunda fase é o maior exemplo. Ganhávamos de um a zero do Paulista, o campeão da primeira edição, e jogávamos pelo empate para classificar à semi. Virou o jogo e o time pareceu ter um mau-súbito. Sem fôlego, sem forças, encurralados na nossa área, vimos o time do Lalo empatar com um gol de pênati. No último minuto outra penalidade que nos eliminaria com justiça porque o Paulista jogava mais. O tiro na trave me deu a certeza de que seríamos campeões.

A semi-final, contra o Vasquinho da Casa Verde (o time de Serginho Chulapa e Mossoró), também não foi um prélio para cardíacos. Dois a dois no tempo normal e cinco a três para nós nos pênaltis, com o becão Cabeção arrombando a rede em um deles. Estávamos no jogo decisivo, mas do outro lado, na decisão, o Olaria da Casa Verde Alta, considerado o bicho-papão deste ano. Os caras montaram um time de jogadores históricos da várzea paulistana, verdadeiros craques, boleiros de fina estirpe. Isso já era um fator psicológico, uma vantagem. Onde morou outro problema: o rubro-negro vinha, a cada partida, perdendo um, dois atletas lesionados. O Nariz, nosso presidente, que é o cérebro do meio campo, sofreu uma pontada aguda no ciático ao amarrar a chuteira, minutos antes do jogo. Ficou de fora; assim como Donizete, artilheiro do campeonato, que estava suspenso justamente para o jogo de maior importância, uma perda irreparável.

Arnaldo, sabendo da implacabilidade da linha adversária, armou um time defensivo, com três volantes: Ville, Moisés e Tiquinho, deixando o Marquinho, que é uma espoleta, no banco. Começou o jogo e o que se viu foi, que eu me lembre, a pior atuação dos nossos veteranos. O Anhangüera estava, visivelmente, em choque. A linha do Olaria, com Nica, Pelé, Pelezinho e Marginal estava, pra piorar, inspiradíssima. Um parêntese, que só percebi agora, ao descrever a linha do time celeste. Um time que tem dois Pelés não perderia jamais. Montar uma esquadra com Pelé e Pelezinho definiu o campeonato antes mesmo dele começar.

Pelé, um negrão robusto que ano passado jogou o campeonato para nós (e foi alvo da torcida, que o chamava de traíra), meteu um golaço - numa grande jogada de Nica - aos dez minutos de jogo, despertando a total falta de noção e excesso de coragem do Marginal, o ponta esquerda, que saiu gritando um “chupa!” para a assistência da Barra Funda, que estava atrás do gol. Passou a ser então o alvo único, a obstinação da massa, que num primeiro momento tentou pular o alambrado para esgoelá-lo. Ao ser impedida, gritava para Cabeção e Mimi quebrarem o Marginal no meio.

Mais três minutos e, numa falha da nossa zaga, dois a zero. A turma da Casa Verde Alta, que não gosta da Barra Funda, comemorava com galhardia. Nós, amuados, mudamos o rumo dos nossos berros para Arnaldo, exigindo mudanças no time. Virou o jogo assim, com o rubro negro tremendo nas bases e o Olaria desfilando. O time azul seguia aos comandos e o ritmo de Pelezinho, o homem do jogo, uma figura de extrema classe e um ímpeto assustador. Aos 59, o pretinho magérrimo corre como um menino, dá passes de calcanhar, de letra, de três dedos. Dominou o meio de campo de um jeito que eu jamais vi. Parecia ser dois, três, aquele puto! Era o Pelezinho pegar na bola pra tensão tomar conta do nosso time e da torcida. Não havia uma segunda bola, uma sobra, que a redonda não o procurasse.

Com a entrada de Marquinho e Tadeu no segundo tempo, ganhamos em vontade. Num escanteio, com uma bobeada do goleirão, diminuímos o placar e a esperança voltou, junto dos gritos de incentivo. Ville, na minha opinião um jogador necessário, o único que intimidava o adversário, tanto pelo futebol como pela cara feia, se machucou e saiu. Quem adivinhar quem entrou em seu lugar ganha um doce. Ele, Sidnei Caran, o Nariz. Não agüentando apenas assistir, nosso presidente, com arroubo de salvador da pátria se trocou no intervalo. Mesmo torto, com “as cadeira” comprometida, deu outra cara ao time. Seus passes fizeram o Anhangüera ter mais penetração e ser mais incisivo. Não fosse a colossal barriga do nosso ponta esquerda Beto Carioca, que o desequilibrou no momento crucial do chute, teríamos empatado. Por um momento o Olaria se perdeu em campo. Mas numa arrancada de Nica, Cabeção, além de enfiar-lhe a botinada por trás, o pisou e foi pro chuveiro mais cedo.

