24 de dez. de 2008

Zulu

Compungido, embargado, triste. É assim que sou hoje, véspera de Natal de 2008. Dona Maria, 90 anos, muito mais que eu. Hoje à tarde será realizado o enterro de seu único filho, meu amigo e tio (me chamava por sobrinho) Antonio Carlos Apolinário.

Meu querido Zulu era, acima de tudo, um profundo conhecedor da Vida e do Tempo. Não apenas por ser um homem religioso, temente a Deus; mas por ser dotado de um estigma divino, o de reconhecer o que lhe chegava não só aos ouvidos e ao tato, mas, principalmente, à alma. Zulu era apaixonado pela Vida, pelos amigos, pela noite e pela bebida. Esta última, aliás, que insistirão em dizer e teimar ter sido seu algoz, cruel e vil assassina, é que foi, em verdade, sua amante, seu esteio e seu bem-querer. Um homem que não tem uma mulher é, indubitavelmente, um solitário.

Zulu é o mais constante personagem deste miserável blogue - e isso nunca valeu como homenagem! – porque há na sua passagem um peso de mais, porque suas belas histórias vazavam-lhe pelos poros, e porque sua presença era sobrecarregada de uma magia indescritível. Mas de mim, não acreditem em nada, não; estejam na Casa Verde, na Barra Funda, estejam com quem, com ele, dividiu uma mesa de bar, com alguém que tenha tomado uma bronca – não era de alisar – ou que tenha apenas presenciado Zulu solicitando as milhares de saideiras ao Mauro; pedia apenas um "dedal" de cachaça pra não pesar a consciência de pedir uma dose inteira (o problema é que tomava dez, quinze "dedais" no fim da noite).

Em princípio não vou deixar de escrever sobre meu dileto amigo, não hesitarei em narrar mais causos dos tantos que sei dele, todos devidamente contados à mesa do bar, na Rua Dobrada. Lá que uma ou duas vezes por semana estava eu pra beber do prazer que era estar com Zulu. A última foi há duas semanas e me deixou muito preocupado. Zulu, mais pesado e inchado que nunca, mal conseguia dar dois passos sem ter que parar, recuperar o fôlego. Pra entrar no carro, aquele custo. Mas à mesa destilou a categoria de sempre. Falamos basicamente sobre trabalho, com o homem contando sua época de banco quando foi gerente de agência do Unibanco durante quinze anos - e apenas com terceiro ano primário, o que seria impossível de vinte anos pra cá.

O que mais me encantava era que Zulu é desses que, falando de trabalho, de mulheres, de futebol, de cachaça, de racismo, de política ou de qualquer outra coisa, transpõem os limites do assusto dando-lhe uma carga imensa de humanidade, inserindo-lhe ou tirando dele uma lição, uma conclusão que fazia questão de transmitir aos mais novos, com um detalhe: a quem quisesse ouvir, porque Zulu sabia que, para alguns, não adiantaria gastar a saliva.

Ditinho é um caso clássico. É um rapaz de dezenove anos que mora perto da Dobrada. Seu pai, morreu na cadeia; seus irmãos mais velhos também todos em cana; sua mãe, com mais cinco filhos mais novos que ele, um de cada pai. Zulu, durante anos a fio, tentou "trabalhar" o garoto. Comprava material escolar, queria ver as notas e não gostava de ver o moleque na rua. Até o dia em que Ditinho, bêbado, estranhou-o, solicitando com veemência e ódio uma nota de cinco mangos. Zulu largou de mão.

De dois anos pra cá, que é quando comecei a escrever e registrar algumas histórias por aqui, Zulu, meu grande amigo Zulu, interpelava-me ao final de algumas: "não vá escrever isso!", "isso não pode". Em uma dessas tantas noites, o negrão me pediu: "essa, filho, escreva no dia em que eu morrer". E vos confesso que choro neste momento como chorávamos naquela noite, embriagados, falando de amores.

Zulu teve um, e não mais que um único e inesquecível amor na vida. Uma mulher que passou pelo seu caminho há trinta e cinco anos atrás. Graças a ela e desde ela Zulu se auto-proclamou um "otário" pro resto de sua existência. Outras mulheres vieram, farras, saunas, zonas, amigas, namoradas; a última sendo a Augusta, há uns dez anos, mas nenhuma fez cócegas perto do que o homem sentiu pela Cristina, uma lourinha do interior, prostituta de uma boîte na Bento Freitas. Com lágrimas borbulhando, admitiu que não a reconheceria depois de tanto tempo, mas que gostaria que ela aparecesse ali, naquela hora, e que tudo explodisse, inclusive eu.

Na tal boîte, Zulu e alguns amigos do Bom Retiro batiam ponto diariamente na época. Dava cinco da tarde e lá estava ele, no bar da esquina. O gerente da casa era camarada, o que lhes dava o direito de entrar sem couvert, só pagando o "bebum". Cristina, a mais linda de todas – e mais jovem -, era o xodó da casa; em teoria só dançava, mas acabava "subindo" com quem lhe desse um dinheiro pesado, coisa que acontecia muito raramente. Zulu, um duro, ficava no balcão hipnotizado, vendo o show. Via com os olhos e lambia com a testa. Só que a moça gostou do negrinho e Zulu passou a ser o único homem com quem Cristina ia pros finalmentes.

O ego do malandro foi nas nuvens, e não era pra menos. Zulu jamais foi mulherengo, não era de ter sorte com as damas. Ele se salvava, e só. Mas estava com a mais linda das meninas da Bento Freitas a seus pés. E o medo, travestido de malandragem, tomou conta do crioulo. Continuou, sem se abater e se mostrar empolgado, bebendo no boteco em frente à zona. A Cristina dançava; ao final do expediente encontrava-o no bar e iam namorar. Com algum tempo passado, a moça começou a cobrar-lhe uma posição definitiva; queria casar, largar aquele mundo e cuidar dos filhos e da casa de Cacá – era assim que ela o chamava. Mas nosso herói era "malandro", era um homem do mundo, estava seguro de que a moça estaria sempre ali, e continuou na mesma ladainha boteco-motel que já durava quase um ano.

Uma bela tarde, porém, quando desceu do ônibus e dobrou a esquina da Bento Freitas, avistou Cristina entrando no carro de um japonês e indo embora. Foi a última vez que a viu, e a primeira que chorou e se angustiou por causa dela. Passou, então, a se declarar um otário, um idiota completo, porque a amava e sabia disso.

Gostaria, sinceramente, que este causo da Cristina fosse o último que eu escrevesse sobre o homem, daqui uns vinte anos no mínimo, quando ele estivesse com setenta e nove, oitenta. Não imaginava, tão cedo, essa doce prostituta, mulher do meu amigo, ser o motivo do texto. Se Deus quis assim eu não sei, mas sei que o Zulu quis, andava cansado.

Estou saindo de casa agora, em direção à Dobrada, onde um exército de amigos aguarda notícias sobre seu sepultamento. Onde ontem, aliás, Zulu, com todas as dificuldades que o aplacaram de três meses pra cá esteve bebendo, como que numa despedida programada. O mundo dos homens perde sem a sua presença. Eu, sendo mais um, tão pequeno, vou seguindo. Um dia, querido, havemos de nos encontrar no Orum.

E desce mais um dedal!

19 de set. de 2008

Convocação neg(r)ada

Muita gente me pergunta por que falo tanto de Antonio Carlos Apolinário, o Zulu. Querem saber quais os motivos que me fazem lhe dedicar tanta atenção. Minha resposta, a mais óbvia possível, é direta; porque o negro é meu amigo. Há, no entanto, algumas ressalvas. Zulu é amigo de meu pai há quarenta anos. Lembro-me com cinco, seis anos, batendo bola com meu gêmeo, o Angelo, já estafados, sujos de barro, apenas esperando meu pai terminar o bate papo com aquele negrão carinhoso para irmos embora. Éramos sempre os últimos a deixar o Anhangüera. Zulu era o dono do bar do clube. Meu pai - como eu faço hoje -, após jogar futebol e depois caxeta, se deixava levar por essa coisa que sou apaixonado; o balcão de um bar e um homem do quilate do Zulu sendo seu amigo, relembrando histórias e bebendo, como sempre. Sendo Zulu amigo de meu pai e me vendo crescer, ficou tudo mais fácil. Para ter carinho por mim estavam dispensadas todas as apresentações.

Foi na minha adolescência que comecei a sacar o proceder do homem. Zulu é daqueles que falam apenas o necessário, o que não significa que não gosta de falar. Eu, por exemplo, já virei incontáveis noites em sua companhia, fazendo o que meu pai fazia nas tardes de sábado quando eu era um fedelho. A questão é que Zulu não joga conversa fora. Exigente demais, a ponto de ser considerado por muitos – e faz questão! - um chato, o crioulo fica extremamente mal humorado se o papo fica “esquisito” e não hesita em ignorar solenemente um verdadeiro chato. Faz questão, na verdade, de falar das coisas que realmente importam – pra bom entendedor... Foi com ele que aprendi, entre muitas outras lições, que o ato de vadiar e de beber é coisa das mais sérias.

Como disse meu mano Bruno Ribeiro, as pessoas e as coisas orbitam ao seu redor. No Cruz da Esperança, por exemplo, havia festa todos os anos no Dia das Crianças; mais de mil infantes se faziam presentes para receber presentes. Era festa de gente, como todas as que o tradicional time organiza. Numa dessas, há uns quinze anos, o Basílio conseguiu, junto a um comandante da área, um helicóptero que partiria do Campo de Marte, ali pertinho, até o campo do Cruz levando pela primeira vez ninguém menos que o Papai Noel. O único Papai Noel preto da história. O bom velhinho, no entanto, teria que voar. Tomou coragem, mas tomou antes uma garrafa de cana pura. O nada convencional velho de vermelho, além da pele preta, estava devidamente trançando as pernas ao descer do helicóptero. Eu vi a cena; estava lá no meio daquela criançada. A molecada, quando liberada, se transformou numa horda furiosa e correu na direção do alcoolizado Noel. Os dois primeiros que pularam em seu colo o derrubaram e se formou uma montanha de crianças sobre o homem; seu saco foi saqueado sem dó. Eu credito, sem a menor sombra de dúvida, a insana atitude da molecada ao simples fato de não perceberem que se tratava do Zulu. O polar velhote não lhes dizia respeito algum, diferentemente do querido “Tio Zulu”.

