Zulu
Compungido, embargado, triste. É assim que sou hoje, véspera de Natal de 2008. Dona Maria, 90 anos, muito mais que eu. Hoje à tarde será realizado o enterro de seu único filho, meu amigo e tio (me chamava por sobrinho) Antonio Carlos Apolinário.
Meu querido Zulu era, acima de tudo, um profundo conhecedor da Vida e do Tempo. Não apenas por ser um homem religioso, temente a Deus; mas por ser dotado de um estigma divino, o de reconhecer o que lhe chegava não só aos ouvidos e ao tato, mas, principalmente, à alma. Zulu era apaixonado pela Vida, pelos amigos, pela noite e pela bebida. Esta última, aliás, que insistirão em dizer e teimar ter sido seu algoz, cruel e vil assassina, é que foi, em verdade, sua amante, seu esteio e seu bem-querer. Um homem que não tem uma mulher é, indubitavelmente, um solitário.
Zulu é o mais constante personagem deste miserável blogue - e isso nunca valeu como homenagem! – porque há na sua passagem um peso de mais, porque suas belas histórias vazavam-lhe pelos poros, e porque sua presença era sobrecarregada de uma magia indescritível. Mas de mim, não acreditem em nada, não; estejam na Casa Verde, na Barra Funda, estejam com quem, com ele, dividiu uma mesa de bar, com alguém que tenha tomado uma bronca – não era de alisar – ou que tenha apenas presenciado Zulu solicitando as milhares de saideiras ao Mauro; pedia apenas um "dedal" de cachaça pra não pesar a consciência de pedir uma dose inteira (o problema é que tomava dez, quinze "dedais" no fim da noite).
Em princípio não vou deixar de escrever sobre meu dileto amigo, não hesitarei em narrar mais causos dos tantos que sei dele, todos devidamente contados à mesa do bar, na Rua Dobrada. Lá que uma ou duas vezes por semana estava eu pra beber do prazer que era estar com Zulu. A última foi há duas semanas e me deixou muito preocupado. Zulu, mais pesado e inchado que nunca, mal conseguia dar dois passos sem ter que parar, recuperar o fôlego. Pra entrar no carro, aquele custo. Mas à mesa destilou a categoria de sempre. Falamos basicamente sobre trabalho, com o homem contando sua época de banco quando foi gerente de agência do Unibanco durante quinze anos - e apenas com terceiro ano primário, o que seria impossível de vinte anos pra cá.
O que mais me encantava era que Zulu é desses que, falando de trabalho, de mulheres, de futebol, de cachaça, de racismo, de política ou de qualquer outra coisa, transpõem os limites do assusto dando-lhe uma carga imensa de humanidade, inserindo-lhe ou tirando dele uma lição, uma conclusão que fazia questão de transmitir aos mais novos, com um detalhe: a quem quisesse ouvir, porque Zulu sabia que, para alguns, não adiantaria gastar a saliva.
Ditinho é um caso clássico. É um rapaz de dezenove anos que mora perto da Dobrada. Seu pai, morreu na cadeia; seus irmãos mais velhos também todos em cana; sua mãe, com mais cinco filhos mais novos que ele, um de cada pai. Zulu, durante anos a fio, tentou "trabalhar" o garoto. Comprava material escolar, queria ver as notas e não gostava de ver o moleque na rua. Até o dia em que Ditinho, bêbado, estranhou-o, solicitando com veemência e ódio uma nota de cinco mangos. Zulu largou de mão.
De dois anos pra cá, que é quando comecei a escrever e registrar algumas histórias por aqui, Zulu, meu grande amigo Zulu, interpelava-me ao final de algumas: "não vá escrever isso!", "isso não pode". Em uma dessas tantas noites, o negrão me pediu: "essa, filho, escreva no dia em que eu morrer". E vos confesso que choro neste momento como chorávamos naquela noite, embriagados, falando de amores.
Zulu teve um, e não mais que um único e inesquecível amor na vida. Uma mulher que passou pelo seu caminho há trinta e cinco anos atrás. Graças a ela e desde ela Zulu se auto-proclamou um "otário" pro resto de sua existência. Outras mulheres vieram, farras, saunas, zonas, amigas, namoradas; a última sendo a Augusta, há uns dez anos, mas nenhuma fez cócegas perto do que o homem sentiu pela Cristina, uma lourinha do interior, prostituta de uma boîte na Bento Freitas. Com lágrimas borbulhando, admitiu que não a reconheceria depois de tanto tempo, mas que gostaria que ela aparecesse ali, naquela hora, e que tudo explodisse, inclusive eu.
Na tal boîte, Zulu e alguns amigos do Bom Retiro batiam ponto diariamente na época. Dava cinco da tarde e lá estava ele, no bar da esquina. O gerente da casa era camarada, o que lhes dava o direito de entrar sem couvert, só pagando o "bebum". Cristina, a mais linda de todas – e mais jovem -, era o xodó da casa; em teoria só dançava, mas acabava "subindo" com quem lhe desse um dinheiro pesado, coisa que acontecia muito raramente. Zulu, um duro, ficava no balcão hipnotizado, vendo o show. Via com os olhos e lambia com a testa. Só que a moça gostou do negrinho e Zulu passou a ser o único homem com quem Cristina ia pros finalmentes.
O ego do malandro foi nas nuvens, e não era pra menos. Zulu jamais foi mulherengo, não era de ter sorte com as damas. Ele se salvava, e só. Mas estava com a mais linda das meninas da Bento Freitas a seus pés. E o medo, travestido de malandragem, tomou conta do crioulo. Continuou, sem se abater e se mostrar empolgado, bebendo no boteco em frente à zona. A Cristina dançava; ao final do expediente encontrava-o no bar e iam namorar. Com algum tempo passado, a moça começou a cobrar-lhe uma posição definitiva; queria casar, largar aquele mundo e cuidar dos filhos e da casa de Cacá – era assim que ela o chamava. Mas nosso herói era "malandro", era um homem do mundo, estava seguro de que a moça estaria sempre ali, e continuou na mesma ladainha boteco-motel que já durava quase um ano.
Uma bela tarde, porém, quando desceu do ônibus e dobrou a esquina da Bento Freitas, avistou Cristina entrando no carro de um japonês e indo embora. Foi a última vez que a viu, e a primeira que chorou e se angustiou por causa dela. Passou, então, a se declarar um otário, um idiota completo, porque a amava e sabia disso.
Gostaria, sinceramente, que este causo da Cristina fosse o último que eu escrevesse sobre o homem, daqui uns vinte anos no mínimo, quando ele estivesse com setenta e nove, oitenta. Não imaginava, tão cedo, essa doce prostituta, mulher do meu amigo, ser o motivo do texto. Se Deus quis assim eu não sei, mas sei que o Zulu quis, andava cansado.
Estou saindo de casa agora, em direção à Dobrada, onde um exército de amigos aguarda notícias sobre seu sepultamento. Onde ontem, aliás, Zulu, com todas as dificuldades que o aplacaram de três meses pra cá esteve bebendo, como que numa despedida programada. O mundo dos homens perde sem a sua presença. Eu, sendo mais um, tão pequeno, vou seguindo. Um dia, querido, havemos de nos encontrar no Orum.
E desce mais um dedal!