No banco, Tatu aguardava o momento de entrar. Na torcida, alguém profetizou que seria ele, Tatu, do alto de seu um metro e meio, que salvaria o Anhangüera com um gol de cabeça. Mas o baixote entrou e nada fez, se não errar uns passes. A verdade é que o Olaria se recompôs e voltou a jogar. Na zaga, o capitão Zelão era uma muralha inexpugnável. No meio campo, dando suporte à Pelezinho, Mosca marcava, combatia, se esganava. E nós acabamos desmoronando na tentativa desesperada do empate. Nos contra-ataques, Nica fez o terceiro e Pelezinho o quarto, definindo o título.

Há que se reconhecer a superioridade absoluta do adversário. Grêmio Recreativo Olaria da Casa Verde Alta Futebol e Samba é hoje o grande time de veteranos da cidade, do país, do mundo! E ano que vem estaremos lá, empunhando a bandeira rubro negra, soltando rojões e esperando o título que passou perto.

Por fim, como acontece em toda final de campeonato, durante um bom tempo após o jogo a torcida entristecida comentava o duelo, cornetava o técnico e ainda xingava o Marginal – que depois se desculpou. Entre um e outro comentário, recostado no alambrado, Marinho Italianinho, grande ponta de lança do Anhangüera, no auge dos seus trinta e oito anos, lamentou não ter podido participar do campeonato: “Ai, que saudade dos meus cinqüenta anos”...

4 de dez de 2008

Uma passagem da várzea...

Compartilho um e-mail que recebi do camarada João Augusto Barbosa, irmão mais novo e a fuça do grande Tião Preto. João é varzeano nato, criado nas peladas e nos sambas da cidade. Um leitor que, aliás, eu nem sabia ter. Antes de mais nada, preciso enfatizar que o propósito deste humilde blogue é o de imortalizar algumas histórias das coisas que me vêm no sangue e na alma, como o futebol de várzea, a Barra Funda – e região - e seus personagens históricos, uns causos do samba contados pelos velhos pretos e, às vezes, uma ou outra particularidade.

João escreveu-me uma famosa passagem, da qual já ouvi muito falar. Ali está um pouco de tudo o que venho registrando aqui há quase dois anos. Este "causo", sucinto, arrebanha a relação umbilical futebol-samba, a especulação que vem acabando com os campos há tempos, a homenagem aos times grandes (com a infinidade de “inhos” na várzea), os festivais e a “pegada” do Cruz da Esperança, um time da pesada.

É a primeira vez que publico uma história que alguém me escreve por livre e espontânea vontade. Assim fica fácil; a gente agradece. Diz aí, João:


Favela, meu cumpadi.

O CORINTHIANS DE SÃO FRANCISCO F.C., salve, salve, foi fundado por um pessoal da antiga da Vila Yara, em 07-09-1949, quando Osasco ainda pertencia a São Paulo. A emancipação foi em 1962. O Campo era onde hoje se situa o Shopping Continental, mas a especulação imobiliária fez sua parte, já naquela época, e acabou com o campo. O pessoal do Corinthinha, capitaneado pelo Bijão, seu presidente, foi ter com, nada menos, a Condessa Matarazzo, que era dona de quase tudo aqui. E a Condessa doou o terreno pro Corinthinha fazer um campo, onde está até hoje, com a graça de Deus.


Pois bem. O Corinthinha sempre foi famoso em Osasco, São Paulo e na região pela qualidade do seu time, pelo samba de primeira e por ser um time briguento. Aqui se ganhava na bola e no pau. E muitas vezes isso revoltava e envergonhava alguns de nós, mas era uma coisa mais ou menos "perdoada". Num sábado de sol, dia de festival, o barzinho do barranco, onde também ficavam os vestiários de madeira, cobertos por Eternit, estava lotado. Lotado. E o samba comandado pelos irmãos Bijão e Sabino comia solto. Na Roda Tião Preto, Tamba no surdo, Macalé na caixa, Urubu na outra caixa, Nei no reco-reco, Bijão no pandeiro, Sabino no agogô, Horácio no tamborim. Coisa linda.

No campo, o Corinthinha honrando sua tradição contra o Cruz da Esperança, comandado pelo irmão do Basílio e que além do Basílio, da Portuguesa, tinha um tal de Esquerdinha. Nosso time tava bem, mas o adversário era bom; e um juiz “da casa", famoso por ajeitar uns pênaltis e resultados, além de arrumar muita confusão, deu um pênalti. Os meninos do adversário chiaram e o juiz deu uma porrada no capitão do CRUZ, um negro bacana, espigado, que tinha ficado no samba o tempo todo.

Possivelmente, avisados da fama do Corinthinha, o Cruz veio preparado com um monte de carros e dois monoblocos. Menino, o pau quebrou e o prejuízo foi todo do Corinthinha. Muitos dos valentões de sempre correram. Eu, moleque, tinha jogado no dente-de-leite. Por via das dúvidas, joguei minha chuteira atrás do muro de um vizinho do campo e só fiquei de testemunha. Teve nego que saiu pelo telhado do vestiário. O juiz provocador tomou um sapeca que quase morre. Até hoje se fala nessa coça...
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