Mas é no bar que Zulu atinge seu ápice. Este é o ambiente que o faz sangrar sapiência, que se faz necessária sua intervenção, sua bênção ou sua ira. Num caso clássico, há quase trinta anos, Zulu impôs seu respeito em uma resposta a Agostino Tomaselli, sujeito já afamado como um dos mais valentes da região. Eram colegas, e continuaram sendo após um curto período em que Agostino o acusou, injustamente, de negligência neste fatídico episódio. Vamos aos fatos. Houve um período em que, no Anhangüera, toda semana o pau comia durante os jogos. Cyborguinho, Tomaselli e principalmente Waldir, o Diabo, demonstrando a maior falta de respeito para com os visitantes, com ou sem motivo tratavam de arranjar uma briga com o time adversário. Enquanto a bola rolava, Zulu, Fofo, Zêpo, Betinho, Tatinha e mais alguns vagais ficavam bebendo e assistindo ao jogo que fatalmente acabava em pancadaria. Como o Anhangüera jogava em casa, com torcida, ficava fácil a coisa e os adversários indubitavelmente apanhavam. Um dia o Zulu cansou de apartar e decidiu dar um tempo; começou a beber aos domingos no tranqüilo bar da esquina Barra do Tibagi - Visconde de Taunay. Todos os que bebiam com ele no Anhangüera, evidentemente, o acompanharam. Passou um mês, passaram dois... E vida que segue. Em um desses domingos no buteco um carro deu um cavalo de pau na porta do bar; era o Tomaselli gritando, apavorado, e convocando a turma a ir imediatamente ao Anhangüera.

Aconteceu o que Zulu sabia que mais hora, menos hora aconteceria. Um time escaldado, sabendo da então nebulosa fama do rubro negro, lotou um caminhão e foi disposto a não abaixar a cabeça; o couro comeu com prejuízo dos grandes pro Anhangüera, pela primeira vez em número menor de baderneiros. Tomaselli imaginou que a turma do Zulu estivesse no buteco e que dariam uma boa ajuda; o Fofo era forte pra burro, o Betinho e mais uns dois eram bons de briga, e o Tatinha, o Zulu e o Zêpo pelo menos ajudariam a botar panos quentes. No mesmo instante da solicitação escandalosa do Tomaselli, alegando que “Fodeu, vamos pro campo que o bicho tá pegando!”, todo mundo se levantou esbaforido, menos o Zulu que gritou um estrondoso “Pára! Ninguém sai daqui!”. O bar calou e todos voltaram os olhos assustados para o homem que, sentado em seu trono e bebendo sua cachaça, deliberou:

- Todos os Domingos vocês batem nos caras e nunca nos convidaram a participar. Hoje, pra apanhar, você quer que a gente vá? Ninguém vai sair daqui. E você nem deveria ter vindo enquanto teus amigos estão lá. Volte logo pro campo pra apanhar junto deles.

A partir daí paz voltou a reinar e os domingos foram tranqüilos no Anhangüera. Do jeito que o Rei mandou.

22 de mar. de 2010

Malandro é malandro!

Definir a palavra “malandro” é tarefa ingrata: exige um grau de complexidade e responsabilidade que, sinceramente, prefiro deixar pra quem é mais malandro que eu. Mas uma das inúmeras definições – segundo o Houaiss - diz que malandro é um sujeito sagaz, arguto; ou seja: o bom malandro, o safo, o habilidoso. Neste quesito – e seguindo a linha do último texto – se enquadra perfeitamente uma monstruosa figura: Zulu!

Sou da opinião que algumas características nossas são inatas. No caso em questão, essa malandragem astuta é coisa que não se aprende, apenas se lapida. Se lapida na rua, nas experiências, nas dificuldades a que somos submetidos no dia a dia. É graças a elas que temos de nos virar e inventar um jeito pra dar um jeito.

Zulu era malandro! Primeiro, porque sempre ouvi gente de tudo que é métier dizer que era mesmo. Segundo: vi, com meus próprios olhos, cenas impagáveis, inacreditáveis da agudeza de espírito do homem. As histórias são muitas e eu prometi aqui que as contaria, mas fiquei um bom tempo sem escrever sobre o homem. Volto à carga.

Uma dessas histórias foi filmada pelo Daniel num domingo de junho de 2007, no Anhangüera. Talvez este vídeo seja o único em que Zulu aparece contando um bom causo, sua maior especialidade. Reparem na perspicácia do Daniel: Zulu não percebeu que estava sendo gravado – não gostava de câmeras filmadoras. No filme só aparecem Ângelo (meu irmão), Louquinho e Zulu, mas havia pelo menos mais cinco ou seis participando da conversa, inclusive eu.

O ocorrido narrado na gravação foi o seguinte: Zulu bebia no bar do Zêpo na Rua Barra do Tibagi; estavam no bar apenas os dois. Um negrão maior-que-uma-semana aparece, cheio de razão, pra cobrar uma dívida do dono do bar. Ao que parece, Zêpo levaria uns sopapos – e Zulu também, de graça. Começa uma discussão e o Zêpo, em algum momento, pede pro Zulu confirmar alguma coisa sobre sua procedência, essas coisas. O negrão recuou na valentia: “- O senhor é o Zulu?”.

Muito possivelmente o vagabundo se referia ao Zulu do Camisa Verde e Branco, nome conhecidíssimo e muito respeitado na cidade. Nosso Zulu, então, cresceu: “- Sou eu sim! Eu sou o Zulu, porra!”. O valente, cheio de dedos: “- Não, sabe o que é, Seu Zulu...”. “- Cala a boca, rapaz. Pede desculpas pro Zêpo! Agora vá embora daqui e nunca mais apareça!”.

Nosso amigo não mentiu. Ele era o “Zulu”: não aquele Zulu que o outro imaginou que fosse, mas foi a deixa pra que salvasse a pele do amigo – e a dele, conseqüentemente. A última frase do vídeo é hilária, coisa de chefe:

29 de ago. de 2007

Entrando na surra

Considero uma frescura a orientação para pais não baterem nos filhos com a alegação de que umas tapas podem causar traumas irreversíveis e transformar a personalidade do fulano, tornando-o tímido, introspectivo e sofrer de síndrome do pânico ou de perseguição, essas doenças “mudernas”. É claro que não precisamos voltar aos tempos da vara de marmelo, do cabo de vassoura e do milho para se ajoelhar, mas às vezes um simples beliscão ou um puxão de orelha se faz necessário. Eu mesmo cansei de levar homéricos beliscões de mamãe. Era doído! Já meu pai nunca deu uma bordoada em mim e nem em meus irmãos, mas só o olhar de reprovação dele era capaz de nos fazer mijar nas calças e nos transformar rapidamente em santos.

E para fazer valer essa introdução, vou falar de alguém que eu já falei por aqui, ícone maior da gentileza, respeito em forma de gente, malandragem nata e destreza etílica impressionante, o grande Zulu. Zulu é a prova incontestável de que umas cachaporradas em casa não fazem mal, pelo contrário. As qualidades deste notável homem chancelam o que quero dizer sobre as cacetadas paternas – no caso dele maternas. Vou exemplificar dois relatos, mas antes, curtos comentários para melhor entendimento: Zulu nasceu no final da década de quarenta e foi criado apenas pela mãe. Seu pai falecera quando ele era um recém-nascido. Moravam numa “casa de família” (abominável denominação) na Rua Eduardo Prado, nos Campos Elíseos, bairro de moradia da elite branca – também ponto de encontro de malandros e bambas do samba -, em que Dona Maria, sua mãe, era a cozinheira da casa, que ainda contava com mais quatro funcionárias. Todas negras.

A molecada toda do bairro brincava na rua e era subdividida por idades. Tinha a turma dos pirralhos de seis a oito anos (da qual o Zulu fazia parte essa época), a turma dos moleques de nove até uns doze e também a dos moleques maiores, até uns quinze. O Zezinho, que tinha doze, era terror dos pivetes. Judiava, batia, irritava a pirralhada. Numa certa tarde, Zezinho e mais dois amigos amarraram num poste o Zulu e mais dois meninos de seis anos. Porém, quando Zulu estava sendo amarrado, avistou Dona Maria vindo com uma sacola de compras na direção dele. A sensação de alívio bateu. Ele via se aproximando sua redentora particular e pensava: “Minha mãe está chegando e vai me proteger. Vai pegar o Zezinho!”. Dona Maria passou batida e fingiu que não o viu. Foi pra casa. Após muito custo, Zulu conseguiu se desvencilhar das amarras e foi pra casa. Chegando lá, levou uma surra.

O problema é que o Zezinho continuava aprontando e um dia, após tanto sofrimento, a bacurizada resolveu rebelar-se e armaram um plano. O plano era extremamente complexo. Dez moleques estavam devidamente amocambados. Um atrás de um poste, três no armazém do seu Mané, três atrás de um muro, dois dentro da lata de lixo, e até dentro do bueiro tinha um escondido. Era uma bela emboscada para pegar o Zezinho. E não deu outra. Quando o Zezinho passou, uma horda furiosa de pirralhos de sete anos o atacou. Conseguiram jogá-lo no chão e arrastá-lo pelo asfalto por vários metros, o que causou terríveis e ardidas escoriações nas costas do fedelho e surpresa para os pirralhos, que viram marca de sangue do Zezinho no chão, correram pras suas casas. A mãe do Zezinho, tremenda barraqueira, queria tirar satisfação com algum responsável por aquele ato bárbaro e escolheu, justamente, a mãe do único pretinho da turma, Dona Maria. Tocou a campainha e já foi logo dizendo: “Olha aí o que o teu filho fez com o meu!”. Zulu, já se encolhendo, sabia que viria chumbo do grosso. Ia apanhar legal da mãe de novo! Dona Maria apenas respondeu: “Seu filho, que amarrou o meu filho no poste outro dia, desse tamanho, apanhou? Então agora eles estão quites!”, e botou a mulher pra correr e não bateu no Zulu!

Alguns anos se passaram. Zulu estava com doze anos quando começou a fumar. E já trabalhava também. Certo dia, dona Maricota, a maior fofoqueira do bairro, o viu tragando um cigarro. Ele sabia que daria merda. Uma semana depois, num sábado, Zulu ajudava sua mãe com as compras na quitanda da Ribeiro da Silva, quando entrou a Maricota e, sem pestanejar e para o desespero de Zulu, disparou: “Dona Maria, a senhora sabia que seu filho está fumando? Eu vi.”. Quando Zulu pensava que apanharia bonito, ouviu a resposta da mãe, que já recolhia as sacolas para ir pra casa: “Meu filho trabalha e sustenta o vício dele e a senhora não tem nada a ver com isso. Passar bem!”. A sensação de alívio foi enorme para Zulu, que viu a fofoqueira de cara no chão. Saiu da quitanda todo pomposo e saltitante. No caminho, Dona Maria o repreendeu enérgica: “Eu tenho que saber as coisas por você, não pelos outros.”. Ao chegar em casa, o latebroso fumante levou uma senhora surra!

A Dona Maria, hoje com quase noventa, sabe das coisas!

11 de mar. de 2010

O melhor emprego do mundo

A Inglaterra foi o palco do nascimento do capitalismo. No começo do século XV começa a se forjar as bases do mundo louco em que vivemos. A ilha tinha – tem – uma boa topografia para plantações. O sistema feudal, aos poucos, foi indo pro beleléu. Resumidamente, cercaram as terras, destituíram pequenos proprietários e a plantação de subsistência deu lugar ao cultivo de produção.

Este processo - a chamada Revolução Inglesa - veio com tudo e uma burguesia emergiu. Seu poder a cada dia aumentava. A concepção de mundo e de vida foi virada de cabeça pra baixo: agora quem produzia riqueza para o país é que deveria ser valorizado socialmente. A escravidão, neste novo cenário, remava contra a maré: paguemos salários – miseráveis, mas salários – aos trabalhadores; eles agora são consumidores.

Os membros da nobreza, que até então tinham seus luxos sustentados através dos impostos pagos pela ralé, passam a ser chamados de “parasitas”. De lá pra cá é assim que é: quem não tem trabalho não tem nada: nem teto nem moral.

E sobre trabalho é que quero falar. Lembro que no ano passado uma notícia estampou jornais do mundo inteiro: “O melhor emprego do mundo!”. O tal emprego, que consistia basicamente em “cuidar”, durante seis meses, de uma ilha na Austrália cercada de corais, arrebanhou milhares de inscritos de 200 países e foi conquistado justamente por um britânico, a um salário astronômico de 105 mil dólares. Imagino que Robinson Crusoé deve ter se revirado no caixão; ele, um náufrago numa ilha durante inacreditáveis 25 anos, ganharia mais de cinco milhões de dólares, proporcionalmente.

O que Ben Southall – o louro aguado que ganhou o emprego – não sabe é que o melhor emprego do mundo foi de outro homem: Antonio Carlos Apolinário; ele mesmo, Zulu!

Zulu já havia sido gerente de banco durante mais de vinte anos e já fora dono de três bares quando foi trabalhar na empresa de um amigo, uma firma que fabricava peças para equipamentos médicos. Acho que era isso, mas também pouco importa. Zulu foi contratado como gerente financeiro, função que tirava de letra. A saúde financeira da empresa correria bem, não fosse um mero detalhe: o dono. Se não me engano, seu nome é Cláudio.

Cláudio é, segundo meu mestre Zulu, o homem mais burro do mundo, com um agravante: é um cordeiro da mulher, uma megera que se metia nos negócios da firma. Após dois anos aconselhando o Cláudio a aplicar “ali”, reduzir custos “aqui”, melhorar a operação “lá”, tudo evidentemente sem sucesso, nosso bom Zulu tomou uma decisão séria – que fez questão de avisar ao patrão da seguinte maneira: “- Cláudio, você é muito, mas muito burro! Daqui pra frente não faço rigorosamente mais nada.”. E foi assim durante os outros nove anos em que lá permaneceu.

Sua rotina era invejável! Atentem: chegava às nove e meia da manhã. Lia, esparramado na cadeira e com os pés sobre a mesa, o jornal O Estadão inteiro - inclusive as propagandas. Saia para almoçar ao meio dia e voltava às duas da tarde. Recostado na cadeira, tirava uma pestana até as três, horário em que ia embora para jogar tranca no bar do Mauro, na Rua Dobrada. Essa dura e estafante rotina era bem paga: 3.800 reais, gastos dignamente em cerveja, cachaça e cigarro – diferentemente do britânico da ilha, que levava uma insuportável vida saudável.

Cláudio, o amigo-patrão, não tinha coragem de demitir Zulu. Sua mulher, no entanto, contratou cinco diretores com a função primordial de botar o negrão no olho da rua. Em pouco tempo os caras acabavam ficando amigos do Zulu e o deixavam em paz – motivo que fez com que eles próprios fossem despedidos. Um desses diretores, porém, era casca dura e começou a dar tarefas para o homem que, evidente, não as cumpriu. O diretor, certa feita, foi chamar-lhe a atenção e ouviu a seguinte frase, dita em tom baixo, amigável: “- Fulano, passa este serviço pro Cláudio. E me faz um favor: me deixa quietinho aqui no meu canto”.

No fim das contas, Zulu acabou sendo despedido após desfrutar um feriado prolongado de nove anos. Abriu seu bar na Dobrada – que bebeu inteiro -, e faleceu poucos meses depois. Muita gente acredita que ficou desgostoso porque não tinha mais o emprego – e aí a gente volta lá no começo do texto, com a concepção de sociedade que valoriza apenas os “que produzem”. A questão é simples: ninguém gostaria de perder o melhor emprego do mundo, ora!

A essa hora – são quase quatro da tarde –, onde estiver, certamente Zulu já está jogando uma partidinha de tranca.

23 de nov. de 2007

A primeira vez num Salão da Raça

A Barra Funda, bairro essencialmente composto por negros e por imigrantes italianos e espanhóis no começo do século passado, foi, ao longo das primeiras três décadas, sofrendo um processo de expulsão dos negros ao ponto de, na década de quarenta, restarem poucos morando na região. Este processo se deu principalmente porque os negros, menos favorecidos, sofreram fortemente o impacto da valorização dos imóveis, além da então vigente "italianização" da cidade. Embora estivessem, ainda que timidamente, já inseridos no mercado formal de trabalho - o que ainda os mantinha ligados à região central - foram relegados à periferia, como Casa Verde, Vila Formosa e Cruz das Almas.

Os cordões carnavalescos, como Camisa Verde, Flor da Mocidade e Campos Elíseos, representavam, na Barra Funda, um pólo de resistência negra na cidade, em que os brancos imigrantes pouco se misturavam. Este era um relacionamento individualizado. O Camisa Verde, por exemplo, por causa de suas cores, ganhou imediatamente simpatia da colônia italiana, que torcia, nas disputas carnavalescas, para seu “representante”. Esta relação – que era alimentada pelos dirigentes do Cordão visando um bom convívio com os moradores -, porém, acabava não indo muito além. Já o Cordão do Vai-Vai da Bela Vista, bairro onde os moradores e o comércio local eram muito mais presentes e entusiasmados com o bloco, construiu uma relação bem mais próxima entre os negros componentes do cordão e os brancos moradores, fazendo inclusive, obrigatoriamente, apresentações pelo bairro antes do Carnaval.

Na década de 20 surgiram os famosos “salões da raça”, pontos de encontro dos negros advindos de todos os cantos da cidade. Estes salões, que perduraram com sucesso até a década de 50, eram freqüentados principalmente por negros jovens, para dançar, trocar conhecimentos e manter uma ligação que formava uma identidade entre estes jovens. Os salões da raça, que ficavam quase em sua totalidade no centro velho da cidade, serviram ainda como fortalecimento das relações entre negros de classes sociais diferentes, já que faziam parte da peregrinação dos Cordões no centro da cidade nos dias de Momo. Os salões da raça incitaram uma explosão de redutos negros para jovens dançarem e se divertirem e é justamente sobre um episódio num desses “bailes” negros que vamos voltar, no ano de 1965.

O informante desta passagem é meu querido amigo Antonio Carlos, o Zulu, que relatou sua primeira incursão aos tais “bailes negros”. A introdução feita é necessária para que tal processo seja entendido. O Zulu representa justamente uma parcela dos negros que foi criado em bairro branco, no caso dele nos Campos Elíseos, bairro resistente às manifestações negras, bem diferente do bom relacionamento visto na área da Vai-Vai. Viveu toda a sua infância, na década de 50, numa mansão em que Dona Maria, sua mãe, era cozinheira. Seus amiguinhos eram todos brancos. Detalhes sobre sua infância eu já abordei em outro texto.

Aos quinze anos a necessidade de conviver com os “iguais” era grande. A primeira e mais importante razão que fez com que ele buscasse um povo que com ele se identificasse foram – e isso não poderia ser mais óbvio – as recusas que sofria das meninas. Seus amigos todos já tinham dado suas esfregadas nas donzelas, menos ele. Um negro não era o perfil ideal para as filhas das madames e, por isso, nosso amigo muitas vezes era até “limado” das festinhas e bailinhos promovidos pelos patrões. As outras razões de sua necessidade também são as mais normais, como a busca por uma identidade de igualdade. Entre os negros ele não seria “diferente”.

Devido à falta de convivência no meio da negrada – é claro que tinha a família, mas quase não tinha amigos negros -, houve um estranhamento no primeiro baile que Zulu compareceu, na Freguesia do Ó, num salão indicado por um amigo branco. Foi, e foi só. Zulu não andava maltrapilho, muito pelo contrário. O filho do patrão de sua mãe usava roupas – dos melhores e mais bonitos panos – no máximo duas vezes. E tudo ficava pro negrinho. Dona Maria, mulher sabida, apoiou a idéia do filho de ir ao baile e deu, pela primeira vez, além do dinheiro do ônibus, uns trocados que pagariam no máximo três bebidas (pensava ela que seu filho ainda não bebia, aos quinze!).

Uma portinha com uma escada que levava para uma espécie de porão era a entrada. O pé-direito era baixo, mas o salão era grande, comportava coisa de 100 pessoas. Logo na entrada, um elegante Zulu foi mal-encarado por alguns elementos que o rotularam como “engomadinho”, o que causou tremores no garoto, receoso pela fama atribuída aos negros de serem rudes e briguentos – talvez a maior contribuição para essa pecha tenha sido o “Bloco dos Esfarrapados”, em que os cordões, antes do Carnaval, se encontravam apenas para violentíssimos embates físicos -, que o obrigou, já na entrada, a decidir não paquerar garota nenhuma, temendo sofrer cobrança dos rapazes da área.

Na primeira cerveja, recostado no improvisado balcão, um tímido Zulu ouviu dois caras dizendo que uma turma da pesada queria “pegar” um rapaz folgado da Barra Funda. Começou o suador e o negro ficou branco. O arrependimento bateu. “O que estou fazendo aqui?” se perguntava, visivelmente inquieto e tenso. Todos os olhares masculinos – em seus tenebrosos delírios - advertiam a bela camisa e seu impecável pisante de cromo alemão. Um coroa já meio bêbado, do outro lado do balcão, avisou: “Esses moleques acham que são malandros! Eles vão se dar mal. Estão mexendo com cobra-criada!”. Zulu, inocentemente, encheu o peito. Neste momento, pernas compridas e andar gingado desce os degraus um bamba e adentra o baile após ter surrado, na rua, os três rapazes que quiseram, em vão, impor o domínio da área e da capoeira. O sujeito, tranqüilo e risonho, pediu um vinho e puxou conversa. Zulu o conhecia de vista e sabia de sua fama e, apesar de no começo ter ficado acanhado, ao falar que era da Barra Funda ganhou o “apadrinhamento”, naquela noite, do temido gente boa.

Daí até o final do baile, mais tranqüilo e “seguro”, Zulu dançou, paquerou, bebeu e fez, como bem fazia seu padrinho, Bagunça...

12 de mar. de 2007

Antonio Carlos Apolinário - Uma entidade chamada Zulu

Há alguns dias eu disse que dedicaria um texto especialmente ao Sherra, o maior trabalhador destas plagas. Mas o incansável, determinado e engravatado canhoto da bunda grande será assunto em outra edição.

Desta vez, vou falar de um portento, um colosso. Mestre de sabedoria inconteste e um irrefreável fígado, capaz de absorver uma fábrica de Cynar em poucos minutos, até travar o maxilar. Aliás, não só este texto será dedicado a ele. Seria impossível definir suas qualidades e “causos” em mil contos, afinal sua implacável genialidade é destilada ferozmente a cada palavra.

Considerado por muitos não como um simples homem, mas como um semi-santo (santos não enchem a caveira), no instante em que ele chega a qualquer lugar, um silêncio ensurdecedor se faz, e de repente filas quilométricas se formam para um abraço, um aperto de mão ou até um simples “oi” deste homem. Pessoas cedem o melhor lugar da mesa, a cadeira mais confortável, um copo de cerveja gelada... Como uma devoção, em segundos está rodeado de sedentos por uma mísera palavra que seja.

Hoje vou dar uma palinha da força da presença dele. Atenção!

Há uns três meses atrás, num domingo comum, saímos do Anhanguera eu, Bruno, Cabeção, Gilmar, Jean Carlo, Zé Augusto e ele, Zulu. Após algumas rodadas de Brahma na Vila do Samba na Casa Verde, quando Zé Augusto e Gilmar quase saíam na porrada em uma discussão na qual Gilmar alegava que a Peruche nunca havia sido campeã do carnaval, o Zé urrava: “Somos tri! Somos tricampeões!!!”.
Notem a sutileza do homem que hoje é o assunto: “Gilmar, cala a boca! Se o Zé falou tá falado. Vai dá o cu pra lá”.
De fato, senhores, a Peruche é tri (66/67/69).

Zé Augusto, um negrão extremamente passional e parcial, como os justos, decretou: “Vamos ao ensaio do Peruche!”.
Breve comentário: O Zé Augusto é meu amigo de infância. Apesar de ele estar na faixa dos 60 anos e eu com 25, temos uma amizade de uns 45, 50 anos. E não ousem contestar!

Fomos para o Peruche sem o Gilmar e o Jean Carlo. Ao chegarmos à rua da tradicional e simpática agremiação, que estava lotada, os guardadores de carro amedrontados com a presença Dele, fizeram uma baita operação para arrumar uma vaga – pasmem – na porta da quadra!

Ao entrarmos, claro que de graça, a cena foi apoteótica. Zé Augusto é diretor no Peruche. Mesmo assim todos passavam direto por ele e iam em direção ao Zulu, e ouvia-se um grande burburinho: “Olha quem está aí, o Zulu!!”. Na entrada, o dono do bar já nos deu várias cervejas, meros acompanhantes... O entusiamos foi tanto que a bateria errou o compasso, a comunidade esqueceu a letra do samba, um troço jamais visto. E olha que eu já andei muito por aí, pelas escolas de samba.

Após mais cervejas, Cabeção, que temia tomar um cartão vermelho da Solange sugeriu ir embora. E fomos. Cabeção e Zé Augusto ficaram em suas casas e o Zulu foi levar Bruno e eu pra nossa. Passamos em frente ao Camisa Verde e Branco. Pra que?
Ali é minha área e eu, extasiado: “Zula, vamos ao Camisa!”. Na verdade o que eu queria era não ficar por baixo do homem. Ele havia sido tratado como rei e eu um bobo-da-corte, mero figurante. No Camisa seria diferente, ele veria minha moral. Redondo engano...
Entramos na quadra depois de uns 20 minutos, após mil tapinhas nas enormes e gordas costas pretas dele. Ele parecia o Seu Inocêncio ressuscitado. A Barra Funda o reverenciava. Bruno e eu, atônitos, nem existíamos, parecíamos espectros, totalmente ignorados...

A quadra estava lotada, muito cheia. Conseguimos chegar em frente ao bar. Eu, decepcionado comigo mesmo, reclamava para o Bruno o fato de sermos meros mortais sem nenhum destaque na companhia dele...
Súbito, notamos que ele estava sentado numa cadeira!! Eu NUNCA vi alguém sentado numa cadeira no meio da quadra em um ensaio. E lá estava ele, já com uma cerveja que havia ganhado de um diretor junto com a cadeira, olhando-nos com um ar humilhante. Fui ao banheiro chorar...

Com o andar gingado, bem característico da velha e boa malandragem, o maior baluarte do samba de São Paulo, Hélio Bagunça, aproximou-se do Zulu, deu-lhe um forte abraço – redundância – e começaram a conversar. Zulu contou-nos sobre uma passagem histórica e nada exemplar da Lenda Hélio, que no mesmo instante diz: “Zulu, malandro que é malandro não cagueta...”, ao que vem a resposta instantânea do colosso: “Hélio, não sou malandro. Sou cagueta!”.

O Hélio foi quase parar no hospital com uma crise de riso, assim como eu e o Bruno que, como as criancinhas fazem nos colchões, chegamos mijados em casa...

18 de jun. de 2009

O Luto da Rua

Enquanto o chope não vinha, bati um fio para Antonio Carlos Apolinário, o Zulu. Era uma saidera que tomávamos eu, Milena, Mariane e meu irmão Bruno Ribeiro, que neste momento está comendo churrasco de rena na terra do Papai Noel. A Finlândia, segundo o próprio, é o último país do mundo; se o planeta fosse uma linha de trem, seria a última estação. Estávamos no Bar do Getúlio, na Rua do Catete. Foi num sábado, há dois meses, depois de um grande dia na Ilha de Paquetá, junto dos tijucanos Simas e Felipinho.

O chope – horrível, na minha opinião – foi o único que tomamos. Dali partimos eu e o Bruno para uma bodega sem-vergonha; nossas mulheres foram para o Riazor, onde nos hospedamos. Já deixo claro que o hotel, que na minha opinião é honesto, não é nenhum cinco estrelas. Mas já foi descartado pela Milena nas nossas próximas viagens ao Rio. Ela viu coisas que, sinceramente, não percebi. Horrorizada, viu frestas enormes no forro, buracos no chão, cortinas emboloradas e até uma lacraia no banheiro. Como ainda creio que há exagero por parte dela, da próxima vez farei – devidamente embriagado - uma inspeção minuciosa no quarto.

No caminho para o boteco salafrário o Bruno me agarrou o braço: “Que beleza você ligando para Zulu. Que beleza!”. A emoção batia-nos violentamente após um dia inteiro de grande performance etílica. Confessei a ele – e o faço agora publicamente – que, vira e mexe, eu ligo para o meu finado amigo. Zulu, obviamente, não atende. Nada de mais, já que jamais atendeu a qualquer telefonema. Teve um celular que nunca teve a bateria carregada e, em casa, não tirava do gancho nem sob decreto.

Eu fazia apelos incansáveis: “Porra. Você nunca me atende. Já te deixei cinqüenta recados!”. Ácido e direto, o lorde respondia-me: “E você, chato pra cacete, insiste!”. Por isso que ainda ligo pro crioulo; toca, toca, toca e cai, como sempre foi. “Me deixa quieto; quando quiser falar comigo sabe onde me encontrar”. Toda vez que dobro a Dobrada, tenho arrancos. Zulu paira sobre aquele pedaço.

Numa manhã de Fevereiro o Zé Augusto me ligou: “Alô, bróder! Hoje eu to lá embaixo. É aniversário do Peninha. Vamos fazer churrasco, jogar tranca e bater um samba!”. Os sábados no Bar do Mauro são imbatíveis. Sol a pino, meio dia, entrei na Rua. Pra chegar ao Bar do Mauro é preciso passar antes pelo Bar do Zulu; o último dos quatro bares que o negrão tocou em sua vida, no ano passado.

Respiração difícil, batedeira, suador; são os sintomas me aplacam subitamente toda vez que entro com o carro na Rua. Passei em frente ao Bar do Zulu, olhei e brequei. A fachada, que era amarela estava preta, inclusive o portão de ferro, fechado desde sua morte no Natal do ano passado. Fiquei feliz com a homenagem e, já segurando as lágrimas, fui mais à frente até o Mauro, onde a refrega devia estar boa.

Encostei e percebi todo mundo estranho, olhares absortos e poucas palavras; Galo e Zé Augusto choravam. Contaram-me que, na calada da noite, aconteceu um milagre. Ninguém viu - nem os vizinhos, nem a molecada da rua, nem os jovens que bebem garrafões de vinho todas as madrugadas de sexta para sábado na calçada em frente ao Mauro – nada. Não há indício algum de que alguém tenha pintado; se não foi nenhum amigo que expressou tal desolação, não poderia ser um desavisado qualquer. O proprietário do estabelecimento, cheio de superstições, afirmou que não se atreverá a pintar o amarelo novamente. Chorando abraçado ao velho Grapete, pedi um “dedal” pro Mauro. E liguei pra o crioulo. Deixei um recado avisando que a dor unânime de sua morte e sua ausência brutal e dolorida transcenderam as pobres limitações humanas. O escândalo, o choro e o desespero de toda uma gente sua não foram suficientes.

Ao homem da Rua o que lhe é de direito: A Rua Dobrada, pessoalmente, veste luto!

24 de jun. de 2008

Anhangüera dá Samba XII

Completamos um ano de Anhanguera dá Samba! assim, do jeito que tem e que há de ser. Simples, como o samba e a gente gosta. Porque quanto mais se inventa, pior fica. No Anhanguera a iluminação, por exemplo, após várias tentativas, é de celofane nas poucas lâmpadas que ficam acesas. Foi a melhor que encontramos após testarmos set lights fortíssimos que queimavam a cabeça dos músicos (ainda mais o Kico e o Tchubí, que são carecas) ou treliças complicadíssimas com várias lâmpadas e cores que davam cara de show a um ambiente tão descontraído. Aliás, aí reside o fato de termos migrado do salão social lá pra parte de fora, onde mora o Diabo Velho.

Após um ano posso afirmar que, se por qualquer motivo, o projeto acabasse hoje, eu já teria muita história pra contar e recordar, mas a coisa vem tomando um rumo que me faz bater o olho no calendário à espera do próximo samba; à espera de que, mais uma vez, os Inimigos do Batente e um convidado bamba façam a Barra Funda e o Bom Retiro estremecerem. Porque o intuito dessa empreitada é, além de se fazer e curtir um samba, o de acordar o espírito dorminhoco do lugar e o de proporcionar, ao menor custo possível - com muito custo -, a cultura, a diversão e a cachaça pra quem quiser chegar; desde que chegue devagar, devagarinho. E que assim seja, como “vencendo”...



Antes de falar sobre a última festa gostaria de agradecer as pessoas que fazem a coisa acontecer, o que nunca fiz até hoje: Railídia, que foi a primeira pessoa a abraçar a idéia, acreditar e passar pro papel, há 4 anos; Fernando Szegeri: graças a ele é que o projeto saiu do papel e por causa dele a gente curte esse monte de ilustres convidados. Foi esse monstro quem deu o nome ao projeto e, além de tudo, ainda divide comigo as buchas; os outros sete dos Inimigos do Batente: Cebola, Kico, Julio Vellozo, Marcelo Homero, Paulinho Timor, Tchubí e Cabelinho, que toparam a parada desde o início ganhando ou não um qualquer até engrenar; Mimi (meu pai) e Denize (mãe), que me dão uma força indizível e incansável pelo simples prazer de ver o samba castigando no terreiro. Bruno, Sherra e eventualmente o Rômolo, que abdicam da farra até as duas da manhã ficando na portaria; Daniel Frangiotti, meu parceirão que filma, tira fotos, ajuda a encher o freezer na véspera e faz todas as artes gráficas dos cartazes. Milena, que tem as mais simples e melhores idéias que se pode imaginar; Bira, Luizão, Janderson e Brasil, a melhor (e maior) equipe de segurança do mundo; Buga, Robson e João da Tóta, que dão conta das bebidas e do churrasco quando o bicho tá pegando; Didi, o zelador do Anhanguera, que deixa o ambiente brilhando antes e que depois limpa o lixo que deixamos; André Peruca, que sempre dá uma grande força na divulgação e ao Zulu, porque o Zulu é o Zulu.



Não há muito que firular sobre o Noca da Portela. Nunca vi o Anhanguera daquele jeito; todo mundo – e foi recorde de público - numa reverência terrível ao mestre; batendo continência mesmo. Noca destilou simpatia e fez 400 vozes se juntarem num ritual belíssimo em torno da roda. Foi uma brasa atrás da outra; música de sucesso, clássicos, lado B e mais que tais, tudo acompanhado pela massa, a ponto de afirmar, o malandro, estar pasmo. Noca representou e marcou a comemoração do nosso primeiro ano de uma maneira que ninguém poderia imaginar. Os fiéis de cada samba no Anhanguera não hesitam em confirmar o chute que o Samba, incorporado no Noca, deu na bunda do frio. Ao mestre nosso agradecimento, mais uma vez. Vejam o filme de sua entrada e a primeira “pedrada” entoada:



Nesta sexta tem mais, com Ivan Milanez, carioca de 62 anos, mestre jongueiro e batuqueiro do Império Serrano. Sujeito criado entre Silas de Oliveira, Mano Décio, Dona Ivone Lara, Campolino, Darci do Jongo, Mestre Fuleiro, Tio Hélio e Aniceto, viveu sua vida inteira na Serrinha. Foi músico de vários artistas como Roberto Ribeiro e Beth Carvalho e contribuiu muito para o ressurgimento da “Velha Lapa” boêmia. Hoje Ivan participa de vários shows e integra a Velha Guarda Imperiana. Estamos de braços abertos pra receber este baluarte que vai sacudir o Anhanguera. Ouçam a música Cada um com seu cada um, que Ivan Milanez divide com Zeca Pagodinho no disco do Zeca de 1993.



Até sexta!

2 de abr. de 2008

Dobrada às avessas

Perto de alguns distintos amigos, sou um joão-ninguém pra falar sobre o tema buteco. Se tenho, por um lado, uma considerável litragem percorrida, o mesmo não se pode dizer da variedade de ambientes em que já cravei meus cotovelos nos balcões. Nessa praia sou um caseiro, não um desbravador; gosto (mais) de beber onde me sinto em casa. E são pouquíssimos os bares que apresento e me orgulho. Chego, às vezes, a parecer o dono da birosca. Ora, a alguns clientes é dada a liberdade de expulsar otário do estabelecimento e pagar quando der. Num buteco decente há uma comunhão – assim como discussões - entre os freqüentadores, tal qual uma torcida pelo mesmo time; há a sensação de prazer e empatia pessoal e intransferível que cada bar proporciona, conseqüência das experiências bebidas, comidas, batucadas ou conversadas madrugadas adentro. Há, enfim, uma cortina invisível que se abre quando chega o primeiro cliente e se fecha na despedida do último bêbado. Porém, há perversidade em jogo; as voadoras que a tradição e a simplicidade tomam dos afetados marqueteiros comprometem tudo e aí o bar já era. Por isso é que estou, sempre, nos meus três bares. Mas prefiro, sempre à minha singela maneira, contar um belo causo de buteco(s).

São dois bares numa Rua da Casa Verde que agregam, do jeito mais autêntico possível, todas as qualidades indispensáveis para se afirmar que são grandes butecos. Até hoje não cheguei à conclusão se o que me fascina ali é a Rua ou se são os Bares. Porque a Rua, essa sim – e mais até que os bares -, tudo nela me comove; o movimento de veículos quase zero, se não fosse pelos freqüentadores dos dois pés-sujos; entre os sobrados, casas humildes sem nenhum acabamento, com tijolo à vista; criançada de pé no chão empinando pipa, jogando bola e soltando balão chinesinho; jovens batendo papo em volta de uma fogueira no meio da rua, inevitavelmente dividindo um garrafão de vinho vagabundo; e a morena mais linda de toda a zona norte. Tudo isso junto me causa - particular subjetivo - um súbito arrebate em que regresso pra não sei quando.

A Rua me enfeitiça, mas o motivo que me leva pra lá é o Bar. Quando cito o bar falo de dois, o portentoso bar do Mauro e o acolhedor bar do Tuca. Em determinados momentos os bares se confundem porque, por incrível que pareça, os clientes são os mesmos, o que faz com que se um bar está cheio uma coisa é certa; o outro está vazio. Estou exagerando. Não precisa nem o bar estar cheio. Basta ter dois ou três caboclos recostados no balcão do Mauro e a lei prevalece; Tuca vazio. Aí reside o que há de mais místico na Rua, embora haja – e tentarei explicar – uma base racional para tal efeito. O dois Bares ficam um de cada lado da Rua, que é pequena (uns 300 metros). No meio da Rua tem um canteiro que a divide e o único caminho pra se chegar é entrando primeiro do lado da Rua em que fica o bar do Tuca. Vantagem pra ele? Não. Um misterioso consenso é elaborado do único jeito possível para o bom funcionamento dos dois estabelecimentos; o bom senso. Entre os clientes é decidido qual o bar agraciado do dia e, conseqüente, da noite. O primeiro bêbado a chegar é quem decide. Porque o segundo vai beber com o primeiro e assim vai e pronto. O outro bar fica relegado às moscas, mas jamais fecha as portas, numa belíssima demonstração de altruísmo. Já teve dias em que o pessoal estava todo no Mauro e o Tuca faturou zero. Nadica de nada.

O que mais impressiona é que até os aniversários dos freqüentadores é comemorado - sempre aos Sábados - alternadamente. O faturamento sobe; por isso é cada aniversário num buteco, sem choro nem vela. Peninha cuida da costela no bafo, Zé Augusto puxa samba das suas azul e branco (Portela e Peruche), Galo conta piada pra delírio do Sardinha, Grapete, com seu gingado, tira a nega pra dançar (aos Sábados as mulheres vão), Cadina conta suas milhões de histórias, Dilnei organiza o jogo de tranca e Mané desafia na Sinuca. Tudo isso presidido moralmente pelo grande Basílio, o Pé-de-Anjo e efetivamente pelo grande Zulu, que tudo vê e pouco fala, como os bons malandros devem ser. A negrada do Cruz da Esperança marca presença e a merda tá feita. Coisa linda! Eu sou um dos três ou quatro menores de 50...

Tudo isso é muito bonito, mas quando algum evento interrompe o bom andamento das coisas, o caldo entorna. Principalmente quando o “evento” é o dono do moquifo. Aconteceu no Carnaval deste ano e provocou, assim como um El Niño, uma rápida alteração no clima e a modificação nos padrões naturais estabelecidos. Demorou um mês pro mar se acalmar e a maré baixar.

O Sábado de Carnaval amanheceu e o Mauro estava fechando as portas, assim como o Tuca. Não tinha jeito, dali a poucas horas teriam que reabrir. É certo que chegaria gente pra beber antes do meio dia. E não deu outra. Onze da manhã chega o Zulu e toca a campainha do Mauro (vejam que beleza: o Mauro mora em cima do próprio bar!). Depois de dez minutos, a esposa do Mauro bota a cabeça pra fora da janela. Zulu já estava acompanhado de dois ou três sedentos; “O Mauro já está descendo.” disse ela. Após quarenta minutos e a certeza de que Mauro não apareceria (nem abriu o bar naquele dia), não teve jeito; os já dez cachaças atravessaram a rua e espreitaram o bar do Tuca; ninguém lá dentro. Um deles entrou no carro e foi até a casa do homem, ali pertinho. Três toques na campainha e o Tuca aparece, todo inchado de sono e com uma puta cara de maracujá:

- Joga a chave do bar!

- Peraí... Toma! Olha, o bar tá todo sujo.

- A gente limpa.

- Tá certo. Vai marcando o que vocês beberem que eu chego daqui duas horas. Preciso dormir mais um pouco.


Resultado: Mauro serviu, durante um mês, as moscas!

25 de mai. de 2010

Sou verde e branco!


Lá se vão três anos da morte do mestre Hélio Bagunça. O velho baluarte, porém, ao contrário da grande maioria dos sambistas - pelo menos os que não gravaram -, recebeu algumas homenagens post mortem. A última delas feita com muita raça pelo pessoal do Bloco da Santa Cecília, no carnaval deste ano.

Já contei bem uma meia dúzia de histórias do Tio Hélio por aqui. E pretendo, de quando em quando, falar de outros bambas da paulicéia, especialmente da Camisa Verde e Branco.

Um amigo me indicou um vídeo da verde e branco que faço questão de postar aqui. Foi feito há pouco tempo, antes das disputas eleitorais na quadra, que terminaram com a vitória de Ribamar para presidente, tendo como vice T. Kaçula. É uma turma nova, com vontade de "fazer acontecer", expressão que me arrepia. Aliás, mesmo atravessando altos e baixos, jamais deixaremos de representar uma das maiores forças do carnaval paulistano; com ou sem disputa. É preciso apenas ter a serenidade pra fazer as coisas com a paciência e a sapiência que se exige um momento desse.

O vídeo é apresentado por Zulu, grande nome da Escola. Zulu, inclusive, perdeu essa última disputa: ele encabeçava a outra chapa concorrente. O vídeo tem momentos emocionantes; e mostra um monte de amigos meus, principalmente na bateria - que ainda segura a marimba de "furiosa".

O samba na quadra, o Largo da Banana, o glorioso salão do São Paulo Chic, os grande nomes da agremiação, uma conversa entre Dionízio Barbosa e Inocêncio Mulata - dos aquivos da Cultura - e, rapidinho, de passagem, tio Hélio Bagunça empunhando o estandarte da Escola que representou durante tantos anos. Ao contrário do movimento "de raiz" que jorra por aí, principalmente entre os jovens, sou daqueles que acha que há, sim, samba nas Escolas de Samba. Muita coisa se perdeu e pouco se criou; os desfiles se deturparam, o samba virou negócio. Mas essa negrada de três, quatro gerações carrega um axé que não é moleza; e de toda essa patifaria que grassa nas escolas, pouca coisa pode ser atribuída a quem luta pra manter a tradição.

Aliás, pergunto daqui: o que não foi deturpado, de alguns anos pra cá?

Eu vou saudando. Salve, salve à rapaziada nova que se devota e que se esfola. Salve à Velha Guarda. Salve, Talismã. Salve, Ideval e Juscelino. Axé, Tio Hélio Bagunça, Tio Mario e Zeca do Morro. Minha reverência, Dionísio Barbosa, Inocêncio Mulata, Tobias e Taidão. Sua benção, Dona Sinhá; "a bença", Mãe Cleusa.

25 de jun. de 2007

Anhanguera dá Samba II

Na próxima sexta, dia 29, acontecerá a segunda edição do projeto Anhanguera dá Samba, com os Inimigos do Batente convidando alguém especial.

A primeira, com Wilson Moreira, foi antológica, com o Alicate cantando e contando histórias da vida e do samba durante duas horas. Coisa linda. Eu já presenciei shows do Wilson em que ele cantou dez músicas, desceu do palco e foi embora. Na nossa festa ele estava em casa, deixando-nos felicíssimos.

Vou escrever um pouco do que foi a primeira, dia 18 de Maio, com muito atraso. Acredito que não ressuscitarei o Guilherme Parmegiani, que morreu de curiosidade por eu não contar absolutamente nada sobre a festa. Soube que, por causa disso, teve vários ataques epiléticos o pobre Pompom, que implorava: “Conte-me! Como foi o Dá Samba?”, não obtendo uma mínima resposta minha. Nem um simples “Foi ótimo!” eu disse.

Eu pouco assisti a roda e o Wilson. Tinha que ficar atento para que tudo corresse bem, e isso toma todo o nosso tempo. Fui buscar o Moreira no hotel e o Gilmar foi comigo. Ficamos esperando um bom tempo no bar do hotel, bebendo uísque. O Gilmar acabou se engraçando com uma mulher solitária que afogava as mágoas num copo de vodka e, quando desceram o Wilson e a Ângela, sua esposa, fui chamá-lo e recebi a resposta: “Espera! Chama o Wilson Moreira pra tomar uma dose conosco. Não vou deixar essa mulher aqui.” Fui embora e o deixei a pé... Já no carro, diz o Moreira pra mim: “Pô, quando o Fernando me falou que o Favela vinha me buscar, imaginei um negrão de dois metros, um bicho solto!”. E rachou de rir. Eu também.

A simpatia do Moreira é um troço. Quando entramos no Anhanguera, por onde passava cumprimentava a todos, dava tchauzinho, mandava beijo. Eu previ: “Hoje o homem tá com tudo! Vai arrebentar!”, embora isso não seja nenhuma novidade... Aí está o momento em que chegamos. Reparem que os primeiros a falarem com o Wilson Moreira foram o Zé Augusto e depois o Zulu. Este último, um monstro que a cada dia que passa, a cada atitude, demonstra sua exuberante sabedoria e seu infinito carisma. Esta conversa entre ele e o Wilson, que o conhece há anos, foi presenciada apenas por mim e posso afirmar que é apenas mais um episódio que confirma a influência que o Zulu tem, como já contei por aqui. O que foi dito ali eu não conto.



Daí pra frente, quando o homem sentou na roda e pegou o microfone, não vou descrever simplesmente porque não encontro palavras para fazê-lo. O povo cantou junto todas as músicas que ele mandou, causando enorme surpresa para o próprio Moreira, que foi reverenciado por todos como o grande sambista que é.



Mas voltando, sexta feira dia 29, mantendo o altíssimo nível, contaremos com a presença do “Catedrático do Samba” Germano Mathias, grande baluarte de São Paulo, que se mantém fiel às raízes e às peculiaridades da terra da garoa, como batucar na lata de graxa. Seu estilo único de cantar os sambas sincopados e armar as famosas presepadas – como ele diz – durante a música caracterizam esta figura do samba paulistano. Deixo aqui o grande sucesso “Tem que ter mulata”, de Túlio Piva, gravado por Germano em 1958.

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Para saber mais sobre Germano Mathias, cliquem aqui e leiam sua biografia.

Começa as 22h00. Apareçam por lá!

19 de nov. de 2008

Praga genética - Parte I

No último domingo, como sempre, joguei meu futebol no sagrado gramado do Anhangüera e depois almocei em família o melhor bolinho de mandioca do mundo, o da minha mãe. A tarde jogou o Palmeiras. Durante o jogo, estava eu deglutindo umas costelas de porco, umas picanhas, muitas cervejas e jogando conversa fora com Seu Zé, o aniversariante, debaixo das frondosas árvores de todos os tipos na casa nova dos queridos Szegeri, Stefânia e Rosa. Todos os tipos, não. Falta, principalmente para as crianças, uma árvore que já está sendo providenciada pelo meu bom amigo. A jabuticabeira. A infância sem uma jabuticabeira não é completa. Uma criança precisa, de vez em quando, ver o mundo lá embaixo se fartando de jabuticaba.

Seu Zé faz parte de um seleto grupo - ao lado de Zulu, Cirilo e Almeida - de homens honrados, porém são-paulinos. Fico pelejando, tentando entender o motivo que fez com que houvesse tal desvio. Enfim, acabo não levando isso em conta e deixando pra lá. Estávamos na casa de um palmeirense fanático. Zé, a cada quinze minutos ia à sala onde os alviverdes assistiam ao jogo e voltava atualizando o resultado. Toda vez que vinha, empunhando seu copo-balde de vodca com Dolly-Coca, o placar era outro, sempre jogando o Palmeiras na vala, um dois três quatro cinco. O Flamengo foi quem deu o tiro de misericórdia. Destruiu, liquidou, arrasou, enterrou o sonho da porcada de um já improvável título.

Estou contando tudo isso pra fazer, de público, uma confissão aterrorizante. Fiquei ligeiramente triste com a derrocada da porcada; e não foi a primeira vez que senti essa coisa pavorosa. Sei que este estranho sentimento pode soar inacreditável para a maioria, inaceitável para outros tantos e até leviano para uns, mas afirmo: sou vítima de uma praga genética que sempre temi que a mim me pegasse e que poderia até tardar – não tardou -, mas jamais falharia. Um fardo que carrego desde meu nascimento, que não demoraria a se manifestar. Como meu avô e meu pai, fui o que seguiu a uma regra oculta; uma imposição, eu diria, extraordinária.

Meu avô, Osvaldo Tirone, meu personagem mais constante por aqui, ao lado do Zulu, nasceu em 18, na Rua do Bosque, Barra Funda. O quinto dos nove filhos de Nicola e Ana, italianos, e vivendo em um dos maiores redutos italianos da cidade, o velho deu um bico na obviedade. Seus irmãos, no entanto, só souberam ser ele o único irmão corinthiano no dia da histórica goleada de 33. Palestra Itália 8, Corinthians zero. Naquele dia, Baldo – em casa era chamado assim, com sotaque carregado – e Antonio, seu primeiro irmão mais velho, com 15 e 16 respectivamente, assistiram a peleja na arquibancada de madeira do Parque Antártica. Pularam o muro, como sempre faziam, e viram Romeu Pellicciari e Luis Imparato imporem a mais humilhante goleada do clássico. Baldo chorou, revelando seu sangue alvinegro, ao ver o grande goleiro Onça indo buscar a bola na rede tantas vezes.

A próxima geração veio chegando. Cada um de seus oito irmãos tendo vários filhos, todos palestrinos. O Antonio e o Roque (o segundo dos nove) viraram diretores do Palestra e toda a sobrinhada que nascia ganhava da tia Mariquinha o fardamento completo do alviverde. Foi o que aconteceu com meu pai.

Vladimir Tirone, meu pai, nascido em 55, apelidado ainda bebê de Mimi, sofreu fortíssimo assédio alviverde dos tios, tias e primos. Quarto e último filho do Velho Tirone, era muito mais novo que os irmãos. Wande era de 41, Wagner de 45, e Walquíria de 49. Os irmãos mais velhos, os dois boleiros. Wande, considerado até hoje o melhor jogador já visto pelos campos da região; Wagner, um tremendo atleta. Treinava todo dia. No corredor de fora da casa, meu pai com cinco, seis anos o via correndo de lá pra cá. Pendurava uma bola bem no alto, dava distância, corria e pulava pra cabecear. Wagner, legítimo Tirone, filho do primo do poderoso diretor de esportes Arnaldo, acabou jogando todas as categorias de base no Palmeiras, chegando ao profissional, na reserva de Ferrari. Ficou alguns jogos no banco e logo encerrou a carreira após uma briga com o técnico Mario Travalini. O futebol não dava mais dinheiro que o trabalho. Durante seus dois anos no juvenil, porém, meu pai era o mascote do time, na época em que os times tinham um, apenas um mascote. A cara do moleque de 6 anos estampou, nos anos de 61 e 62, o finado A Gazeta Esportiva várias vezes.

Elevado a uma categoria de amuleto, o moleque se deixou envenenar e, a partir de então, era um palmeirense ferrenho como poucos que vi até hoje.

Juvenil do Palmeiras, 1961. Wagner é o terceiro em pé da esquerda para a direita. Meu pai, o mascote.

(Continua)

2 de jun. de 2007

Hélio, Bagunça!

Presto-me a escrever hoje, Sábado, ainda que tardiamente, a Hélio Bagunça, uma figura legendária do samba paulistano e da Barra Funda. Tenho cá uma sensação de omissão em relação a este preto, um velho danado que me chamava de “fio”, com sua voz rouca.

O Tio Hélio, como eu o chamo, desapareceu no meio da noite no meio da semana. Até agora não sei a verdadeira causa, mas isso, pra mim, pouco importa. Ele já se foi e acabou.

Tínhamos uma relação curiosa e extremamente carinhosa, desde quando fui apresentado a ele pelo Gilmar, há uns dez anos, na quadra do Camisa Verde e Branco, sua casa em que exercia, de fato, um reinado absoluto.

Seu humor alternava com qualquer postura não condizente com seus valores e sua experiência que acontecia dentro da escola. Ele não gostava de ver meninas (crianças) sambando ao lado da rainha-de-bateria após certo horário, para ele (e eu concordo), impróprio para os pequenos. Dava bronca “braba” em mestre-sala que quisesse aparecer demais e em batuqueiro extravagante. Não aceitava o fato de as escolas de samba não passarem pra frente a sua história e os grandes nomes que fizeram tudo isso acontecer. Ficava puto da vida com o carro de som ou com o som de carro que, do lado de fora da escola, tocasse qualquer música que não o samba. Mandava desligar!

E quando ele ficava nesse estado, indignado, bebia muito vinho. E sempre que eu estava presente me chamava: “Fio, vem beber um vinho comigo”. Isso me orgulhava sobremaneira, visto que, entre amigos e admiradores, ele escolhera a mim, um branquinho quarenta e seis anos mais novo, que gosta dos sambas das antigas e que tem, pelos velhos, profundo respeito e sede de aprendizado. Ele sentiu essa parada desde o primeiro dia, ou melhor, desde a primeira noite.

Os causos deste homem são tantos que já esqueci de uma porrada, mas um marcou demais pela maneira como ele contou-me, já de dia, numa noitada na quadra, após uns shows esquisitos. Ficamos do lado de fora, nas barracas. Esta história, uma das mais fantásticas que conheço, retrata toda a rivalidade que existia entre Barra Funda e Bixiga, Camisa e Vai-Vai.

O Hélio Bagunça sempre viveu uma vida de malandragem, era temido. Assim como Pato N´água, mestre de bateria (na época falava-se apitador) da Vai-Vai, da pesada também.

Na rua Brigadeiro Galvão ficava o São Paulo Chic, ponto de encontro de sambistas, jogadores de futebol, vadios. Coisa da negrada. O batuque comia solto. Território do Hélio Bagunça, na Barra Funda. Pois que certo dia chega, sozinho, o Pato N´água. Sozinho! Saquem a “pegada”... Todos sabiam que aquilo daria merda.

Ele foi disposto a brigar. E com o Hélio. A intenção era desbancar o valente na sua área. Como num ritual, os dois postaram-se para a briga, que seria só de perna. A rua parou!
Pernada pra cá, rabo-de-arraia pra lá. O embate demorou. Após uns vinte minutos – há quem diga que brigaram por meia hora – o Hélio, visivelmente cansado e em desvantagem correu! Deu as costas e correu, para desespero e incredulidade do bairro inteiro. Ele jamais correra de uma briga. Pato N´água, pra humilhar, correu atrás. E aí é que foi estampada a traquinagem de Hélio Bagunça. Que estratégia! Quando o apitador correu e chegou a dois passos do Hélio, este botou a mão no chão e, de costas, desferiu o definitivo golpe que acabaria com a luta. Uma pernada no queixo e... Lona!

Essa eu ouvi da boca dele, entusiasmado. Interpretando, até me mostrou como foi o chute. Coisa linda!

Mas voltando, minha sensação de omissão é forte. Há um ano, na Contemporânea, o Hélio pediu-me ajuda, em qualquer sentido, para com seu projeto “Filosofia de Vida”, que tinha o propósito de valorizar a terceira idade. Uma escola de samba para a Velha Guarda. Ele estava atrás de terreno e outras coisas junto à prefeitura... Nunca movi uma palha e sinceramente não sei se o projeto continuará ou desaparecerá com ele. É isso que dá deixar pra depois.

Terça-feira, após sua missa, vamos eu, Zulu e Zé Augusto, grandes amigos do Hélio, encher a cara de vinho.

Obs: Leiam no Só dói quando eu rio, ótimo blogue do meu irmão Fernando Szegeri, sua história e contribuição para o samba e para a Barra Funda!

26 de mai. de 2009

Economia inútil

Dentre as minhas predileções, uma está bem aqui. Escrever me faz um bem danado. Principalmente quando imortalizo histórias do bairro, da várzea e das grandes figuras que esbarro pelo mundo afora – é importante ressaltar que este “mundo afora” não passa dos limites da Barra Funda, Bom Retiro e Casa Verde. Sou, e quem me conhece sabe, um sujeito fincado neste brejo.

Nestas mal traçadas que insisto há mais de dois anos, venho colecionando causos que me fazem sentir, nos momentos após escrevê-los, um homem cumprindo seu dever com sua gente e com o seu lugar. Escrevo muito raramente coisas do cotidiano; inclusive porque não é essa a finalidade deste espaço. Mas tenho grandes amigos que o fazem com maestria.

Lembro-me bem quando levei Fernando Szegeri e Bruno Ribeiro na portentosa Rua Dobrada, com o único objetivo de beber com Antonio Carlos Apolinário, o majestoso Zulu, um homem em quem penso todos os dias. Foi uma tarde sublime, com o negrão esbanjando categoria à mesa. Antes de sairmos, Bruno cravou: “- É preciso que se escreva o que passamos aqui!”. E pediu ao Szegeri que o fizesse. Meu compadre cerrou seus olhões marejados sobre o Bruno e decretou: “- Você é que escreverá”. Szegeri sabia que Bruno faria o serviço com destreza e precisão. E assim meu irmão escreveu; ninguém faria melhor. Bruno Ribeiro é um cabra que, quando o vejo, enxergo um espelho à minha frente. Assim é que são os amigos.

Mas há um tal – amigo nosso em comum - imbatível no quesito “cronista”; de nome Eduardo Goldenberg. Um tijucano de fina estirpe e de respeitosa linhagem. Edu é outro que reconheço como irmão. Através dele conheci os meandros da Tijuca, a Barra Funda da cidade maravilhosa. Em seu disputado Buteco escreveu, ontem, o texto “Os Tirone”, descrevendo a bênção dos encontros que nos fazem homens melhores. Meus pais ficaram emocionadíssimos, assim como ficaram quando foram alvo do Szegeri.

Lá, nos comentários do texto do Edu, Felipinho Cereal, outro tijucano imprescindível, tascou: “O Mimi está no nível máximo da espécie humana. O malandro é gente finíssima. Os Tirone formam uma família e tanto, foi um prazer enorme conhecê-los”. A amizade requer estas parcialidades e exageros inefáveis. Meu pai é mesmo um sujeito querido, capaz de inspirar comentários como este. E mais uma vez me disponho a falar sobre ele. Como eu dizia no começo, mesmo não sendo meu forte, neste texto abordarei coisas do cotidiano. Descreverei uma mania cada vez mais presente no jeito de ser do meu pai: a economia inútil.

Economizar, poupar, guardar. Cresci ouvindo isso. Por terem uma infância pobre e uma vida de casados sem regalias e pouco conforto, meus pais conquistaram o pouco que têm hoje dessa maneira. Nunca foram sovinas, muito pelo contrário. Minha casa sempre foi cheia, com muita festa, bebida, comida e gente. Mas o desperdício sempre foi combatido violentamente. Lembro-me do Velho Tirone raspando os pratos todos após o almoço; jogava no prato dele e mandava pro bucho: “- É pecado jogar comida fora”. Meu pai, de pouco tempo pra cá, foi se tornando um neurótico contra o desperdício inútil. Se por um lado gasta os tubos com cerveja, cigarros, comida e caxeta, além de umas viagens com minha mãe, por outro lado perde a paciência com os troços menos importantes, o que nos causa crises de gargalhadas.

Dentre suas manias, uma é a de guardar papel para rascunho. Corta em pedacinhos para anotar recados e fazer contas. Dias atrás atendi o telefone e anotei um recado pra ele numa folha de sulfite. Foi o suficiente para que ele ficasse puto dentro das calças. Usar toda uma folha virgem e pura para anotar um simples telefone; onde já se viu?

Certa vez minha mãe ganhou uns guardanapos de papel cheios de lero-lero. Com desenhos de frutas coloridas, os guardanapos eram enormes, com quase o dobro do tamanho convencional. Num almoço de domingo para os filhos e alguns sobrinhos, ela decidiu que era a ocasião propícia para usá-los. Arrumou a mesa toda com os talheres sobre os guardanapos cheios de fru-fru. Meu pai, prevendo o desperdício, rasgou, na surdina, todos os guardanapos ao meio. A metade “economizada” logicamente minha mãe jogou no lixo.

São muitos os exemplos, um mais cômico que o outro. O recorde de sua estranha obstinação se deu com o palito de dentes. Mimi é viciado na caixinha da Gina. Já o vi palitando os dentes após ingerir gelatina. Pois dia desses, após um farto almoço de Domingo, Mimi palitava os dentes ainda à mesa assistindo ao seu Palmeiras. Meu irmão caçula, o Bruno, solicitou: “- Pai, passa pra mim o paliteiro!”, e o velho, sem titubear, tirou o palito da boca, estendendo-o para o filho: “- Toma, palita com este lado que eu não usei”.

21 de mar. de 2007

Quito – Boca suja, coração limpo

Primeiramente, uma explicação. O último texto, em referência (e reverência) ao Zulu manteve-se propositadamente dez dias no ar, quantidade de dias igual à nota que ele merece entre zero e dez.

Como vocês sabem, o intuito deste blog é contar histórias antigas do clube e do bairro, jogos inesquecíveis e personagens históricos, como o meu saudoso avô Tirone, o Durão, Pé-de-Pato, Antenor, Barraca, entre outros eméritos que já estão batendo uma bola do lado de lá.

Mas hoje vou falar de mais um que está conosco todos os Domingos. Seu nome é Leonildes, o famoso Quito. Este que bebe pinga igual água, que tem um sorriso de Tião Macalé, e que a cada dez palavras proferidas, solta nove palavrões. Este que é alvejado com garrafadas de plástico, que toma ovada na cabeça... Um sofredor. Realmente, um pagador de pecados... O pior é que ele gosta das abjetas brincadeiras que fazem com ele!
Nascido e criado no começo da Rua Anhanguera, perto da extinta porteira (onde hoje é a passarela), Quito é daquelas figuras que só existem na Barra Funda. Não vou entrar em detalhes sobre sua infância e sua vida. Isso vai ficar pra outra ocasião. Quero, além de contar um “causo” dele, apresentar a vocês um Quito jamais reconhecido no clube. Um homem boêmio, malandro, sambista...

Uma rápida reflexão: certa vez enviei um e-mail falando sobre apelidos. Eu nunca soube e não faço a menor idéia deste que cravaram: Quito. Que raio é Quito? Por favor, se alguém souber, revele nos comentários deste texto.

Vamos às cinco características que mais marcam este homem, em ordem:
1 – Palavrões;
2 – Pinga;
3 – Palavrões.
4 – Samba e boemia (vocês hão de ver logo abaixo, não perdem por esperar!);
5 – Palavrões.

O involuntário e inconsciente vocabulário deste cidadão é extremamente carregado de palavras de baixo calão, como todos sabem. Mas de onde vem isso? Procurei saber e, certa vez a Elza, sua irmã, contou-me como tudo começou. Criança pequena quando começa a falar não consegue dizer palavras com mais de uma sílaba, a não ser o famoso “papa” ou “mamã” ou ainda o insuportável “cuti-cuti”. Reparem só o dom que ele recebeu. Sua primeira palavra dita, uma monossílaba, foi um simples e agudo “cu”. Os pais imaginavam ser a abreviação do abominável “cuti”, mas mal sabiam da propensão do então Leonildinho às imundas palavras... E assim começou. O pequeno Quitinho gritando “cu” pra cá, “cu” pra lá. Isso com apenas um ano de idade.

Algum tempo depois, com uns doze anos, na escola, Quito já fumava. Certa vez o professor, já antevendo à época a degradação ambiental e a camada de ozônio sendo estuprada, o repreendeu: “Você, com seu cigarro, também está abrindo o buraco na atmosfera!!”. Justo pra quem o professor disse... Ouviu uma sonora e gritante resposta: “Ah, é o buraco da sua mãe, seu filhodaputa!”. Notem a revolta do Quito, com sua razão: Atmosfera era o nome de uma zona no centro da cidade... Quito nunca mais voltou à escola.

Desse dia pra cá, seu repertório de palavrões expelidos a cada minuto supera a quantidade de balas que uma metralhadora de última geração “cospe” no mesmo tempo. Tenho estudado seu comportamento e já sei que quando ele diz “vai tomá no cu” quer dizer “bom dia, tudo bem?”, ou quando ele te chama de “cheio de bicho” quer dizer “está forte, hein!”. Ele criou um dialeto feio e puro, bem como ele, como boa praça que é!
Apesar de sua língua solta, gostaria de dizer que sua contribuição e amor pelo Anhanguera são dignos de um busto, de uma grande homenagem. Afinal, o melhor roupeiro do Brasil trabalha arduamente. E com 72 anos nas costas!


Mas a bomba mesmo, meus amigos, o ápice, a revelação, vem agora. Vocês, que subjugam, que maltratam, que desdenham dele, nem imaginam o respeito e as amizades que convivem junto com a fera nos butecos do mundo. Quito é sambista bamba, amigo de nada mais nada menos que Bezerra da Silva, a voz da malandragem não calada, apesar da sua morte em 17/01/05. Durante anos ele saiu do Anhanguera e subiu os morros pra fazer samba junto com Bezerra quando este estava em São Paulo!

O que? Não acreditam? Pois como eu não minto nem invento, digo: uma imagem vale mais que mil palavras.

E agora, o que me dizem, pagãos?

15 de set. de 2008

Venham comer conosco

Quando eu conheci o Estevão ele estava de azul e branco, se aquecendo para um jogo no campo do Baruel. O azul e branco era o uniforme do tradicional Vâmo que Vâmo, time fundado por ninguém menos que Zulu. O time jogava apenas em festivais; foi criado para reunir grandes ex-jogadores da região. Jogavam Serginho Chulapa, Basílio, Ademar Pantera e outros ex-profissionais, além do Galo, Jorginho, Tatu, Lalo, Mimi e outros boleiros da Casa Verde. Só veteranos. Entre eles o Estevão, que foi zagueiro do São Paulo na década de 70. O sujeito, de boca fechada, já é engraçado. Quando conta histórias dos bastidores que presenciou no futebol então, não há quem se agüente. De uma delas nunca esqueci.

Estevão, já com a carreira encerrada, gordo, foi jogar num time do interior de Goiás do qual não me lembro o nome. Nem a cidade. Um time pequeno, modestíssimo, da segunda divisão estadual; quase um time amador. A cidade o aguardava com tremenda ansiedade. O craque que, segundo ele mesmo, exibia mais categoria que o Beto Fuscão, foi recebido com toda a pompa. A função foi organizada na mansão de um político dono de terras mil em Goiás. O cabra era também o presidente do clube e dono do único puteiro da cidade. Gabava-se por ter muitos empregados; segundo o escroto, mais que vacas. Um coronel dos fortes.

O time era formado por trabalhadores, gente humilde. Pedreiros, carpinteiros, trabalhadores do campo, analfabetos. Era a primeira vez que se viam em um evento junto com a “elite” do lugar. Os fazendeiros e políticos mais ricos festejavam a chegada do Estevão – particularmente, acredito que o Estevão tenha sido uma desculpa para uma reunião de interesses entre os canalhas de toda a região. Os jogadores, tímidos, ficaram num canto, comendo e bebendo entre eles, tomando cuidado com os modos, maneirando nas brincadeiras e na bebida. Do outro lado, os latifundiários e suas madames não queriam contato com a plebe. O prefeito, suando em bicas, fez um discurso efusivo comemorando uma possível ascensão à primeira divisão, fato inédito. Estevão, cheio de moral e de cachaça era o único jogador à vontade, rodando pelo salão entre os coronéis.

Teve um momento, porém, que a diferença social foi aproveitada para aquela “média” básica. Era o momento para um filho da puta se mostrar bom cristão. O tal político – o presidente do clube -, que nunca havia dirigido sequer uma palavra a qualquer jogador, decidiu estreitar os laços entre as classes, ainda que somente naquela noite. O poderoso, enchendo o peito, exibindo orgulhoso sua atitude altruísta, convocou os retraídos atletas para o jantar que seria servido gritando de longe, gesticulando em demasia:

- Venham comer conosco! Venham comer conosco!

Os jogadores, desconfiados, continuaram ali. E o fazendeiro, com uma pança enorme e botas com esporas de ouro, decidiu pegar um jogador pelo braço. Quem sabe conseguindo levar o primeiro, os outros também iriam. Afinal, pensou o coronel, com a boiada é assim que funciona. Agarrou forte no braço de um caboclinho:

- Venha comer conosco!

- Não senhor. Não quero não, muito agradecido. Estou bem aqui. – e cochichou rapidamente com um companheiro de equipe:

- Que trem é esse?

- Sei não. Eu vou ficar aqui comendo meu churrasquinho.

E o coronel, enlaçando o caboclo com o braço direito sobre seu ombro, ordenando num tom rigoroso, fazendo com que toda a “nata” percebesse sua generosidade e humildade:

- Imagine. Faço questão que venham comer conosco!

O caipira intimidado, com medo de contrariar um homem tão influente – ainda mais sendo o patrão -, se encheu de coragem e cedeu:

- Tá bom, doutor. Vou provar um desse conosquinho!

7 de mar. de 2007

Anhanguera - Um clube social

Há dois anos venho martelando isto na minha cabeça. O Anhanguera é um clube varzeano de futebol. Fato inegável.

Seu maior destaque, porém, sempre foi na área social. As festas e eventos promovidos na saudosa sede da “abençoada esquina”, nas idas décadas de 30 a 60 eram capazes de agregar, numa noite, gente de todos (eu disse todos) os clubes da várzea regional. As rivalidades – naquele tempo eram fortíssimas – davam trégua graças aos imperdíveis festejos.

Pois bem. Na humilde opinião deste que vos escreve, é aí que está a força motriz da nossa revitalização e identificação.
Lembrem-se dos domingos até dez ou quinze anos atrás. Aquilo era um furdúnço! Era gente saindo pelo ladrão. O alambrado tomado de espectadores assistindo a pelada.
Infelizmente, com o tempo, a freqüência começou a diminuir ao ponto de, no ano passado, ficarem sempre a mesma meia dúzia de gatos pingados após o jogo do 2º quadro. Este ano já está bem diferente. Pra melhor, e por quê? Será que é porque os times estão melhores?

Vejam bem onde quero chegar. O futebol, por si só, não é fator preponderante para o sucesso e manutenção da agremiação. O fato é explicável e plausível, principalmente por dois motivos. Notem primeiro que as festas e eventos, nos últimos cinco ou seis anos, praticamente não aconteceram. O outro motivo é que os novos adeptos do clube cada vez mais não são moradores ou freqüentadores do bairro.

O que mantém uma agremiação coesa são sem dúvida o convívio e as causas em comum. O exercício de tomar cerveja e “bater papo” após os jogos é extremamente relevante para tal processo, pois fica visível a entrega e o interesse do fulano pelo clube. Assim como, em dias de semana, haver encontros espontâneos ou pré-determinados. Essas migalhas de sociabilidade é que sustentam tudo.

Será por coincidência que o clube era muito mais cheio quando o Vichiski existia ali, em frente a sede? Não que o Bar do Sinval hoje não possa cumprir este papel, mas nunca foi um ponto de referência dos freqüentadores do clube, salvo poucas exceções.
Na época em que o Zulu abria o bar as Sextas, ou quando tinha o samba... Era nítido um maior engajamento de todos. Havia um interesse maior!

São pequenos fragmentos de convívio que, consolidados, tornam-se uma grande referência que influencia o futebol e todas as outras áreas do clube. O Anhanguera nunca foi um time de massa e dificilmente será. Devemos primar primeiramente pela área social. Ela sim, é quem dita as regras, o andamento e os rumos da instituição.

E daqui, erguendo o copo, eu brado: Domingo é pouco. Lineu, bota mais gelada. Terás muito mais trabalho e nós teremos muito mais Anhanguera!


As quartas-feiras nunca mais serão as mesmas...
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